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IBERÊ CAMARGO E O GOLPE NARCÍSICO por Brenda Gottlieb

 

Espelho, espelho meu- “Falta-me coragem para ver o outro que vive fora de mim”.

Iberê Camargo, pintor, gravador, desenhista, escritor e professor, nasceu em 1914, em Restinga Seca, RS. Morreu em Porto Alegre em 1994, depois de quatro anos de luta contra um câncer de pulmão.

paisagem -1941

 

serie carreteis anos 60

Não sou critica nem expert em arte, simplesmente me encanto com ela e vivo em busca da criatividade do ser “Analista”. Entendo que,  apenas os aspectos psíquicos do trabalho artístico podem ser contemplados pela psicologia. Não me proponho a  interpretar uma obra de arte; no entanto, o olhar atento e curioso sobre a arte e o artista pode nos revelar aspectos que transcendem o artístico: facetas  que envolvem  não somente a personalidade do artista, como também o mundo em que vive e o momento em que está produzindo e criando.
Considero uma obra de arte não como apenas um produto ou derivado, mas sim como uma reorganização criativa de conteúdos.
Devemos ser capazes de olhar o trabalho artístico como um espelho da alma e tratá-lo com delicadeza e respeito. Não se trata de abordar a arte como sendo engajada psicologicamente, mas sim como uma mescla de aspectos que podem agregar sensibilidade, introspecção e mudanças.

Iberê Camargo começou a escrever Gaveta dos Guardados (EDUSP 1998), no início de 1990. Cito esse título por dois motivos fundamentais à argumentação: o livro é maravilhoso e nele podemos ler o lamento e a dor que percebemos em suas pinturas pós 1980.

ciclista- 1989

Gaveta dos Guardados não explica a obra pictórica, mas nos ajuda a compreendê-la e a traçar correspondências e analogias. Iberê no texto “O Duplo”,  aponta para a sua grande ferida, tal qual um grande espelho nos revela a dualidade. -“–falta-me coragem para ver o outro que vive fora de mim”.
O Narcisismo – assunto exaustivamente explorado pela psicologia – pode ilustrar nosso tema. Tal qual Narciso, parece que Iberê não podia se conhecer, e ao não se reconhecer na totalidade, ficou sujeito aos caprichos do seu “outro”: violento, leviano, arrogante, e que, impulsivamente (por ter sido ameaçado ou não), mata outro ser humano.

auto retrato 1943

eu-1981

Os que se detiverem em leituras de sua biografia, mesmo que breves, perceberão arrogância e vaidade de Iberê, à Oscar Wilde. Por exemplo, desafiou  professores e artistas mais velhos e renomados e abandonou  a Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro – que cursava graças a uma bolsa concedida pelo governo do Rio Grande do Sul – por não concordar com a proposta acadêmica.

Cito estes episódios como ilustração para o que vem a seguir:
O editor do livro Gaveta dos Guardados, Augusto Massi, relata o episódio: ¨Na tarde de cinco de dezembro de 1980, por volta das três horas da tarde, Iberê Camargo, acompanhado de sua secretária, Sueli Santos da Silva, 27, deixa seu atelier na Rua das Palmeiras, pega a Rua Sorocaba, quase na esquina da Voluntários da Pátria, em Botafogo, à procura de cartões de natal. Pouco tempo depois surge o engenheiro projetista do setor de mineração e metalurgia da IESA, Sérgio Alexandre Esteves Areal, 32, que trajando apenas um short, interpela Iberê: “O que você está olhando?” Ao que este respondeu: “Não estou olhando nada”. Depois de empurrar Sueli, Sérgio avança contra Iberê e o derruba no chão. Este, recomposto, pega a arma na capanga e ameaça: “Não vem que eu atiro.” O engenheiro investe novamente contra o pintor que dispara duas vezes um Smith & Wesson Magnum, calibre 357. O pintor possuía porte de arma. Defendido pelos advogados Evandro e Técio Lins e Silva, foi absolvido liminarmente em sentença confirmada pelo Tribunal de Justiça, pois prevaleceu a tese de que agira em legítima defesa. (pag.19).”

Com perplexidade, nos perguntamos: Como um artista sensível, profundo, reconhecido e criativo, no auge do sucesso de sua carreira comete um ato tão violento e irresponsável?
Notamos nas biografias um ser onipotente, vaidoso e arrogante (traços narcisistas), que (dizem as más línguas), sentiu-se ameaçado pela beleza e juventude de Sérgio, que aparentemente havia cortejado sua assistente – uma versão bem diferente da apresentada pelo artista, que alegou legitima defesa por agressão. A partir desse episódio toda sua obra passa por uma mudança intensa, seu humor se revela depressivo e um câncer o acomete.

auto retrato 1984

Em Gaveta dos Guardados e em suas telas percebemos o “outro Iberê”, revelado pelo espelho, tal qual Dorian Gray por seu retrato. Doryan Gray, célebre personagem do romance de Oscar Wilde é retratado por Basil e a obra do pintor passa a ser responsável por envelhecer no lugar de Doryan . Ambos devem “guardar” a obra: Basil por ela conter muito de si mesmo e Doryan para preservar a juventude eterna, adquirida na sinistra negociação, em que oferece a sua alma em troca da juventude.

As Idiotas

Nem Doryan nem Iberê toleram confrontar-se consigo mesmos em suas totalidades. Narciso fora predestinado a perecer ao se conhecer, e ao não se reconhecer é capturado na armadilha de um amor próprio exaltado, que impede a integração de seus lados sombrios, facilitando atuações desastrosas. Iberê é assaltado por uma fúria estranha, que não reconhece como sua, sendo incapaz de conscientemente fazer um mea culpa, que sua obra fica encarregada de expressar.

tudo te é falso e inútil -1994

 

 

Brenda Gottlieb é psicóloga, Analista da S.B.P.A.( Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, vinculada a IAAP , International Association for Analytical Psychology). Formou-se em Terapia Ocupacional em 1969, na USP, tendo atuado por 11 anos na área, anteriores a sua formação como analista.
Atualmente atende em consultório particular, adultos, casais e famílias.
Interessada em arte, aprofundou seus estudos no tema, pesquisando o trabalho artístico feito por psicóticos.

 

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