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TRISTE por Alberto Pereira Lima Filho

 

 

 

O dourado se espalhava pela ladeira. Era final de tarde, outono. Havia um silêncio peculiar, indiscreta e belamente interrompido pelo scherzo dos pássaros. Não fosse a pipa amarela emaranhada nos fios de iluminação, dir-se-ia que ali não vivia ninguém. Eu, por assim dizer, testemunha do sol a se por, via, buscava e era, ali, ninguém.

Ao longe, a Ave Maria de Gounod se fazia ouvir tênue e rouca. Um chapéu de palha se arrastava pelo chão, rua abaixo – em parte, levado pelo vento; em parte, almejando descanso. Ah, a doce antevisão do quase nada! Talvez fosse a lembrança soprada pelo espírito de meu pai, que um dia, por muitos dias, sempre, o vestira. Já não abrigava meu pai o chapéu de palha levado ao descanso rua abaixo, não mais. Não mais. Renovava-se em mim, deste modo, a consciência da inexorável condição de impermanência. Uma bênção. Uma perplexidade. Que distância ainda há a percorrer?

Ouvir o senhor Ernesto, o que teria custado? “Reza, menino! Nada pode ser melhor do que rezar! Reza! Reza, menino, e deixa estar”! Ouvir o senhor Ernesto. Ah, eu teria, se pudesse. Se soubesse. Se soubesse rezar!

Uma badalada. Duas. Uma dor profunda no peito, um temor de não mais conseguir acordar. Um temor de novamente acordar, que sufoco! Acordar.

Três badaladas.

Aperto uma das mãos e, sobre ela, a outra. Sobre ambas, recosto minha testa. Olhos fechados. Procuro esvaziar a mente de todo e qualquer pensar, de imagens e sons e cores. Procuro em vão, pelo amor de Deus, para poder respirar, por instantes, não ser. Quem sabe aí eu possa ser – ainda que fugaz e irreversivelmente – em paz?

Quatro.

Experimento uma saudade infinita de algo que nunca fui, nem nunca vivi. Cinco. É isso o que me sustenta aqui, em que pese o dourado do sol que se põe ladeira abaixo, pássaros a voar e a tingir de canto o azul ininterrupto do céu. Seis. Certamente, não mais. Não as tolero mais, as badaladas. Saudade infinita de algo que ainda serei, se puder e souber rezar.

Abro lentamente os olhos e agora pouso o nariz sobre as mãos cerradas. Miro, ao longe, no rasgo do horizonte, um insuportável porvir. Dói, de chorar. E choro uma única lágrima de dor, que minha dor não revoa pelo azul, nem há vento que a possa soprar. Ah, o horizonte no fundo de mim! O que faço aqui, em mim?

Arrisco um passo, mãos soltas e trêmulas. (Prendo-as, novamente, atrás.) Coração trêmulo. Outro passo. E outro. E um após o outro, devagar. Levo-me rua abaixo na direção do chapéu, guiado pelo sopro de meu pai. Desço o dourado do sol de outono rumo ao horizonte portador de insuportável porvir. Temo por mim, tremo. Tremo por mim.

Sei que dormi, pois acordei.

Tomei um copo de leite frio, que me fez bem. Lavei duas cuecas e as pendurei para secar. Varri as folhas do quintal. Apanhei no pé meia dúzia de limões, sei lá para quê. Olhei a grama e achei que a deveria logo podar. Uma buzina ao longe fez parecer que o mundo era habitado.

Uma dor no peito fez parecer que eu era habitado.

(Pensei!)

Não sei rezar. Apenas deixei estar. Deixei estar.

Apenas, sem rezar, deixei estar. Eu, com forte dor no peito, habitado por mim.

 

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Psicoterapeuta. Professor Doutor em Psicologia Clinica. Diretor da Opus Psicologia Ltda

 

 

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