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FÉ: GASOLINA PARA O MOTOR CIENTÍFICO E LUTAS SOCIAIS por Jeff Anderson

 

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A conscientização não é a premissa básica para a transformação social, ou emancipação do trabalhador como teorizou Marx.

Era agosto de 2007. A iluminação ainda amarelada da Avenida Paulista fazia do frio a composição ideal para aqueles que ensimesmam a divagar sobre complexas teorias sociais que nos foram enfiadas goela abaixo em algumas cadeiras acadêmicas. Quase todas francesas.

Assim passei aquele inverno.

Estava muito bem instrumentalizado: Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber caminhavam comigo diariamente por toda a Avenida Paulista. A base cientifica da sociologia saia da sala de aula e ia para o meu quarto. Esse trajeto perdurou por três anos e meio. Eu era um menino homem racional. Pagava mensalmente a quantia que a Pontifica Universidade Católica me exigia. A universidade conseguira tangenciar o conhecimento e dividi-lo mensalmente para facilitar a nossa compreensão. Ao final do curso, nos daria um certificado de que todas as mensalidades foram devidamente pagas, o diploma.

Mas aos quarenta e cinco, do último tempo, um grande insight ocorreu-me e fui passear com toda a base cientifica em espaços informais. Fui testar o conhecimento. O grande mal-estar nasce aqui.

A base cientifica era europeia. Meu novo espaço era a favela, zona sul de São Paulo. O trajeto fora substancialmente mudado. A forma e o conteúdo não se encaixavam. Saia da casa de meus pais porque acreditava em uma ideia. Fui morar no Centro Comunitário da Favela Mauro, bairro da Saúde. Por conta desse novo posicionamento minha família pensou que estivesse louco e contratou uma clinica psiquiátrica para realizar minha interdição. Era meu trabalho de conclusão de curso e a PUC não mais me orientaria. Esse era o cenário.

Quando cheguei a favela comecei a me deparar com questões insolúveis cientificamente e a medida que o tempo passava percebia, mais e mais, que todo o aprendizado acadêmico não passava de bijuteria. A realidade social brasileira é por demais complexa para ser explanada por um ou dois volumes sociológicos.

Eu caira em um mar de fé. Um cientista social, cético e ateu que vivia agora em um centro comunitário no meio de uma favela com mais de 3 mil famílias, meus vizinhos. Não conhecia ninguém. Ninguém me conhecia. Todos os dias, em meu diário de campo registrava situações inexplicáveis, incompreensíveis aos olhos da razão. Estava ali por um motivo bastante racional: levantara uma hipótese sobre arquitetura e urbanismo e fui comprova-la. Os embates eram diários, fé e razão se misturavam e se contrapunham em velocidades nunca antes experimentadas. Por mais que focasse a compreensão por meio de em um grande Bricoleur, de Levi Strass, ou na Deriva, de Guy Debord, grande parte das situações fugiam da base teórica e somente depois de muito observar foi que pude compreender que algumas situações, as mais importantes, se tratavam de fé.

Foi então que, em um hiato de extrema lucidez, a luz me veio à cara e mostrou-me que a fé era a gasolina para o motor cientifico. O meu e o deles.

Eu deveria persistir por um ano, sob os riscos de ser internado, abandonar a família e amigos. Eles deveriam persistir por uma vida inteira, sob os riscos de serem desapropriados, na violência diária da Policia Militar e do traficante de drogas. Não existe contexto cientifico que possa justificar a minha persistência, nem muito menos a deles. Ambos se mantinham na fé de que o terreno seria conquistado e as escrituras das casas seriam, enfim, destinadas aos moradores, que o trafico deixaria de existir e a policia não mais trocaria tiros ao meio dia. Ou que a arquitetura e urbanismo da favela são genuinamente brasileiros. Arquitetura popular brasileira. Essas eram nossas crenças. Eram esses os motivos que nos fazia levantar da cama, sem nenhuma aparente consistência.

Com o arrastar do tempo e muitas lutas, nossas amizades foram se estreitando. Eu já não mais me importava com a hipótese. Estava vivenciando. Já era a tese. Algumas questões da favela foram resolvidas.

Os tiroteios findaram-se e hoje são proprietários legais de onde moram. Provamos para a minha família que eu não sou louco e só conseguimos isso porque persistimos na luta, tivemos fé. Todo domingo tem churrasco religiosamente.

 

 


Jeff Anderson
é idealizador do projeto BioUrban e ganhador do Prêmio The Deutsche Bank Urban Age Award

Aqui o link para vários vídeos que ajudam a conhecer o projeto Bio Urban

https://www.youtube.com/jeffcausador

 

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