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É BICHO OU NÃO É? por Ricardo Amaral Rego

É bicho ou não é?

A linguagem cotidiana está cheia de mistérios e surpresas, mas por algum motivo descuidamos de nos encantar e refletir sobre isso.

Veja, por exemplo, o aviso que se encontra em muitos lugares e que diz PROIBIDA A ENTRADA DE ANIMAIS. É bem simples, todo mundo entende, ninguém se espanta, mas … se pensar bem ele é muito esquisito.

Em primeiro lugar, os seres humanos são animais. Portanto, deveriam estar incluídos nessa proibição. Mas, quando as pessoas falam dos animais, quase que automaticamente isso é associado à terceira pessoa do plural (ELES) e não, como deveria ser, à primeira (NÓS).

Mais de um século e meio depois de Darwin ter publicado seu famoso livro sobre a origem das espécies, nossa linguagem cotidiana parece ainda não ter assimilado que somos bichos: uns macacos meio estranhos, metidos e arrogantes, novos ricos na escala evolutiva que desprezam os parentes mais próximos que o envergonham por lembrar-lhe de sua origem humilde.

Claro que temos algumas diferenças: só nos torturamos, matamos sem necessidade, exploramos nossos semelhantes. Em outras palavras, só os humanos são desumanos. Mas isso não nos qualifica para essa atitude arrogante que renega nossa realidade animal.

 

Existe outro aspecto em que esse aviso é ridículo, e que diz respeito às moscas, baratas, escorpiões, pulgas, carrapatos, ratos, lagartixas e por aí vai. Se o aviso fosse sério, ele deveria impedir tais seres, que também são animais, de adentrar o recinto. Em primeiro lugar, eles não sabem ler. E, se soubessem, não ligariam a mínima, claro.

Outro aviso que todo mundo entende, mas que é bem estranho, diz: RUA SEM SAÍDA. Já pensou? Se essa rua fosse literalmente sem saída, quem entrasse nela ficaria preso aí para sempre. Seria como um buraco negro. É óbvio que a rua tem uma saída, que é pelo mesmo lugar que se entrou. Todo mundo sabe que poderá sair dessa rua depois de entrar nela, mas ninguém parece se incomodar quando lê esse absurdo de dizer que não há saída.

Você já teve compromissos quinzenais? Provavelmente sim, mas aposto que não reparou que essa denominação é equivocada. Na verdade são encontros marcados a cada duas semanas. Como cada semana possui sete dias, em duas delas temos catorze. Portanto, deveríamos chamar essa periodicidade de catorzenal.

Essa peculiaridade elusiva e ilusória da linguagem, que comunica algo sem que se saiba se o que o emissor quis dizer corresponde ao que o receptor captou, remete ao fantasma da possibilidade de que as narrativas que constituem o cerne de nossa identidade sejam pouco mais do que uma fugidia fumaça. Animais híbridos, constituídos tanto de sangue, carne e ossos quanto de histórias, mitos e ideologias, seres nos quais a sutileza do espírito se equilibra instavelmente sobre a pulsação da carne, vagamos em busca de certezas que aliviem a incoerência dos fragmentos dos quais nos vemos feitos.

 

 

foto banner: Alessandro Galo – escultura
fotos animais : Zoo Portraits por Yago Partal

 

Ricardo Amaral Rego

Sou uma pessoa que aprendeu muito nesses anos todos. Aprendi que sem certas coisas em ão a vida fica árida, besta e sem sentido (incluo aqui paixão, tesão, gratidão e perdão). Aprendi que aprender tem um valor relativo, porque tudo está sempre começando de novo. Aprendi que prender a pessoa amada é a coisa mais feia que existe, pois o amor tem asas e foi feito para voar. E também aprendi com os poetas que a vida vale a angústia de viver, que tudo vale a pena se a alma não é pequena, e que se limpássemos as portas da percepção a realidade nos apareceria tal como é: infinita.

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