mal-estar-flavia-cirne-c

OS VELHOS ANDAM OLHANDO O CHÃO por Elza Tamas

 

Atualmente são duzentos e dezessete; eram, ao menos na última contagem. Há alguns meses ainda se podia nomeá-los, guapa, bento, gertrudes, era divertido encontrar uma característica e deixá-la tomar o lugar do todo, preta, simpática, caolho, zé mané. Pensamos até em usar as letras do final do alfabeto, como faz a indústria farmacêutica quando quer mostrar que um remédio é de última geração. Chegamos a um wykuxt impronunciável, que rapidamente virou vivi. Depois do quinquagésimo, nossa criatividade se esgotou.
As duas antigas, mãe e filha, agora são lentas e meio surdas, devem estar demenciando, às vezes surpreendo uma ou outra ladrando para a parede; adoravam expulsar os invasores, corriam, não havia quem entrasse; hoje passam o dia dormindo no pouco espaço que sobrou. Rosnam baixo, mal se escuta, – tentam, ganem rouco, os caninos são amarelos e cariados, melhor nem mostrar. Eu também não sei mais gritar, às vezes solto um grunhido, sai, sai, agito a mão que não dói, mas eles confundem com uma festa e se aproximam mais.
Somos todas castradas, eu, as cadelas e a gata, as donas originais da casa. O garanhão também teve o escroto cortado,- impressionante o poder dos hormônios, partículas ínfimas determinando a existência de um ser-, só vendo, antes um garanhão de veias dilatadas no pescoço, eu sentia vontade de rezar para ele, na frente dele, porque ele era um deus, uma força da natureza, agora é dócil; os cachorros invasores passam os dias no abuso, testando as fronteiras da paciência. Isso jamais ocorreria antigamente.  Ele se mantém pávido, porque impávido ele não é mais, então deve ser pávido, coisa triste de ver.
Ontem a noite apareceu um ratinho diminuto na sala. Corria de um lado para o outro, atrevido. Bati meu pé com força no chão, com pouca força na verdade, mas o oco da tabua de madeira ampliou o som, TUM, e ele fugiu de volta para debaixo do sofá. Mas voltou. Numa das saídas, cheirou todo o tapete, esticou o corpinho, deu um impulso e tentou subir na poltrona. Para mim foi o limite, gritei chega, assim não dá mais; ninguém ouviu. Tive um pequeno sentimento de compaixão, pobre mãe, – achei que era fêmea e mãe, porque sair assim na ousadia, sem medo de nada, é coisa de mãe; talvez uma ninhada, talvez esteja em busca de comida; durou pouco, a aversão superou minha cordialidade. Pensei na gata, mas senti um conflito moral, a caçada seria inevitável, não, melhor não; na minha frente, não. Talvez amanhã eu esqueça a porta da sala aberta e o que acontecerá entre eles não será mais da minha conta, a gata anda magra, tomara que seja uma ninhada. Tentei me concentrar no filme na TV e logo veio um cheiro forte da varanda, devem ter caçado um gambá; que se danem, que se lambuzem.

Talvez andar um pouco, olhar o céu, as estrelas, mas hoje virar o pescoço para cima dói; não mais o firmamento, ainda o horizonte e depois só o chão. Os velhos andam olhando o chão, não tem mais nenhum longe para olhar. E agora as aranhas, que eu julgava inofensivas, as marrons, elas lá, eu cá, por anos, tudo certo, até eu saber que não era bem assim, danadas, disfarçam, uma picadinha indolor, depois uma casquinha boba, a gente não vê e a desgraça vai acontecendo por dentro, corroendo. Tenho medo que os vizinhos percebendo minha fraqueza, também comecem a invadir. Não tenho mais dinheiro para a ração, acho que eles vão começar a se ajeitar entre eles. Não terão nenhuma memória da minha generosidade, nenhuma gratidão, na hierarquia da vida a fome é soberana; anos antecipando a morte por uma doença cardíaca, um câncer, mas ao final, eu sei, estarão todos lambendo meus ossos.

Foto banner: Flavia Cirne

foto-elza-1

 

 

ELZA TAMAS é psicóloga clínica, formada pela
PUC/SP.
Concebeu e desenvolve o forademim.com.br

 

 

Comentários