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XINGÚ por Bela Gebara

 

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Três dias pra chegar. Por terra: São Paulo, Minas, Goiás e por fim Mato Grosso. A cidade vai sumindo e depois, cana cana cana soja soja soja. Amarelo. Que tamanho tem esse país! No último trecho só terra, pó, areia. O carro fica estacionado numa aldeia na beira do rio e de lá, seguimos de barco.
Três horas navegando o Rio Kurisevo que serpenteia, vira e volta, cortando o cerrado. É como se o tempo desacelerasse e andasse pra trás, rapidamente. Anta, capivara, jacaré, os pensamentos se dissolvendo. O pôr do sol e a expectativa de um lugar incomum.

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Já era noite quando chegamos. Um percurso de meia hora entre o rio e a aldeia Mehinaku numa trilha iluminada por lanternas. Escuro, sons, gritos de festejo e saudação. Na aldeia tentamos nos organizar, mochilas e um volume enorme de caixas de comida que trouxemos vão sendo empilhadas. Alguns resolvem dormir num abrigo externo. Muita gente, muita coisa. Onde vou dormir? Na Oca do Cacique Maycute.

O galo canta, o cacique levanta, a festa acontece. Cinco dias de festa de furação de orelha na aldeia.
Na aldeia não há hora. Nem para festa, nem para comer, nem para dormir. Tempo marcado é coisa de branco, e branco tem hora até para ter fome. Branco é qualquer humano que não seja índio: japonês, negro, mulato, norueguês. A hora da comida era estranha e as diferenças entre as duas culinárias muito acentuadas. Os Mehinakus não comem nenhum animal que anda na terra, só peixe, tracajá e algum passarinho, sempre acompanhado pela tapioca. O sal é extraído de uma planta aquática, aguapé, depois que ela é queimada e utilizam também  a pimenta. As refeições simplesmente acontecem, não são planejadas e sempre são em família.

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As mulheres trabalham o dia todo. Nem todas falam português, falam a língua do tronco Aruák como todo o povo Mehinaku. Colhem e preparam a mandioca, cuidam das crianças, cozinham, enrolam na coxa o cordão de buriti, tecem redes, modelam cerâmicas e fazem colares de miçanga tcheca. Pois é, a miçanga é tcheca! Gostam mais por que ela é pequena e mais delicada para a confecção dos trabalhos. Uma das consequências do contato estabelecido com o homem branco.

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Os homens pescam, caçam, lutam, tocam flautas de bambu, conversam na Casa dos Homens,- uma construção no centro da aldeia onde as mulheres são proibidas de entrar-, chefiam os rituais, dirigem motos, manuseiam celulares. No Xingú não há sinal de celular e os aparelhos são usados como máquinas fotográficas e filmadoras.

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Homens e mulheres se pintam, se enfeitam, cantam cantos com repetições sonoras e dançam num ritmo marcado pelas batidas dos pés na terra; ritualizam e se banham nas lagoas.
Quem dança ou ritualiza está vestido a caráter, ou melhor, desvestido, nu. E como não há hora certa para cada coisa acontecer, alguns passam boa parte do tempo assim, pintados com urucum, jenipapo ou resina com carvão, aguardando o grito de chamado pra festa.

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Roupa não é necessária, é apenas um adereço. As crianças ficam nuas até que sintam frio. As vezes tomam banho de lagoa com roupa, as vezes sem e se secam na caminhada de volta.
Já existe escola na aldeia. E o tempo do branco vem chegando, agora existe uma hora certa para ir à escola. Lá, aprendem português, além da língua Aruak.

desenho feito por uma criança Mehinaku mostrando o centro da aldeia

desenho feito por uma criança Meinaku mostrando o centro da aldeia

O espaço do centro da aldeia é incrivel e ver o céu a noite ali, mais ainda. O rio é vital para o indio. Sem ele não há vida, não há aldeia. Tão importante que quando olham o céu, o rio está lá. Dizem que o rio sobe até o céu e que a via láctea é o banco de areia que o margeia. As imagens são mitoloógicas e sempre muito poéticas.

Toda estruturada em madeira, a oca é oval e parece uma carcaça de animal. É totalmente revestida de palha do teto até o chão. Existem apenas duas portas em sentidos opostos. Uma dá para o centro da aldeia e a outra para o cerrado. O interno e o externo, a aldeia e o resto do mundo. Dentro é escuro, mesmo de dia, e a temperatura se mantém estável.

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A seriedade e concentração dos meninos em todos os dias de ritual impressionam. No último dia recebem uma refeição que precede o jejum pelo qual irão passar. E, finalmente a furação acontece. As mulheres são proibidas de assistir a cerimonia e devem então se recolher.

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Cerimonia finalizada e é nossa hora de fazer o caminho de volta. Levamos uma montanha de comida e os olhares indígenas sobre as caixas ainda repletas de latas, pacotes de macarrão, arroz e demais provisões eram desconcertantes.
O homem branco perdeu sua relação com a terra e com o que ela pode prover. Distanciou-se da experiência do presente e vive na ansiedade do futuro. E no futuro desconhecido estão os medos e por isso ele tenta se precaver; acumula, armazena, consome em excesso. O índio conhece a terra, os ciclos, confia e por isso tem apenas o que é essencial para o seu dia. Não precisa armazenar, não desperdiça e só gera lixo orgânico; a vida indígena não é predatória e não polui.

Essa breve experiência da cultura indígena na aldeia Mehinaku me fez sentir estrangeira em meu próprio país.
Hoje no Brasil existem 240 povos indígenas, com cerca de 900 mil pessoas e 180 línguas e dialetos distintos. Uma riqueza de tradição, história, mitos e conhecimentos ainda inacessíveis à civilização que os envolve.
Esses povos nativos, primeiros habitantes da nossa terra, dependem hoje de políticas de preservação para continuarem vivos. Interesses econômicos como o agronegócio e o desmatamento levam a dissolução de aldeias e a dizimação de diversas etnias. Quando migram para as cidades, longe do seu povo, os indígenas são marginalizados. O índio na aldeia vivendo sua vida autêntica, não é pobre. A manutenção da vida na aldeia preserva a cultura, mantém a dignidade e a saúde desses povos. O contato, inevitável, uma vez estabelecido, deveria promover transformações saudáveis e intercâmbio de culturas. E todos poderiam se beneficiar com essa troca.

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Uma noite, tivemos uma sessão de cinema improvisada no centro da aldeia. O telão foi pendurado na trave do gol. “Xingú Terra”, filmado há 40 anos nesta mesma aldeia Mehinaku, com roteiro de Maureen Bisilliat, texto de Orlando Vilas Boas e fotografia de Lucio Kodato nos foi apresentado pelo próprio Lucio, que fez parte do nosso grupo de visitantes. Ao lado de alguns dos personagens ainda vivos saboreamos a cultura e tradição que vem sendo passada de geração em geração.

** fotos: Bela Gebara

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BELA GEBARA  é arquiteta formada em 84 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie.Desenvolve projetos residenciais, corporativos e na área da saúde. Mora e trabalha em São Paulo onde já implantou diversas obras de sua autoria.
Arte e natureza são substrato para sua vida e inspiração profissional.

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