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O ELO ENTRE LINGUAGEM E MÚSICA por Magda Pucci

 

Parece existir uma ligação próxima entre o surgimento da música e da linguagem falada, situando assim o despertar do sentido musical em tempos remotos.

Inúmeras teorias tentam explicar a origem da música, do canto, dos primeiros sons produzidos pelo homem. Alguns dizem que nós aprendemos a cantar imitando os sons emitidos por pássaros e animais, enquanto, outros sugerem que a música se desenvolveu a partir da descoberta de que alguns sons mais simples quando emitidos a uma longa distância, tornam muito mais fácil a comunicação de um grupo. Diferentes intelectuais de diversas áreas tem suas teorias sobre o surgimento da música, do canto, da fala.

O economista Karl Bücher argumentou que o ritmo desenvolveu-se em função da necessidade de se coordenar grandes grupos de pessoas trabalhando juntas levantando, quebrando, puxando as coisas – requerendo desempenho máximo do grupo exercido no mesmo instante. Essa relação com o coletivo é bastante aceita ainda hoje.

Charles Darwin, naturalista, relacionou a origem da música com o sexo: ela teria se  desenvolvido a partir dos sons de acasalamento produzidos por  pássaros e animais. Essa é uma hipótese provável também, dado que muitos xamãs indígenas se transvestiam de pássaros ou outros bichos para conversar com os espíritos. Há vários relatos míticos, como por exemplo, os dos Paiter Suruí, onde mulheres mantinham relações sexuais com espíritos em forma de animais.

O psicólogo Karl Stumpf conjectura que cantar com tons definidos e bem alto tinha um poder muito maior do que o discurso ou grito.

Para Herbert Marcuse, filósofo, as pessoas tendem a exagerar as localizações expressivas na própria linguagem quando estão em estados emocionais agudos, originando lamentos ou gritos que quando estilizados, se transformam em música.

A música se desenvolveu como um modo de comunicação realçada com poderes sobrenaturais, ou seja, como forma de xamanismo, com poderes para a cura e de dialogo com os espíritos.Esta é a visão proposta pelo antropólogo Siegfried Nadel.

O etnomusicólogo John Blacking concebe a música como um espelho que reflete os mais profundos ritmos sociais e biológicos de uma cultura, uma externalização dos pulsares que permanecem escondidos no meio das ocupações da vida diária.

A filósofa Suzanne Langer especula que música, linguagem e dança foram originados juntamente aos mais antigos rituais, com imagens de pessoas se reunindo em círculos, dançando e cantando.

O musicólogo Jacques Stehman também aponta uma analogia entre a gênese da música e a da linguagem, ao afirmar que “os homens das eras mais recuadas, vivendo rodeados de mistérios inexplicáveis e de terrores diversos, sem recurso perante a hostilidade da natureza e os enigmas da criação, utilizam antes mesmo de saberem falar, uma linguagem que representa um meio de comunicação com os espíritos ou com as forças que os dominam, ou ainda com divindades que comandam essas forças”.

Para o arqueólogo Steven Mithen , autor do livro ‘Os Neandertais cantavam rap’, antes mesmo de desenvolver um padrão de linguagem, os hominídeos que viviam entre 50 mil e 100 mil anos atrás utilizavam a música como forma de comunicação e socialização. Para ilustrar, ele exemplifica com a imagem de homens de Neandertal em cavernas em Dordogne, na França, cantando, pulando, fazendo sons com os pés e com as mãos. Parecia haver uma espécie de “transe coletivo” semelhante ao visto nas atuais raves.

“As pessoas sempre pensam nos Neandertais como brutos e mal-humorados, mas eles tinham uma noção forte de ritmo e música”. O arqueólogo se apoia em outros estudos, de neurocientistas, antropólogos e paleontólogos, para reforçar a ideia da co-evolução de música e linguagem. Em oposição, outro arqueólogo Steven Mithen, pensa que o homem de Neandertal desenvolveu uma comunicação que ele chama de HMMMM, isto é, holística (não composta de elementos segmentados), manipulativa (influenciava emocionalmente a si próprio e aos outros), multimodal (utilizava sons e movimentos), musical (rítmica) e mimética (com gestos).

O linguista canadense Steven Pinker diverge da teoria de Mithen e acredita que a música seria uma derivação do sistema de linguagem, isto é, a música poderia existir no cérebro mesmo com a ausência da linguagem.

Tanto Mithen com Stehman, assim como a filósofa Langer, afirmam que a comunicação do homem – seja com os seus ou com as divindades – demandou uma linguagem, isto é, sons articulados geradores de uma oralidade, que independente do advento da escrita, se mantém como forma de comunicação entre muitos povos, seja em forma de música ou como narrativas.”

Na China Antiga, pensava os princípios da música seriam os mesmos do eterno sagrado, huang chung, expressão que se refere tanto ao som fundamental como à divindade. Na tradição indiana, Brahma ensinou o canto ao profeta Narada que por sua vez, o transmitiu ao resto dos homens. No Egito, Deus Thoth teria criado o mundo através dos sons e antes do ano 4000 a.C., a música já era presente nos rituais e cerimônias militares, festas profanas. Na Babilônia e na Grécia, os filósofos relacionavam o som com o cosmos através do estudo da acústica.

Por mais teorias que surjam, a origem da música se mantém como um mistério. Enquanto manifestação oral não é linguagem da razão, mas das grandes forças misteriosas que animam o homem.

 

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fotos: pinturas rupestres Serra da Capivara

 

Um gostinho do grupo Mawaca

 

 

Magda Pucci é musicista e pesquisadora da música de vários povos. É formada em Regência pela ECA-USP, mestre em Antropologia pela PUC-SP e doutoranda em Creative Arts and Performance na Universidade de Leiden na Holanda. É diretora musical do grupo Mawaca há 20 anos, onde desenvolve extensa pesquisa de repertório multicultural aplicada à prática musical. O grupo tem 6 CDs e 4 DVDs lançados e se vem se apresentando em diversos países. Magda foi apresentadora e produtora do programa de rádio ‘Planeta Som’ por 13 anos transmitido pela Rádio USP e pela Multikulti na Alemanha e na Suécia. Ministra oficinas de educação musical para professores e é autora do livro paradidático “Outras terras, outros sons” em parceria com Berenice de Almeida (Ed. Callis) além de livros para criancãs baseados nas canções do Mawaca como “De todos os cantos do mundo” (Cia das Letrinhas) e “Contos Musicais” (Leya) em parceria com Heloisa Prieto. Com Berenice de Almeida, escreveu o livro “A Floresta canta: expedição sonora por terras indígenas do Brasil” (Peirópolis) e A Grande Pedra (Saraiva) para crianças. Também dá palestras e cursos sobre músicas do mundo e faz curadorias.

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