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GRÍZES TESZTA por Elza Tamas

 

 

Tenho quatro avós húngaros.
Por ocasião da 1ª guerra mundial, a Hungria perdeu grande parte do seu território, dois terços. Dois dos meus avós passaram de um dia ao outro, de húngaros a romenos; os outros, viraram sérvios. O tratado de Trianon previa que se em 100 anos, as comunidades agregadas aos novos países ainda mantivessem a língua materna, as terras anexadas seriam reintegradas aos países de origem. Em função disto, a primeira providencia tomada pelos governos foi impedir que o idioma de origem fosse falado. Na escola, minha avó era obrigada a falar romeno. Os vizinhos eram húngaros, a rua húngara, o padeiro, o açougueiro, mas na escola ela tinha que aprender a falar uma língua estranha: o romeno.
A Hungria perdeu o acesso ao mar, meus familiares perderam filhos e parentes, vitimas da guerra e das condições precárias em que viviam. Famílias fugiam para evitar que filhos fossem alistados e no porto, no minuto final, eles eram confiscados e obrigados a ficar. A viagem de navio era então um misto de esperança, com a promessa do novo mundo, os peixes voadores acompanhando a embarcação, crianças brincando inocentes pelo convés, e a dor de tudo que tinha sido deixado para trás. Sacas e sacas de dinheiro eram lançadas ao mar, papel sem valor algum, e eles desembarcaram ainda mais pobres na nova vida.

Quando os meus bisavós chegaram ao Brasil, ambos, os húngaros sérvios e os húngaros romenos, construíram casas sobre uma fundação alta, elevada, três degraus para alcançar a porta. Esperavam pela neve que nunca veio. Penduraram tapetes grossos nas paredes para enfrentar o frio rigoroso. Na lateral da casa, parreiras. No quintal, atrás, uma pequena horta. Fabricavam linguiças em casa, numa linha de produção em série que envolvia toda a família. Soprar e encher tripas com uma mistura de carnes de cheiro forte, desagradável, parte das minhas piores lembranças de infância, as linguiças, e também os velórios domésticos, com os mortos benzidos com ramos enormes de alecrim, os pés frios de um bisavô que eu devia segurar para perder o medo da morte, a procissão da sexta feira santa e Maria Madalena me apavorando com o seu canto mórbido, o cemitério e o tumulo da menininha enterrada com os brinquedos prediletos.
Naquele bairro, que era na verdade uma comunidade húngara, nascemos todos, eu e meus irmãos; em casa, que parto não é doença, dizia minha mãe; com a mesma parteira, e na casa da mesma avó. O primeiro banho era de bacia e a placenta era enterrada no jardim pelo meu avô. Lá também meus pais se conheceram na celebração de primeiro de maio, num piquenique. Vida e morte se cruzavam com mais naturalidade naquela vila de ruas de terra, de língua estrangeira e de velhas de cajado e lenços escuros amarrados sob o pescoço.

Recentemente, numa viagem que fiz a Hungria e Romênia, onde encontrei parentes amorosos que eu nem sabia que existiam e que me descobriram pela internet, me deparei com arquiteturas absolutamente familiares: a fundação alta, os degraus para o acesso a porta, os tapetes nas paredes, a parreira, a horta no fundo. Também páprica e papoula compradas a granel, massas folheadas e doces tão saborosos como os da minha mãe. Nem tudo pode ser roubado de um povo.

(Quando alguém adoecia, minha mãe fazia um macarrão, frito numa farinha de semolina, crocante, queimado no fundo da panela: Grízes Teszta. Macarrão à milanesa. De sobremesa, panquecas recheadas com açúcar e canela. Palacsinta. Minha mãe se foi, a tradição se mantém.)

 

foto banner: foto do passaporte do meu bisavô húngaro (romeno), na ocasião da entrada no Brasil

 

 

 

 

 

Elza Tamas é psicóloga clínica e escritora.
Idealizou e desenvolve o forademim.com.br

 

 

 

 



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