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A FÉ SALVA, O CONHECIMENTO LIBERTA por Mateus Soares de Azevedo

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Antes de falar de fé, devemos falar de inteligência. Pois não há fé sem discernimento. Sem dúvida, as grandes religiões mundiais, em suas formulações convencionais, privilegiam uma fé sentimental – que é o que pode ser mais imediatamente captado e realizado pela generalidade dos homens –, mas aquela fé que podemos chamar de integral ou plena exige o discernimento. Sem este último, poder-se-ia ter fé em qualquer coisa que seja. A Verdade – objeto e meta da inteligência – fixa os contornos da fé.

Para o homem materialista moderno, a fé, seja em que coisa for, é sempre meramente um sentimento, algo pessoal e subjetivo. Ao passo que a fé tradicional nunca é “cega”, nem subjetiva ou individualista; ela é, ao contrário, a aceitação intelectual de um conjunto de doutrinas. Fé é concordância, por parte da inteligência e da vontade do homem, a um corpo de verdades de origem revelada, transmitidas pela tradição e preservadas pela ortodoxia (do grego orto: correta; doxia, opinião).

O “Nobre Caminho Óctuplo” do Buda principia justamente com o quê? Com “pensamento correto”, ou seja, ortodoxia. Este é o primeiro passo, todos as outras sete etapas começam com as ideias corretas. E estas verdades são ademais universais, isto é, podem ser aplicadas a todo o momento e em todo lugar, não sendo limitadas, portanto, nem temporalmente, nem espacialmente. Elas não estão submetidas à vontade da maioria, nem ao politicamente correto. Tais verdades nunca dependem de como nos sentimos, nem são sustentadas “cegamente”. Elas existem antes de nós, acima de nós. Forademim.

Diferentemente da percepção convencional, e superficial, que facilmente associa fé às emoções e aos sentimentos, e mesmo à irracionalidade, a fé é fundamentalmente compreensão e vinculação a um conjunto de realidades transcendentes que são captadas e entendidas pela inteligência. O racionalista e o ateu moderno se consideram muito astutos, e no fundo desprezam o religioso porque o ateu apenas crê, supostamente, na ciência e na razão, enquanto o fiel acredita de forma supersticiosa em coisas sem comprovação material. Mas o ateísta também tem a sua “fé”, que é crer apenas naquilo que pode ser medido e pesado; ele só crê no visível, mas, como o “invisível” é mais real do que o visível — como é o caso da sabedoria, do amor, da beleza, ou da bondade – o materialista no final das contas abarca apenas uma pequena parcela da realidade. A poderosa e presunçosa ciência materialista não leva em conta nem o amor, nem a sabedoria, pois eles não se deixam medir pela sua limitada régua.

Na confrontação entre ciência e fé, temos de caracterizar(1) as atividades básicas do homem moderno típico como destituídas de senso do sagrado e ignorantes dos princípios metafísicos. O ponto de vista tradicional, ao contrário, baseia-se na doutrina de uma “Queda” do homem a partir de um estado de graça e na necessidade da Revelação e da Graça para que o homem possa retornar à sua condição primordial e sagrada, a seu Centro mesmo, provendo-o também de uma metafísica, que explica a essência e razão de ser da natureza humana.

A fé, ou a religião, não pode em si mesma ser contrária à ciência, que trata apenas das propriedades mensuráveis da matéria. O problema é que o homem moderno encara a ciência como a sua “fé”, o cientista é o seu “sacerdote”. Na base desta pseudo fé estão a teoria da evolução e o mito do progresso indefinido, postulados pseudocientíficos forjados pelo homem ocidental num momento de profunda instabilidade histórica.

Não obstante tudo isto, é necessário insistir que , ao lidar com as realidades do espírito, não devemos descartar a dimensão do conhecimento. Na verdade, é preciso enfatizá-la, pois, além de sua importância intrínseca, é esta dimensão que mais tem sido obscurecida nas religiões hoje em dia. Não nos referimos aqui à mera informação quantitativa ou à erudição livresca, mas à inteligência que discerne aquelas verdades fundamentais que são comuns às tradições autênticas, como o Hesicasmo, o Sufismo, a mística cristã, o Zen, o Vedanta…

Mais frequentemente do que o aceitável, a inteligência transcendente é percebida apenas como uma manifestação de “orgulho intelectual”, sem nos darmos conta que isto é uma contradição de termos. Pois a verdadeira inteligência caracteriza-se pela capacidade de ver as coisas como elas realmente são. Portanto, pela objetividade. Ora, a objetividade exclui o orgulho.

Os arianos, em especial os hindus e os antigos gregos, se destacaram como grandes sábios e metafísicos: Pitágoras, Platão, Plotino, Shânkara… Já os semitas foram grandes profetas e fundadores de religião: Jesus Cristo, Abraão, Moisés, Maomé… O que não significa que estes não tenham sido também sábios à sua maneira, pois sua mensagem é total, engloba tanto a vontade, como o sentimento e o conhecimento. Mas, como eles falam a todos os homens sem distinção, sua dimensão sapiencial vem oculta em “parábolas”. “Quem tem olhos que veja.” Quem tem ouvidos, que ouça.

Nos dias de hoje, com a convivência cada vez mais intensa de civilizações distintas, a compreensão do fenômeno da fé se defronta com inúmeros desafios. O mais urgente deles, a meu ver, é justamente o da incorporação da dimensão do conhecimento, no sentido de oferecer resistência ao crescente divórcio entre inteligência e espiritualidade. E, mais ainda, no sentido de forjar uma “aliança” entre o conhecimento e o sagrado; entre inteligência e fé.

Fé encarada em sua plenitude e totalidade, composta que é de exoterismo e esoterismo, de doutrina e ritual, de arte e cultura — e não este corpo amputado de suas dimensões mais elevadas a que seus críticos muitas vezes se referem. Fenômeno simultaneamente singular e plural, a fé deixa-se ver e permite a participação segundo múltiplos e diferentes aspectos. Aspectos intelectuais e espirituais principalmente, mas também éticos, culturais, sociais e artísticos. Fenômeno plural porque há que se considerar as grandes religiões, como o Hinduísmo, o Budismo, o Cristianismo, o Islã. Cada qual com suas duas dimensões fundamentais: o exoterismo (a religião “comum”, as regras e convenções exteriores) e o esoterismo (a interioridade, a mística, a contemplação).

Há que se reconhecer, ainda, que não é por acaso que as grandes tradições da humanidade estão vivas há séculos, ou melhor, milênios, ainda moldando, em vários graus de comprometimento, os corações e as mentes das pessoas, nos quatro cantos do mundo. Para aqueles que se dão conta concretamente do caráter frágil, instável, transitório e evanescente dos empreendimentos puramente terrenos, a “durabilidade” e universalidade do fenômeno da fé é algo digno de reflexão séria.

Isto resulta claramente do fato de a fé tradicional não derivar em sua essência de ideologias ou interesses puramente humanos, mas de possuir uma base revelada. Só esta matriz transcendente, conjugada à força da tradição, consegue explicar a sobrevivência da religião no mundo contemporâneo. Algo que uma iniciativa exclusivamente humana e “horizontal” não poderia jamais realizar, dada justamente a sua instabilidade intrínseca.

Revelação e tradição são, assim, as duas condições sine qua non da fé. Associando, numa imagem simples, a religião a um curso d’água, diríamos que a Revelação é a fonte de onde brota a mais pura das águas; a tradição é o leito sobre o qual as águas correm, fazendo o rio chegar a sítios distantes sem se perder. Poderíamos também imaginar uma pedra que cai sobre um espelho d´água; sua queda e impacto sobre a superfície figuram a Revelação. As “ondas” que se formam concentricamente em torno deste ponto figuram a tradição; esta última, assim, constitui o principal vetor de continuidade e transmissão, espacialmente e temporalmente, da mensagem original engendrada por este inaudito e prodigioso contato entre o Absoluto e o relativo, o Perene e o temporal.

Finalmente, convém não esquecer que religião deriva, etimologicamente falando, de “re-ligar”; reatar algo que já esteve unido e que foi rompido. A física e a metafísica, a terra e o Céu, Deus e o homem.
Já fizemos referência acima à dimensão sapiencial ou “gnóstica” das diversas espiritualidades tradicionais, ou ao elemento conhecimento, que é o objeto último da inteligência humana. Pois nos parece que, mais do que qualquer outro, é ele que deve caracterizar de especial maneira esta abordagem. É ele que tem sido cada vez mais esquecido nas religiões, a ponto de hoje ser difícil encontrar exposições ou apresentações penetrantes deste legado de sabedoria. O que predomina amplamente são argumentos de apelo puramente sentimental ou moral, que não surtem mais o efeito desejado.

É preciso, igualmente, não ter receio de enfrentar as questões colocadas pela mentalidade materialista e relativista da modernidade — as quais não têm recebido respostas intelectualmente satisfatórias –, procurando apresentar os tesouros do mundo do espírito de uma forma intelectualmente desafiadora.

Cabe finalmente analisar a fé em toda a sua riqueza, com seus aspectos inextirpáveis de sabedoria e beleza, e não apenas como um fenômeno ideológico ou político, que é o mesmo que privá-la de sua substância. Afinal, a espiritualidade verdadeira envolve o homem por inteiro. Pela inteligência, a qual busca por natureza a verdade; pela vontade, a qual quer fazer o bem; pelo sentimento, o qual ama congenitamente a beleza. É por isso que toda religião genuína se dirige a todo tipo de homem. Seja ele de tendência intelectual, para quem o que importa é sobretudo a verdade e o conhecimento. Seja o homem de tipo sentimental, centrado na devoção. Seja, ainda, o homem de tipo “ativo”, seguidor fiel das regras e dos procedimentos tradicionais. Ou, para usar a linguagem da sabedoria da Índia, o homem trilha aquele caminho espiritual que, por vocação, é o seu, seja o do conhecimento (jnâna), o da devoção (bhakti) ou o da ação (karma) – caminhos estes que, diga-se, não são mutuamente excludentes. Ou ainda, desta vez de acordo com a tradição cristã, o homem pode seguir a “via de Marta” (da ação, ou do exoterismo) ou a “via de Maria” (contemplação, ou esoterismo).

Frithjof Schuon

Concluo com uma citação de meu metafísico preferido, o alemão Frithjof Schuon, principal porta-voz da Filosofia Perene no século XX e autor de diversos livros seminais.Ele refletiu com muita originalidade e propriedade sobre a relação entre fé e conhecimento (cito de memória):

O Conhecimento (jnâna ou gnose) é sagrado, mas ele só nos salva com a condição de engajar tudo o que nós somos, isto é, corpo, alma e intelecto, só nos salva quando ele constitui uma via que opera e transforma, e que fere nossa natureza como o arado fere o solo.

 

 
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[1] Como o fez Rama Coomaraswamy em seu estimulante livro recém lançado, “Ensaios sobre a Destruição da Tradição Cristã” (Irget, S. Paulo, 2013) .

 

 

fotos: Red Book- C. G. Jung 

 

Mateus Soares de Azevedo é autor de “Homens de Um Livro Só: o Fundamentalismo no Islã, no Cristianismo e no Pensamento Moderno” (Best Seller, 2008). Traduzido para o inglês e publicado nos EUA por World Wisdom como Men of a Single Book, lá ganhou o prestigiado prêmio literário de Book of the Year de 2011, na categoria Religião Comparada.

Mestre em História das Religiões pela Universidade de São Paulo – USP e pós-graduado em Relações Internacionais pela George Washington University (Washington, EUA), é autor de outros sete livros no campo da religião comparada e da filosofia das religiões. Quatro deles foram traduzidos ao inglês, ao espanhol e ao servo-croata, e publicados nos Estados Unidos, na Espanha, na Argentina e na Croácia. Entre seus outros livros, incluem-se “Religião & Ocultismo em Freud, Jung e Eliade” (Ibrasa, 2011), “A Inteligência da Fé: Cristianismo, Islã e Judaísmo” (Record, 2005) e “Mística Islâmica” (Vozes, 2001).

 

 

 

 

 

 

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