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A ORIGEM DO FUTURO por Jesper Rhode

A tecnologia se inaugura no momento em que um macaco, ou outro animal, utilizou-se  de uma pedra para quebrar a casca de uma fruta. Por definição, tecnologia é a coleção de técnicas, metodologias ou processos usados para produzir um bem. Segundo muitos arqueólogos, há 50.000 anos a utilização de ferramentas e o aparecimento de comportamentos mais complexos deu origem a línguas mais elaboradas.

 

A tecnologia tem sido essencial na evolução humana, e em grandes momentos de disruptura na nossa historia. Podemos interpretar a frase “anões nos ombros de gigantes” de Bernard of Chartres, do século XII, como um reconhecimento da contribuição da tecnologia herdada de nossos ancestrais e  grande alavanca para o desenvolvimento contínuo. No seu livro Superinteligência, o professor da Universidade de Oxford, Nick Bostrom, calcula que quando eramos caçadores, a nossa economia dobrava a cada 224.000 anos. A tecnologia nos ajudou a construir uma civilização baseada na agricultura que, por sua vez, dobrou a economia a cada 900 anos. Mas eles certamente teriam dificuldade em  acreditar que no inicio de seculo XXI, países desenvolvidos e megacidades dobram a sua economia a cada 6,3 anos.

 

Para muitos tecnologia hoje é sinônimo de computação e digitalização. Provavelmente isso ocorre, devido às mudanças fundamentais que as tecnologias derivadas da Internet estão nos trazendo. Some-se isso ao fato  do computador ser visto como uma máquina com algum grau de inteligência.  Mas a ideia da existência de uma tecnologia de computação é anterior ao computador que  conhecemos hoje. Uma das primeiras evidências da existência de um computador é datada de 205 anos antes de Cristo. A máquina de Anticítera, nome do local onde foi encontrada na Grécia, é um artefato que se acredita se tratar de um antigo mecanismo para auxílio à navegação, e sua construção  foi atribuída a Arquimedes. Sua serventia vai além de guiar naus. Esse computador analógico é preciso em calcular a orbita lunar, solar, e as órbitas de mais cinco outros planetas ao redor da terra.

 

A ideia de atribuir inteligência ao computador também não é tão recente. Em 1770 surge o primeiro computador de xadrez: o Turco. Ganhou esse nome por ser composto de uma mesa montada junto com um boneco mecânico, vestido como um turco. O Turco movimentava as peças do jogo, e se mostrava como um jogador competente. Em 1820 o segredo foi desvendado, com a descoberta de que, na verdade, havia uma jogador de xadrez real dentro da mesa. O aparelho deu origem ao serviço da Amazon “Mechanical Turk“,  que hoje propõe terceirizar à pessoas ao redor do planeta, mediante pagamento, tarefas que são difíceis de serem executadas por computadores, pelo conceito de Crowd Sourcing ou trabalho colaborativo. Um novo tipo de colaboração que a tecnologia da Internet nos oferece.

 

A tecnologia e as revoluções tecnológicas têm sido muito significativas para a evolução da economia mundial e da civilização humana. Carlota Perez, professora de quatro universidades, entre elas London School of Economics e a Universidade de Cambridge descreve na sua tese grandes picos de desenvolvimento ligados a grandes revoluções tecnológicas. A primeira é a revolução industrial na Grã Bretanha em 1771, seguida pela era do vapor e pelas  ferrovias, começando em 1829. A terceira revolução é a idade do aço, eletricidade e engenharia pesada, onde os Estados Unidos e Alemanha ultrapassam a Grã Bretanha, a partir de 1875. A quarta revolução, a partir de 1908 descreve a idade do petróleo, do automóvel e da produção em massa. A quinta revolução tecnológica acontece em torno da informação, da informática e das telecomunicações a partir de 1971. Cada uma destas revoluções é caracterizada por duas fases: inicialmente uma fase com busca de aumento de eficiência, baseada na lógica da economia anterior à revolução tecnológica. Em seguida, uma outra fase que reformula a lógica fundamental da economia, e que portanto causa uma crise financeira. Desta maneira podemos atualmente observar em grandes países, comportamentos econômicos jamais previstos pelos livros de ensino econômico. Um exemplo é o uso de juros negativos e a emissão acelerada de dinheiro como solução para o crescimento, prática que vem sendo utilizada na Europa.
Atualmente estamos entrando na segunda fase da revolução tecnológica causada pela informática e da Internet. Parte desta segunda fase é a crise econômica profunda e o surgimento de novas logicas econômicas e novos modelos de negócio e valorização de empresas, como a aquisição da Whatsapp com seus 50 funcionários pela Facebook por 19 bilhões de dólares. Estamos caminhando para uma economia onde possuir bens será substituído por compartilhamento, e onde produtos estão se transformando em serviços. Uma destas tecnologias transformacionais é o carro autônomo, que dispensa o motorista e que promete pela primeira vez mudar fundamentalmente o conceito de transporte urbano, onde nos últimos 120 anos não tivemos progresso significativo.

 

Uma tendência atual e fundamental para a utilização das tecnologias é a chamada consumerização.  Termo dado inicialmente para o uso de dispositivos pessoais no ambiente de trabalho, tablets, netbooks, iPhones e Androids agora são usados também por funcionários que os levam para o ambiente da empresa, o que certamente aumenta sua produtividade. Hoje o termo também é utilizado para descrever o fato de que consumidores estão se apropriando de tecnologias antigamente totalmente inacessíveis a eles. No site genomecompiler.com qualquer pessoa pode baixar um programa e começar manipular qualquer parte do código genético de mais de 40 formas de vida armazenados na sua biblioteca. Ao terminar, o usuário pode enviar o novo código genético para Cambrian Genomics, que oferece imprimir em 3D este novo código genético, e após aprovação das autoridades norte-americanas, enviá-lo para o requisitante numa cápsula de proteína. Quinze anos atrás, uma manipulação deste tipo custaria bilhões de dólares e somente poderia ser executada por empresas muito sofisticadas. Um dos primeiros produtos anunciados, fruto deste processo, são plantas luminosas, derivadas do cruzamento de genes de bactérias aquáticas luminosas com genes de uma planta.

 

Sabemos que um email pode conter um vírus.  Mas, hoje este vírus pode ser biológico. A decodificação do DNA de um vírus real ou ainda a fórmula de uma vacina contra uma doença pode ser enviadada por email e pode ser reproduzida em qualquer lugar.

 

Da mesma maneira, modelagem em 3D, robótica e até viagens espaciais estão sendo trabalhadas e preparadas por empresas ou mesmo pessoas privadas.

O futurologista norte americano Ray Kurzweil introduziu o conceito de singularidade para descrever o processo de confluência das ciências resultando no crescimento exponencial da eficiência das tecnologias. Esta exponencialidade coincidiu com a aceleração do crescimento econômico mencionado inicialmente. Da mesma maneira que, a constatação do crescimento econômico atual pareceria irreal se apresentado para nossos agricultores ancestrais, hoje não somos capazes de compreender um crescimento dobrando o tamanho da nossa economia a cada 14 dias em 2040, que seria o resultado natural da continuação do crescimento exponencial que temos vivido historicamente até hoje. Parte desta previsão se baseia no surgimento da inteligência artificial em torno de 2030. A partir daí máquinas poderiam apresentar inteligência maior que seres humanos, e só podemos imaginar qual será o efeito a partir do momento que computadores e robôs consigam  se auto desenhar e se reproduzir segundo suas próprias ideias e percepções do mundo.

 

O cientista Stephen Hawking, Bill Gates da Microsoft, Elon Musk, inventor do carro elétrico Tesla e a empresa privada de transporte espacial Space-X, concordam que a inteligência artificial poderá ser o fim da raça humana, uma vez que, a partir dela podemos perder o controle sobre as ideias e visões a respeito  da evolução da vida neste planeta. Mas também é possível que uma inteligência maior conclua que o futuro do nosso planeta é precioso demais para continuar na mão de seres humanos, baseado na incompetência, que temos mostrado até agora.

 

 Jesper Rhode é diretor de Marketing para a Ericsson na América Latina.
Atua nos últimos 15 anos em varias posições como Vice Presidente de Multimídia, Inovação, Pesquisa e Desenvolvimento, Tecnologia, e Contas comercias da Ericsson do Brasil. Foi presidente do conselho da Mobile Marketing Association para América-Latina de 2010 a 2012.
Atualmente também ocupa cargos de:
– Conselheiro consultivo na Wenovate – Open Innovation Center.
– Vice Presidente na Câmera de Comercio Brasil-Dinamarca.
– Professor de MBA na Fundação Getúlio Vargas (FGV).
– Mentor para empresas de comunicação digital na aceleradora StartYouUp
É Engenheiro Eletrônico e de Computação pela Universidade Técnica de
Copenhague, Bacharel em Marketing & Vendas pela Universidade de Copenhague, e
formado em Gestão Global de Telecomunicações pela Escola Americana Thunderbird de Gestão Internacional. Recentemente, também se especializou em Administração de Empresas pela London Business School.

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