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A ARTE QUE INCOMODA por Tania Ramos de La Combe

O que seria exatamente um “mal estar na Arte”?
Se perguntássemos à um “leigo honesto” provavelmente ele diria: são aquelas coisas feias, tristes, horrendas ou mal feitas que jamais eu colocaria na minha casa, ou algo similar. Do ponto de vista psicológico ou do “socialmente correto” poderíamos dizer que é “uma obra ou imagem que nos causa desconforto, angústia e que nos provoca”.
Nem sempre o mal estar de um é o mal estar do outro e muitos desses trabalhos, por serem polêmicos, marcaram uma nova era no mundo e no comércio das artes.

Cronologicamente, o primeiro grande artista que me vem à mente, ainda na Idade Média, é o holandês YERONYMUS BOSCH, do final do século XVI. Com suas figuras e caveiras assustadoras, num criticismo surreal, Bosch não poupava padres nem freiras, servos, comerciantes, nobres, reis e rainhas. Na sua obra mais conhecida, O JARDIM DAS DELÍCIAS, ele expõe orgias, cenas inusitadas com monstros e animais alados, e mesmo nas cenas domésticas mais simples, como a MORTE DE ÁLVARO (1494), somos assombrados por caveiras, ratos e monstros.

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Avançando alguns séculos, dentro do Impressionismo, onde tudo era belo e o bucólico e os tons pastéis dominavam a belle vie, destaco a pintura angustiada de outro holandês, VINCENT VAN GOGH. Suas pinturas de caveiras, pouco conhecidas, talvez fossem um prenúncio da sua morte precoce e escolhida, que era sempre anunciada em seus pesadelos atormentados.

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No movimento surrealista todas as fantasias foram permitidas e o Mestre dos Mestres, SALVADOR DALI, talvez tenha sido o artista que deliberadamente mais desconforto causou com suas obras
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Foi seguido de longe, bem longe, pelo belga RENÉ MAGRITTE, cuja obra provoca um mal estar pela ação do ilusionismo. A ilusão de ótica, que intriga e desafia, tão comum na pop ART, estava já ali sendo fecundada e eclodiria algumas décadas depois.
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Decorrente do Surrealismo surge o Dadaísmo, manifesto mais surreal ainda, com os famosos mictórios de MARCEL DUCHAMP e suas bicicletas, engenhocas inúteis que nos provocam e nos acusam,
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assim como os “ready mades” de MARX ERNST,
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e entre outros, YVES TANGUY.
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Nasciam aí as primeiras “INSTALAÇÕES”, expressão típica do novo século e que até hoje causa ainda muitas polêmicas e desconforto. Basta visitar a última Bienal em São Paulo, INCERTEZA VIVA e presenciar, entre outras tantas, a insolita instalação de Victor Grippo que utiliza 500 quilos de batatas,

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ou as obras em INHOTIM, um dos maiores e mais belos museus a céu aberto do planeta, onde vidros, redes, sacos, num vermelho berrante formam True Rouge, a instalação do brasileiro TUNGA , recentemente falecido.

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Mas voltando algumas décadas, ali junto ao surrealismo, outro artista “avant guard”, GEORGES BRAQUE
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se unia ao amigo e rival PABLO PICASSO para criarem mais uma nova linguagem das tintas, o CUBISMO. Esta linguagem se tornou o pretexto perfeito para que esse jovem pintor catalão, transportasse para suas telas o que já fazia tão bem em sua vida pessoal junto aos seus seres “queridos”: esposas, amantes, filhos, netos e até bichinhos de estimação foram distorcidos, fragmentados, retalhados e transformados em verdadeiros monstros de uma feiura propositalmente feroz. Picasso era visto por alguns como um gênio prolífico e cativante, por outros, como um oportunista egocêntrico e cruel, o primeiro grande marqueteiro de si mesmo depois de Salvador Dali. Polêmicas à parte, a verdade é que com suas obras valendo milhões de dólares, quando ainda vivo, sua assinatura virou símbolo do novo mercado multimilionário que surgia no território da Arte Contemporânea; poderíamos dizer, ironicamente, que o “o feio vira belo quando se trata de um Picasso”.
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Mas aceitaríamos dizer o mesmo de MUNCH? Mais conhecido pelos seus “GRITOS”, EDWARD MUNCH, mesmo em suas telas mais “românticas” nos causa uma angustia patética com suas figuras tristes, de olhos negros, arregalados ou em seus rostos disformes, vide ANXIETY, outra obra sua bastante divulgada.
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Assim como nosso IBERÊ CAMARGO, poderíamos dizer que MUNCH não tinha nenhum pudor em retratar sua angústia, depressão ou visão atormentada do mundo que o cercava. Certamente concordaria com um dos últimos depoimentos de IBERÊ: “não vim ao mundo para pintar o belo ou para agradar com minha pintura, quero sim mostrar toda angústia e dor que persegue o ser humano desde o seu nascimento até seu último dia”.
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Nessa mesma época podemos destacar uma mulher, latina, pouco conhecida em seus dias, mas forte e tenaz e que lutou como poucas: FRIDA KAHLO.
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Suas obras são angustiadas e ela representa sem pudor seu acidente, amputação e suas dores físicas e psíquicas imensas.
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Sua agonia estampada em dezenas de autorretratos, repletos de sobrancelhas fartas e unidas que reforçam o ar severo da dor e do seu sofrimento, acabou se tornando um símbolo Cult mundial da Mulher Sofrida.
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Em um deles pintou o retrato do companheiro DIEGO RIVERA na testa, como idolatria ou ódio, ironia àquele que tão mal lhe causou com sua indiferença e traições.
Ironia maior, talvez, é que FRIDA jamais poderia imaginar que, algumas décadas depois, essa desconhecida mexicana ofuscaria o brilho de seu Mestre e amante, tornando-se um símbolo divulgado em posters, posts e releituras no Mundo todo.
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Outro tipo de “mal estar” é aquele da ilusão de ótica, desenvolvido em primeira mão pelo matemático e desenhista alemão MC ESCHER, que causou furor nos anos 50 com suas torres, escadas e suas famosas “evoluções”.

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É o desconforto genial que intriga, desafia e questiona e que vem sendo desde então, admirada por todos os ilustradores. Sua evolução simplista e geométrica geraria a famosa OP ART, febre nos anos 70, representada sobretudo pelo franco-húngaro VICTOR VASARELY: Quem não teve pelo menos um pôster dele em suas salas ou quartos, ou estampado em suas camisetas, na década pós-hippie? Era o “mal estar” da ilusão ótica, deliciosa e enigmática, que fascinava sobretudo os jovens descolados da época.
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Nas décadas seguintes, os chamados CONTEMPORÂNEOS criaram um novo tipo de “desconforto” na arte abstrata. E aí voltamos à primeira consideração do “leigo honesto” do primeiro parágrafo: “um lixo que nasceu por acaso, sem nenhum valor artístico, uma piada de mau gosto, tinta gratuita jogada aqui e ali, e que vale milhares de dólares”.

POLLOCK, um contemporâneo, que devido a sua técnica foi jocosamente apelidado de “Jack the dripper”, teve sua ultima tela arrematada por 140 milhões de dólares por David Geffen, em leilão recente na SOTEBY’s, NY. Ao mesmo tempo, algumas de suas obras são chamadas de “spaguettis” e existem inúmeros posts na internet que ensinam a pintar como Pollock, por que suas telas parecem que foram feitas com espaguetes mergulhados em diversas cores de tintas.
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Nessa mesma escola temos WILLEM DE KOONING
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e JOAN MITCHELL, única mulher desse filão respeitado e hoje, admirado.
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Já no figurativo contemporâneo não podemos nos esquecer do irlandês polêmico, FRANCIS BACON, fascinado pela carne no sentido mais realista possível: ficava horas admirando animais penduradas nos açougues de Londres ou admirando cadáveres, como fonte básica de inspiração.
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O resultado, sabemos, aquelas séries de rostos e corpos disformes, fantasmagóricos, assustadores onde transpunha também sua luta contra o alcoolismo e a homossexualidade sadomasoquista que o atormentava.
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Seu seguidor atual, mais hard core ainda, além de exibicionista, é DAMIEN HIRST o mais novo “queridinho” dos colecionadores europeus e americanos do mundo fashionista e hipster. Seus cadáveres de animais devidamente fatiados foram expostos em museus e galerias do mundo todo, causando horror e polêmica.

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Duramente ironizado pelos críticos mais exigentes, DAMIEN dá de ombros: sua caveira (verdadeira) cravejada de brilhantes foi vendida pela bagatela de 100 milhões de dólares para um anônimo colecionador londrino em 2007. Não satisfeito, DAMIEN refez uma réplica em ouro branco com 8601 diamantes, exibida em dezembro passado no célebre RIJKSMUSEUM de Amsterdã, primeira parada de sua tournée. Foi, pasmem, escolhido como curador para selecionar as obras do famoso acervo que serviriam de pano de fundo para sua caveira FOR THE LOVE OF GOD.
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VERMEER deve ter sentido um imenso “mal estar” em sua tumba.

 

** imagem banner – Lucian Freud

mal-estar-foto-tania-mini-bioTANIA RAMOS BOUTAUD de la COMBE,  paulista, psicóloga pela PUC/SP e artista plástica pela FAAP. Estudou no Ateliê de Walter Levy e Maxine Masterfield, USA, CA, onde sofreu forte influência da aquarelista. Sempre em busca de novas técnicas e materiais,  morou em diversas cidades dos USA e Europa, notadamente Suíça e França nas décadas de 80 e 90 , onde realizou  inúmeras exposições exibindo trabalhos e técnicas únicas e exclusivas que misturam tinta acrilica com matérias mais diversas da Natureza em geral .
Permeada pela consciência ecológica aliada à influência étnica ,desenvolve alternativas não poluentes como pigmentos e resinas naturais, até mesmo verniz à base de própolis em seu ateliê no topo de uma Colina na Mantiqueira, SP.
Assim pretende que sua obra possa ser um grito a mais contra a devastação da Natureza pelo homem e a opressão contra as minorias étnicas .

 

 

 

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