blues   integration  gde - Julie Warquier

O TAPA DA LUVA por Elza Tamas

 

Ana abriu presentes o dia todo, tinha sido assim na última semana, mas aquele com o bilhete carinhoso da amiga artista, retirou dela um sorriso cúmplice. Estava farta de bules e torradeiras, o quarto entulhado de augúrios, sejam felizes para todos os lados. Desatou o laço, levantou a tampa da caixa e lá no fundo, repousavam lado a lado, duas luvas brancas de voil, compridas até a altura dos pulsos. Estranhou, não pensava em usar luvas na cerimônia.

Pegou-as com delicadeza, eram leves, transparentes; cheirou: um bosque de laranjeiras. Como são preciosas nossas amigas, sempre encontram formas de nos afagar. Vestiu as luvas, o tamanho exato. Rodopiou quase sem peso pelo quarto, feliz e surpresa com a feminilidade que aquele pequeno adereço podia lhe conferir. E foi só aí que percebeu, no lado interno da luva, na palma, em azul claro, uma costura de pontos miúdos e irregulares formando as linhas do coração, da cabeça e da vida, só na mão direita. Aproximou as mãos do rosto, e sentiu um tapa, desses de filme. As linhas bordadas naquela cor celestial, não tinham nada de angelicais: a do coração era curta e desamparada, a da cabeça já tinha um ponto solto e se unia a linha da vida, que pendia indecisa quase para fora da mão. Aqueles azuis não se encaixavam sobre suas próprias linhas e criavam um emaranhado de seis possibilidades confusas, duas vidas, dois corações, duas cabeças. Um destino tentando se impor sobre outro. Seu corpo emudeceu, um torpor gélido nublou sua visão e ela achou que talvez fosse desmaiar. O quarto ficou úmido, pegajoso, Ana arrancou as luvas, enquanto corria para a poltrona que a amparou. A maça nunca mais voltaria à árvore.

Apoiava os cotovelos desesperados sobre os joelhos e suas palmas cobriam o rosto, quando a mãe entrou no quarto, radiante, Ana! Ana!, carregando um pacote enorme e pesado. Atrás dela vinha – adivinhe? adivinhe Ana, quem está aqui!- ajudando a carregar o presente, Jacira, que meio corpo ainda atrás da porta entoava, mi-nha- mais- que-ri-da- criança- vai- ca-sa-aar, mi-nha prin-cesa vai ca-saaar. Jacira, sua querida baba da infância.

Aquele pequeno momento – quando o sorriso branco de Jacira correu para abraça-la, quando ela olhou para aqueles olhos castigados que se vingaram da vida se mantendo doces-, lhe devolveu um mínimo de ordem, as paredes se afastaram e a poltrona permitiu que ela se levantasse.
Talvez Jacira pudesse entendê-la, elas se conheciam tão bem. No quarto, os passos agora se faziam muito ruidosos, a arquitetura de um futuro havia desmoronado. Montanhas de cacos jaziam pelo chão, mas as duas pareciam não perceber, moviam-se entretidas, conversavam euforias enquanto arrastavam móveis, tentando acomodar o presente gigante. Não notavam o barulho estridente sob os seus sapatos, nem o fantasma no qual Ana havia se tornado. Anos de conhecimento intimo se turvavam frente à fantasia da realização do amor.

Na caixa, uma TV plana, 42 polegadas, ultima geração, 3D, acompanhada de um par de óculos. Blue tooth, presente dos padrinhos, comentou a mãe cheia de orgulho.

 

 

foto banner: Integration – Julie de Waroquier

 

 

Elza Tamas é psicóloga e escritora. Concebeu e desenvolve este site.

 

Comentários