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ATRÁS DE TODAS AS COISAS por Leda Cartum

Sou testemunha da infância dela que corre ao meu lado: estamos no mesmo banco de trás do carro, mas ela assiste a um desfile de mundos misteriosos pela janela (por que nunca pode fechar o cruzamento?) enquanto o meu olhar ultrapassa a rua e não fixa ponto nenhum. Daí me vejo comentando com os adultos do banco da frente: que essa avenida costuma estar mais congestionada. No que eu e ela nos entreolhamos e a percebo interrogativa, como se tentasse depreender um significado impossível a partir do que acabo de dizer: para ela essa frase é enigmática, pertence a um universo hermético a que ela esteve sempre ligada sem nunca poder conhecer. A frase que trata da frequência do congestionamento da avenida repercute dentro de sua cabeça, cheia de realidades secretas e imensas: talvez contenha a resposta para todos os problemas, a solução dos mistérios; mas ela não tem acesso a isso. Essa frase, como que contornada por uma faixa amarelo e preta, é de acesso restrito: e ela só pode vê-la de longe na tentativa de adivinhar o que é que eu quis dizer: o que é que os adultos sabem e que ela não pode saber; qual é o segredo que se esconde atrás de todas as coisas.

*

Lembro de algo que aconteceu algum tempo atrás: sorrio, numa mistura de cumplicidade e compaixão, como se visse do alto aquela pessoa que fui há anos e que não sabia de nada do que viria a acontecer. É um sorriso parecido com aquele que costumamos dirigir às crianças, e que parece dizer: existe um futuro imenso que vocês ainda não conhecem. Há sempre uma névoa de ingenuidade que envolve as lembranças antigas e as crianças pequenas: quando é que, naquela época, ou nessa idade, poderíamos desconfiar de tudo o que surgiria e que nos levaria por esses rumos até chegar aqui e agora? Vem também uma certa vontade de voltar até aqueles momentos para envolver esses seres distantes que agora parecem fantasmas imersos no escuro, e consolá-los por sua ignorância.

Mas é só inverter o sentido desse olhar para que tudo de repente mude de figura: se tento dirigir o olhar para a massa amorfa e invisível de tudo o que está por vir; ou, antes: se tento me sentir olhada por aquela que serei eu em um lugar desconhecido e por enquanto inexistente que é chamado de futuro – daí as coisas em volta se tornam muito pequenas. Parece que elas se afastam e correm quilômetros ainda imóveis, e o meu próprio tempo deixa de ser certo e seguro. É uma sensação de vertigem que provoca uma espécie de queda dessa atualidade e nos joga para longe, como se não estivéssemos mais no lugar onde estamos. As coisas são reviravoltas no escuro.

 

imagem banner: Iluminura de livro do sec, XV  -Antoine Vérard, 1494 L’Art de bien vivre et de bien mourir.

 

 Leda Cartum tem 26 anos. Publicou o seu primeiro livro, As horas do dia – pequeno dicionário calendário (Editora 7Letras), em 2012. Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, hoje no mestrado estuda o escritor Pascal Quignard – de quem está traduzindo o livro Le sexe et l’effroi. Trabalha com texto e produção escrita em diversas áreas, desde tradução e editoração até roteiros para cinema e TV. Seu próximo livro, O porto, sairá pela Editora Iluminuras em 2016.
foto: Sara de Santis.

 

 

 

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