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DORES DE AMORES NA MPB por Silvia Moraes

 

O romantismo elevou o amor à essência da vida. Podemos observar a presença do amor romântico nas artes, na literatura e na música. O romântico constrói um mundo imaginário nostálgico e melancólico, trazendo um distanciamento da realidade social, experiência da perda e procura pelo que se perdeu. O humano depende de ser amado, necessita de reconhecimento, busca constantemente seus pares. As decepções e desencontros amorosos são freqüentes fontes de mal-estar e motivos de busca de um analista.

Assim, as canções como uma forma de expressão cultural, revelam os afetos predominantes de uma época, como o sofrimento do indivíduo perante o enamoramento, e apontam os recursos possíveis para o seu enfrentamento.

Canções da Era do Ouro, na década de 30, contemplavam, muitas vezes, a dor da mulher relacionada à sua inserção numa cultura patriarcal, onde é esperada certa submissão e doçura frente ao companheiro boêmio, malandro e mulherengo. Certa dose de masoquismo e mágoa são aí traços característicos freqüentes da figura feminina.

…gosto dele assim, passou a brincadeira e ele é pra mim


(Gal Costa – Camisa amarela)

…com perfeita paciência sigo a te buscar…

…cena de sangue num bar da avenida São João!


(Inezita Barroso canta Ronda)

…fiz seu doce predileto pra você parar em casa

…logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato e abro meus braços pra você!


(Nara Leão – Com açúcar, com afeto)

Essa postura feminina persiste no decorrer dos tempos. Canções, curiosamente compostas por homens para suas intérpretes femininas.

O amor dói, a paixão submete. O apaixonado é um ser humilhado que mendiga o amor do seu amado, que teme perdê-lo e, quando isto acontece,tem a sensação de ser atirado num abismo.

… se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar


(Meu mundo caiu com Maysa)

O componente trágico do amor o aproxima da morte. Amar fica equiparado com sofrer. Esse amor é construído, investido, e nem sempre recompensado.

… eu fico com essa dor, ou essa dor tem que morrer

.. pois quando estou amando é parecido com o sofrer


(Zezé Motta e Luiz Melodia em Dores de amores)

A dor da perda do objeto amado é contemplada na maioria das canções. De forma singular, e, ao mesmo tempo universal, estas expressam o amor não correspondido, o abandono, o descaso.

No âmbito universal, toda perda implica em tristeza, em desamparo. O humano depende sempre do olhar do outro amado.

… eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza


(Fagner – Canteiros)

O sentimento de saudade é algo bastante contemplado. Palavra tão peculiar da nossa língua evoca a presença do outro e o prazer da efemeridade do encontro.

.. a saudade é dor pungente


(Bethânia – A saudade mata a gente)

Já na década de 80 despontam temas que trazem à tona as diversas formas de amor.

.. qualquer maneira de amor vale a pena


(Paula e Bebeto)

O homem oscila entre a ilusão de completude e o sentimento efêmero do que denomina de “felicidade”, e a angústia e medo da falta de amor e do olhar do outro. Como se entregar sem se perder no outro? Qual é a medida certa da paixão?

… e não é a dor que me entristece, é não ter uma saída, nem medida na paixão


(Lenine – A medida da paixão)

Talvez tenhamos de nos convencer que não escolhemos, mas somos escolhidos. O amor simplesmente acontece…

… o amor quando acontece, a gente esquece que sofreu um dia


(João Bosco – Quando o amor acontece)

E, apesar de tanto sofrimento, humilhação, desilusão, seguimos procurando nosso par, na eterna ilusão de completude.

… sem amor eu nada seria


(Renato Russo – Monte Castelo)

 

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SILVIA MORAES é violonista, cantora, psicóloga e psicanalista. Faz shows e organiza saraus. É apaixonada por música, especialmente pela canção brasileira.

 

 

 

 

 

 

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