formiga e bolha de aguar

EUREKA! por Elza Tamas

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Eu vi quando a formiga, minúscula, se jogou no prato cheio de água. Batia os pés e as mãos, acho, porque eram invisíveis os pés e as mãos se movimentando, mas ela eficiente se deslocou. Alcançou bem no meio da travessia um copo, que de cabeça pra baixo sustentava outro prato, esse sim raso e de diâmetro bem maior. Ela deve ter respirado fundo; depois do oceano ia ter que encarar ainda um Himalaia de vidro pela frente. Duvidei.

Duas horas depois, não uma, mas dezenas de formigas passeavam pela cobertura de chocolate. O bolo outrora inatingível, protegido pelo fosso  de faiança branca, era agora um verdadeiro bolo formigueiro, uma metáfora viva que se movia pra cá e prá lá.

Como elas vieram parar aqui? Voando, me respondi. Pareceu razoável, nadar não era menos espetacular do que voar, no caso das formigas. Por alguns libertários segundos, procurei por asas. Testemunhei aquela única formiga, talvez a primeira mutante nadadora da espécie, praticar um ato épico, e mesmo assim eu não conseguia acreditar, todo mundo sabe que formigas não nadam, se afogam. Talvez ela tenha aberto as águas, uma formiga Moises; ou quem sabe eu não tenha percebido, mas ela tenha caminhado sobre as águas, uma formiga Jesus.
Mais uns dez minutos observando a evolução:  o ir e vir do trabalho obstinado, rápido, que não quer ser flagrado, pedaços mínimos de bolo sendo transportados, pra onde? Nenhuma delas se jogou, nem formaram uma corrente com cada uma se segurando na anterior, enquanto eu as observava. Mas a vida não é só contemplar formigas, embora poucas coisas me fossem mais importantes.

E passou a noite e na manhã seguinte, nada, nem uminha sequer, o fosso vazio, água translucida. No bolo, apenas as mesmas três fatias faltando. Devia ter fotografado, pensei. Ver para crer não basta, tem que registrar para crer. Passei o dia com a dúvida: assisti a uma etapa evolucionista, a busca pela preservação da espécie ditando uma modificação de comportamento? Só as melhores nadadoras sobreviveriam, procriariam e em poucos anos as formigas nadariam com a mesma habilidade com que carregam um peso muito superior ao próprio corpo, ou andam de ponta cabeça desrespeitando a lei da gravidade. Ou? que outras leis podem ter sido violadas?

Melhor comer bolo.

 

 

 

Elza Tamas é psicóloga e escritora. Concebeu e desenvolve esse site

 

 

 

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