E-se---bancos-com-encosto

E SE TIVESSEMOS O ÓCIO CONFORTÁVEL? por Ricardo Porto de Almeida e Sofia Carvalhosa

 

Bancos com encosto para Sampa!

No começo deste ano, uma simpática praça no Jardim Europa, bairro residencial de classe média alta de São Paulo, ganhou melhorias sonhadas pelos moradores da redondeza. A reforma realizada pela prefeitura deu a ela um novo desenho, piso e iluminação novos, um gramado mais amplo, uma área de brinquedos para crianças – e confortáveis bancos, daqueles que havia antigamente e que foram aos poucos desaparecendo da paisagem urbana. No lugar deles foi surgindo, na verdade, um mobiliário mesquinho, que não favorece a fruição da cidade. São bancos para quem está de passagem, apressado, no ritmo acelerado das ruas. A maioria deles é de cimento com assentos ondulados, que é para ninguém poder se esticar e relaxar um pouquinho. E mais: não contam com encosto, tecnicamente chamado de espaldar, para apoiar as costas do usuário, em total desacordo com as normas da ergonomia. Trata-se de um equipamento para uso breve, instantâneo, que não favorece o ócio e nem o convívio saudável no espaço público.

Na inauguração da praça, estavam lá o subprefeito da região, o vereador que conseguiu a verba via emenda parlamentar para a reforma, representantes da associação de moradores dos Jardins e os próprios habitantes do entorno, todos satisfeitos com as benfeitorias.

 

E, claro, nós do grupo Bancos com Encosto para Sampa! também estávamos lá porque participamos do processo. Convencemos as partes envolvidas da necessidade de alterar um ponto importante do projeto inicial da reforma, que, por sinal, já estava em andamento. Ou seja, substituir o modelo desconfortável, pelos bancos com encosto.

Passamos, então, a desenvolver uma campanha a fim de angariar recursos para a aquisição do mobiliário, já que a prefeitura não dispõe de bancos com esta característica. Os moradores gostaram da idéia e muitos fizeram doações. Hoje, quatorze bancos com estruturas de ferro e ripas de madeira estão instalados sob as frondosas árvores da Praça Morungaba.

 

Essa história, na realidade, começou há muitos anos. Em viagens de férias por outros países, uma coisa me chamava a atenção. Caminhando por cidades como Nova York, Lisboa ou Buenos Aires, sempre encontrava aqueles bancos maravilhosos nos espaços públicos. E pensava com meus botões: por que lá no Brasil não é assim? Por que na cidade em que vivo existe até mesmo praça sem um único banco sequer? Por qual motivo o poder público oferece aos cidadãos um equipamento urbano que mais parece ter sido planejado para puni-los? Sempre considerei esse tratamento um verdadeiro desrespeito às pessoas. E pensava em atuar de alguma maneira no sentido de conseguir respostas a essas indagações e alterar a situação. Até que num belo dia, em conversa com a Sofia, surgiu a idéia de usarmos as redes sociais na internet como ferramenta de informação e mobilização da sociedade em relação à questão dos bancos das praças e parques da metrópole. Hoje, o coletivo Bancos com Encosto para Sampa! reúne mais de mil e trezentos integrantes num grupo criado no Facebook. São pessoas que se interessam pelas questões da cidade e, em especial, à do mobiliário urbano. Nele, quem quiser publica fotos de bancos de vários países e textos diversos. A iniciativa existe há apenas um ano e meio. É apenas o começo de uma atuação de paulistanos, que aliados aos demais grupos de ativismo urbano, sonham com uma São Paulo mais humana.

Ricardo Porto de Almeida

 

 

Bancos com Encosto para Sampa, grupo aberto criado no Facebook por Ricardo Porto de Almeida e Sofia Carvalhosa.

 

                                                                                                                                                          foto: Silvia Lucchi

 

Ricardo Porto de Almeida
Jornalista e advogado. Trabalhou em revistas de circulação nacional, como Veja e IstoÉ; nos jornais Estado de São Paulo e Folha de São Paulo; e na TV Cultura de São Paulo. Atualmente, atua no Jornal da Gazeta (TV Gazeta SP), onde é editor.

Sofia Carvalhosa
Assessora de imprensa e documentarista amadora. É autora dos curta-metragens “Modesto à Parte” (2012), “Conexão Gonzaga” (2012) e “Caderno Vermelho” (2013).

 

fotos: 
banner- foto Elza Tamas
foto 1 – Lilian Cohn Silva Telles
foto 5 parque Londres : www.smithsonianmag.com
demais fotos:   Sofia Carvalhosa e Ricardo Porto de Almeida

 

 

 

 

 

Comentários