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AMBIGUIDADES: DE CAPITU A CAROLINA por Monica R. de Carvalho

“Era mulher por dentro e por fora, mulher à direita e à esquerda, mulher por todos os lados, e desde os pés até a cabeça … mais mulher do que eu era homem” (Bentinho sobre Capitu)

“Também ele tinha ciúmes dessa mulher cinco anos mais velha que ele, que nunca, nem na mocidade, fôra bonita”. (Lúcia Miguel Pereira, sobre Machado de Assis).

Os traços de Capitu parecem não ter muito mais a revelar: recortada, desmontada por todos os ângulos, um dos personagens mais comentados da literatura nacional é adjetivo de dissimulação e cálculo, símbolo da dúvida e do fantasma da traição. Mas e o desejo de Capitu? O que pode nos mostrar? Capitu é a mulher inteligente. Certa da sina de ser pobre em uma sociedade onde o espaço de mudança era ínfimo, sua ascensão só poderia ocorrer por casamento, e Bentinho era o seu caminho. Capitu é forte, Bentinho plástico. Ela deseja algo e ele é sua melhor chance; ele obedece. O que resta a Capitu quando consegue o que quer? Um desejo impossível, talvez. Desde menina, seu desejo era material e (finalmente) casada, sua vontade era mostrar isso para o mundo. “A alegria com que pôs o seu chapéu de casada, e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também”, nos conta Bentinho.

Na construção de Machado, Capitu é a mulher que inverte o jogo: de oprimida passa a opressora, pois escolhe Bentinho como quem vai tornar concreto o seu desejo e consegue trazê-lo para si; vive sua época e assume este desejo como legítimo: quer ser rica, torna-se rica. É virtuosa, sim, pois é fiel ao que traçou para si. Mas nem quando ama – pois ama Escobar! – compreende a natureza do próprio desejo. Seu tropeço não é amar Escobar, mas não ser capaz de colocar todo o seu Ser naquele propósito que desenhou para si: uma parte dela ama quem não devia amar. Para Capitu, é impossível viver o amor, e seus desejos não se reconciliam; o desejo possível (realizado com Bentinho, que lhe cobre a matéria) fica de frente com o desejo impossível (amar plenamente Escobar) e assim Capitu se revela. A grande traição que Dom Casmurro nos mostra é, por fim, a da natureza: a aparência do filho, que expõe o desejo fora do controle da anti-heroína gananciosa.

E o ciumento Machado (que controlava a esposa Carolina até mesmo nas idas à igreja), também um dia se rendeu a um desejo (impossível?) e teve um ‘caso’ que não escapou ao conhecimento público, revelado através de cartas e poesias.  Não se sabe com quem, mas Carolina soube, é certo, e Machado quis continuar a vida com ela.
Existem especulações de que Mario de Alencar (M.A.), filho de José de Alencar, seria na verdade filho de Machado. Afora a semelhança física com Machado, Mário era epilético como Machado, tinha os cabelos crespos como Machado e foi quem cuidou de Machado na velhice, depois da morte de Carolina. Também foi quem editou seus livros póstumos e cuidou da herança intelectual.

Na paixão, Machado foi um pouco Escobar; na prática, parece ter escolhido ser Bentinho com Carolina.

foto banner: aquarela Elza Tamas 


Mônica R. de Carvalho é economista e viveu na Ásia por 10 anos, onde estudou e trabalhou. É professora de pós-graduação em negócios e tem um blog sobre economia no Estadão. Apaixonada por livros, escrita e leituras, é também especialista em literatura latino-americana.

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