Arquivo do Autor: Fora de Mim

Livros Publicados por Lalau

Livros publicados:

• Companhia das Letrinhas

“Bem-te-vi e outras poesias”

“Girassóis e outras poesias”

“Fora da Gaiola e outras poesias”

“Uma cor, duas cores, todas elas”

“Quem é quem” (traduzido para o espanhol, lançado no México)

“Faz e acontece no circo”

“Faz e acontece no faz-de-conta”

“Futebol!”

“Hoje é dia de festa” (coletânea)

“Zum-zum-zum” (antologia)

“Papai Noel, um velhinho de muitos nomes” (coletânea/Lalau)

“Letrinhas Eletrônicas” (coletânea – CD Rom)

“Que João é esse? Que Maria é essa?”

“Meu filho pato” (coletânea/Lalau)

• Cosac & Naify:

“Brasileirinhos”

“Novos Brasileirinhos”

“Mais Brasileirinhos”

“Bem Brasileirinhos”

“Diário de um papagaio” (prosa)

• Cortez Editora

“Qual é que é” (traduzido para o espanhol).

• Scipione:

“O caçador de palavras” (prosa)

“A última árvore do mundo”

“Caminho da roça” (lançamento 2013)

• Editora e Fundação Peirópolis:

“Boniteza Silvestre”

“Japonesinhos”

“Belezura Marinha”

“Árvores do Brasil”

“Formosuras do Velho Chico”

“Passarinhos do Brasil” (lançamento 2013)

• Editora Manole:

“Sobre Vôos”

“Os números”

“As letras”

Coleção poesia no Corpo: “Bate, bate, coração!”, “Olho por olho” e “Dente por dente” (lançamentos 2013)

• DCL

“Hipopótamo, batata frita, nariz: tudo deixa um poeta feliz”

“Elefante, chapéu e melancia: em tudo tem poesia”

• Editora Leya

“O que levar para uma ilha deserta”

• Editora Globo

“O presente do Saci” (lançamento 2013)

• Editora Biruta

“Confusão na fazendinha” (lançamento 2013)

• Dash Editora

“Ai! Que frio!” (título provisório/animais do Ártico – lançamento 2013)

• Livro-objeto

“Poemas esparadrápicos” – Doutores da Alegria

• Prêmios:

– Livro vencedor do Prêmio FNLIJ, categoria Poesia em 1994 – “Bem-te-vi e outras poesias”

– Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – Altamente Recomendável para: “Bem-te-vi e outras poesias”, “Girassóis e outras poesias”, “Fora da Gaiola e outras poesias”, “Uma cor, duas cores, todas elas”, “Brasileirinhos” e “Diário de um papagaio”, “Formosuras do Velho Chico” e “Árvores do Brasil”.

– Catálogo White Ravens – “Mais Brasileirinhos” e “Novos Brasileirinhos”

– Catálogo Feira de Bolonha 2010 – “Os números” e “As letras”

– Catálogo Feira de Bolonha 2011 – “Belezura marinha”

– Selecionado para o acervo da Coordenadoria Municipal de Bibliotecas (SMC/PMSP) – “Japonesinhos”

– Selecionado para o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) – 2010 – “Japonesinhos”

– Selecionado para o Catálogo de Bolonha 2009 – FNLIJ´s selection 46ª Bologna Children’s Book Fair 2009 – “Japonesinhos”

– Selecionado para o Programa Nacional do Livro Didático – Obras Complementares PNLD 2010 – “Boniteza silvestre”

– Considerado um dos 30 melhores livros infantis do ano de 2007 pela Revista Crescer – “Boniteza silvestre”

– Selecionado para o Programa Mais Cultura da Biblioteca Nacional – 2008 – “Boniteza silvestre”

– Selecionado para o Acervo Básico pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) 2007 – “Boniteza silvestre”

– Considerado um dos 30 melhores livros infantis do ano de 2010 pela Revista Crescer – “Que João é esse? Que Maria é essa?”

– Selecionado para o Catálogo de Bolonha 2012 – “Árvores do Brasil” e “Elefante, chapéu e melancia: em tudo tem poesia”

– Selecionado para o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) – 2012 – “Belezura marinha” e “O que levar para uma ilha deserta”

– Considerado um dos 30 melhores livros infantis do ano de 2012 pela Revista Crescer – “Árvores do Brasil”

Inventando corpos e/ou desvelando o erótico em inquietante devassidão: o encantamento dolorido

Miriam Chnaiderman

É em nosso corpo que experimentamos a obra de Nazareth Pacheco: somos tomados pela vertigem de um mundo que nos estraçalha,  esparramando vísceras em orgasmos bizarros entre a dor e o êxtase. Contrariamente ao artista que expõe seu corpo como objeto artístico, é o nosso corpo que fica desnudado diante dos objetos agudos e cortantes. Penetrar os cortinados feitos de lâminas de barbear e miçangas, no seu brilho sedutor, fascinante, faz com que os rasgos aconteçam e esmigalhem imagens corporais, dilacerando qualquer identidade possível. É a própria noção de sujeito psíquico que fica questionada, o jogo de espelhos se inverte, perdemo-nos do olhar que nos constituiu, tornamo-nos ferida exposta. O Eu-pele explode, os suspiros são indiscerníveis, algo do imponderável circula. Desruptor movimento de campos do desejo, esvaindo contornos, degelando montanhas. Todos passamos a fazer parte da chamada body-art, todos nossos corpos são campos de batalha. É essa a radicalidade do trabalho de Nazareth Pacheco: instaurar um corpo-carne naquele que olha seu trabalho. E, ao fazer assim, obriga a um trabalho de recostura do próprio eu. Nisso, vários eus se tornam possíveis, vários corpos podem acontecer. As cirurgias são coletivizadas, os interiores dos corpos misturam-se em comunhão ao mesmo tempo ascética e sanguinolenta. Um sanguinolento sem sangue. Os cortinados, os adornos, os vestidos, são inodoros, atemporais, sem marcas. Inumanos e profundamente humanos. Ficamos nós com os corrimentos, os cheiros, os escarros, o informe. Tornamo-nos profanadores de terrenos sagrados: o leito do amor, o banheiro, lugares do toque despudorado, do prazer clandestino, possível libertinagem de cada um.

Dos instrumentos de tortura (tema que percorre toda a obra de Nazareth Pacheco) ao leito, imensa cama acrílica. “Autour du lit fatal, chaque objet est nouveau”,(“Em torno da cama fatal, cada objeto é novo”) disse Paul Éluard. Cama fatal, mesa de dissecação: “Belo como…o encontro fortuito de uma máquina de costura e um guarda-chuva sobre uma mesa de dissecação.”  Breton interpretou a mesa de dissecação da frase de Lautréamont, como cama, o guarda-chuva representando o homem e a máquina de costura a mulher. O acaso é portador de sentidos inesperados. Destruição de qualquer ordem estabelecida. E, não é esse o efeito do desejo? Na cama que Nazareth Pacheco construiu não conseguimos deitar. Qualquer sentido conhecido explode e inusitadas descobertas ocorrem em um erótico paradoxal, comunicação cósmica e misteriosa, os amantes engendram o cosmos. O leito é rodeado de material cortante, lâminas de barbear fixadas em miçangas. Masculino cortante e feminino ofuscante. Instrumentos de dissecação, transfigurando encontros, fabricando corpos, mutação permanente. O que se rasga é a própria representação da cama como ninho acolhedor da vida e da morte. “O coito é a paródia do crime”, afirmou Bataille, inscrevendo o erótico na violência. O encontro amoroso dissolve formas constituídas, destrói o descontínuo, propõe a unidade. O sentido último do erotismo é a morte.

Freud mostrou que onde a fúria da destruição é mais cega pode sempre estar presente uma satisfação libidinal. Impressões freqüentemente dolorosas são fonte de intenso gozo.É o que há de demoníaco, inumano, em todos nós.

Nazareth Pacheco trabalha com a questão do gozo, desse gozo que é barrado pelo desejo. Isso implica em romper barreiras, um enfrentamento com os limites.  O gozo é do campo do que não cabe na palavra, do que não pode ser nomeado. Gozo tem a ver com pulsão, pura intensidade, forças em redemoinho. O desejo retoma ao nível da vida de fantasia o gozo que ficou do lado da pulsão. Só que o gozo é morte e, portanto, o desejo jamais é satisfeito. Gozo implica em forçar a barreira do princípio do prazer, e, portanto, questiona o interdito. Nazareth Pacheco propõe uma mais além do desejo, um encontro com o que é originário no erotismo. Transgride, indo em direção a um real pulsional. Libertinagem contemporânea, invenção de uma linguagem que faz coincidir sentido e signo. Não há metáfora possível, estamos no nível do real, das paixões do corpo. Valery afirmou sobre Restif, libertino do século XVIII: “…quem é verdadeiramente livre não é obsceno (…) Porque quem é livre está além do bem e do mal  – como o é o real”.

Lacan diferenciou o princípio do Nirvana, tendência de retorno ao inanimado, da pulsão de morte. Fiel a Bataille, a pulsão de morte passou a equivaler à vontade de destruição direta. A pulsão quer sempre atender um Outro, tornar um Outro pleno. Destruir o Outro, formando Um, busca da unidade total.  O Outro que é fonte da linguagem e da inserção na cultura. Só que o Outro pleno é morte, movimento que cessa.  No sadismo, o gozo vem do suposto gozo no outro: ao provocar dores no outro, gozamos por identificação com o objeto sofredor. Coloca-se uma intersubjetividade que faz o gozo do sujeito escorar-se sobre o gozo que ele imagina no outro. Gozo jamais alcançado. Leiris afirmou já em 1930: “o masoquismo, o sadismo(…) são meios de sentir-se mais humano, justamente por manterem relações mais profundas e mais abruptas com os corpos”.  É esse o jogo erótico que Nazareth Pacheco nos propõe: quem goza com o gozo de quem? São nossos corpos objetos de um gozo sádico?  Mas, o sublime emerge disso tudo, questionando a imagem que temos de nós mesmos. Ainda que seja através de uma pele marcada por rasgos de lâminas, ou cicatrizes de bisturi escarafunchando furúnculos purulentos de nosso triste cotidiano.

A obra de Nazareth Pacheco busca desalienar nossa imagem, sempre construída a partir de um olhar que nos olha. Somos obrigados a refazermo-nos como sujeitos de nossos desejos. Um imaginário do dilaceramento, a referência a suplícios e tortura – que, segundo a própria artista vem acompanhando todo seu trabalho –  mostra um corpo convulsivo. Não há apaziguamento possível. A agonia fala do êxtase, “confirmação da vida até na própria morte”, diria Bataille.

Mas,  contrariamente a toda uma corrente modernista, que se inaugura no início do século XX, a obra de Nazareth Pacheco não vai no sentido de uma desantroporfização, não vai no sentido de negar o corpo humano. Pelo contrário: trabalha com adornos, com roupas, com cortinados, com instrumentos de tortura ou de exame médico. Ocorre uma estranhamente familiar antropomorfização. A ausência do corpo costurado, remontado (contrariamente a Orlan, que filma suas cirurgias) faz com que nosso corpo fique pesadamente presente em nossas sensações. São nossos corpos que são retalhados em estranhas plásticas e cicatrizes costuradas. O invisível corpo torna-se um corpo carregado de órgãos e vísceras com ruídos e odores. O que não podia aparecer, surge em fascínio de cantos de sereia.   O corpo ausente  fala do mais recôndito do desejo. E, através dos adornos cortantes, a mulher aparece radiante, triunfa na possibilidade de um erotismo inomeável, corpos de mil zonas de prazer. Vagina dentada?

Freud nos fala da sensação de estranhamento terrorífico que o homem experimentaria diante do sexo feminino.  O termo alemão que Freud utiliza é Das Unheimlich. Mas, o que é o Das Unheimliche? No texto em que trabalha esse conceito, Freud começa por um levantamento nos dicionários da palavra alemã “heimlich”. A partir da curiosa etimologia da palavra “heimlich” que vem de “heim” (lar) e significa íntimo, familiar, e também secreto, clandestino, que não deve ser mostrado: é preciso que outros não saibam dele  nem sobre ele  Freud conclui de que em tudo que é familiar está sempre contida a idéia de ocultação. O “unheimlich” diz respeito a um efeito de estranheza que atinge o conhecido e familiar, tornando-os motivo de ansiedade. A frase de Schelling, citada por Freud, sintetiza tal vivência: “Chama-se ‘unheimlich’ a tudo que, destinado a permanecer em segredo, oculto (…) veio à luz”. Freud mostra como etimologicamente, “unheimlich” e “heimlich”, seguindo uma ambivalência, acabam se unindo

Em toda sua obra, Nazareth Pacheco opera radicalmente o unheimliche, o “estranhamente familiar”. É uma experiência que, já no começo de sua carreira, acontece a partir da manipulação de materiais cortantes e pontiagudos para construir objetos do dia a dia de todos nós.

Ao descrever seu trabalho para a exposição que realizou no Centro Cultural em 1990, na sua Dissertação de Mestrado, Nazareth Pacheco compara o “prazer do fazer” – pinos para cortar, furar e parafusar – com a época em que sua avó ensinava crochê e tricô aos seus netos: “Todos na fazenda agulhas e lãs na mão”. As agulhas se transformam em pinos pontiagudos pretos de placas de borracha, fixados com parafusos em placas de compensado. A disparidade dos materiais utilizados mostrava a possibilidade de construir objetos bizarros e até mesmo ameaçadores.  Depois, Nazareth Pacheco passa do painel para objetos tridimensionais, tendo sentido a necessidade de expandir os trabalhos para o espaço, “fazendo com que ele ocupasse o mesmo lugar do meu corpo”.  Os pinos pontiagudos tornam-se volumes autônomos. Naquele momento, os objetos eram “dependentes” como afirmou Tadeu Chiarelli, precisavam ser manipulados para ganharem múltiplas formas virtuais. A passividade do feminino, tão apregoada por Freud e tão combatida pelas feministas? Podemos afirmar qquee,  já nesse momento, Nazareth Pacheco põe a subjetividade em circulação, esparramenado  os gozos.

Depois,  e Eu-pele foi questionado no seu trabalho com borracha “…tive a impressão de estar participando de uma briga corporal ao me dar conta da resistência da borracha sendo aprisionada pela brida de chumbo”.  Configura-se aí a luta com o informe da matéria. E, com Bataille, Nazareth Pacheco aí sabe que a forma oprime a matéria. Essa opressão é figurada nessa sua etapa de trabalho.  Nomeia  essa etapa de seu trabalho: “A pele…borracha natural” , utilizando alguns cognomes para identificar esse seu momento: “Objetos Evasivos, Colares e Objetos de Aprisionamento”, conforme explicita em nota de rodapé. A pele limita a possibilidade da fusão, busca erótica. O látex líquido passa por uma prensa que o transforma em mantas rugosas. Nazareth Pacheco descreve: “Estas mantas de borracha natural, quando saem da estufa e são isoladas uma das outras por camadas de plástico, permitiram por meio da manipulação modelagens especiais”. Metamorfoses movidas por gestos aprisionantes, violência necessária para a transformação: as mantas de borracha  foram sendo “torcidas, moldadas e estranguladas por uma longa brida de chumbo”. Nazareth Pacheco cita Rosalind Krauss, que afirmou que, na arte processual, os processos de  transformação empregados “eram principalmente aqueles de que as culturas se utilizam para incorporar as matérias primas da natureza, como a liquefação, para refino, ou o empilhamento, para a construção”. Algo originário, arcaico, algo de um não representacional está presente nisso tudo.  Bataille fala de uma persistente vontade de modificar as formas que acontece através de “gestos de destruição”. Naquele momento do trabalho, a borracha era retorcida. Hoje, são nossos corpos que são estrangulados por requintados apetrechos de tortura, disfarçados em adornos que brilham como nobres rubis de coroas reais.

No início do capítulo “Objetos Aprisionados”, Nazareth Pacheco escolhe como epígrafe Louise Bourgeois: “O tema da dor é meu campo de batalha.  Dar significado e forma à frustração e ao sofrimento. O que acontece com meu corpo tem e recebe uma forma abstrata formal. Então, pode-se dizer que a dor é o preço pago pela libertação do formalismo”.  Breton, já nos anos 30, havia proposto a necessidade de ir ao fundo da dor humana. E, Bataille propõe elevar a vida ao nível do pior.  Bataille quer ultrapassar as visões sublimadas da realidade, o que só pode ser conseguido através de uma “cólera negra e até mesmo uma indiscutível bestialidade”.  Nazareth Pacheco expõe, então, objetos relacionados  ao seu corpo. Mas, seu corpo é o de todos nós.  Suas cirurgias passam a ser nossas cirurgias, os corpos se fundem, a mutilação instaura novos territórios erógenos. O humano é disparado, o homem ao alcance de si próprio,. “nada mais real do que este corpo que imagino; nada menos real do que este corpo que toco…”(Octavio Paz)

Depois, a pesquisa dos objetos relacionados ao universo da mulher. Mas, Freud já nos mostrou que a feminilidade é uma questão também para os homens – passagem do tempo, representação da perda e da ausência. A alteridade do feminino na impossibilidade de nomeação de um real de um corpo que goza. Nazareth Pacheco instala  em uma sala espéculos transparente sendo apenas um de aço. Um único espéculo de aço e gelado. No desejo, a imaginação erótica atravessa os corpos, torna-os transparente.; Ou os aniquila.  E, numa bacia de alumínio, cem dius. O diu destrói o que o espermatozóide cria. O espéculo no lugar da vagina exposta, somos todos, homens e mulheres penetrados por espéculos, transparentes e/ou de aço. Transparência sugerindo um invisível presente em nosso mundo moldado para ocultar aquilo que permanentemente nos fere. Depois, o molho de saca-rolhas e um saca-miomas. A vida como violência permanente.  Diálogo mortal entre Eros e Tânatos.  Freud afirmou que a doença é o estado normal do civilizado. Males imaginários pelos quais a civilização passa, a domação de nossos institntos é paga com sangue.  Existe erotismo que não seja destrutivo?

No trabalho seguinte, os colares feitos de cristais, agulhas,  lâminas e anzóis. E, ainda depois, o “vestido de baile”. Sempre o terrorífico da sedução.

Mas, parece que Nazareth Pacheco sentiu-se apertada nisso tudo e precisou pensar  mais amplamente todas essas questões. Passou a utilizar-se do acrílico fabricando peças que “tinham grande proximidade com objetos de tortura e aprisionamento”. Sade nos ensinou que as paixões se distinguem entre si pela violência, proclamando então uma declaração de direitos das paixões, fundando os Estatutos da Sociedade dos Amigos do Crime. Minski, personagem de Sade, alimenta-se de carne humana. Deixa de haver qualquer diferença entre os homens e os animais, as ações deixam de ter qualquer substância moral: “O crime não tem realidade alguma; melhor dizendo, não existe a possibilidade do crime porque não há maneira de ultrajar a natureza”. Profanar a natureza é honrá-la. Sade, na leitura de Octávio Paz,. “imagina a matéria como um movimento contraditório, em expansão e contração incessantes. A natureza destrói a si mesma; ao se destruir se cria”. Não mais distinção entre criação e destruição. Prazer e dor são nomes tão enganosos como quaisquer outros. O prazer passa a ser dor e a dor, prazer. A imaginação se multiplica, o mundo das sensações passa a ser meta única. A mesa de operações, de dissecação, altares ensangüentados.. O prazer, à medida que cresce e se faz mais intenso, roça a zona da dor. O prazer mais forte passa a ser dor exasperada, que, por sua própria violência, se transforma de novo em prazer.  Um prazer inumano, uma mais além da sensualidade. Os instrumentos de tortura de Nazareth Pacheco, o balanço fixado em corda de cristal, o tampo perfurado de agulhas de costura ( agulhas de crochê de sua infância com sua avó), mordaça transparente, algemas em grande cubo de acrílico, tudo isso nos fala de um inumano em direção a uma fusão com a natureza. A violência precisa encarnar e converter-se em substância.

Já em Sade, o mal, para ser belo, precisa ser feminino, mostra-nos Octavio Paz. Os cortinados de Nazareth Pacheco, feito de lâminas de barbear, suas jóias cortantes, dão concretude ao belo mal que só pode ser feminino. Perigosa sedução.. Transcendência da própria vida,  a entrega total é morte. Na exposição “Transcendências”,  Nazareth Pacheco expôs um berço construído em acrílico transparente com o cortinado cortante. Relata, como em seu percurso, a pesquisa sobre sua gestação e como o estar viva foi “uma possibilidade de transcender os próprios limites da vida”. O homem sempre cria sua realidade, ele não é realidade. A consciência radical do corpo é afirmação da vida. Transcender os próprios limites da vida é pura libertinagem: “o libertino deve inventar uma situação que seja simultaneamente, de absoluta dependência e de infinita mobilidade” (Octavio Paz) . A libertinagem é a busca de um mais além das sensações, a insensibilidade aperfeiçoa, é ferramenta de destruição. Nazareth Pacheco manipula lâminas e se fere. Vence a matéria inanimada.

Mas, a matéria plástica de Nazareth Pacheco é o invisível, o mundo das sensações. Em seu trabalho, vai manipulando nossas sensações e nos propondo novos mundos. Mundos descobertos através de cortinados doloridos, mundos descobertos no informe da dor. Sensação radicalizada, animalizante.

E, agora, unindo seus instrumentos de tortura e seus vestidos e jóias de universos femininos, a cama aparece com o cortinado de miçangas e lâminas cortantes. O ato sacrificial ritualizado, cama de vida e cama do morto – a morte é signo de vida. Anatomia humana em metamorfoses, a figura humana é sacrificada. Nós somos sacrificados. Humanidade não tem nada a ver com bondade ou felicidade, já nos disse Leiris.

O ato erótico passa a ser uma cerimônia que se realiza de costas para a sociedade e diante de uma natureza que jamais contempla a representação. Em nossa muda contemplação, fiicamos nós de costas para a civilização.  Catacumba, quarto de hotel,  cabana na montanha,  cada um que fabrique o seu gozo impossível, fusão mortal.  O erotismo é um mundo fechado tanto à sociedade quanto à natureza. O ato erótico nega o mundo – nada real nos rodeia, exceto nossos fantasmas. São nossos fantasmas os personagens de Nazareth Pacheco. Passamos a ser estrangeiros de nós mesmos, estraçalhados em nossa indestrutibilidade,  reduzidos a ser apenas mais uma espécie animal no universo infinito.

 

Observações finais

As citações de Bataille, Leiris, Breton e Lautréamont foram todas retiradas do  inspirador livro de Eliane Robert Moraes, O corpo impossível, editado pela FAPESP e Iluminuras, São Paulo, 2002.

O livro de Octávio Paz a que me refiro é : Um mais além erótico: Sade, da Editora Mandarim, São Paulo, 1999.

Para conceituar a noção de gozo em Lacan, foi-me de enorme utilidade o ensaio da  Marie-Christinne Laznik-Pénot, “A construção do gozo em Lacan”, publicado na  revista Percurso n.8, primeiro semestre de 1992, São Paulo.

A Dissertação de Mestrado de Nazareth Pacheco, Objetos Sedutores, defendida na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, sob orientação de Carlos Fajardo  no dia 26, de março  de 2002,  foi de enorme importância no delineamento das questões que nortearam esse ensaio.

tillman 4

20120802 by Tillmann Lange

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I no longer work with calculations, nor am I interested
in data and their meanings.

I saw something in the past or it was something
someone told me. These fragments of past information transformed themselves in
my mind into forms. The numbers still exist within and the structures appear
like a flash.

I’m on paper.

It isn’t important to decode the original information:
absolute knowledge is impossible.

Fragments seen before have no relation to information.

Number is image and the pages of a math book are drawings.

The math book was shifted: I want to create a situation similar to listening to music, without understanding it’s
composition. You look at the drawing and I hope there is something you can feel, without further information.

The final outcome of musics equation is greater then its numbers, its the melody.

I like not to know what the melody means.

I like not to know.

Codes without keys. Maybe there is someone who could see the structure of the pattern.

It is interesting to see a information encoded and then to question: What is it about?

I want to freeze at this point. There is a question but there isn’t an answer.

The mystery is magical alone. Without answers.

 

translated by Jessica Cooke

Tillmann  Lange was born in Cottbus, Germany in 1981, he began his studies in the  Technical University of Dresden, Germany in 2001 in computer science. During this time he performed a parallel painting study in the Academy of Fine Arts  Dresden. In 2005 he moved to Berlin, where he currently lives and works as a  graphic designer and studies painting in the Berlin Weissensee School of Arts.
He had his work published in the ‘Prolog 7’ magazine of Berlin in 2011. His
solo exhibitions were ‘Linienkompott’ in Galerie  im Zwischenraum, Berlin 2012 and ‘Aktstudien und freie Blätter’, in the Galerie Ostart, Berlin.

www.tillmann-lange.de

Do tempo e de como ele acabará.

De Vilém Flusser

Publicado em O Estado de São Paulo, 1962

A pergunta: “O que é o tempo?” é do tipo daquelas que não admitem resposta. Isto não impede que seja formulada. Desde épocas imemoriais, desde o Tao-Te-King, o Rig-Veda e o primeiro Livro de Moisés, até Heidegger, Einstein e os biólogos modernos, tem sido ela formulada e reformulada de maneira sempre mais exata e rigorosa. Aparentemente, o espirito humano obedece a um impulso irresistível de levantar a cortina do tempo e desvendar o “Ser em si”. No decorrer da historia houve formulações extraordinariamente felizes e fecundas a esse respeito. A kantiana, que define o tempo como uma das formas pelas quais a razão conhece a “coisa em si”. A schopenhaueriana, que considera o tempo como manifestação da vontade. A bergsoniana, que aceita o tempo como principio criador, em contraste com a “duração” destruidora. A heideggeriana, que interpreta o tempo como a maneira pela qual a existência se impõe, transformando coisas em instrumentos. Isto para mencionar somente quatro exemplos típicos e recentes. Em todos eles parece que o problema foi superado, embora não solucionado. Entretanto, o espirito humano, insatisfeito, torna a perguntar porque o tempo continua a nos enfrentar, a cada um de nós, com a insistência e a opressividade de sempre.

Se é verdade que a procura da definição tempo mantém-se inalterada, não é menos verdade que não tem sido inteiramente inútil. Revelou certos aspectos que podem ser considerados como definitivamente esclarecidos. Deixando de lado o conceito do tempo absoluto, geralmente considerado superado, surge o tempo como a forma pela qual as coisas aparecem ao espirito e o espirito reage às coisas. Surge como vivência do conhecimento. Quando o espirito se inclina para o “de todo diferente”, “a coisa”, afim de conhece-lo, quando “o de todo diferente” se inclina sobre o espirito para realizá-lo, surge o tempo. Portanto, possui o tempo o seu lado subjetivo (quando visto a partir do espirito), e o objetivo (quando visto a partir da “coisa”, do “de todo diferente”).

Tradicionalmente, temos duas imagens do tempo objetivo: a da roda que gira e a da flecha em voo. A primeira, que devemos aos Gregos, é responsável pela nossa concepção mecânica do mundo, com seus processos repetitivos. A segunda é responsável por nossa concepção biológica e histórica do mundo, com sues processos irreversíveis. A ciência atual está em vias de abandonar o primeiro conceito. Ela parece querer abrir mão dos processos repetitivos, embora corra o risco de perder, juntamente com eles, a possibilidade de uma interpretação racional dos acontecimentos do mundo. A segunda lei da termodinâmica ensina a irreversibilidade de certos processos. Donde se conclui que o tempo objetivo teve um começo, quando esses processos se iniciaram, e terá um fim, quando eles se tiverem efetivado em sua totalidade. A irreversibilidade de tais processos diminui, progressivamente, a oportunidade de realizações no mundo das coisas, ou, para usar a expressão curiosamente invertida da ciência, “a entropia no mundo aumenta constantemente”. De certa forma, entropia e tempo objetivo são sinônimos: o progresso do tempo é idêntico à oportunidade ultrapassada. O acumulo de oportunidades ultrapassadas, como medida de tempo, serve como medida de tempo, serve melhor do que as horas, os dias e os anos. Isto porque é linear e as medidas clássicas são circulares.

Conseguimos este aspecto objetivo do tempo, se nos colocamos no lugar da “coisa”, isto é, da negação de nós mesmos. Devemos esse aspecto à capacidade do nosso espirito de sair de si mesmo e virar-se contra si mesmo. Conseguimos esse aspecto “refletindo” ou “especulando” (de speculum – espelho). O tempo que se nos apresenta desse ponto de vista não é o tempo vivido. Não é aquele que nos faz sofrer e que lutamos para não perder. Não é aquele que queremos penetrar para ultrapassa-lo. O mundo das coisas, com seu começo, sua permanência e seu fim, é irrelevante, a não ser que seja percebido, conhecido, avaliado, enfim, vivido. Sem essa vivencia carece de realidade. A realidade surge nesse mesmo nexo entre espirito e coisa, no qual surge, conforme foi dito, o tempo. A conclusão parece querer impor-se: realidade e tempo estão interligados. Não há realidade extra temporal e eterna. Recuso-me, provisoriamente, a tirar essa conclusão desesperada, pois proponho seja analisado, primeiro, o aspecto subjetivo do tempo.

Visto do sujeito, portanto, a partir de mim, o tempo se manifesta como um colar de instantes, os quais vivo. Todo instante é um desafio: exige que eu tome posição em relação às coisas que sobre mim se precipitam. Todo instante exige que eu compreenda e apreenda as coisas para escolher dentre as oportunidades quase infinitas que elas oferecem, uma única, recusando todas as demais. Não considerarei a questão: até que ponto se trata de uma escolha livre, até ponto uma opção obrigatória? Em todo caso, sou obrigado a escolher, num instante, uma dentre as muitas possibilidades (seja ativa, seja passivamente), e a escolhe-la irrevogavelmente. Sou obrigado a abandonar, num instante, todas as oportunidades que me são dadas, salvo uma.

O caminho da minha vida, isto é, o meu tempo, deixa para trás um exercito gigantesco de oportunidades definitivamente perdidas. Nisto reside a dramaticidade do tempo: toda escolha é irrevogável e irremediável. O consolo da segunda oportunidade, da oportunidade recorrente, é desonestidade intelectual e moral, por ser fuga inautêntica para dentro do tempo circular dos processos reversíveis.

Essa dramaticidade do tempo subjetivo é aumentada pela minha certeza de sua limitação, pela certeza da morte. A morte injeta, para dentro de cada instante, uma tensão quase insuportável. Mas é suportada na pratica, graças à nossa capacidade de recalcar a morte. “A gente” não se resolve a morrer, e decai, portanto, cegamente, para a morte. Nessa queda desesperada a angustia de cada instante é o clima da vida. O tempo é o grande inimigo. Se me resolvo, entretanto, para a morte, de modo a inclui-la, conscientemente, em cada instante, meu tempo passa a compor-se de instantes finais, de escolhas definitivas. O juízo final está em sessão permanente, para falar, desde já, teologicamente.

A morte, isto é, a limitação do tempo subjetivo, é a contrapartida da entropia, que, por sua vez, é a limitação do tempo objetivo. O fim do tempo objetivo é, conforme foi dito, inteiramente inócuo. Não por estar situado a uma distância imensurável, mas por estar situado além de minha morte. Tem interesse puramente parasitário, reflexivo e especulativo. Entretanto, sua contemplação ajuda a suportar o tempo. Esta é a explicação dos quiliasmos que acompanham surdamente a historia do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, e cuja forma mais moderna é o marxismo. O resolver-se para o fim do mundo é mais fácil e mais otimista do que a resolução para a própria morte.

A certeza da morte forma o núcleo mais certo das minhas certezas. No entendo, uma voz dentro de mim continua a afirmar, quase inaudivelmente, uma realidade independente da morte, e por consequência, do tempo. Essa fé em minha imortalidade, em minha origem e destinação além do tempo, é, em vista do já exposto, uma fuga inautêntica para a metafisica a fim de escapar à resolução para a morte. No entanto, essa fé é dada. Se consigo extirpá-la, com a ajuda da razão (tarefa difícil, senão impossível), a consistência intima do meu Eu sofre uma abalo. O colar de instantes que forma o meu tempo perde o fio unificador, e os instantes, como perolas soltas, rolam desordenadamente, até se perderem. Com a fé na imortalidade perde-se o sentido na vida. Surge então esse estado de animo aparentado à loucura que os filósofos existenciais chamam acertadamente de “nojo”.

A fé na realidade além do tempo, num Ser além da existência, numa vida além da morte, é irracional e não discursivel. O que se esconde atrás do tempo, “a coisa em si”, “a alma imortal”, “Deus”, ultrapassa a vivencia e o conhecimento. É uma região da qual falam, tão-somente, os mitos, e estes deixaram de ser, há centenas de anos, instrumentos do espirito civilizado. Contudo, há uma visão imediata, uma fusão entre espirito e o “de tudo diferente”, alcançada na arte e na meditação disciplinada (geralmente inarticulada), e que Husserl tentou articular em sua fenomenologia. Graças a ela conseguimos vislumbrar, embora fugazmente, a realidade atrás do tempo.

Detenhamo-nos: não tem sido mencionada essa fusão ente espirito e “coisa” no decurso deste trabalho? Parti da fusão para iluminar o surgir do tempo. Volto a ela para iluminar o ultrapassar do tempo. Essa fusão, portanto, nada tem de místico, já que é o humos do qual brota todo conhecimento. A fé numa realidade extratemporal, baseada na fusão imediata entre espirito e coisa, não pode ser portanto, irracional, como quis parecer à primeira vista. Ela é irracional somente no sentido de ser anterior a toda razão. Digo mais: a fé numa realidade extratemporal, numa realidade somente além do tempo, forma, em ultima analise, a base de toda disciplina intelectual e espiritual, inclusive de todo conhecimento. Essa fé não pode ser portanto, extirpada. O tempo é, portanto, a forma pela qual o espirito humano se afasta de suas origens. O fim do tempo é a volta, talvez enriquecida, desse espirito para a sua origem. O tempo é o abismo que separa o espirito da “coisa”, do “de todo diferente”. É por isso que o tempo é quase insuportável, e é capaz de nos engolir, aniquilando-nos dessa maneira. E pode ser superado somente com a fé na imortalidade. Essa fé, conforme me esforcei por demonstrar, é indestrutível. A sua voz, no entanto, está sendo atualmente sufocada pela argumentação insistente e consistente da razão consciente. O problema é: continua essa voz ainda audível?

 

 

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“Foi o gato” por Elza Tamas

Koko, a gorila treinada na linguagem de sinais, durante um ataque de raiva arrancou e quebrou uma pia. Questionada pelos treinadores sobre a sua conduta, apontou para o seu animalzinho de estimação e sinalizou: “foi o gato”.

Nosso cérebro ancestral sempre utilizou a mentira como um recurso de sobrevivência. Usamos a mentira para nos qualificarmos, para seduzir, para não sermos punidos, para sermos educados e aceitos e muitas vezes nos mentimos tão eficientemente, que não somos capazes de perceber o nosso auto-engano. Judite mente muito. Mal me lembro do momento que ela resolveu escrever a carta, mas ela garante que eu estava presente.

Além de mentir, Judite tem métodos bastante heterodoxos quando quer explicitar uma verdade.

 Prezada Dona Martha,

Desculpe-me, mas vou ser direta. Seu marido Abílio, há cerca de quatro anos se relaciona com uma jovem de nome Paula. Não uma Paula qualquer, mas uma moça de 23 anos. Uma jovem que viaja com ele, com quem ele janta e se diverte sem medo de ser visto, como se fosse um homem livre. E com esta mesma jovem, dona Martha, ele pretende morar em breve.

Dona Martha, escrevo-lhe em nome da grande admiração que nutro pela senhora e sendo assim, me atrevo a lhe dar um conselho de amiga: se antecipe a ele, não se humilhe mais implorando por um amor que ele não merece. Não compartilhe desta farsa e em respeito à sua família considere a separação como a alternativa mais digna para uma alma como a sua. Só assim ele poderá valorizar o que perdeu. A senhora há de encontrar alento junto aos seus, ao decoro da sua conduta e a sua fé cristã.

Encaminhei esta mesma carta aos seus filhos para que eles saibam quem é na verdade o pai deles, evitando que a senhora fraqueje frente ao que deve ser feito.

Da amiga espiritual.

Sei que ela sorriu ao digitar a última frase, e que se sentiu tomada por um tipo de entusiasmo pueril.  Afinal não é todo dia que se pode mudar o destino de alguém.  “Da amiga espiritual”. As Donas Celestes de qualquer paróquia poderiam ter escrito esta carta.

Ninguém nunca saberia, e isto é o que importava. Éramos boas em guardar segredos, Judite mais do que eu. Em breve nos divertiríamos com as tentativas de Abílio em descobrir a boa samaritana que enfim, solucionava o seu dilema. Nenhuma transgressão ética, já que tudo foi feito em nome de um bem maior. Não ser descoberto numa mentira é o mesmo que dizer a verdade, dizia Judite que repetia Aristóteles. A ação eficaz e a motivação absolutamente correta trariam  bons resultados. Tive que concordar, cinco anos como analista de Abílio qualificavam Judite a atuar a seu favor. Ela chamava de “um ato de compaixão”, afinal Abílio tinha direito a viver sua história de amor; Dona Martha, a que nunca tinha dúvidas, que se encantasse com o divino.

Seu conflito era moral, (como deixar dona Martha?) e só poderia ter sido solucionado se uma terceira força atravessasse o caminho e desestabilizasse o prato da balança. Neste caso a terceira força foi Judite.

Todo mundo tem um gato. O meu se chama Judite.

 

 

 

 

 

 

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A maior mentira brasileira por Ruy Fernando Barboza

A maior mentira brasileira é Brasília. Aquilo (chame de labirinto, monumento, brinquedo, arapuca, utopia, absurdo ou o que mais quiser – cidade é que não é) já nasceu como uma múltipla mentira, e como mentira sobrevive.

Tenho amigos queridíssimos em Brasília, e que amam aquilo. Um deles, doutor em transporte urbano, revelou-me que, na opinião de muitos urbanistas, Brasília será abandonada no futuro, por ser inviável. Ficará apenas como patrimônio da Humanidade (o que já é – um símbolo muito bonito do lado incompetente da humanidade) e monumento a Juscelino (o que ela sempre foi). As pessoas terão de ir pra outro lugar – um que seja habitável.  Mesmo assim, meu amigo gosta de Brasília. Resisto um pouco a entender esse amor, mas o amor é assim mesmo, muitas vezes inexplicável. Não há pessoas que amam quem as espanca? Não há pessoas que amam morar no Alaska, na Sibéria, no alto do Himalaia, em Teresina, em Manaus, em plena selva, no deserto? Pois então, por que não em Brasília?

Haveria muito que falar, mas vou me limitar a poucas linhas e itens (se quiser saber mais, remeto você ao livro de 366 páginas “A Cidade Modernista”, do antropólogo estadunidense James Holston, publicado pela Companhia das Letras. O livro me ajudou a entender o engodo brasiliense, e baseia o que digo e cito aqui).

É mentira que Lucio Costa idealizou Brasília. O projeto que originou Brasilia – o de uma “cidade” vista como ideal, revolucionária e que tinha a pretensão de mudar as estruturas da sociedade, está (desde a década de 1920!) muito bem elaborado, em seu traçado e seus edifícios, por Le Corbusier e pode ser visto nos seus livros “Uma Cidade Contemporânea para Três Milhões de Habitantes” (de 1922) e “A Cidade Radiosa” (de 1930).

Este projeto foi consolidado como modelo, desde a década de 1930, pelo grupo de arquitetos e urbanistas denominado CIAM (a sigla vem de seus encontros periódicos, os Congrès Internationaux d’Architecture Moderne). O grupo, segundo afirma o próprio Le Corbusier em 1933, era composto por “sindicalistas catalães, coletivistas de Moscou, fascistas italianos e (…) especialistas técnicos de visão aguçada”. Nos seus manifestos e desenhos, está tudinho que Costa copiou. A começar pelo objetivo, explícito, de criar um novo tipo de cidade que criaria um novo tipo de sociedade, acabando com o capitalismo. Os planejadores de Brasília, assim, copiaram desde os princípios segundo os quais o planejamento urbano deveria levar em conta cinco funções da cidade: moradia, trabalho, lazer, circulação, e centro público (para a administração), e tudo isso baseado num zoneamento em que as funções se dividem em setores mutuamente excludentes em termos de ocupação territorial – gerando aquela maluquice que põe os postos de gasolina num extremo, as diversões em outro, a escola das crianças em outro, os restaurantes em outro, e por isso as avenidas larguíssimas separando tudo, e impedindo que se ande a pé.

O fato é que o projeto elaborado pela equipe de Le Corbusier e do CIAM é, com pequenas adaptações (a leveza do estilo da arquitetura de Niemeyer, por exemplo), o que é Brasília.

  

Estão lá os dois grandes eixos viários ( “para o tráfego de alta velocidade”, segundo o francês); as superquadras residenciais ao longo de um dos eixos; as áreas de trabalho ao longo do outro eixo; o centro público num lado do cruzamento dos dois eixos; e – se houvesse alguma dúvida – até mesmo o grande lago artificial para a area de recreação e o cinturão verde rodeando a cidade! Os croquis de Le Corbusier, de 1922 e 1930 não deixam margem a dúvidas, pois, repito, está tudo lá! E tudo isso foi escondido no “projeto” de Lucio Costa, que apresenta o plano como surgido espontaneamente, e fechado em si. Como uma idéia genial, em que muitos acreditam até hoje.

Outra grande fajutice foi, ao que tudo indica, o próprio “concurso” para a escolha do projeto de Brasilia. Não houve propriamente um concurso. A não ser formalmente. Houve um edital,um júri e concorreram 26 escritórios de arquitetura e urbanismo. Holston dá um exemplo de por que outros projetos, na justificativa do júri, foram rejeitados. A respeito do plano do escritório MMM Roberto, o júri reconheceu que nunca no mundo fora feito “um plano mais abrangente e profundo para uma nova capital em sitio aberto”, mas seria preciso gente demais para executá-lo! O plano do ecritório MMM Roberto tinha “séries de plantas, volumosas projeções estatísticas sobre crescimento populacional e econômico, além de planos detalhados para a administração e o desenvolvimento regional”. Talvez se esse tivesse sido o plano escolhido, o Distrito Federal não seria hoje o desastre que é – um Plano Piloto onde a renda media dos habitantes é uma das maiores do mundo (paga por nós, contribuintes brasileiros) e onde não há pobres, pois estes só podem habitar os imensos favelões das cidades satélites, dominadas pela miséria, o banditismo e a violência.

 JK e Lucio Costa

O representante do Instituto dos Arquitetos do Brasil rompeu com o júri e declarou, na época (1957) que um júri sério jamais teria aprovado o “plano” de Lucio Costa, que mais parecia uma grande brincadeira.

Lucio Costa apresentou, conta Holston, apenas “cinco cartões contendo quinze croquis a mão livre e um breve texto de 23 itens”.

E mais: “nenhuma linha de desenho técnico, nenhuma maquete, estudos de uso da terra, mapas demográficos ou esquemas para desenvolvimento econômico ou organização administrativa – em suma nada senão a idéia”(ainda por cima copiada, como vimos) “de uma capital”!  Mas o júri se declarou encantado com o malandro texto de Costa, verdadeira poesia, “lírica e impactante”.

Deu no que deu.

RUY FERNANDO BARBOZA , jornalista, psicólogo e advogado, é editor de Texto da revista Retrato do Brasil. Como psicólogo, formou em Brasília, nos anos 90, monitores para um programa de apoio emocional a pacientes de câncer e familiares. Dirigiu em Brasilia a Rádio e a TV Justiça, do Supremo Tribunal Federal, em 2010, por cinco meses. Mais não agüentaria. Espera não ter de ir de novo ao Distrito Federal, a não ser para ver os grandes amigos que tem lá – e que gostam de Brasília.

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O nono círculo do Inferno de Dante por Maria Elisabeth Montagna

“Ao meio do caminho de nossa vida, me encontrei em uma selva escura, onde a via direita estava turvada” – este verso inicia a viagem de Dante Alighieri, através do Inferno, Purgatório e Paraíso,  narrada em sua obra “A Divina Comédia” , do século XIII

Neste primeiro verso ao falar sobre o meio do caminho de nossas vidas, Dante refere-se à idade culminante de um homem, os trinta e cinco anos. A selva escura de Dante refere-se à selva errônea da vida, os labirintos do pecado e o seu extraviamento individual.

Na jornada do Inferno, Purgatório e Paraíso, Dante tenta reencontrar a via direita, reta. No Inferno encontra o que de pior povoa os desvios humanos e faz seu julgamento moral, colocando em cada um dos círculos descendentes do Inferno, os erros cometidos pelos homens

No último e mais impiedoso círculo, o nono, os traidores são condenados a, paradoxalmente, enfrentar o mais gélido frio – “ Ao pranto o mesmo pranto ali contende/ e a lágrima detida sobre o cilho,/ em gelo transformada, a dor estende,/ tornando-se terrível empecilho:/ param as lágrimas e aumenta a dor” (1)

A traição, quebra da fidelidade prometida e da palavra empenhada, do distanciamento da virtude, inclui a mentira e vai para além dela: “Que preso fosse e morto não memoro, / por sua maldade eu nele confiando,/ não há quem dizer possa: ‘Eu isto ignoro’ (2). Para Dante, o amor ao próximo é o vínculo natural que deve unir o homem a seu próximo. A falsidade, mentira, a quebra da confiança são suficientes para que o amor incondicional ao próximo, virtude de todas as virtudes, sejam punidas com castigos do Inferno. A conduta do homem deve ser regida pela busca da beatitude. A mentira é inaceitável e destrói a retidão humana. A escuridão, o abandono, o medo, a desesperança são a condenação para aqueles que faltaram com a verdade. É interessante notar que Dante condena aqueles que mentem tanto para os outros como para si mesmo. A correção, força interior e o caráter de um homem não devem ser desviados  jamais do caminho da verdade: contraponto entre a sombra e a luz.

Dante, ao condenar os traidores ao pior dos expurgos inclui aqueles que além da mentira traem a pátria, os traidores de seus hóspedes e daqueles que foram seus benfeitores. Mas, comum a todos perpassa a grande traição cometida a si mesmos: o afastamento das virtudes, onde o homem deve buscar na Natureza e  nas Artes o modo de permanecer na direita via.

 

Referências:

1 e 2) Divina Comédia/ Dante Alighieri; João Trentino Ziller, tradução e notas. Editora da Unicamp, 2010 – Coleção Clássicos Comentados – Inferno, Canto XXXI, pag 203

 

Assista aqui um trailer de “Abandon All Hope” a história do Inferno de Dante, narrada por  mais 15 artistas  e estudiosos dos Estados Unidos e da Itália

Fotos por ordem de apresentação

Domenico de Michellino – Dante e os  3 reinos da Divina Comedia

Gustavo Doré

Botticelli

Gustavo Doré

 

Maria Elisabeth Montagna é doutora em Psicologia Clínica Pela PUC/SP e é  estudiosa e admiradora da obra de Dante Allighieri

 

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O buraco negro da imagem verdadeira por Georgia Quintas

“Toda fotografia é uma ficção que se apresenta como verdadeira. Contra o que nos inculcaram, contra o que costumamos pensar, a fotografia mente sempre, mente por instinto, mente porque sua natureza não lhe permite fazer outra coisa.”

Joan Fontcuberta

 

Em um dia langoroso, percebi que a fotografia era um consolo. Alguns retratos de família, de viagens, de parentes mortos, de bebês nonsense com seus olhares vãos, de certa forma sibilaram para mim a dimensão simbólica da fotografia que me acompanha até hoje. Confesso que esta lembrança já se faz turva e eu, menina, não entendi muito bem o significado daquela experiência. Decerto, instaurou-se um estado de espírito entremeado de desejo, cobiça e encantamento com relação às imagens.

Com a imagem fotográfica somos, frequentemente, solapados pela força de um possível testemunho de algo em certo espaço e em certo tempo. Embora tudo o que vemos na fotografia seja visível; é, contudo, em seu nicho mais velado e incógnito que encontramos verdadeiras significações. É justo no espírito entremeado de desejo em imaginar que percebemos novas realidades.

Discordo daqueles que acreditam que a fotografia é uma cópia fiel da realidade. Não é. A firmeza do meu credo encontra vazão na obra teórica O beijo de Judas – Fotografia e Verdade (Editorial Gustavo Gilli, 2010),  do fotógrafo catalão Joan Fontcuberta.

O beijo de Judas é um daqueles livros inspiradores que nos ajudam a compreender as sutilezas e simulacros inerentes à fotografia.  Nem tudo que reluz na superfície imagética é real, assim como nem tudo que pensamos a partir dela é consequência de um mecanismo realista, verossímil, de uma verdade visual e cândida. É com precisão argumentativa que Fontcuberta discorre sobre esse buraco negro da imagem verdadeira. Ele nos apresenta várias facetas sobre o amálgama entre mentira e ficção.

Foto: Fontcuberta

Num estado de espírito entremeado pelo desejo de viver fotografias, as evidências se colocam como pistas para o devaneio. Não estaria falseando ao dizer que a fotografia é interseção de prazeres, vontades, volúpias, afeto, ressurreição e fantasia. Já não contemplo aqueles álbuns da infância há algum tempo. Fico com a memória retida daquele momento o qual persiste em alimentar minha imaginação. Quem sabe, ao revê-las serei traída por fantasmas do que pensava ter visto…

Foto João Castilho – série Temperos - 2009

Sigo com a ideia da fotografia sentida muito mais como materialização de uma experiência do olhar. Esse é meu consolo, absoluto desejo de seguir outros mundos e sensações.

 

Georgia Quintas é professora e pesquisadora no campo da teoria, filosofia e crítica da imagem fotográfica. Doutora em Antropologia pela Universidade de Salamanca (Espanha), mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pós-graduada em História da Arte pela Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP/SP. Atualmente, é Coordenadora da Pós-graduação em Fotografia da Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP/SP. Autora do livro “Man Ray e a Imagem da Mulher – A vanguarda do olhar e das técnicas fotográficas” (CEPE, 2008).

Site com textos críticos: Extraquadrohttp://www.olhave.com.br/extraquadro

 

foto do banner:  André Kertész – Polaroids -1979

 

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Pinóquio e o mentiroso em nós por Alex Cerveny

No começo, acho que entendia a mentira apenas como uma mera estratégia de sobrevivência(“- Já tomou banho?  -Tomei!”…), mas, com o tempo, percebi que mentir também nos ajuda a obter recompensas preciosas, tais como prazer e vingança.  Penso que todos nós que sobrevivemos aos horrores da infância e às infâmias da adolescência, obtivemos tal êxito porque aprendemos a mentir com convicção. E assim nos tornamos crianças mais adequadas e adultos mais bem preparados para enfrentar o mundo real.

Ler e ilustrar o Pinóquio de Carlo Collodi, na tradução de Ivo Barroso foi uma redescoberta. Não apenas quanto ao texto, sem cortes e original. Mas também pelas frestas que se abriram nele, para que eu reencontrasse na memória as minhas primeiras estripulias e atos inconfessáveis. Este trabalho fez com que eu me projetasse em muitas das cenas apresentadas, algumas vezes próximas dos vestígios de minha própria, (ou de qualquer) infância e das fantasias vividas no processo de metamorfose para a vida adulta.

Este Pinóquio completo, que pode ser subentendido também como um “manual de conduta para meninos”, é bem diferente das histórias educativas de Heinrich Hoffmann reunidas em Der Struwwelpeter anos antes. Collodi junta tudo em uma galopante narrativa e ainda acrescenta importantes ingredientes morais e sentimentais. Contém um oceano de possibilidades para o ilustrador.

Seu mundo é um lugar mágico, e como tal, é cheio de armadilhas perigosas para uma presa perfeita como Pinóquio. Ele fala demais, não escuta, é exibido e não suporta ser contrariado. É ingenuo, impaciente e não pensa antes de agir. Suas mentiras frágeis não convencem enquanto boneco, e talvez o objetivo maior, por trás do “tornar se um menino de verdade”, seja justamente o desejo de aprender a mentir de uma maneira convincente.

Foi em setembro de 2011, depois de quase um ano de tentativas, de busca de um traço e de um formato para o boneco e seu mundo mágico, que eu achei que este Pinóquio poderia se “revelar” através do cliché-verre.

Neste procedimento híbrido, meio gravura e meio fotografia, as imagens foram desenhadas em chapas de vidro coberto de fuligem, e depois reveladas. Resultam de um artesanato onde quase não existe atrito, porque a agulha desliza na superfície do vidro removendo a fuligem sem nenhuma resistência. A luz que atravessa o negativo de vidro grava a imagem no papel. O resultado traz um pouco da atmosfera e da textura dos calotypes do século dezenove.

A partir daí, em poucas semanas Pinóquio foi “revelado” em cerca de sessenta imagens e entregues quase diariamente. Não foram feitos esboços preliminares, e tive que fazer muito poucas correções; assim, penso que estes clichés contém bastante sinceridade.

É preciso admitir que fiz uso de um novo instrumento para a execução desta série, uma lupa, que me permitiu fazer com mais conforto e precisão todas as caligrafias e filigranas, e a enxergar as miudezas do desenho, como na juventude.

 

 

Alex Cerveny nasceu em 1963, em São Paulo, onde até hoje vive e
trabalha. Sua formação aconteceu principalmente nos ateliers de dois
artistas: Valdir Sarubbi e Selma D’affrè, com os quais estudou desenho
e gravura; e para os mesmos, trabalhou como assistente entre 1979 e
1984. Expõe regularmente desde 1982. Seus desenhos, gravuras, bronzes,
azulejos e pinturas estão sempre carregadas de história.
Paralelamente, realizou atividades ligadas ao ensino livre da arte e à
contínua produção de desenhos de ilustração para jornais, livros e
revistas.

http://casatriangulo.com/pt/artista/3/trabalhos/1/

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As traças não comem mingau por André Gravatá

Contamos menos mentiras para os outros do que para nós. Mentimos por dentro para continuarmos na nossa zona de conforto, que nem sempre é aconchegante, mas produz uma sensação de segurança. A zona de conforto é nossa segunda mãe. Se pudesse, ela nos beijaria à noite e nos alimentaria com mingau.

Mentimos em prol da preservação da identidade que construímos, numa tentativa de nos agarrarmos aos fios de vida que pendem no ar. Inventamos um mundo em nós e daí seguimos uma trajetória curva com a fixação de reafirmá-lo. Mas sabemos, no mínimo desconfiamos, que grande parte das nossas certezas estão roídas por traças. Convivemos com traças dentro de nós, mais até do que órgãos. Enquanto as traças destroem as certezas, muitos continuam imponentes, inebriados pela caixa em que entraram.

Deixe as traças consumirem parte de você. Parte de você é mentira que você nem sabe que é.

Colabore com o trabalho das traças, catalise os processos de corrosão – dói menos do que parece.

As traças não comem mingau, preferem corroer artefatos de lã, seda, peles e certezas. Há algumas traças que carregam o casulo nas costas, como a maioria de nós. As traças com casulos nas costas gostam de ouvir música clássica e forró. Se elas estiverem corroendo suas certezas num ritmo vagaroso demais, adicione músicas energéticas no seu iPod, inclusive as que aguçam seus preconceitos – Michel Teló entra na playlist –, daí o trabalho das traças será mais rápido.

Contamos menos mentiras para os outros do que para nós. Mas não contamos mentiras para as traças que vivem em nós. Elas são surdas. Aliás, as traças nem têm ouvidos, apenas olhos verdes. Ou você não sabia que as traças têm olhos verdes? Elas roem tantas mentiras que acabaram criando uma proteção no olhar, um musgo carnívoro que carcome cada migalha de certeza, inclusive os caroços das migalhas. As bases da mentira afundam na floresta ocular das traças.

Conheci uma das traças que morava em mim. Ela não tinha nome, os pais não a batizaram. No mundo das traças há tanta burocracia que batizar os filhos se tornou uma via crúcis – inclusive a taxa de natalidade no mundo das traças tem diminuído, outro problema sério, que será tema de um texto futuro. Em questão de dias a traça se tornou minha amiga. Sempre que encontrava uma mentira minha, ela me cutucava por dentro, um sinal de advertimento que me deixava com azia.

Nas sextas-feiras, às vezes a convidava para beber cerveja comigo, então ela me contava detalhes de todas as falsidades que estava inventando para mim mesmo. Ficava impressionado. Não só com a quantidade de mentiras internas, mas também com o volume de cerveja que a traça bebia.

Tinha receio de que ela voltasse a ocupar meus interiores ainda bêbada – e então começasse a destruir minhas verdades. Certa ocasião, pensei alto demais e a traça captou meu receio com suas antenas. Colocou o copo na mesa do bar e disse: sua maior mentira é achar que você tem verdades. Bebi mais um copo, voltei para casa e dormi com a televisão ligada. Quando durmo, a traça começa a trabalhar. O ronco é o barulho que a traça faz dentro de nós – os médicos ainda teimam em dizer que se trata apenas de questões respiratórias. Deixe as traças consumirem parte de você. Parte de você é mentira que você nem sabe que é.

 

André Gravatá, 21 anos, é jornalista, colaborador de revistas como Vida Simples e Superinteressante. É especialista em traças e desdoutor pela Universidade do Espanto Diante da Vida. Idealizador do [email protected]

www.tedxjovemibira.com

 

 

 

 

 

Imagens: Thiago Martins (www.flickr.com/photos/thiagomartins, foto da home)

“O Terraço do Café na Place du Forum, Arles, à Noite”, 1888, Van Gogh (foto acima)

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O pretérito imperfeito por Elza Tamas

Minha memória mais remota inclui duas chupetas que se alternam na minha boca, uma salada de alface temperada com açúcar e um desconforto, daquele que anuncia que alguma coisa muito grave está por acontecer. Tenho três anos de idade.

As lembranças se confundem com os relatos orais: noite de trovoadas, o pau da cortina caindo sobre a cabeça da minha mãe bem na hora do parto, meu avô de chinelos caminhando pelo quintal para enterrar a placenta no jardim. Uma coisa de cara amassada no meu colo que eu não tardei em descobrir que se tratava do meu irmãozinho, o primeiro banho, a família reunida e feliz. Memórias em preto e branco como são os registros fotográficos da época.

Minha mãe garante que eu estava na casa da outra avó, a paterna, e que seguramente não comi alface com açúcar, nem presenciei o parto, nem o desastre da cortina, mas meu desatino mnêmico insiste em me colocar na situação, espreitando. Inventei uma cortina florida, um rosto de dor, o alvoroço no quarto e até o choro do bebê nascendo.

Falsa memória. Um relato aqui, uma lembrança ali, fotos e um tanto de imaginação no meio.

Um amigo justificou uma série de fracassos em sua vida, em função de um episódio bem traumático na infância. Uma vez em família, se encheu de coragem para falar sobre o assunto e pasmem!, o tal fato tinha acontecido, mas não com ele e sim com seu primo.

Em termos psíquicos tanto faz se o registro é fabricado ou real, porque real é o que vivemos subjetivamente. Não temos um olhar ingênuo sobre a realidade, ela nunca nos é original. Nossos filtros pessoais criam e retroalimentam nosso rastro de memória, o que chamamos de nossa história, nossa identidade.

Somos na natureza os únicos seres autobiográficos. Narramos e nos narramos incessantemente, criando a sensação de uma experiência coerente, contínua e de tempos distintos.

Meu pai não se conta mais desta forma. Para ele, duas cidades distintas podem atravessar a  mesma sala de jantar, duas pessoas diferentes podem ocupar o mesmo corpo e  vinte, trinta anos se pulverizam da sua cronologia depois de um passeio no parque. Fenômenos observáveis apenas no mundo onírico. Acho que meu pai vive na 4ª. dimensão.

 

(e seus olhos, não eram quase verdes? Minhas mãos se lembram de uma cicatriz grande no seu corpo – elas não sabem onde, desculpe, jurei nunca esquecer a data do seu aniversário, o tempo engoliu minhas promessas. Esqueci, porque há muito tempo parei de nos relatar.)

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“Cinema, sonho, memória: uma coisa só?” Por José Geraldo Couto

O cinema e a memória se entrelaçam de inúmeras maneiras.

Ao registrar em imagem (e eventualmente também em som) uma determinada ação, um determinado espaço, um determinado ser, não importa se num documentário ou num filme de ficção, o cinema ajuda objetivamente a preservar a memória, a derrotar o esquecimento.

Num nível íntimo e prosaico, o cinema se vincula à memória afetiva de cada espectador. Filmes que nos causaram impacto ou encantamento quando vistos pela primeira vez tendem a evocar aquele mesmo momento primordial, aquele mesmo estado de espírito, toda vez que os revemos ou relembramos. Um nos remeterá a infância, outro fará aflorar a presença de um amor, de uma amizade, de uma descoberta.

Mas cinema e memória estão ligados num sentido mais profundo. Muita gente (em especial Edgard Morin em O cinema ou o homem imaginário) já mostrou as similitudes entre a linguagem cinematográfica e a linguagem onírica, em termos de construção narrativa. Assim como o sonho, um filme comprime e distende livremente o tempo, permite deslocamentos ilimitados no espaço, bem como mudanças bruscas de ponto de vista. Em ambos, as situações mais triviais podem ser investidas de intensa emoção.

Ora, a memória é uma elaboração narrativa com o mesmo caráter dúctil, maleável, modular. Ela se constrói em sequências mais ou menos autônomas, que se juntam e combinam de acordo com o desejo daquele que recorda.

Inúmeros cineastas, assim como inúmeros escritores, buscaram expressar de algum modo a matéria fugidia, inapreensível, da memória. Alguns exemplos óbvios de filmes que explicitam essa busca são Cidadão Kane, Rebecca e as várias tentativas, todas mais ou menos frustradas, de adaptar Em busca do tempo perdido, de Proust – a obra literária máxima em torno do tema.

Mas, a meu ver, os cineastas de primeiro time que mais se dedicaram a essa tarefa impossível, e que mais se aproximaram do êxito, foram Alain Resnais e Federico Fellini, por vias, temas e estilos totalmente diversos. Boa parte da cinematografia desses dois gigantes mergulha na memória e seus desvãos, Resnais por um viés mais lógico-analítico, Fellini de modo visceral e intuitivo. (Não que não haja intuição em Resnais, ou inteligência lógica em Fellini, mas só para marcar as linhas gerais.)

E, dentro da obra dos dois, os filmes que talvez tenham mergulhado mais fundo no poço da memória são Hiroshima meu amor

e Amarcord  

 

Obras-primas literalmente memoráveis.

 

José Geraldo Couto é jornalista, crítico de cinema e tradutor. Escreveu os livros André Breton – A transparência do sonho (Brasiliense), Brasil: Anos 60 (Ática), Florianópolis (Publifolha) e Futebol brasileiro hoje (Publifolha). Mantém uma coluna de cinema no blog do Instituto Moreira Salles: http://blogdoims.uol.com.br/jose-geraldo-couto-no-cinema/.

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“Congado e os ritos da memória” por Alex Salim

Congado é uma das manifestações de cultura e de fé mais populares no Brasil.

Antônio Pires, um jesuita importante da época, foi um dos primeiros a descrever, em 1552, que os negros africanos de Pernambuco se reuniam, com frequência, em congregações e organizavam procissões religiosas, das quais os brancos não participavam.

O lendário escravo, Francisco da Natividade, conhecido como Chico-Rei, foi um dos responsáveis pela fundação do Reinado de Nossa Senhora do Rosário, em Ouro Preto, MG.

Chico-Rei também foi responsável pela construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, santa católica protetora dos negros

Com uma igreja própria, os negros escravos podiam, então, orar e organizar suas procissões. Usavam seus instrumentos musicais

e podiam então dançar, cantar.

Nesta manifestação, que acontece desde aqueles tempos até os dias de hoje, os componentes do congado usam trajes especiais para representar seus ancentrais

 

 

 

 

 

 

 

Um rei e uma rainha, um príncipe e uma princesa, embaixadores e outros representantes negros estão sempre presentes nesta manifestação.

 

 

 

 

 

 

 

 

Com características e datas próprias de cada região, o Congado é festejado em quase todos os estados brasileiros, mobilizando multidões de congadeiros e admiradores. Mas é em São Paulo e, principalmente, em Minas Gerais que encontramos o maior número de grupos ou guardas de Congado, o que tem garantido a continuidade desta tradição cultural até os dias de hoje.

 

pesquisa de texto: Mauro Eustáquio Ferreira

Aqui um trecho da palestra de Alex Salim no festival divino reinado

aqui uma apresentação de congado

 

Mineiro, Alex Salim é fotógrafo documental e viveu na cidade de São Paulo por quase 30 anos e atualmente mora no Rio de Janeiro. Há mais de 20 anos, desenvolve projeto para divulgar aspectos da cultura negra ainda pouco conhecidos nos grandes centros do Sudeste, visando preservar a identidade cultural étnica. Participou de exposições em centros culturais do Brasil, Dinamarca, Itália e Inglaterra. Além disso, tem diversas publicações em veículos nacionais e internacionais, como a Time -USA e a Panorama – Panamá, Cinco livros de arte, autorais além de ter participado de centenas de livros didáticos e paradidáticos.

 

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“O segredo do sucesso” por Paulo Markun

Sempre achei que a memória só piorasse com a idade. A minha, particularmente, é como aquelas câmeras polaroid (alguém se lembra?): no instante seguinte, como num passe de mágica, oferece uma foto nítida, colorida e brilhante. Mas se você guarda o retrato na gaveta e o apanha meses ou anos mais tarde, terá, quando muito, uma imagem esmaecida, pálida, quase incompreensível.

Foi, portanto, com alguma surpresa que fiquei sabendo que cientistas da Universidade Saarland na Alemanha acabam de demonstrar que os adultos tem maior capacidade de identificar a origem das memórias. Do ponto de vista prático, o trabalho só serve para colocar em dúvida o depoimento de crianças nos tribunais, por exemplo, já que eles seriam mais sensíveis aos erros e à manipulação, tomando a nuvem por Juno, como Ixião, o mitológico pai dos centauros.

No território não menos fantástico das minhas lembranças, elas agora deram para aparecer emboladas como um spaghetti cozido em pouca água – e não há garfo que as desembole. Tanto surge o primeiro pedido de namoro – cruelmente rejeitado 24 horas mais tarde por uma certa

Edna (lembro o sobrenome, mas omito propositalmente), como os afluentes da margem direita do Amazonas, decorados no tempo do vestibular: Javari, Juruá, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu. Quer os da esquerda? Içá, Japurá, Negro, Trombetas, Paru e Jari.

Na bagunça desse armário embutido, como diria o Chico Buarque, surgem, em câmera lenta, a descida da rampa da minha casa sobre a bicicleta com freio de pé que não soube manejar, o portão de ferro que barrou a viagem graças a meu nariz, a primeira trombada de carro, numa noite chuvosa em que pneus carecas não deram conta do recado, a folha de papel almaço em que tive de descrever o temperamento de um amigo preso.

Há boas recordações, é claro: o prazer de fisgar um peixe grande em alto mar, um pôr do sol no mar do Caribe ou em Santo Antônio de Lisboa, o espanto dos filhos ante o vulcão de areia que aprendi com meu pai, um jantar-supresa em Brasília…Outras lembranças ficam num território duvidoso, do bom que é ruim ou vice-versa. Como a amidalite que me tirava da escola ou a rajada de vento que fazia voar – e pender assustadoramente o pequeno veleiro em que me imaginava um novo Amyr Klink.

Entre acidentes e incidentes, brilha uma noite ao relento em Casemiro de Abreu, no Estado do Rio.

Puxando pela memória, lembro da multidão encarapitada no morro afastado da cidade, olhando o céu cheio de estrelas, em busca de um disco voador – e a luz dos isqueiros acendendo cigarros logo passados de mão em mão.

Fui buscar o registro racional e imutável daquela noite num recorte amarelado e encontrei isto:


PM executa “Operação Ufo” nas estradasMilhares à espera do “disco” hoje em Casimiro de AbreuReunidas na Fazenda Nossa Senhora da Conceição, em Casimiro de Abreu, a 135 quilômetros do Rio, milhares de pessoas de várias regiões do País aguardam a descida hoje, às 5h20m da madrugada, de um disco voador, anunciado por Edílcio Barbosa, que se diz “mensageiro de Júpiter”.Junto à BR – 101, multiplicam-se os ambulantes e barracas que vendem frutas, refrigerantes, sanduíches, maçãs-do-amor e bugigangas – bebidas alcoólicas foram proibidas pelo delegado Heralmir Ramirez.Foi constituída uma “Comissão de Recepção” para receber os seres extraterrenos, presidida por Edílcio Barbosa, que entretanto está desaparecido há dois dias. Membros da Comissão afirmam que ele está “em retiro”, concentrando-se para a comunicação com os tripulantes da nave. Ele não tem hora para reaparecer.

A fazenda e suas imediações estava ontem ocupada por soldados da PM – um reforço veio de Magé – jornalistas, membros de um grupo “Fios 8 de março”, que organizou a recepção ao disco, centenas de vendedores e uma multidão de curiosos.

O camelô Luís Gutemberg, o Baiano, veio de Magé, para vender uma centena de binóculos, a Cr$1 mil, e pequenos robôs movidos a corda, que custarão Cr$200 ou “até Cr$500, se o momento estiver bom”.

O portão que veda a pequena estrada de acesso ao “campo de pouso” continua fechado e cadeado. Ontem ele foi aberto para que uma patrulha da PM fosse até o local desalojar alguns curiosos que haviam se instalado por antecipação; e investigar o furto dos documentos de Mauro Ismard, que dormia sob uma árvore.

De manhã, membros da “Comissão de Recepção” estiveram reunidos com a imprensa, para estabelecer normas de conduta e segurança, como se o disco fosse mesmo descer. Repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, depois de receberem credenciais fornecidas pelo “Fios 8 de Março”, foram informados pelo major Paulo Guedes (da “comissão”) de que deverão ficar num platô, aberto a trator, a 300 metros do “campo de pouso”. A distância tem uma “explicação científica”, segundo Manoel Cirne Rocha, integrante da Comissão e que se diz engenheiro: é que, segundo ele, a intenção radiação emitida pela nave – de 60 metros de diâmetro e 38 de altura, conforme “descrição” de “viajantes” – velaria os filmes de fotógrafos e cinegrafistas a menos de 300 metros. Abaixo do platô, ao nível do “campo de pouso”, ficarão os convidados, todos credenciados pela Comissão.

Ontem a Polícia Militar anunciou que intensificará o patrulhamento nas rodovias 104, 106, 124 e 162 e nas imediações de Casimiro de Abreu, colocando em estado de alerta os Postos 1, 2, 3, 4, 5 e 18, no que classificou de Operação Ufo, para prevenir a possibilidade de qualquer tumulto. O esquema de segurança procurará atender a quaisquer ocorrências em bares, postos de gasolina e outros locais públicos. A nota diz que o 7º BPM fará o policiamento com um contingente de cerca de 180 homens, sob o comando de um capitão, e que a fazenda será interditada, só sendo permitido o acesso à imprensa e convidados.

Os primeiros policiais chegaram num ônibus e em dois camburões e logo foram impedindo a entrada de carros na fazenda. O capitão Sidney informou que mais tarde chegariam outros 130 homens e ambulâncias, com soro antiofídico e medicamentos para atendimento de urgência.

Apesar da presença policial, e prefeito Céli Sarzeda não está tranqüilo, temendo “um linchamento como o de Cantagalo, se o disco não pousar”:

– Se aparecer, tudo bem. Mas se não desce, o povo é capaz de arrebentar tudo. Estou torcendo para que não venha muita gente. Acho ótimo que emissoras de rádio do Rio digam que há gente demais, que não há mais comida nem água, porque assim o pessoal não sobe até aqui.

O prof. Neves Gurgel, do Rio, compôs um Hino-saudação, para ser cantado “no momento da chegada dos extraterrenos”. O coro diz: “Vem do Alto o caminho que faz/Do Cosmos a substância e a luz/Do planeta do Bem e da paz/Prá ventura a todos conduz”.

D. Pérola, uma das integrantes da “Comissão de Recepção”, dizia ontem, a um repórter cético, que os pensamentos negativos não facilitam o pouso da nave, “que é sempre precedido por uma intensa vigilância por parte dos jupiterianos”. Já d. Esmeralda Xavier de Castro, diretora da Sociedade Interplanetária do Rio de Janeiro, não tem nenhuma dúvida:

– O disco vai descer, porque chegou a hora da verdade. Os jupiterianos acham que estamos perto do fim do mundo e querem divulgação total. Por isso há tanta imprensa aqui. Eles sabem que, se aparecerem para meia dúzia, o governo abafa tudo. Quero ver como calar essa multidão.

Esmeralda explicou que Edílcio Barbosa não pertence a nenhuma sociedade ou religião:

– Ele tem contato direto com Júpiter. É sozinho, não está ligado a ninguém.

A Comissão de Recepção foi formada pelo próprio Edílcio, “a partir de nomes indicados pelos jupiterianos, há três meses”. Depois, os primeiros selecionados indicaram outros e chegou-se a um grupo de pelos menos 30 pessoas.

O prefeito Célio Sarzeda diz que “entrou na história só para garantir a ordem e a tranqüilidade”. Entretanto, suas palavras de descrença são desmentida por um ofício que enviou à Enciclopédia Britânica, solicitando a doação de uma Enciclopédia Mirador Internacional, avaliada em Cr$70 mil, para ser presenteada aos visitantes extraterrestres. O pedido foi atendido e a Prefeitura ganhou a obra do vendedor Antônio Paulo Andreazzi. O ofício do prefeito, nº 073, de 5 de março deste ano, é o seguinte:

“Prezados Senhores

“Conforme tem sido amplamente divulgado pela imprensa, uma sociedade ufológica informa que n

o próximo Sábado chegará a esta cidade um disco voador, trazendo 4 (quatro) pessoas que retornam a este Planeta.

“A Comissão está organizando uma recepção oficial para o caso de efetivamente ocorrer este evento. Nessa hipótese, seria indispensável a doação de algum presente para os jupterianos e nada melhor que uma enciclopédia (sic) que contenha informações sobre os mais diversos aspectos da vida no nosso planeta.

“Sabedores que a Mirador Internacional é a mais ampla obra de referência existente no país, tomamos a liberdade de solicitar uma coleção da Enciclopédia Luxo Branco Imperial, que assim seria o presente oficial deste planeta ao povo visitante.

“Deixamos claro que esta Prefeitura se empenha em efetuar a doação, caso efetivamente se consume a chegada do disco voador; caso contrário essa enciclopédia reverterá a nossa Biblioteca para utilização do povo desta cidade.

“Agradecemos a atenção dispensada ao nosso emissário junto a esta empresa que manteve os contatos iniciais.

CÉLIO SARZEDAS – Prefeito”.

O recorte de 8 de março de 1980 está guardado num álbum. Não há nada do dia 9. O disco não pousou é claro. E o repórter, hoje menos cético, gostaria muito de ter escrito a segunda matéria. Que O Globo não publicaria naquela época, tenho a impressão.

 

Como diria meu velho colega de redação da Folha de S. Paulo, Carlos Rangel (Antonio Carlos Carpi Rangel, buzina algum neurônio), o segredo do sucesso é a má memória. Velho jornalista metido a galã, cabelo aplastrado com Gumex, sempre às voltas com uma paixão impossível e uma pauta incômoda, atribuía essa frase a Ava Gardner. Faz sentido. O segredo do sucesso é a má memória…e alguns retoques.

 

Paulo Markun nasceu em São Paulo, em 1952. Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Por dez anos, apresentou o Roda Viva da TV Cultura. Presidiu o Santacine, Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de Santa Catarina, onde vive desde 1998 e a Fundação Padre Anchieta, responsável pela gestão da TV Cultura, Univesp TV, Multicultura, Cultura Brasil e Cultura FM. Markun criou veículos de comunicação (Pasquim São Paulo, Imprensa, Radar, Deadline, Jornal do Norte); escreveu treze livros, dirigiu vários documentários e vídeos. No momento, trabalha como consultor da Unesco na reformulação da TV Escola do MEC. Criou o   Brado Retumbante, projeto multimídia que resgata a história da luta pela democracia. Prepara uma série de documentários sobre arquitetura para o SESCTV. Em razão de sua larga experiência como jornalista e apresentador, Paulo Markun atua frequentemente como mediador e mestre de cerimônias.

http://markun.com.br/memoriacoletiva/

https://www.facebook.com/#!/BradoRetumbante

http://paulo.markun.com.br/

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“Memória e memórias” por Lívia Garcia-Roza

Caso o passado se atualizasse a cada momento, nossa vida seria invadida por uma avalanche de lembranças que mal teríamos condições de suportar. Assim, podemos dizer que a principal função da memória é esquecer, e não, lembrar, sobretudo se aceitarmos a tese de que o passado se conserva integralmente.

Esquece-se portanto não por deficiência, mas por eficiência.

Foto Fernando Lemos – auto retrato

 

 

Quando morávamos em Icaraí, todas as noites meu pai ia verificar a altura da água da cisterna. Levava o flash light (como ele chamava a lanterna), e um dos filhos pra segurar a tampa. Quando chegava a minha vez eu olhava para o céu, e a noite tinha olhos azuis.

 

 

 

Livia Garcia-Roza nasceu no Rio de Janeiro e é psicanalista, pós-graduada em psicologia clínica, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estreou na literatura em 1995, com o romance Quarto de menina, que ganhou o selo altamente recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Desde então lançou vários outros romances, livros de contos e infanto-juvenis; entre os quais Meus queridos estranhos, Cartão-postal, A cara da mãe e A casa que vendia elefante. Ora trazendo histórias cotidianas, ora situações extraordinárias ou dramáticas; a prosa de Livia sempre imerge nas emoções humanas, com extrema delicadeza e profundidade. A autora é casada com o também escritor e psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza.