pierre-cardin

E CARDIN TINHA RAZÃO por Cynthia Garcia

 

LUIS XIV

Ah! o luxo mudou. Mas mudou assim como vem acontecendo desde o final do século 16 e início dos cem anos seguintes, quando essa manifestação do sublime se estabeleceu formal e organizadamente com Luiz XIV (1638–1715) da Casa dos Bourbon. O delfim de cinco anos teve sua personalidade cinzelada por seu primeiro ministro, o cardinal Mazarin (1602-1661), um italiano culto e ambicioso, que vivera em Roma e conhecia Florença, amante de sua mãe, a viúva de Luiz XIII, Anna da Áustria, regente da França até a maioridade da criança. Quando “o italiano” morreu havia legado ao futuro absolutista o gosto do trabalho, da organização, do luxo. Jean Baptiste Colbert, sucessor de Mazarin (que afrancesou seu Mazzarino original), acreditava nesses valores. A França foi o primeiro país a ser governado como uma empresa com dividendos jorrando nos cofres de sua alteza, o rei sol, que erigiu Versailles, com sua magnífica Galerie des Glaces, a Galeria dos Espelhos. Colbert arquitetou uma estratégia que diminuiu a importação e serviu de base para o mercantilismo. Para a conquista do mercado europeu, formulou o conceito do luxo moderno baseado em outra ideia sua, o controle de qualidade, criando a aura de requinte que até hoje envolve a marca Made in France.

Versailles

O espelho, o Made in France e os diamantes de sangue

No século 16, ao conseguir banhar com mercúrio uma superfície plana de vidro, os vidreiros de Murano, em Veneza, inventaram o espelho com reflexo sem distorção. Foi uma invenção e tanto. O segredo foi cobiçadíssimo. Durante cem anos, os venezianos conseguiram manter o monopólio da fórmula e cobravam verdadeiras fortunas pelo privilégio de ter um objeto que, como mágica, refletisse imagens à perfeição. Quando Luiz XIV reformou Versailles para abrigar sua Galerie des Glaces, o espaço se tornou uma das maravilhas do mundo das artes decorativas. Técnicos em vidraria da República de Veneza foram contratados por Colbert, que montou uma fábrica em Cherbourg para a produção. A razão disso eram duas. Os venezianos exigiam total controle da fabricação – não havia um só francês no staff – e a política mercantilista do primeiro ministro exigia que os espelhos fossem produzidos em solo francês para receber o selo Made in France. Segundo lendas, para manutenção do segredo industrial, Veneza enviou agentes para assassinar, na França, todos os funcionários que Colbert havia importado da república, assim que terminaram a encomenda que durou de 1678 a 1684. Nem mesmo o autor do projeto, o arquiteto Mansart, sabia o segredo. Com 73 m de comprimento, 10 m de largura e 12 m de altura, a galeria com 17 espelhos lado a lado que refletem as janelas, tendo ao fundo o jardim de Versailles, obra de Le Nôtre, o jardineiro do rei. É a apoteose do luxo decorativo com seu equivalente nos diamantes de sangue de nosso dias.

Galeria dos espelhos

 

Os ingleses

Beau Brummell

Na virada da século 18 para o 19, o luxo absorveu a tecnologia que caminhava a passos largos com a Revolução Industrial, sob comando do arquipélago do outro lado do Canal da Mancha, que iria conquistar um império vitoriano onde o sol não se punha. Com a ascensão da burguesia, os homens da nova elite do dinheiro foram sofisticando modos e modas. Ditadas pelos alfaiates da londrina Savile Row e o novo ícone da moda, Beau Brummel, casimiras da Índia, sedas da China, lãs da Escócia, criaram um novo luxo sem floreios, sedimentando o caminho para o que hoje chamamos de estilo masculino.

As musas

Mas o luxo aristocrático – que ainda hoje permeia o conceito da moda feminina -, esse não largara a França, que consegue produzir musas – versão antiga da celebridade -, beldades que personalizam as tendências e rezam no altar do “espelho, espelho meu, quem é mais bela que eu?”.

Maria Antonieta - o filme

Joséphine de Beauharnais

Após 1793, o Antigo Regime deposto, Marie Antoinette, a musa do rococó, guilhotinada, a visibilidade se dirigiu às musas do neo-helenismo, Madame de Staël e Madame Récamier, hoje associada a um tipo de sofá neoclássico.
Ambas seriam eclipsadas por Joséphine de Beauharnais, uma mulata da Martinica, uma espécie de Josephine Baker do (curto) Império e (grande) desejo de Napoleão I. Enquanto a Inglaterra tinha sua rainha Vitória, pequena grande mulher sem charme algum, o glamour ocupou mais uma vez o trono francês na figura da Imperatriz Eugenia, a belíssima espanhola de Napoleão III, eternizada nas telas de Winterhalter. Assim como Marie Antonieta era “a austríaca”, Eugenia para seus detratores era “a espanhola”. Mas foi justamente essa marquesa de sangue quente, peninsular, quem estimulou o novo ciclo da indústria do luxo francesa e, em particular, da indústria da alta moda ao oficializar le grand Worth, seu costureiro.

imperatriz Eugenia

 

O inglês

charles frederick worth

Charles Frederick Worth, um inglês de boa família, viu a sorte desandar quando o pai advogado enterrou a fortuna no carteado. O rapazote começou cedo a trabalhar em uma loja de artigos finos, em Picadilly Circus, aprendendo tudo muito rápido. Não só isso, apaixonou-se pelo métier, aprofundando-se nas tardes que passava nos museus londrinos, observando as roupas da elite emoldurada nos retratos. Mas a swinging London não surgira e a capital impecavelmente masculina em que ele vivia, carecia do glamour que ele tanto desejava no outro lado da Mancha. Mudou-se para Paris, trabalhou muito, mas a sorte e o talento para o belo, novas estratégias e o marketing pessoal o puseram no caminho da melhor amiga de Eugénie, Pauline de Metternich, a embaixatriz da Áustria. As contribuições do imperador Napoléon III – um conquistador que não cabia nas calças -, também merecem destaque, como a reurbanização de Paris à cargo do Barão Haussmann que, não só redesenhou a cidade que, hoje, nos encanta, como implantou a luz elétrica, daí ter sido cunhada Ville Lumière, Cidade-Luz, e as duas últimas décadas do século, Belle Époque. Os parisienses estavam em festa: eram os primeiros a sair da milenar escuridão. E a palavra luxo tem luz na raiz.

la belle epoque

 

A nova monarquia

Cem anos depois, na tradição de assimilação do melhor para sua manutenção – seja em capital humano, novos produtos, novas tecnologias ou estratégias de marketing – , o luxo produzido por famílias ou pequenos grupos há décadas ou séculos passou a ser incorporado pelos novos monarcas do mercado: Bernard Arnault, à frente da LVMH, com mais de 70 grifes; seguido por François Pinault da PPR, sogro da atriz mexicana, Salma Hayek. No entanto, algumas marcas, como a Chanel da família Wertheimer e o italiano Giorgio Armani resistem. São aves cada vez mais raras na paisagem dominada por poucos.

O novo “rei”

Com a democratização do luxo e a hipermundialização do consumo, as grifes se viram obrigadas a aderir às edições limitadas, a fórmula para manter ou aumentar a produção, diversificando os produtos-chaves das coleções, ao mesmo tempo, em que mantém a pseudo aura de exclusividade, inexistente quando os produtos são massificados como ocorre no luxo contemporâneo. Mas o consumidor é habilmente iludido por campanhas belíssimas, modelos estonteantes e seduzido com os salamaleques que sustentam o conceito que ele é o “rei”. A outra fórmula? A criação de hotéis e restaurantes com o universo estético da grife. Outra saída? Se jogar em cama, mesa e banho como fez a família italiana Missoni, que ainda produz prêt-à-porter só para glamurizar a marca e cobrar mais por seus roupões que sustentam o luxo da grande família, que tem na Margherita Missoni, a celebrity da vez da dinastia que começou com agulhas de tricô, muita luta e molto lavoro.

margherita missoni

O mundo gira, a Lusitana roda

Nos anos 70, Pierre Cardin foi mal faladíssimo ao “invadir” a China. Depois, o corso Cardin (que afrancesou seu Cardini original) salvou da falência o Maxim’s, patrimônio da Belle Époque. O que Cardin tem a ver com restaurantes? Ironizavam os incrédulos. O créateur-empresário criou o Espace Cardin para arte. Pinault, hoje, tem dois museus em Veneza; a Cartier tem a Fundação Cartier de arte contemporânea, em Paris; a Louis Vuitton se associa a nomes de artistas nas mais diferentes ações…

pierre cardin

Pierre Cardin tinha razão. Ser visionário nesse planeta míope tem dessas coisas. Mas, um dia, dão o braço a torcer.

 

 

Cynthia Garcia é jornalista, escritora e historiadora de arte. Carioca, vive em São Paulo, faz parte do seleto time de formadores de opinião do País. Viveu na Inglaterra, na Suíça e nos EUA. Diplomou-se em História da Arte e Artes Plásticas no Fleming College Florence, Florença, Itália. É co-autora de livros como “Enciclopédia da Moda” (Cia. das Letras), “Huis Clos” (CosacNaify), “Um passeio na História” (Arezzo) e “Peter Marino” (Ed. Carta). É mãe de America Cavaliere, it girl e sales manager no ramo das artes, e Pedro Cavaliere, o DJ Drop.

 

 

 

 

 

 

 

Comentários