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OS VELHOS ANDAM OLHANDO O CHÃO por Elza Tamas

 

Atualmente são duzentos e dezessete; eram, ao menos na última contagem. Há alguns meses ainda se podia nomeá-los, guapa, bento, gertrudes, era divertido encontrar uma característica e deixá-la tomar o lugar do todo, preta, simpática, caolho, zé mané. Pensamos até em usar as letras do final do alfabeto, como faz a indústria farmacêutica quando quer mostrar que um remédio é de última geração. Chegamos a um wykuxt impronunciável, que rapidamente virou vivi. Depois do quinquagésimo, nossa criatividade se esgotou.
As duas antigas, mãe e filha, agora são lentas e meio surdas, devem estar demenciando, às vezes surpreendo uma ou outra ladrando para a parede; adoravam expulsar os invasores, corriam, não havia quem entrasse; hoje passam o dia dormindo no pouco espaço que sobrou. Rosnam baixo, mal se escuta, – tentam, ganem rouco, os caninos são amarelos e cariados, melhor nem mostrar. Eu também não sei mais gritar, às vezes solto um grunhido, sai, sai, agito a mão que não dói, mas eles confundem com uma festa e se aproximam mais.
Somos todas castradas, eu, as cadelas e a gata, as donas originais da casa. O garanhão também teve o escroto cortado,- impressionante o poder dos hormônios, partículas ínfimas determinando a existência de um ser-, só vendo, antes um garanhão de veias dilatadas no pescoço, eu sentia vontade de rezar para ele, na frente dele, porque ele era um deus, uma força da natureza, agora é dócil; os cachorros invasores passam os dias no abuso, testando as fronteiras da paciência. Isso jamais ocorreria antigamente.  Ele se mantém pávido, porque impávido ele não é mais, então deve ser pávido, coisa triste de ver.
Ontem a noite apareceu um ratinho diminuto na sala. Corria de um lado para o outro, atrevido. Bati meu pé com força no chão, com pouca força na verdade, mas o oco da tabua de madeira ampliou o som, TUM, e ele fugiu de volta para debaixo do sofá. Mas voltou. Numa das saídas, cheirou todo o tapete, esticou o corpinho, deu um impulso e tentou subir na poltrona. Para mim foi o limite, gritei chega, assim não dá mais; ninguém ouviu. Tive um pequeno sentimento de compaixão, pobre mãe, – achei que era fêmea e mãe, porque sair assim na ousadia, sem medo de nada, é coisa de mãe; talvez uma ninhada, talvez esteja em busca de comida; durou pouco, a aversão superou minha cordialidade. Pensei na gata, mas senti um conflito moral, a caçada seria inevitável, não, melhor não; na minha frente, não. Talvez amanhã eu esqueça a porta da sala aberta e o que acontecerá entre eles não será mais da minha conta, a gata anda magra, tomara que seja uma ninhada. Tentei me concentrar no filme na TV e logo veio um cheiro forte da varanda, devem ter caçado um gambá; que se danem, que se lambuzem.

Talvez andar um pouco, olhar o céu, as estrelas, mas hoje virar o pescoço para cima dói; não mais o firmamento, ainda o horizonte e depois só o chão. Os velhos andam olhando o chão, não tem mais nenhum longe para olhar. E agora as aranhas, que eu julgava inofensivas, as marrons, elas lá, eu cá, por anos, tudo certo, até eu saber que não era bem assim, danadas, disfarçam, uma picadinha indolor, depois uma casquinha boba, a gente não vê e a desgraça vai acontecendo por dentro, corroendo. Tenho medo que os vizinhos percebendo minha fraqueza, também comecem a invadir. Não tenho mais dinheiro para a ração, acho que eles vão começar a se ajeitar entre eles. Não terão nenhuma memória da minha generosidade, nenhuma gratidão, na hierarquia da vida a fome é soberana; anos antecipando a morte por uma doença cardíaca, um câncer, mas ao final, eu sei, estarão todos lambendo meus ossos.

Foto banner: Flavia Cirne

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A ARTE QUE INCOMODA por Tania Ramos de La Combe

O que seria exatamente um “mal estar na Arte”?
Se perguntássemos à um “leigo honesto” provavelmente ele diria: são aquelas coisas feias, tristes, horrendas ou mal feitas que jamais eu colocaria na minha casa, ou algo similar. Do ponto de vista psicológico ou do “socialmente correto” poderíamos dizer que é “uma obra ou imagem que nos causa desconforto, angústia e que nos provoca”.
Nem sempre o mal estar de um é o mal estar do outro e muitos desses trabalhos, por serem polêmicos, marcaram uma nova era no mundo e no comércio das artes.

Cronologicamente, o primeiro grande artista que me vem à mente, ainda na Idade Média, é o holandês YERONYMUS BOSCH, do final do século XVI. Com suas figuras e caveiras assustadoras, num criticismo surreal, Bosch não poupava padres nem freiras, servos, comerciantes, nobres, reis e rainhas. Na sua obra mais conhecida, O JARDIM DAS DELÍCIAS, ele expõe orgias, cenas inusitadas com monstros e animais alados, e mesmo nas cenas domésticas mais simples, como a MORTE DE ÁLVARO (1494), somos assombrados por caveiras, ratos e monstros.

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Avançando alguns séculos, dentro do Impressionismo, onde tudo era belo e o bucólico e os tons pastéis dominavam a belle vie, destaco a pintura angustiada de outro holandês, VINCENT VAN GOGH. Suas pinturas de caveiras, pouco conhecidas, talvez fossem um prenúncio da sua morte precoce e escolhida, que era sempre anunciada em seus pesadelos atormentados.

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No movimento surrealista todas as fantasias foram permitidas e o Mestre dos Mestres, SALVADOR DALI, talvez tenha sido o artista que deliberadamente mais desconforto causou com suas obras
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Foi seguido de longe, bem longe, pelo belga RENÉ MAGRITTE, cuja obra provoca um mal estar pela ação do ilusionismo. A ilusão de ótica, que intriga e desafia, tão comum na pop ART, estava já ali sendo fecundada e eclodiria algumas décadas depois.
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Decorrente do Surrealismo surge o Dadaísmo, manifesto mais surreal ainda, com os famosos mictórios de MARCEL DUCHAMP e suas bicicletas, engenhocas inúteis que nos provocam e nos acusam,
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assim como os “ready mades” de MARX ERNST,
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e entre outros, YVES TANGUY.
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Nasciam aí as primeiras “INSTALAÇÕES”, expressão típica do novo século e que até hoje causa ainda muitas polêmicas e desconforto. Basta visitar a última Bienal em São Paulo, INCERTEZA VIVA e presenciar, entre outras tantas, a insolita instalação de Victor Grippo que utiliza 500 quilos de batatas,

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ou as obras em INHOTIM, um dos maiores e mais belos museus a céu aberto do planeta, onde vidros, redes, sacos, num vermelho berrante formam True Rouge, a instalação do brasileiro TUNGA , recentemente falecido.

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Mas voltando algumas décadas, ali junto ao surrealismo, outro artista “avant guard”, GEORGES BRAQUE
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se unia ao amigo e rival PABLO PICASSO para criarem mais uma nova linguagem das tintas, o CUBISMO. Esta linguagem se tornou o pretexto perfeito para que esse jovem pintor catalão, transportasse para suas telas o que já fazia tão bem em sua vida pessoal junto aos seus seres “queridos”: esposas, amantes, filhos, netos e até bichinhos de estimação foram distorcidos, fragmentados, retalhados e transformados em verdadeiros monstros de uma feiura propositalmente feroz. Picasso era visto por alguns como um gênio prolífico e cativante, por outros, como um oportunista egocêntrico e cruel, o primeiro grande marqueteiro de si mesmo depois de Salvador Dali. Polêmicas à parte, a verdade é que com suas obras valendo milhões de dólares, quando ainda vivo, sua assinatura virou símbolo do novo mercado multimilionário que surgia no território da Arte Contemporânea; poderíamos dizer, ironicamente, que o “o feio vira belo quando se trata de um Picasso”.
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Mas aceitaríamos dizer o mesmo de MUNCH? Mais conhecido pelos seus “GRITOS”, EDWARD MUNCH, mesmo em suas telas mais “românticas” nos causa uma angustia patética com suas figuras tristes, de olhos negros, arregalados ou em seus rostos disformes, vide ANXIETY, outra obra sua bastante divulgada.
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Assim como nosso IBERÊ CAMARGO, poderíamos dizer que MUNCH não tinha nenhum pudor em retratar sua angústia, depressão ou visão atormentada do mundo que o cercava. Certamente concordaria com um dos últimos depoimentos de IBERÊ: “não vim ao mundo para pintar o belo ou para agradar com minha pintura, quero sim mostrar toda angústia e dor que persegue o ser humano desde o seu nascimento até seu último dia”.
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Nessa mesma época podemos destacar uma mulher, latina, pouco conhecida em seus dias, mas forte e tenaz e que lutou como poucas: FRIDA KAHLO.
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Suas obras são angustiadas e ela representa sem pudor seu acidente, amputação e suas dores físicas e psíquicas imensas.
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Sua agonia estampada em dezenas de autorretratos, repletos de sobrancelhas fartas e unidas que reforçam o ar severo da dor e do seu sofrimento, acabou se tornando um símbolo Cult mundial da Mulher Sofrida.
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Em um deles pintou o retrato do companheiro DIEGO RIVERA na testa, como idolatria ou ódio, ironia àquele que tão mal lhe causou com sua indiferença e traições.
Ironia maior, talvez, é que FRIDA jamais poderia imaginar que, algumas décadas depois, essa desconhecida mexicana ofuscaria o brilho de seu Mestre e amante, tornando-se um símbolo divulgado em posters, posts e releituras no Mundo todo.
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Outro tipo de “mal estar” é aquele da ilusão de ótica, desenvolvido em primeira mão pelo matemático e desenhista alemão MC ESCHER, que causou furor nos anos 50 com suas torres, escadas e suas famosas “evoluções”.

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É o desconforto genial que intriga, desafia e questiona e que vem sendo desde então, admirada por todos os ilustradores. Sua evolução simplista e geométrica geraria a famosa OP ART, febre nos anos 70, representada sobretudo pelo franco-húngaro VICTOR VASARELY: Quem não teve pelo menos um pôster dele em suas salas ou quartos, ou estampado em suas camisetas, na década pós-hippie? Era o “mal estar” da ilusão ótica, deliciosa e enigmática, que fascinava sobretudo os jovens descolados da época.
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Nas décadas seguintes, os chamados CONTEMPORÂNEOS criaram um novo tipo de “desconforto” na arte abstrata. E aí voltamos à primeira consideração do “leigo honesto” do primeiro parágrafo: “um lixo que nasceu por acaso, sem nenhum valor artístico, uma piada de mau gosto, tinta gratuita jogada aqui e ali, e que vale milhares de dólares”.

POLLOCK, um contemporâneo, que devido a sua técnica foi jocosamente apelidado de “Jack the dripper”, teve sua ultima tela arrematada por 140 milhões de dólares por David Geffen, em leilão recente na SOTEBY’s, NY. Ao mesmo tempo, algumas de suas obras são chamadas de “spaguettis” e existem inúmeros posts na internet que ensinam a pintar como Pollock, por que suas telas parecem que foram feitas com espaguetes mergulhados em diversas cores de tintas.
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Nessa mesma escola temos WILLEM DE KOONING
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e JOAN MITCHELL, única mulher desse filão respeitado e hoje, admirado.
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Já no figurativo contemporâneo não podemos nos esquecer do irlandês polêmico, FRANCIS BACON, fascinado pela carne no sentido mais realista possível: ficava horas admirando animais penduradas nos açougues de Londres ou admirando cadáveres, como fonte básica de inspiração.
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O resultado, sabemos, aquelas séries de rostos e corpos disformes, fantasmagóricos, assustadores onde transpunha também sua luta contra o alcoolismo e a homossexualidade sadomasoquista que o atormentava.
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Seu seguidor atual, mais hard core ainda, além de exibicionista, é DAMIEN HIRST o mais novo “queridinho” dos colecionadores europeus e americanos do mundo fashionista e hipster. Seus cadáveres de animais devidamente fatiados foram expostos em museus e galerias do mundo todo, causando horror e polêmica.

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Duramente ironizado pelos críticos mais exigentes, DAMIEN dá de ombros: sua caveira (verdadeira) cravejada de brilhantes foi vendida pela bagatela de 100 milhões de dólares para um anônimo colecionador londrino em 2007. Não satisfeito, DAMIEN refez uma réplica em ouro branco com 8601 diamantes, exibida em dezembro passado no célebre RIJKSMUSEUM de Amsterdã, primeira parada de sua tournée. Foi, pasmem, escolhido como curador para selecionar as obras do famoso acervo que serviriam de pano de fundo para sua caveira FOR THE LOVE OF GOD.
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VERMEER deve ter sentido um imenso “mal estar” em sua tumba.

 

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mal-estar-foto-tania-mini-bioTANIA RAMOS BOUTAUD de la COMBE,  paulista, psicóloga pela PUC/SP e artista plástica pela FAAP. Estudou no Ateliê de Walter Levy e Maxine Masterfield, USA, CA, onde sofreu forte influência da aquarelista. Sempre em busca de novas técnicas e materiais,  morou em diversas cidades dos USA e Europa, notadamente Suíça e França nas décadas de 80 e 90 , onde realizou  inúmeras exposições exibindo trabalhos e técnicas únicas e exclusivas que misturam tinta acrilica com matérias mais diversas da Natureza em geral .
Permeada pela consciência ecológica aliada à influência étnica ,desenvolve alternativas não poluentes como pigmentos e resinas naturais, até mesmo verniz à base de própolis em seu ateliê no topo de uma Colina na Mantiqueira, SP.
Assim pretende que sua obra possa ser um grito a mais contra a devastação da Natureza pelo homem e a opressão contra as minorias étnicas .

 

 

 

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SEGURO INSEGURO por Maria Antonia De Carli – english version

 

Momentos de desconforto geram diferentes reações nas pessoas, algumas podem se retrair, outras serão agressivas e expressarão raiva, e outras ainda se mostrarão indiferentes, fechando os olhos para o tal fato.

No mundo de hoje, no âmbito social, o terceiro tipo de comportamento tem sido frequente. Momentaneamente parece mais confortável ignorar o que nos incomoda e fingir que o conflito não existe, mas invariavelmente vamos acabar sendo confrontados com esse conteúdo de um jeito ou de outro.

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Esse terceiro tipo de comportamento tem sido usual na questão dos refugiados da atual guerra Síria. A mídia nos inunda todos os dias com imagens tão duras e chocantes de adultos e crianças lutando para salvarem suas vidas, tendo de passar por provações desumanas em busca de um futuro, que nossa resposta como cidadãos é nos anestesiarmos, enquanto assistimos praticas políticas de negação e intolerância.

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Os imigrantes, por sua vez, passam por experiências negativas geradas por conta de preconceito e resistência a assimilação das diferenças (muitas vezes em ambas as partes). Tendemos a ser reativos ao que nos é diferente.

Um exemplo pertinente dessa reatividade é a saída da Inglaterra da União Europeia, dada por voto popular num Referendo sem nenhuma justificativa plausível para ser convocado. Não se deveria escolher virar as costas para um projeto de união politica e econômica, com princípios baseados na tolerância e cooperação, e preferir o isolamento. A principal justificativa dada por aqueles que votaram pela saída foi justamente o medo e rejeição à imigração.

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A reativa inglesa é apenas uma fatia do que ocorre no mundo hoje:  uma difusão de politicas de ódio e medo gerada por crises econômicas e de identidade, onde políticos mal-intencionados dentro de suas retoricas populistas apontam como culpado o extrato indefeso de suas sociedades, os imigrantes, – também chamados de “terroristas”-, ou “os que tomam nossos empregos e nosso sistema de saúde”. Na verdade o buraco é bem mais profundo. As pessoas então se tornam cada vez mais intolerantes com o diferente, endurecendo posições e promovendo revolta. Um exemplo da segunda forma de reação para o mal-estar, o da agressividade.

Vinda de um país altamente desigual como o Brasil e vivendo hoje em Londres, pude perceber que as pessoas se acostumam e se dessensibilizam com o que presenciam de forma diária. Cresci assistindo meninos de rua parando carros em sinaleiras pedindo qualquer trocado para um biscoito ou um pão. Também viramos as costas para esse tipo de realidade, fechamos os vidros, criamos condomínios com guaritas, blindamos o carro. Empurramos para a periferia o que nos causa desconforto.

O ciclo vicioso da ignorância coletiva só poderá ser encerrado através do exercício da empatia e da compaixão, quer dizer, quando tivermos a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. Talvez mudanças expressivas no social só ocorram quando a pratica desta visão pessoal mais humanista, nos leve a eleger lideres políticos que traduzam também essa perspectiva nos seus governos. Só assim estaremos todos seguros.

** imagem banner – Debret

mal-estar-maria-antonia-foto-perfilMaria Antonia De Carli é baiana, bacharel em Relações Internacionais pela FAAP-SP. Trabalhou em Sao Paulo com projetos de desenvolvimento local e urbano sustentáveis para a Fundação Clinton. Em Paris, estagiou na UNESCO no setor de cultura, e ajudou a organizar o Congresso de Hangzhou na China em 2013. É mestranda em Politica Comparativa e Internacional com especialização em politica econômica e social na Escola de Economia de Londres (LSE). Trabalha como analista de Risco Politico na AON,  em Londres.  Também se engaja em projetos para a inserção do Brasil e da América Latina no cenário politico internacional, juntamente com outros estudantes brasileiros no Reino Unido, o Brazil Forum.

 

 

 

Englisn Version  – Safe and Unsafe by Maria Antonia De Carli

 

Uncomfortable moments bring out different reactions in people; some may withdraw, others become more aggressive and express anger, meanwhile others will show indifference and will close their eyes to the specific facts.

The social sphere present in today’s world has been typified with the third type of behaviour expressing itself very frequently. Momentarily, it seems more comfortable to ignore what bothers us and pretend that the conflict does not exist, but we inevitably end up being confronted with this content in one way or another.

Indifference has been the usual behaviour with regards to the refugees fleeing the current Syrian war. The media flood us every day with plenty of shocking images of adults and children struggling for their lives, having to go through inhumane trials in search of a better future. Our answer to these scenes is simply a state of anaesthesia, while we watch political practices of denial and intolerance.

The immigrants, in turn, go through negative experiences guided by bias accounts based on prejudice and resistance to absorption of the different (often on both sides). We tend to be reactive to what is different to us.

A pertinent example of this reactivity is Brexit, where English people voted in a popular Referendum to leave the European Union. A Referendum which had no plausible justification for being called. One should not choose to turn ones back on projects that emphasis political and economic union, based on principles such as cooperation and tolerance, to rather stand with isolation. The main reason given by those who voted out was the fear and rejection of immigration.

The English reaction is only a slice of what happens in today’s world. A diffusion of policies based on hate and fear, caused by a huge economic and identity crisis, in which malicious politicians with their populist rhetorical point as guilty the helpless and fragile extracts of their society; the immigrants, – also labelled as “terrorists”. Additionally,  those “who will take our jobs or our health care systems”.

The fact is that the hole is much deeper than it seems. People are becoming more and more intolerant; with different, hardening positions and promoting revolts. This is an illustration of the second type of reaction to discomfort, the aggression.

Coming from a country with high inequality like Brazil and now living in London, I could see that people tend to get used with what they witness in their daily lives, therefore they tend to desensitize to cases of extreme impact. I grew up watching children in the streets, stopping cars at traffic lights asking for any change to buy a biscuit or a piece of bread. We also turned our backs to this kind of reality, we close our windows, we build condominiums with watchtowers, we armour our cars for protection. We pushed to the periphery what causes us discomfort.

This vicious cycle of collective ignorance can only be ended through the exercise of empathy and compassion, that is, when we will be able to put ourselves in “someone else’s shoes”. Perhaps significant changes in society will only occur when the practice of the humanistic vision will be put in place through new world leaders that will also translate this perspective in their governments. Only then we all will be safe.

 

Maria Antonia De Carli has a bachelor in International Relations from the University Armando Alvares Penteado in São Paulo. She worked with projects of local and urban sustainable development for the Clinton Foundation in partnership with the C40 in the city of São Paulo. Maria has interned for the Cultural Sector of UNESCO in Paris, and helped to organize the Congress of Hangzhou in China in 2013.  Currently she is finishing her Master in Comparative and International Politics at the London School of Economics (LSE). Together with the Master she also works as Political Risk analysts. She is engaged in projects to promote the Brazil and Latin America in the international political scenario, developed with other Brazilian students in the UK, the Brazil Forum

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O MAL ESTÁ NA CIVILIZAÇÃO por Sergio Wajman

 

Você não leu errado. O mal está na civilização é o título deste texto. É uma brincadeira, do tipo “sem brincar-brincando”, com o título de uma das maiores obras de Freud sobre o ser humano em sociedade: O Mal Estar na Civilização. Foi publicado pela primeira vez em 1930, ano em que a Europa ainda curava suas feridas – e que feridas! – da Grande Guerra que terminara (?) em 1918 e se respirava, pelo menos na Alemanha, os ares do período que de forma tão sagaz Ingmar Bergman chamou de O Ovo da Serpente, ao se referir ao nazismo – já feto – que passaria à condição de serpente-nascida dali a meros 3 anos, quando Hitler assumiu a condição de Chanceler da Alemanha.

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 Freud trata de muitos temas neste livro. Mas um deles me chama a atenção de forma especial: a luta cotidiana do ser humano por ser humano. Aparentemente, um paradoxo. Se ele já é humano, por que precisa lutar para sê-lo? Porque, para Freud, o ser humano precisa da civilização para ser humano: a depender apenas de nosso desenvolvimento biológico, seríamos governados pela natureza e seus dogmas inexoráveis como a lei do mais forte ou a seleção natural. Por isso, Freud vê no empreendimento civilizatório uma condição sem a qual não nos distanciaríamos muito de todos os demais seres vivos: viver para sobreviver.

       Claro que, por outro lado, a obra civilizatória não só requer energias para se sustentar como também tem seu preço. Para que tenhamos, enquanto espécie, uma chance melhor de sobrevivência (tanto em nossa relação com a natureza como em nossa relação uns com outros) e, assim, possamos criar coisas com as quais nos deleitamos – a arte, o esporte, o saber – precisamos proceder a renúncias magistrais em nossos impulsos e desejos mais íntimos, temos que nos acomodar às leis que nós mesmos criamos para nosso próprio bem coletivo.

 E, assim, vamos nos tornando seres humanos: precisamos passar por pequenas amputações (desde que nascemos e começamos a respirar o ar da cultura) em nossa busca pelo prazer pleno e em nossa capacidade destrutiva. Vamos nos tornando seres civilizados, amputados. Moral da história: para que nossa espécie tenha chance de se manter viva no planeta, precisamos abdicar de nossos mais preciosos impulsos individuais. A civilização é um empreendimento que existe para o bem da coletividade, não do indivíduo. O mal está na civilização. Claro que, nesta perspectiva, não apenas o mal: o bem também, potencialmente temos construções civilizatórias ancestrais a nos alimentar, a nos embevecer, a nos humanizar. Além, é claro, de podermos contar uns com os outros numa rede gigantesca à qual podemos chamar de humanidade. Assim, o bem está na civilização – também.

Style: "Neutral"

Mas podemos pensar de outra forma, tal como Freud o faz em seu livro. O mal não está somente na civilização, o que – talvez no melhor estilo freudiano – nos coloca diante de um desafio hercúleo: como conseguir fazer com que a civilização e suas leis (que por um lado abolem nossa possibilidade de permanecer no Éden e nos atiram na Cultura) consigam nos proteger de nossos impulsos homicidas e destrutivos? Como lidar com o fato – testemunhado por Freud “no quintal de sua casa” – de que, poucos anos antes, todo o conhecimento e a ciência humanos tenham sido colocados a serviço da guerra e da destruição por meio da invenção de tanques, armas químicas e quetais? Como tentar lutar pelo aumento do prazer e satisfação que a civilização nos concede se a cada dia nos vemos diante da ameaça que nós mesmos representamos para nossa espécie? O que diria Freud dos horrores da 2ª Guerra Mundial e de todas as outras que a sucederam, assim como da destruição “no atacado e no varejo” a que nos subtemos dia após dia em inúmeras esferas, como, por exemplo, a que trata o filme Koyaanisqatsi, de 1982, da autoria de Godfrey Reggio?

 E é por conta disso que Freud, a despeito de todas as limitações (ou, quem sabe, justamente devido a elas), afirma em seu livro que a civilização é um empreendimento a serviço de Eros, da vida. É aquilo com que nossa espécie pode batalhar, ao longo dos tempos, em nossa eterna luta contra Thanatos, a morte.

Fechando: o mal está na civilização, o bem deve estar mais!

Style: "Neutral"

**todas as imagens são do fotografo MIsha Gordin e foram retiradas do site http://bsimple.com/home.htm

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Sergio Wajman é psicólogo formado pela PUCSP em 1977.
Atua profissionalmente como psicanalista e professor no Curso de Psicologia da PUCSP.
É mestre e doutorando em Psicologia da Educação pela PUCSP.

 

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DORES DE AMORES NA MPB por Silvia Moraes

 

O romantismo elevou o amor à essência da vida. Podemos observar a presença do amor romântico nas artes, na literatura e na música. O romântico constrói um mundo imaginário nostálgico e melancólico, trazendo um distanciamento da realidade social, experiência da perda e procura pelo que se perdeu. O humano depende de ser amado, necessita de reconhecimento, busca constantemente seus pares. As decepções e desencontros amorosos são freqüentes fontes de mal-estar e motivos de busca de um analista.

Assim, as canções como uma forma de expressão cultural, revelam os afetos predominantes de uma época, como o sofrimento do indivíduo perante o enamoramento, e apontam os recursos possíveis para o seu enfrentamento.

Canções da Era do Ouro, na década de 30, contemplavam, muitas vezes, a dor da mulher relacionada à sua inserção numa cultura patriarcal, onde é esperada certa submissão e doçura frente ao companheiro boêmio, malandro e mulherengo. Certa dose de masoquismo e mágoa são aí traços característicos freqüentes da figura feminina.

…gosto dele assim, passou a brincadeira e ele é pra mim


(Gal Costa – Camisa amarela)

…com perfeita paciência sigo a te buscar…

…cena de sangue num bar da avenida São João!


(Inezita Barroso canta Ronda)

…fiz seu doce predileto pra você parar em casa

…logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato e abro meus braços pra você!


(Nara Leão – Com açúcar, com afeto)

Essa postura feminina persiste no decorrer dos tempos. Canções, curiosamente compostas por homens para suas intérpretes femininas.

O amor dói, a paixão submete. O apaixonado é um ser humilhado que mendiga o amor do seu amado, que teme perdê-lo e, quando isto acontece,tem a sensação de ser atirado num abismo.

… se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar


(Meu mundo caiu com Maysa)

O componente trágico do amor o aproxima da morte. Amar fica equiparado com sofrer. Esse amor é construído, investido, e nem sempre recompensado.

… eu fico com essa dor, ou essa dor tem que morrer

.. pois quando estou amando é parecido com o sofrer


(Zezé Motta e Luiz Melodia em Dores de amores)

A dor da perda do objeto amado é contemplada na maioria das canções. De forma singular, e, ao mesmo tempo universal, estas expressam o amor não correspondido, o abandono, o descaso.

No âmbito universal, toda perda implica em tristeza, em desamparo. O humano depende sempre do olhar do outro amado.

… eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza


(Fagner – Canteiros)

O sentimento de saudade é algo bastante contemplado. Palavra tão peculiar da nossa língua evoca a presença do outro e o prazer da efemeridade do encontro.

.. a saudade é dor pungente


(Bethânia – A saudade mata a gente)

Já na década de 80 despontam temas que trazem à tona as diversas formas de amor.

.. qualquer maneira de amor vale a pena


(Paula e Bebeto)

O homem oscila entre a ilusão de completude e o sentimento efêmero do que denomina de “felicidade”, e a angústia e medo da falta de amor e do olhar do outro. Como se entregar sem se perder no outro? Qual é a medida certa da paixão?

… e não é a dor que me entristece, é não ter uma saída, nem medida na paixão


(Lenine – A medida da paixão)

Talvez tenhamos de nos convencer que não escolhemos, mas somos escolhidos. O amor simplesmente acontece…

… o amor quando acontece, a gente esquece que sofreu um dia


(João Bosco – Quando o amor acontece)

E, apesar de tanto sofrimento, humilhação, desilusão, seguimos procurando nosso par, na eterna ilusão de completude.

… sem amor eu nada seria


(Renato Russo – Monte Castelo)

 

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SILVIA MORAES é violonista, cantora, psicóloga e psicanalista. Faz shows e organiza saraus. É apaixonada por música, especialmente pela canção brasileira.

 

 

 

 

 

 

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XINGÚ por Bela Gebara

 

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Três dias pra chegar. Por terra: São Paulo, Minas, Goiás e por fim Mato Grosso. A cidade vai sumindo e depois, cana cana cana soja soja soja. Amarelo. Que tamanho tem esse país! No último trecho só terra, pó, areia. O carro fica estacionado numa aldeia na beira do rio e de lá, seguimos de barco.
Três horas navegando o Rio Kurisevo que serpenteia, vira e volta, cortando o cerrado. É como se o tempo desacelerasse e andasse pra trás, rapidamente. Anta, capivara, jacaré, os pensamentos se dissolvendo. O pôr do sol e a expectativa de um lugar incomum.

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Já era noite quando chegamos. Um percurso de meia hora entre o rio e a aldeia Mehinaku numa trilha iluminada por lanternas. Escuro, sons, gritos de festejo e saudação. Na aldeia tentamos nos organizar, mochilas e um volume enorme de caixas de comida que trouxemos vão sendo empilhadas. Alguns resolvem dormir num abrigo externo. Muita gente, muita coisa. Onde vou dormir? Na Oca do Cacique Maycute.

O galo canta, o cacique levanta, a festa acontece. Cinco dias de festa de furação de orelha na aldeia.
Na aldeia não há hora. Nem para festa, nem para comer, nem para dormir. Tempo marcado é coisa de branco, e branco tem hora até para ter fome. Branco é qualquer humano que não seja índio: japonês, negro, mulato, norueguês. A hora da comida era estranha e as diferenças entre as duas culinárias muito acentuadas. Os Mehinakus não comem nenhum animal que anda na terra, só peixe, tracajá e algum passarinho, sempre acompanhado pela tapioca. O sal é extraído de uma planta aquática, aguapé, depois que ela é queimada e utilizam também  a pimenta. As refeições simplesmente acontecem, não são planejadas e sempre são em família.

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As mulheres trabalham o dia todo. Nem todas falam português, falam a língua do tronco Aruák como todo o povo Mehinaku. Colhem e preparam a mandioca, cuidam das crianças, cozinham, enrolam na coxa o cordão de buriti, tecem redes, modelam cerâmicas e fazem colares de miçanga tcheca. Pois é, a miçanga é tcheca! Gostam mais por que ela é pequena e mais delicada para a confecção dos trabalhos. Uma das consequências do contato estabelecido com o homem branco.

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Os homens pescam, caçam, lutam, tocam flautas de bambu, conversam na Casa dos Homens,- uma construção no centro da aldeia onde as mulheres são proibidas de entrar-, chefiam os rituais, dirigem motos, manuseiam celulares. No Xingú não há sinal de celular e os aparelhos são usados como máquinas fotográficas e filmadoras.

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Homens e mulheres se pintam, se enfeitam, cantam cantos com repetições sonoras e dançam num ritmo marcado pelas batidas dos pés na terra; ritualizam e se banham nas lagoas.
Quem dança ou ritualiza está vestido a caráter, ou melhor, desvestido, nu. E como não há hora certa para cada coisa acontecer, alguns passam boa parte do tempo assim, pintados com urucum, jenipapo ou resina com carvão, aguardando o grito de chamado pra festa.

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Roupa não é necessária, é apenas um adereço. As crianças ficam nuas até que sintam frio. As vezes tomam banho de lagoa com roupa, as vezes sem e se secam na caminhada de volta.
Já existe escola na aldeia. E o tempo do branco vem chegando, agora existe uma hora certa para ir à escola. Lá, aprendem português, além da língua Aruak.

desenho feito por uma criança Mehinaku mostrando o centro da aldeia

desenho feito por uma criança Meinaku mostrando o centro da aldeia

O espaço do centro da aldeia é incrivel e ver o céu a noite ali, mais ainda. O rio é vital para o indio. Sem ele não há vida, não há aldeia. Tão importante que quando olham o céu, o rio está lá. Dizem que o rio sobe até o céu e que a via láctea é o banco de areia que o margeia. As imagens são mitoloógicas e sempre muito poéticas.

Toda estruturada em madeira, a oca é oval e parece uma carcaça de animal. É totalmente revestida de palha do teto até o chão. Existem apenas duas portas em sentidos opostos. Uma dá para o centro da aldeia e a outra para o cerrado. O interno e o externo, a aldeia e o resto do mundo. Dentro é escuro, mesmo de dia, e a temperatura se mantém estável.

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A seriedade e concentração dos meninos em todos os dias de ritual impressionam. No último dia recebem uma refeição que precede o jejum pelo qual irão passar. E, finalmente a furação acontece. As mulheres são proibidas de assistir a cerimonia e devem então se recolher.

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Cerimonia finalizada e é nossa hora de fazer o caminho de volta. Levamos uma montanha de comida e os olhares indígenas sobre as caixas ainda repletas de latas, pacotes de macarrão, arroz e demais provisões eram desconcertantes.
O homem branco perdeu sua relação com a terra e com o que ela pode prover. Distanciou-se da experiência do presente e vive na ansiedade do futuro. E no futuro desconhecido estão os medos e por isso ele tenta se precaver; acumula, armazena, consome em excesso. O índio conhece a terra, os ciclos, confia e por isso tem apenas o que é essencial para o seu dia. Não precisa armazenar, não desperdiça e só gera lixo orgânico; a vida indígena não é predatória e não polui.

Essa breve experiência da cultura indígena na aldeia Mehinaku me fez sentir estrangeira em meu próprio país.
Hoje no Brasil existem 240 povos indígenas, com cerca de 900 mil pessoas e 180 línguas e dialetos distintos. Uma riqueza de tradição, história, mitos e conhecimentos ainda inacessíveis à civilização que os envolve.
Esses povos nativos, primeiros habitantes da nossa terra, dependem hoje de políticas de preservação para continuarem vivos. Interesses econômicos como o agronegócio e o desmatamento levam a dissolução de aldeias e a dizimação de diversas etnias. Quando migram para as cidades, longe do seu povo, os indígenas são marginalizados. O índio na aldeia vivendo sua vida autêntica, não é pobre. A manutenção da vida na aldeia preserva a cultura, mantém a dignidade e a saúde desses povos. O contato, inevitável, uma vez estabelecido, deveria promover transformações saudáveis e intercâmbio de culturas. E todos poderiam se beneficiar com essa troca.

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Uma noite, tivemos uma sessão de cinema improvisada no centro da aldeia. O telão foi pendurado na trave do gol. “Xingú Terra”, filmado há 40 anos nesta mesma aldeia Mehinaku, com roteiro de Maureen Bisilliat, texto de Orlando Vilas Boas e fotografia de Lucio Kodato nos foi apresentado pelo próprio Lucio, que fez parte do nosso grupo de visitantes. Ao lado de alguns dos personagens ainda vivos saboreamos a cultura e tradição que vem sendo passada de geração em geração.

** fotos: Bela Gebara

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BELA GEBARA  é arquiteta formada em 84 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie.Desenvolve projetos residenciais, corporativos e na área da saúde. Mora e trabalha em São Paulo onde já implantou diversas obras de sua autoria.
Arte e natureza são substrato para sua vida e inspiração profissional.

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HÚNGAROS E BRASILEIROS por Sarolta Kóbori – magyar változat

 

Há dez anos eu morava no oitavo andar de um prédio comercial, no centro de Porto Alegre. Para minha supresa, uma senhora baixinha e idosa tinha como emprego  abrir e fechar a porta desse edifício,  ela era a ascensorista. O dia inteiro dentro do elevador ouvindo apenas pedaços de conversas. Vivi por vinte e tres anos na Hungria e por seis meses na Inglaterra, viajei muito pela Europa e nunca havia encontrado um funcionário para  elevador anteriormente. Também nunca havia visto baratas, e confesso que tenho nojo e medo delas.   Morar lá   não foi uma  boa  experiencia, mas o intercambio de estudos de alguns meses  e os planos de viagem pela America do Sul foram como um sonho realizado para alguém que vem  do Leste Europeu.

Numa sexta feira a noite vi a senhora do elevador saindo do prédio, com um batom vermelho nos lábios sorridentes. Ela me convidou a acompanhá-la e fomos a um sambão no segundo andar do Mercado Municipal do Centro de Porto Alegre, onde familias inteiras se reuniam ao redor das mesas. A senhora não podia dançar, tinha um problema na perna, era coxa, mas a alegria e paz que senti estando com ela foi inesquecível.   Estava   tão   sozinha   em Porto   Alegre e diariamente me sufocava com um sentimento de auto piedade. Ver essa senhora idosa brasileira, que vivia dentro de um elevador mas que conseguia se sentir contente com o proprio destino, curtindo a sexta a noite, foi uma verdadeira liçao de  vida.

Faz dez anos que moro no Brasil. Quando os amigos húngaros me perguntam qual é a maior diferença cultural entre os dois paises, sempre respondo assim: os brasileiros conseguem se desligar e curtem os momentos de diversão depois do trabalho e nos finais de semana. Não envenenam os momentos de descanso com os problemas do cotidiano. E sabemos que os problemas aqui no Brasil são muitos, mais do que em  qualquer país da Comunidade Europeia.  Entretanto, o mal estar criado pelo aspecto  negativo da vida parece ter menos impacto nos brasileiros.

Nós, húngaros, conversamos sobre política, história, economia, problemas da sociedade o tempo todo, sem perceber o momento de  nos  desligarmos e deixar os problemas de lado. E contamos sempre que nosso país era um império enorme, que depois da I. Guerra Mundial perdemos territórios, mas que apesar disso  nenhum país tem tantos ganhadores do premio Nobel como a Hungria…, enquanto que os brasileiros não se queixam, embora tenham uma historia dificil e que influencia até hoje o  proprio cotidiano deles. Em húngaro, a resposta certa para a pegunta hogy vagy? (como vai?) não é jól vagyok (estou bem), mas megvagyok (estou indo). No Brasil a resposta seria sempre, eu estou otimo,ou tudo bem.

Segundo László Mérő, grande matemático e pensador húngaro essa diferença  é  somente  uma   consequencia do jeito de se comunicar, um código social (http://magyarnarancs.hu/egotripp/szocialis-kodunk-52502).
Ele não acredita  que isso  aconteça  porque um povo é mais feliz do que o outro, mas porque a forma de expressar os sentimentos é que são diferentes. Os americanos tem a mascara do estou resolvido e tenho sucesso, os brasileiros usam o rosto da alegria, enquanto os húngaros se maqueiam diariamente com a tristeza. O nível dos sentimentos é o mesmo, o que difere é como ele é demonstrado.

Convivendo com brasileiros, percebo que realmente eles vivem uma vida mais feliz do que os europeus.  Por exemplo, no parquinho, quando as crianças estão brincando, as mães se referem a uma outra criança, mesmo que desconhecida, como  “amigo” – “empreste seu brinquedo para o seu amiguinho”, algo que jamais aconteceria na Hungria. Lá a outra criança vai ser kisfiúmenino, e não ganhará tão facilmente o título de “amigo”. Abraçar, tocar, elogiar os amigos e receber elogios prazeirosos não são hábitos húngaros, mas geram sim, uma energia de bem estar.

Quais são os motivos dessas grandes diferenças? Antropólogos culturais dizem que o clíma e a história do país são determinantes na cultura de um povo. A história da Hungria começa com uma série de lendas lindas sobre um povo guerreiro, vindo de Ásia, conquistando  territorios na Europa Central. Depois de séculos de império poderoso, sofreram  ocupações de mongois, otomanos, austríacos e soviéticos.


Neste vídeo de apenas 3 minutos podemos identificar o herói húngaro: ele luta contra inimigo, defende o próprio país, se sacrifica pelo bem da comunidade

Como em vários outros países da Europa Central, devido a séculos dessas ocupações sangrentas, quando outro ser humano aparece ele demora a ganhar o título “amigo”, e ao contrário, é observado com  desconfiança. Aos olhos dos brasileiros, os europeus podem parecem frios. Atribuimos o nosso jeito de ver sempre o lado negativo da vida, a essas invasões. Em vez de sermos otimistas e esperançosos em relação ao futuro, preferimos imaginar  sempre o pior,  e com isso evitamos o sofrimento das  decepções. Nós, hungaros, comparamos nosso pais com a Alemanha, França ou Inglaterra, grandes potencias. Jamais reconhecemos que temos uma qualidade de vida bem superior do que  a de países em desenvolvimento. O parametro de comparaçao  é a sempre a Europa Oeste, e  isso envenena a alma húngara. Se numa conversa  fizermos a observaçao de que na Africa, ou mesmo na América do Sul muitas pessoas vivem em estado de miséria, a resposta húngara estará pronta: A Hungria brevemente chegará a este nível.

Com o tempo, talvez os húngaros consigam superar essa visão e parem de se comparar a países superpoderosos,  e possam olhar o passado como uma aprendizagem e não como uma eterna luta de sobrevivência. Nos últimos anos, as novas geracões têm se mostrado muito mais empolgadas com o país, e o resultado é óbvio nestes videos de propaganda, que nos deixam orgulhosos com a beleza da cidades e sua  natureza exuberante

 

e com seu povo cheio de criatividade e sabedoria

 

 

(Nunca disse à minha mãe que a amo. Nunca digo isso para minhas amigas húngaras. Porém em português, te amo, amiga, sai da minha boca naturalmente. Ninguém pode duvidar que amo minha mãe, adoro minhas amigas húngaras, mas não me expresso assim verbalmente com elas. Agora que minhas relações afetivas são brasileiras e acontecem em português eu digo te amo sem hesitar. O que mudou é que o Brasil me contaminou. Comecei falar szeretlek (te amo) para meus filhos. É um sentimento muito bom, e  sou muito grata pelo  Brasil ter me dado este novo hábito).

** foto banner- Circus- Budapest – André Kertész 

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Sarolta Kóbori
   é professora de Literatura, Língua Húngara e professora de Língua Húngara para Estrangeiros; Professora e Pesquisadora de Cinema. Nascida na Hungria, possui graduação na Universidade Eötvös Loránd, em Budapeste. Mestre em Literatura e Gramática Húngara (2006); Mestre em Língua Húngara para Estrangeiros (2009 – Título da tese: A Situação da Língua e Cultura Húngara em São Paulo); e Mestre em História e Teoria do Cinema (2009). Doutoranda em História do Cinema (dissertação sobre a Influência do Cinema de Arte Europeu no Cinema Brasileiro). Professora universitária da Universidade de Pécs, atua como Coordenadora do Curso de Extensão de Língua e Cultura Húngara na Universidade de São Paulo. Residente no Brasil há 10 anos, tem dois filhos, ambos  húngaros e brasileiros.
magyar@usp.br

 

MAGYAROK ÉS BRAZILOK – Kóbori Sarolta irása 

Tíz évvel ezelőtt Porto Alegre belvárosában éltem, egy kereskedőház nyolcadik emeletén. Meglepetésemre egy alacsony, idős hölgy munkaköre volt a lift ajtajának nyitása és zárása. Egész nap bent volt a liftben, csak beszédfoszlányokat hallott. Huszonhárom évet éltem Magyarországon, fél évet Angliában, sokat utaztam Európában, de sosem láttam még liftes alkalmazottat. Sosem találkoztam csótányokkal sem és bevallom, félek, írtózom a csótányoktól. Nem szerettem ott élni, de néhány hónapos tanulmányi kirándulásról volt csak szó, dél-amerikai útat tervezve. Egy kelet-európai számára beteljesült álom.

Egy péntek estén láttam, ahogy az idős néni mosolyogva, piros rúzzsal a száján jön ki az épületből. Meghívott, menjek csak vele Porto Alegre belvárosi Vásárcsarnokába, szamba estre. Egész családok ültek az asztalok körül. A néni nem tudott táncolni, sánta volt, de vidámságát, lelki nyugalmát azóta sem tudtam elfelejteni. Annyira egyedül voltam Porto Alegrében, naponta többször elöntött a fojtogató önsajnálat. Látva ezt az idős brazil hölgyet, aki bár egy liftben éli le életét és mégis elégedett sorsával, élvezni tudja a péntek estét – egy igazi, életre szóló lecke volt.

Tíz éve élek Brazíliában. Mikor magyar barátaim megkérdik, mi a fő különbség a két kultúra között, mindig ezt válaszolom: a brazilok ki tudnak kapcsolni és élvezni a szórakozás pillanatát munka után, vagy éppen a hétvégén. Nem mérgezik meg a pihenés perceit  a mindennapi problémákkal. Tudjuk, Brazíliában a gondok sokkal nagyobbak, mint az Európai Unió bármely országában. Az élet negatív oldalának rossz hatásai mégsem befolyásolják annyira a brazilokat.

Mi magyarok politikáról, történelemről, közgazdaságról, társadalmi problémákról beszélgetünk, észre sem véve, mikor inkább a pihenésnek, és a gondok félretevésének lenne az ideje. Mindig elmondjuk, hogy az országunk erős birodalom volt, de az I. világháború után elveszítettünk területeket, mégis, egy országnak sincs annyi Nobel-díjasa, mint Magyarországnak…. míg a brazilok nem panaszkodnak, bár történelmük éppoly nehéz volt, következményeit pedig érzik a mindennapokban. A hogy vagy? kérdésre magyarul megvagyokkal illik feleni, nem pedig a jól vagyokkal. Brazíliában a kérdés és a válasz is tudo bem – minden jól (van). 

Mérő László matematikus és publicista szerint ez a különbség nem más, mint egy szociális kód, egy kommunikációs mód (http://magyarnarancs.hu/egotripp/szocialis-kodunk-52502). Nem az számít, hogy egy nép valóban boldogabb-e, vagy sem, hanem az, hogy máshogyan fejezzük ki az érzelmeinket. Az amerikaiak a sikeres, elégedett ember maszkját használják, a brazilok a mosolyukat ragasztják fel, a magyarok a szomorúsággal sminkelnek. Nincs különbség a valódi érzelmek között, csak máshogy kerülnek kifejezésre.

Brazilok között élve úgy látom, ők valóban boldogabb életet élnek mint az európaiak. Mikor a gyerekek a játszótéren játszanak péládul, az anyukák az ismeretlen, másik gyereket „barátnak” nevezik – empreste seu brinquedo para o seu amiguinho – add kölcsön a játékodat a barátodnak!. Ez nem fordulhatna elő Magyarországon. Ott a másik gyerek egy másik kisfiú vagy kislány, és nem kapja meg oly könnyen a barát címet. Ölelni, megérinteni, dícsérni, és a dícséretet elfogadni nem magyar szokások, pedig milyen jó érzést teremtenek.

Mi ezeknek a nagy különbségeknek az oka? A kulturális antropológusok szerint   az ország klímája és történelme a meghatározó egy nép kultúrájában. Magyarország történelme gyönyörű mondákkal kezdődik egy harcos népről, mely Ázsiából érkezve meghódítja területét Európában. Századok során egy hatalmas birodalommá fejlődik, melyet aztán tatárok, törökök, osztrákok, szovjetek tartanak elnyomásban.

 

Ebben a videóban látható, csupán három percben is, (https://www.youtube.com/watch?v=oK5P00HY5ds) hogyan lehet meghatározni a magyar hőst: az ellenség ellen harcol, megvédi hazáját, feláldozza magát a közösségéért. Mint minden közép-európai ország, a véres elnyomások évszázadai miatt, mikor egy másik ember megjelenik, bizalmatlansággal méregetik  és idő kell, hogy baráttá válhasson. A brazilok számára az európaiak ezért is tűnnek „hidegnek – frios”.

Mindig az élet negatív oldalát látjuk, és ennek az oka a megszállásokban keresendő. Optimizmus és reménykedés helyett inkább a rosszat képzeljük el, így legalább nem szenvedünk a csalódástól. Mi magyarok országunkat a nagyhatalmakhoz, Németországhoz, Franciaországhoz vagy Angliához hasonlítgatjuk. Gyakran nem vesszük észre, hogy életszínvonalunk messze jobb, mint a fejlődőben lévő országoké. Az összehasonlítás alapja mindig Nyugat-Európa, és ez megmételyezi a magyar lelket. Ha felhívjuk figyelmüket, hogy Afrikában vagy Dél-Amerikában az emberek nyomorban élnek, a magyar válasz készen vár: Magyarországon is az lesz.

Talán idővel a magyarok elhagyják ezt a szemléletet és nem a nagyhatalmakkal méregetik össze magukat, a múltra mint tanulságra és nem mint örök létharcra tekintenek. Az utóbbi években az új generációk nagyobb lelkesedéssel fordulnak hazájuk felé, minek eredménye látható az országimázs videókban. Városainkban és a természet szépségében gyönyörködhetünk (https://www.youtube.com/watch?v=A3DDTfNaz4I), illetve büszkélkedhetünk kreatív, nagytudású honfitársainkkal (https://www.youtube.com/watch?v=e0wkokaybWA).

(Sosem mondtam az édesanyámnak, hogy szeretlek. Sosem mondtam a magyar barátnőimnek. De portugálul már természetesnek hangzik a te amo, amigaszeretlek, barátnőm. Senki sem kételkedhet abban, szeretem édesanyámat, imádom a magyar barátnőimet, de verbálisan nem mutatom ki feléjük. A brazil kapcsolataim nyelve a portugál, hezitálás nélkül mondom, te amo. Ami megváltozott, hogy Brazília „megfertőzött”.   A fiaimnak gyakran, magyarul mondom: szeretlek. Nagyon jó érzés, és hálás vagyok e új szokásomért a braziloknak. )

 

Kóbori Sarolta Magyar nyelv és irodalom, illetve magyar mint idegen nyelv tanár; mozgóképkultúra és médiaismeret tanár, filmtörténész. Magyarországon született, tanulmányait az Eötvös Loránd Tudományegyetemen végezte. Diplomái: magyar nyelv és irodalom (2006); magyar, mint idegen nyelv (2009 – szakdolgozatának címe: A magyar nyelv és kultúra helyzete São Paulóban) és filmelmélet – filmtörténet (2009). Doktori disszertációját az európai művészfilm és a brazil filmművészet kapcsolatáról írja. A Pécsi Tudományegyetem  oktatója, az Universidade de São Paulo magyar nyelv és kultúra tanfolyamának vezetője.
Tiz éve Braziliában él, gyermekei brazil magyarok.
magyar@usp.br

 

 

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ANTROPOCENO E A PERSPECTIVA DE EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO

 

Talvez poucos autores tenham conseguido traduzir com tanta abertura e profundidade  as questões ligadas ao mal estar contemporâneo –  os Índios, os direitos de todos os seres, o capitalismo, os impactos climáticos e também, a irresponsável dissociação mental entre nossas ações e os resultados que produzimos. Aqui, um pequeno trecho da entrevista que Eduardo Viveiros de Castro, “antropólogo meio filósofo” e Déborah Danowski, sua mulher, “filósofa meio ecologista”,   concederam a jornalista Eliane Brum, em matéria publicada no El Pais.

“Antropoceno – o momento em que o homem deixa de ser agente biológico para se tornar uma força geológica, capaz de alterar a paisagem do planeta e comprometer sua própria sobrevivência como espécie e a dos outros seres vivos. Ou, dito de outro modo, o ponto de virada em que os humanos deixam de apenas temer a catástrofe para se tornar a catástrofe.

Uma coisa é você dizer que os animais são humanos, no sentido de direitos humanos. Outra coisa é dizer que os animais são pessoas, isto é, são seres que têm valor intrínseco. É isso o que significa ser pessoa. Reconhecer direitos aos demais viventes não é reconhecer direitos humanos aos demais viventes. É reconhecer direitos característicos e próprios daquelas diferentes formas de vida. Os direitos de uma árvore não são os mesmos direitos de um cidadão brasileiro da espécie homo sapiens. O que não quer dizer, entretanto, que ela não tenha direitos. Por exemplo, o direito à existência, que só pode ser negado sob condições que exigem reflexão. Os índios não acham que as árvores são iguais a eles. O que eles acham simplesmente é que você não faz nada impunemente. Todo ser vivo, com exceção dos vegetais, tem que tirar a vida de um outro ser vivo para sobreviver. A diferença está no fato de que os índios sabem disso. E sabem que isso é algo sério. Nós estamos acostumados a fazer a nossa caça nos supermercados, não somos mais capazes de olhar de frente uma galinha antes de matá-la para comer. Assim, perdemos a consciência de que nós vivemos num mundo em que viver é perigoso e traz consequências. E que comer tem consequências. Os animais seriam pessoas no sentido de que eles possuem valor intrínseco, eles têm direito à vida, e só podemos tirar a vida deles quando a nossa vida depende disso. Isso é uma coisa que, para os índios, é absolutamente claro. Se você matar à toa, você vai ter problemas. Eles não estão dizendo que é tudo igual. Eles estão dizendo que tudo possui um valor intrínseco e que mexer com isso envolve você mesmo. Acho que o símbolo da nossa relação com o mundo, hoje, é o tipo de guerra que os Estados Unidos fazem com os drones, aqueles aviões não tripulados, ou apertando um botão. Ou seja, você nem vê a desgraça que você está produzindo. Nós todos, hoje, estamos numa relação com o mundo cujo símbolo seria o drone. A pessoa está lá nos Estados Unidos apertando um botão num computador, aquilo vai lá para o Paquistão, joga uma bomba em cima de uma escola, e a pessoa que apertou o botão não está nem sabendo o que está acontecendo. Ou seja, nós estamos distantes. As consequências de nossas ações estão cada vez mais separadas das nossas ações.

Perderam-se os sentidos e as conexões entre morrer e matar…

Eduardo – Exatamente. Ou seja, o índio que vai para o mato e tem que flechar o inimigo, ele tem que arcar com as consequências psicológicas, morais, simbólicas disso. Aquele soldadinho americano que está num quartel nos Estados Unidos, apertando um botão, ele nem sabe o que está fazendo. Porque ele está longe. Você cada vez mais distancia os efeitos das suas ações de você mesmo. Então nós somos todos drones nesse sentido. A gente compra carne no supermercado quadradinha, bem embaladinha, refrigeradinha, sem cara de bicho. E você está o mais longe possível daquela coisa horrorosa que é o matadouro. Daquela coisa horrorosa que são as fazendas em que as galinhas estão enfiadas em gaiolas apertadas. Se o pessoal lembrar que 50% das galinhas que nascem são galos e que esses 50% que nascem são triturados ao nascer para virar ração animal porque não colocam ovos, talvez não conseguissem comer galinhas. Se você mostrasse que metade dos pintinhos vão todos vivos para uma máquina que tritura, talvez melhorasse um pouco. Mas as pessoas não querem saber disso. Nisso, nós somos iguaizinhos ao soldado americano que aperta o botão para matar inocentes no Paquistão. Nós fazemos a mesma coisa com as galinhas. Nós somos todos drones. Temos uma relação com o mundo igual à que os Estados Unidos tem com suas máquinas de guerra. Somos como os pilotos da bomba atômica que não sabiam bem o que estavam fazendo quando soltaram a bomba atômica em cima de Hiroshima. Dissociação mental. Essa coisa de não se dar conta do que a gente está fazendo, por um lado está aumentando. Mas, por outro lado, com a mudança climática, as pessoas estão começado a perceber que o que elas estão fazendo está influenciando o mundo. Estamos num momento crucial: por um lado o aumento brutal do modelo drone, com tudo cada vez mais distante, e, por outro, as catástrofes batendo na sua porta. O mar está subindo, o furacão está chegando, a seca está vindo.”

link para a materia completa:
http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/29/opinion/1412000283_365191.html

foto banner-  OVERSPILL: UNIVERSAL MAP -Rikke Luther 

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GRÍZES TESZTA por Elza Tamas

 

 

Tenho quatro avós húngaros.
Por ocasião da 1ª guerra mundial, a Hungria perdeu grande parte do seu território, dois terços. Dois dos meus avós passaram de um dia ao outro, de húngaros a romenos; os outros, viraram sérvios. O tratado de Trianon previa que se em 100 anos, as comunidades agregadas aos novos países ainda mantivessem a língua materna, as terras anexadas seriam reintegradas aos países de origem. Em função disto, a primeira providencia tomada pelos governos foi impedir que o idioma de origem fosse falado. Na escola, minha avó era obrigada a falar romeno. Os vizinhos eram húngaros, a rua húngara, o padeiro, o açougueiro, mas na escola ela tinha que aprender a falar uma língua estranha: o romeno.
A Hungria perdeu o acesso ao mar, meus familiares perderam filhos e parentes, vitimas da guerra e das condições precárias em que viviam. Famílias fugiam para evitar que filhos fossem alistados e no porto, no minuto final, eles eram confiscados e obrigados a ficar. A viagem de navio era então um misto de esperança, com a promessa do novo mundo, os peixes voadores acompanhando a embarcação, crianças brincando inocentes pelo convés, e a dor de tudo que tinha sido deixado para trás. Sacas e sacas de dinheiro eram lançadas ao mar, papel sem valor algum, e eles desembarcaram ainda mais pobres na nova vida.

Quando os meus bisavós chegaram ao Brasil, ambos, os húngaros sérvios e os húngaros romenos, construíram casas sobre uma fundação alta, elevada, três degraus para alcançar a porta. Esperavam pela neve que nunca veio. Penduraram tapetes grossos nas paredes para enfrentar o frio rigoroso. Na lateral da casa, parreiras. No quintal, atrás, uma pequena horta. Fabricavam linguiças em casa, numa linha de produção em série que envolvia toda a família. Soprar e encher tripas com uma mistura de carnes de cheiro forte, desagradável, parte das minhas piores lembranças de infância, as linguiças, e também os velórios domésticos, com os mortos benzidos com ramos enormes de alecrim, os pés frios de um bisavô que eu devia segurar para perder o medo da morte, a procissão da sexta feira santa e Maria Madalena me apavorando com o seu canto mórbido, o cemitério e o tumulo da menininha enterrada com os brinquedos prediletos.
Naquele bairro, que era na verdade uma comunidade húngara, nascemos todos, eu e meus irmãos; em casa, que parto não é doença, dizia minha mãe; com a mesma parteira, e na casa da mesma avó. O primeiro banho era de bacia e a placenta era enterrada no jardim pelo meu avô. Lá também meus pais se conheceram na celebração de primeiro de maio, num piquenique. Vida e morte se cruzavam com mais naturalidade naquela vila de ruas de terra, de língua estrangeira e de velhas de cajado e lenços escuros amarrados sob o pescoço.

Recentemente, numa viagem que fiz a Hungria e Romênia, onde encontrei parentes amorosos que eu nem sabia que existiam e que me descobriram pela internet, me deparei com arquiteturas absolutamente familiares: a fundação alta, os degraus para o acesso a porta, os tapetes nas paredes, a parreira, a horta no fundo. Também páprica e papoula compradas a granel, massas folheadas e doces tão saborosos como os da minha mãe. Nem tudo pode ser roubado de um povo.

(Quando alguém adoecia, minha mãe fazia um macarrão, frito numa farinha de semolina, crocante, queimado no fundo da panela: Grízes Teszta. Macarrão à milanesa. De sobremesa, panquecas recheadas com açúcar e canela. Palacsinta. Minha mãe se foi, a tradição se mantém.)

 

foto banner: foto do passaporte do meu bisavô húngaro (romeno), na ocasião da entrada no Brasil

 

 

 

 

 

Elza Tamas é psicóloga clínica e escritora.
Idealizou e desenvolve o forademim.com.br

 

 

 

 



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O ELO ENTRE LINGUAGEM E MÚSICA por Magda Pucci

 

Parece existir uma ligação próxima entre o surgimento da música e da linguagem falada, situando assim o despertar do sentido musical em tempos remotos.

Inúmeras teorias tentam explicar a origem da música, do canto, dos primeiros sons produzidos pelo homem. Alguns dizem que nós aprendemos a cantar imitando os sons emitidos por pássaros e animais, enquanto, outros sugerem que a música se desenvolveu a partir da descoberta de que alguns sons mais simples quando emitidos a uma longa distância, tornam muito mais fácil a comunicação de um grupo. Diferentes intelectuais de diversas áreas tem suas teorias sobre o surgimento da música, do canto, da fala.

O economista Karl Bücher argumentou que o ritmo desenvolveu-se em função da necessidade de se coordenar grandes grupos de pessoas trabalhando juntas levantando, quebrando, puxando as coisas – requerendo desempenho máximo do grupo exercido no mesmo instante. Essa relação com o coletivo é bastante aceita ainda hoje.

Charles Darwin, naturalista, relacionou a origem da música com o sexo: ela teria se  desenvolvido a partir dos sons de acasalamento produzidos por  pássaros e animais. Essa é uma hipótese provável também, dado que muitos xamãs indígenas se transvestiam de pássaros ou outros bichos para conversar com os espíritos. Há vários relatos míticos, como por exemplo, os dos Paiter Suruí, onde mulheres mantinham relações sexuais com espíritos em forma de animais.

O psicólogo Karl Stumpf conjectura que cantar com tons definidos e bem alto tinha um poder muito maior do que o discurso ou grito.

Para Herbert Marcuse, filósofo, as pessoas tendem a exagerar as localizações expressivas na própria linguagem quando estão em estados emocionais agudos, originando lamentos ou gritos que quando estilizados, se transformam em música.

A música se desenvolveu como um modo de comunicação realçada com poderes sobrenaturais, ou seja, como forma de xamanismo, com poderes para a cura e de dialogo com os espíritos.Esta é a visão proposta pelo antropólogo Siegfried Nadel.

O etnomusicólogo John Blacking concebe a música como um espelho que reflete os mais profundos ritmos sociais e biológicos de uma cultura, uma externalização dos pulsares que permanecem escondidos no meio das ocupações da vida diária.

A filósofa Suzanne Langer especula que música, linguagem e dança foram originados juntamente aos mais antigos rituais, com imagens de pessoas se reunindo em círculos, dançando e cantando.

O musicólogo Jacques Stehman também aponta uma analogia entre a gênese da música e a da linguagem, ao afirmar que “os homens das eras mais recuadas, vivendo rodeados de mistérios inexplicáveis e de terrores diversos, sem recurso perante a hostilidade da natureza e os enigmas da criação, utilizam antes mesmo de saberem falar, uma linguagem que representa um meio de comunicação com os espíritos ou com as forças que os dominam, ou ainda com divindades que comandam essas forças”.

Para o arqueólogo Steven Mithen , autor do livro ‘Os Neandertais cantavam rap’, antes mesmo de desenvolver um padrão de linguagem, os hominídeos que viviam entre 50 mil e 100 mil anos atrás utilizavam a música como forma de comunicação e socialização. Para ilustrar, ele exemplifica com a imagem de homens de Neandertal em cavernas em Dordogne, na França, cantando, pulando, fazendo sons com os pés e com as mãos. Parecia haver uma espécie de “transe coletivo” semelhante ao visto nas atuais raves.

“As pessoas sempre pensam nos Neandertais como brutos e mal-humorados, mas eles tinham uma noção forte de ritmo e música”. O arqueólogo se apoia em outros estudos, de neurocientistas, antropólogos e paleontólogos, para reforçar a ideia da co-evolução de música e linguagem. Em oposição, outro arqueólogo Steven Mithen, pensa que o homem de Neandertal desenvolveu uma comunicação que ele chama de HMMMM, isto é, holística (não composta de elementos segmentados), manipulativa (influenciava emocionalmente a si próprio e aos outros), multimodal (utilizava sons e movimentos), musical (rítmica) e mimética (com gestos).

O linguista canadense Steven Pinker diverge da teoria de Mithen e acredita que a música seria uma derivação do sistema de linguagem, isto é, a música poderia existir no cérebro mesmo com a ausência da linguagem.

Tanto Mithen com Stehman, assim como a filósofa Langer, afirmam que a comunicação do homem – seja com os seus ou com as divindades – demandou uma linguagem, isto é, sons articulados geradores de uma oralidade, que independente do advento da escrita, se mantém como forma de comunicação entre muitos povos, seja em forma de música ou como narrativas.”

Na China Antiga, pensava os princípios da música seriam os mesmos do eterno sagrado, huang chung, expressão que se refere tanto ao som fundamental como à divindade. Na tradição indiana, Brahma ensinou o canto ao profeta Narada que por sua vez, o transmitiu ao resto dos homens. No Egito, Deus Thoth teria criado o mundo através dos sons e antes do ano 4000 a.C., a música já era presente nos rituais e cerimônias militares, festas profanas. Na Babilônia e na Grécia, os filósofos relacionavam o som com o cosmos através do estudo da acústica.

Por mais teorias que surjam, a origem da música se mantém como um mistério. Enquanto manifestação oral não é linguagem da razão, mas das grandes forças misteriosas que animam o homem.

 

foto banner: arte aborígine
fotos: pinturas rupestres Serra da Capivara

 

Um gostinho do grupo Mawaca

 

 

Magda Pucci é musicista e pesquisadora da música de vários povos. É formada em Regência pela ECA-USP, mestre em Antropologia pela PUC-SP e doutoranda em Creative Arts and Performance na Universidade de Leiden na Holanda. É diretora musical do grupo Mawaca há 20 anos, onde desenvolve extensa pesquisa de repertório multicultural aplicada à prática musical. O grupo tem 6 CDs e 4 DVDs lançados e se vem se apresentando em diversos países. Magda foi apresentadora e produtora do programa de rádio ‘Planeta Som’ por 13 anos transmitido pela Rádio USP e pela Multikulti na Alemanha e na Suécia. Ministra oficinas de educação musical para professores e é autora do livro paradidático “Outras terras, outros sons” em parceria com Berenice de Almeida (Ed. Callis) além de livros para criancãs baseados nas canções do Mawaca como “De todos os cantos do mundo” (Cia das Letrinhas) e “Contos Musicais” (Leya) em parceria com Heloisa Prieto. Com Berenice de Almeida, escreveu o livro “A Floresta canta: expedição sonora por terras indígenas do Brasil” (Peirópolis) e A Grande Pedra (Saraiva) para crianças. Também dá palestras e cursos sobre músicas do mundo e faz curadorias.

www.mawaca.com.br

http://www.youtube.com/user/mawaca

http://www.wix.com/magdapucci/mawaca-cantos-da-floresta2

http://www.facebook.com/grupomawaca

 

 

 

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A SINGULARIDADE HUMANA por Andrea Migliano

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desenho Darwin -árvore da vida

 

 

Discutir origens é sempre algo complicado. Com exceção da origem do Universo onde numa grande explosão, do nada surgiu o tudo, todas as outras etapas da nossa criação aconteceram baseadas em algo que existia antes, e modelado pelas forças da seleção natural e claro, do acaso.

Para falar da origem da humanidade temos que entender então, que o homem não aconteceu de um dia para o outro, e que características que consideramos ser exclusivamente humanas, evoluíram lentamente, durante um longo período de sucessão de diferentes espécies. Muitas destas características são portando compartilhadas com os nossos diversos ancestrais na linhagem evolutiva da vida.

Como definir o ser humano?

Do ponto de vista biológico, somos animais, da classe mamália, da ordem primata, da família hominídea, do gênero Homo e da espécie sapiens. Nós compartilhamos com nossos primos da ordem primata 90% do nosso código genético, e com a nossa família hominídea (Chimpanzés, Bonobos, Gorilas e Orangutangos) pelo menos 97 %.

Chimpanzés, Bonobos e o homen se separaram há 7 milhões de anos (um período extremamente curto do ponto de vista evolutivo), e compartilham 98.7 % do seus códigos genéticos. De fato, Chimpanzés e Bonobos, são mais parecidos com o homem, do que são com Gorilas!

O que compartilhamos com Chimpanzés além de genes?

Cada vez mais, comportamentos antes atribuídos exclusivamente aos humanos, são observados também em outro integrantes da família hominídea. Grupos de Chimpanzés têm diferentes culturas – ou seja usam instrumentos que diferem de uma população para outra. Além disso, testes de QI mostram que que Chimpanzés são tão bons quanto crianças humanas em entender o mundo físico e as relações de causa e consequência. E, para a surpresa de muitos, Chimpanzés tem uma memoria de curto prazo (um traço importante para o desenvolvimento do aprendizado) muito melhor que a humana. De fato, são tão bons, que desafio os leitores a memorizar uma sequencia numérica na mesma velocidade que chimpanzés o fazem:

https://youtu.be/qyJomdyjyvM

Você pode tentar fazer o mesmo teste aqui:

http://www.crazygames.com/game/ayumu-chimp

O que e único do homem e quando essas características surgiram?

O homem moderno (Homo sapiens), surgiu na África por volta de 200 mil anos atrás. Além de um cérebro três vezes maior do que o dos chimpanzés, o homem tem outras características únicas importantes: devido ao tamanho do nosso cérebro, temos os bebês mais caros e portanto os mais dependentes entre todos os primatas. Isso fez com que a cooperação entre diferentes membros da família, como por exemplo os avós, evoluísse para garantir a sobrevivência das crianças. Essa cooperação entre membros da família e do grupo, foi extremamente importante durante a evolução humana; com ela veio a nossa capacidade inata para a linguagem (para coordenar movimentos cooperativos), além da seleção para maior longevidade. Por exemplo, acredita-se que a menopausa (outra característica unicamente humana) tenha evoluído para que as avós pudessem parar de reproduzir e ajudar na criação dos netos. A combinação de todos essas adaptações, fazem do homem uma espécie única. Essas características únicas evoluíram lentamente durante os 7 milhões de anos que separam o homem dos Chimpanzés. Porém, onde e como, é difícil dizer. Por volta de 2.8 milhões de anos atrás, no leste da África o gênero Homo apareceu. Existem entre 8 e 12 espécies de Homo descritas, dentro e fora da África. Sendo Homo sapiens, a única, sobrevivente hoje em dia. Homo erectus há 1.8 milhões de anos atrás já apresentava uma estatura equivalente a nossa, um período de crescimento e tamanho do cérebro, bem mais próximos aos humanos.

Claro que o fato do ser humano ter evoluído uma capacidade de cooperação extrema, não significa que não tenha também evoluído capacidades extremas para competição e conflitos. Conflitos entre grupos são parte da nossa história evolutiva. Na verdade, alguns cientistas defendem que parte da nossa capacidade cooperativa tenha evoluído como uma forma de se organizar contra grupos inimigos. Por muitos milhares de anos, Homo sapiens dividiu o mundo com todas as outras espécies do gênero Homo. Os Neandertais (Homo neanderthalenses) por exemplo, habitavam a Europa até 40 mil anos atrás, quando os humanos chegaram. Os humanos trouxeram com eles, novas tecnologias, mais vantajosas na competição por recursos, levando assim, a extinção dos Neandertais. Porém, antes da extinção, houve miscigenação entre as duas espécies. Evidencias recentes vindas da comparação do genoma humano com o genoma de Neandertais, mostram que todas as pessoas fora da África têm entre 2 e 4% do seu genoma, vindo de Neandertais

Familia Agta (caçadores coletores das Filipinas) em casa, cozinhando juntos. Divisão de alimentos entre diferentes indivíduos é também uma característica única humana.

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A complexidade da historia evolutiva e das interações entre as espécies do gênero Homo durante o processo de colonização do planeta, mostra como é difícil apontar para a origem de uma singularidade humana. Uma maneira mais produtiva é olhar para a origem das diversas características singulares que compartilhamos com cada um de nossos ancestrais na linhagem evolutiva da vida.

 

 

 

Andrea Bamberg Migliano é  PhD pela Universidade de Cambridge em Antropologia Biológica. Desde 2010 é professora na UCL (University College London). Suas pesquisas são na área de evolução humana e evolução do comportamento humano, especialmente voltadas para o entendimento da evolução de tribos caçadoras-coletoras no Congo e nas Filipinas.
Para saber mais:
http://www.adapting.org.uk
http://www.ucl.ac.uk/anthropology/people/academic_staff/a_migliano

 

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O GLOSSÁRIO DOS NOMES PRÓPRIOS por Alex Cerveny

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O “glossário dos nomes próprios” que deu origem a esta pintura foi o que encontrei em uma edição de Os Lusíadas, de 1884. Retirei dali os primeiros nomes da lista: Abraham, Achilles, Acrísio, Acteon, Adamastor, Adão e assim por diante até o terrível Zopyro, o sátrapa persa. Escolhi apenas homens e os imaginei todos com suas feições semíticas, todos semelhantes e habitantes de um mundo anterior à existência das mulheres. E também vieram faraós, papas, profetas, psicanalistas e homens de todo tipo. Todos eles nascidos das costelas uns dos outros, desde Adão até Michael E. Dritschel, o inventor da margarina cremosa(mesmo gelada!) e assim por diante. Em cada pintura existe um mundo. Neste é assim. E nele a existência humana está prestes a se acabar porque toda a matéria combustível já ardeu para forjar o metal das correntes titânicas que prendem o céu à terra. As últimas brasas ainda queimam, mas não por muito tempo. O universo chega assim ao seu termo, que apesar do esgotamento, possui grande beleza. Um belo mundo construiram estes homens e assim, a linhagem do primeiro Adão está pronta para o seu fim.

 

 

 

 

 

Alex Cerveny – São Paulo, 1963.
Foi criado na zona oeste de São Paulo, filho de um arquiteto e de uma professora especializada no ensino de cegos. Seu trabalho é fundamentalmente narrativo, em pintura, desenho, gravura e escultura. Artista de formação livre, começou a expor no ano de 1983. Recebeu em 1986 o “Grande prêmio” na 7 a mostra de gravura Cidade de Curitiba. Em 1991 participou das exposições Viva Brasil Viva, no museu Liljevalchs em Estocolmo e da 21a Bienal internacional de São Paulo. Nos anos recentes, ganhou em 2012 o Prêmio FUNARTE-Marcantônio Vilaça pelas ilustrações do livro Pinóquio (Editora Cosac Naify, 2011) e com elas ainda participou em 2013 da 30a Bienal de artes gráficas de Ljubljana. Em 2014, recebe também o segundo lugar do Prêmio Jabuti de melhor ilustração pelo livro Decameron(Cosac Naify, 2013).

 

A exposição “Glossário dos nomes próprios” estará em cartaz de 1° de abril à 7 de junho de 2015 no Paço Imperial, Praça XV de Novembro, 48 – Centro – Rio de Janeiro. De terça a domingo, das 12 às 18h – ENTRADA FRANCA

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CONSTELAÇÕES SISTÊMICAS por Aude Kater

 

 

Todo individuo pertence a vários sistemas, constituídos de subsistemas, em interação constante uns com os outros. Cada sistema funciona como uma entidade com motivações, prioridades, papéis, necessidades, valores, histórias e até estados de alma que lhe são próprios. O primeiro e o mais importante é o grupo familiar.
Cada sistema tem o seu potencial próprio de energia e quando se enfraquece, acaba desenvolvendo  sintomas patológicos nos elementos que o compõem.

O trabalho com a abordagem sistêmica das Constelações Familiares coloca em evidência  forças muitas vezes inconscientes, que regem e mobilizam os grupos. A partir do momento em que pessoas se agrupam, um código de funcionamento se impõe. A transgressão deste código fere a consciência grupal, que sempre prevalecerá sobre a consciência pessoal, e provocará inevitavelmente algum tipo de problema.

Todos os sistemas obedecem a um mesmo conjunto de princípios. Existem três princípios superiores que influenciam todos os demais:

o principio de pertencimento significa que cada pessoa integrante de um sistema qualquer não pode sob nenhum pretexto ser excluída. A exclusão afetará não somente os membros atuais, mas também os descendentes.
o principio de precedência lembra que existe uma ordem de chegada e cada pessoa possui o seu lugar especifico, isto é, ninguém pode ocupar o lugar de outro.
o principio de equilíbrio entre dar e receber representa um norma de justiça e de equidade dentro do sistema.

Normalmente, pensamos que o que nos acontece é de nossa responsabilidade, ou que é consequência de um passado pessoal. Porém, quando fazemos algo que na realidade não desejamos nem tínhamos a intenção de fazer ou quando deixamos de realizar ou agir como gostaríamos, as constelações familiares e as representações nos mostram que isto em geral está ligado à influência de outros membros de nosso sistema familiar, em função do que eles fizeram ou deixaram de fazer. Às vezes, são antepassados que nem conhecemos. No âmbito das representações sistêmicas, chamamos esta ligação de emaranhamento.

É difícil observar estas influências de maneira direta no âmbito do quadro familiar. Porém elas podem ser a causa de doenças graves, distúrbios psicológicos, acidentes, fracassos ou dificuldades repetitivas na vida.
As constelações familiares representam um método que torna visíveis estas forças invisíveis, permitindo encontrar uma solução adequada aos problemas afetivos, psicológicos, profissionais ou de saúde.

Numa Constelação Familiar, o facilitador convida o cliente a expor brevemente seu problema, através de perguntas sobre fatos relacionados a situação ou a sua família. Depois, em função das respostas, o constelador lhe pedirá que escolha no grupo algumas pessoas para representar elementos do problema ou membros de seu sistema familiar. O cliente os disporá intuitivamente no espaço e depois retornará ao seu lugar, quando assistirá a algo surpreendente: os representantes perceberão sensações, emoções e mesmos pensamentos dos membros do sistema familiar que eles estão representando, sejam eles vivos ou mortos.
Estes registros vão guiar o facilitador para uma compreensão da causa do problema.

Quando refletimos sobre as dificuldades sistêmicas, podemos constatar que elas tem sua origem na relação da criança com a mãe, pai, ou com um de seus irmãos . Posteriormente estes transtornos projetam-se em todas as outras relações durante a sua vida. A vida pode se tornar então uma repetição do que foi vivido pela criança. Isso representa a raiz do sangue. Diz respeito a nossa família de origem e aquela que criamos.

Porém, muitas vezes o trabalho com este nível mostra-se insuficiente.. Compreendemos então que é necessário buscar para além da família de origem, na cadeia dos ancestrais.

Estes ancestrais viveram numa terra, pertenceram a uma raça, nação, povo. Pode existir um emaranhamento entre uma pessoa e seu ancestral e este emaranhamento é muitas vezes uma ligação negativa, que os leva a adotar comportamentos que parecem aos destes ancestrais, particularmente quando um desses ancestrais foi maltratado, rejeitado ou excluído, ou então quando roubaram algo que lhe pertencia como seu lugar no próprio sistema familiar, sua honra, ou a sua fortuna, por exemplo.

Um ancestral pode ter sido excluído de seu país, por exemplo. Ele torna-se, como quase todos os emigrados, alguém desenraizado, sem vinculo e que perdeu parte de suas referências de origem. Todo o equilíbrio do sistema responde a este impacto, gerando dificuldades aos descendentes.

As Constelações Familiares não interpretam, explicitam através das representações onde existem “emaranhamentos” e bloqueios do movimento energético. Depois de evidenciar a fonte do problema, procuram reintegrar o que era excluído ou o que estava fora de seu lugar até que o sistema reencontre o seu próprio equilíbrio.

Artigo escrito, com base em material pedagógico do curso de formação em Constelações Sistêmicas ,idealizado por Idris Lahore da Livre Universidade do Samadeva/França

foto banner: máscara/Aude Kater

 

Aude Kater
Terapeuta e Artista Plástica, francesa radicada no Brasil. Diplomada em Arteterapia e Mestre em Ciências da Educação pela Universidade de Paris V, possui formação também em Psicosintese, em Terapia Transpessoal pela DEP – Dinâmica Energética do Psiquismo – e em Constelações Familiares pela Universidade Livre do Samadeva/França e pela Faybel Consultoria/Brasil. Membro do Colégio internacional dos Terapeutas/Brasil assim como da Federação de Psicogenealogia e Constelações familiares e Sistêmicas/França e da AATESP. Desenvolve há mais de 30 anos, trabalhos terapêuticos com abordagem artística, utilizando a simbologia da máscara como recurso de expressão e autoconhecimento.

www.cuidardoser.com.br
cuidardoser.grupos@gmail.com

 

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ATRÁS DE TODAS AS COISAS por Leda Cartum

Sou testemunha da infância dela que corre ao meu lado: estamos no mesmo banco de trás do carro, mas ela assiste a um desfile de mundos misteriosos pela janela (por que nunca pode fechar o cruzamento?) enquanto o meu olhar ultrapassa a rua e não fixa ponto nenhum. Daí me vejo comentando com os adultos do banco da frente: que essa avenida costuma estar mais congestionada. No que eu e ela nos entreolhamos e a percebo interrogativa, como se tentasse depreender um significado impossível a partir do que acabo de dizer: para ela essa frase é enigmática, pertence a um universo hermético a que ela esteve sempre ligada sem nunca poder conhecer. A frase que trata da frequência do congestionamento da avenida repercute dentro de sua cabeça, cheia de realidades secretas e imensas: talvez contenha a resposta para todos os problemas, a solução dos mistérios; mas ela não tem acesso a isso. Essa frase, como que contornada por uma faixa amarelo e preta, é de acesso restrito: e ela só pode vê-la de longe na tentativa de adivinhar o que é que eu quis dizer: o que é que os adultos sabem e que ela não pode saber; qual é o segredo que se esconde atrás de todas as coisas.

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Lembro de algo que aconteceu algum tempo atrás: sorrio, numa mistura de cumplicidade e compaixão, como se visse do alto aquela pessoa que fui há anos e que não sabia de nada do que viria a acontecer. É um sorriso parecido com aquele que costumamos dirigir às crianças, e que parece dizer: existe um futuro imenso que vocês ainda não conhecem. Há sempre uma névoa de ingenuidade que envolve as lembranças antigas e as crianças pequenas: quando é que, naquela época, ou nessa idade, poderíamos desconfiar de tudo o que surgiria e que nos levaria por esses rumos até chegar aqui e agora? Vem também uma certa vontade de voltar até aqueles momentos para envolver esses seres distantes que agora parecem fantasmas imersos no escuro, e consolá-los por sua ignorância.

Mas é só inverter o sentido desse olhar para que tudo de repente mude de figura: se tento dirigir o olhar para a massa amorfa e invisível de tudo o que está por vir; ou, antes: se tento me sentir olhada por aquela que serei eu em um lugar desconhecido e por enquanto inexistente que é chamado de futuro – daí as coisas em volta se tornam muito pequenas. Parece que elas se afastam e correm quilômetros ainda imóveis, e o meu próprio tempo deixa de ser certo e seguro. É uma sensação de vertigem que provoca uma espécie de queda dessa atualidade e nos joga para longe, como se não estivéssemos mais no lugar onde estamos. As coisas são reviravoltas no escuro.

 

imagem banner: Iluminura de livro do sec, XV  -Antoine Vérard, 1494 L’Art de bien vivre et de bien mourir.

 

 Leda Cartum tem 26 anos. Publicou o seu primeiro livro, As horas do dia – pequeno dicionário calendário (Editora 7Letras), em 2012. Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, hoje no mestrado estuda o escritor Pascal Quignard – de quem está traduzindo o livro Le sexe et l’effroi. Trabalha com texto e produção escrita em diversas áreas, desde tradução e editoração até roteiros para cinema e TV. Seu próximo livro, O porto, sairá pela Editora Iluminuras em 2016.
foto: Sara de Santis.

 

 

 

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A ORIGEM DO FUTURO por Jesper Rhode

A tecnologia se inaugura no momento em que um macaco, ou outro animal, utilizou-se  de uma pedra para quebrar a casca de uma fruta. Por definição, tecnologia é a coleção de técnicas, metodologias ou processos usados para produzir um bem. Segundo muitos arqueólogos, há 50.000 anos a utilização de ferramentas e o aparecimento de comportamentos mais complexos deu origem a línguas mais elaboradas.

 

A tecnologia tem sido essencial na evolução humana, e em grandes momentos de disruptura na nossa historia. Podemos interpretar a frase “anões nos ombros de gigantes” de Bernard of Chartres, do século XII, como um reconhecimento da contribuição da tecnologia herdada de nossos ancestrais e  grande alavanca para o desenvolvimento contínuo. No seu livro Superinteligência, o professor da Universidade de Oxford, Nick Bostrom, calcula que quando eramos caçadores, a nossa economia dobrava a cada 224.000 anos. A tecnologia nos ajudou a construir uma civilização baseada na agricultura que, por sua vez, dobrou a economia a cada 900 anos. Mas eles certamente teriam dificuldade em  acreditar que no inicio de seculo XXI, países desenvolvidos e megacidades dobram a sua economia a cada 6,3 anos.

 

Para muitos tecnologia hoje é sinônimo de computação e digitalização. Provavelmente isso ocorre, devido às mudanças fundamentais que as tecnologias derivadas da Internet estão nos trazendo. Some-se isso ao fato  do computador ser visto como uma máquina com algum grau de inteligência.  Mas a ideia da existência de uma tecnologia de computação é anterior ao computador que  conhecemos hoje. Uma das primeiras evidências da existência de um computador é datada de 205 anos antes de Cristo. A máquina de Anticítera, nome do local onde foi encontrada na Grécia, é um artefato que se acredita se tratar de um antigo mecanismo para auxílio à navegação, e sua construção  foi atribuída a Arquimedes. Sua serventia vai além de guiar naus. Esse computador analógico é preciso em calcular a orbita lunar, solar, e as órbitas de mais cinco outros planetas ao redor da terra.

 

A ideia de atribuir inteligência ao computador também não é tão recente. Em 1770 surge o primeiro computador de xadrez: o Turco. Ganhou esse nome por ser composto de uma mesa montada junto com um boneco mecânico, vestido como um turco. O Turco movimentava as peças do jogo, e se mostrava como um jogador competente. Em 1820 o segredo foi desvendado, com a descoberta de que, na verdade, havia uma jogador de xadrez real dentro da mesa. O aparelho deu origem ao serviço da Amazon “Mechanical Turk“,  que hoje propõe terceirizar à pessoas ao redor do planeta, mediante pagamento, tarefas que são difíceis de serem executadas por computadores, pelo conceito de Crowd Sourcing ou trabalho colaborativo. Um novo tipo de colaboração que a tecnologia da Internet nos oferece.

 

A tecnologia e as revoluções tecnológicas têm sido muito significativas para a evolução da economia mundial e da civilização humana. Carlota Perez, professora de quatro universidades, entre elas London School of Economics e a Universidade de Cambridge descreve na sua tese grandes picos de desenvolvimento ligados a grandes revoluções tecnológicas. A primeira é a revolução industrial na Grã Bretanha em 1771, seguida pela era do vapor e pelas  ferrovias, começando em 1829. A terceira revolução é a idade do aço, eletricidade e engenharia pesada, onde os Estados Unidos e Alemanha ultrapassam a Grã Bretanha, a partir de 1875. A quarta revolução, a partir de 1908 descreve a idade do petróleo, do automóvel e da produção em massa. A quinta revolução tecnológica acontece em torno da informação, da informática e das telecomunicações a partir de 1971. Cada uma destas revoluções é caracterizada por duas fases: inicialmente uma fase com busca de aumento de eficiência, baseada na lógica da economia anterior à revolução tecnológica. Em seguida, uma outra fase que reformula a lógica fundamental da economia, e que portanto causa uma crise financeira. Desta maneira podemos atualmente observar em grandes países, comportamentos econômicos jamais previstos pelos livros de ensino econômico. Um exemplo é o uso de juros negativos e a emissão acelerada de dinheiro como solução para o crescimento, prática que vem sendo utilizada na Europa.
Atualmente estamos entrando na segunda fase da revolução tecnológica causada pela informática e da Internet. Parte desta segunda fase é a crise econômica profunda e o surgimento de novas logicas econômicas e novos modelos de negócio e valorização de empresas, como a aquisição da Whatsapp com seus 50 funcionários pela Facebook por 19 bilhões de dólares. Estamos caminhando para uma economia onde possuir bens será substituído por compartilhamento, e onde produtos estão se transformando em serviços. Uma destas tecnologias transformacionais é o carro autônomo, que dispensa o motorista e que promete pela primeira vez mudar fundamentalmente o conceito de transporte urbano, onde nos últimos 120 anos não tivemos progresso significativo.

 

Uma tendência atual e fundamental para a utilização das tecnologias é a chamada consumerização.  Termo dado inicialmente para o uso de dispositivos pessoais no ambiente de trabalho, tablets, netbooks, iPhones e Androids agora são usados também por funcionários que os levam para o ambiente da empresa, o que certamente aumenta sua produtividade. Hoje o termo também é utilizado para descrever o fato de que consumidores estão se apropriando de tecnologias antigamente totalmente inacessíveis a eles. No site genomecompiler.com qualquer pessoa pode baixar um programa e começar manipular qualquer parte do código genético de mais de 40 formas de vida armazenados na sua biblioteca. Ao terminar, o usuário pode enviar o novo código genético para Cambrian Genomics, que oferece imprimir em 3D este novo código genético, e após aprovação das autoridades norte-americanas, enviá-lo para o requisitante numa cápsula de proteína. Quinze anos atrás, uma manipulação deste tipo custaria bilhões de dólares e somente poderia ser executada por empresas muito sofisticadas. Um dos primeiros produtos anunciados, fruto deste processo, são plantas luminosas, derivadas do cruzamento de genes de bactérias aquáticas luminosas com genes de uma planta.

 

Sabemos que um email pode conter um vírus.  Mas, hoje este vírus pode ser biológico. A decodificação do DNA de um vírus real ou ainda a fórmula de uma vacina contra uma doença pode ser enviadada por email e pode ser reproduzida em qualquer lugar.

 

Da mesma maneira, modelagem em 3D, robótica e até viagens espaciais estão sendo trabalhadas e preparadas por empresas ou mesmo pessoas privadas.

O futurologista norte americano Ray Kurzweil introduziu o conceito de singularidade para descrever o processo de confluência das ciências resultando no crescimento exponencial da eficiência das tecnologias. Esta exponencialidade coincidiu com a aceleração do crescimento econômico mencionado inicialmente. Da mesma maneira que, a constatação do crescimento econômico atual pareceria irreal se apresentado para nossos agricultores ancestrais, hoje não somos capazes de compreender um crescimento dobrando o tamanho da nossa economia a cada 14 dias em 2040, que seria o resultado natural da continuação do crescimento exponencial que temos vivido historicamente até hoje. Parte desta previsão se baseia no surgimento da inteligência artificial em torno de 2030. A partir daí máquinas poderiam apresentar inteligência maior que seres humanos, e só podemos imaginar qual será o efeito a partir do momento que computadores e robôs consigam  se auto desenhar e se reproduzir segundo suas próprias ideias e percepções do mundo.

 

O cientista Stephen Hawking, Bill Gates da Microsoft, Elon Musk, inventor do carro elétrico Tesla e a empresa privada de transporte espacial Space-X, concordam que a inteligência artificial poderá ser o fim da raça humana, uma vez que, a partir dela podemos perder o controle sobre as ideias e visões a respeito  da evolução da vida neste planeta. Mas também é possível que uma inteligência maior conclua que o futuro do nosso planeta é precioso demais para continuar na mão de seres humanos, baseado na incompetência, que temos mostrado até agora.

 

 Jesper Rhode é diretor de Marketing para a Ericsson na América Latina.
Atua nos últimos 15 anos em varias posições como Vice Presidente de Multimídia, Inovação, Pesquisa e Desenvolvimento, Tecnologia, e Contas comercias da Ericsson do Brasil. Foi presidente do conselho da Mobile Marketing Association para América-Latina de 2010 a 2012.
Atualmente também ocupa cargos de:
– Conselheiro consultivo na Wenovate – Open Innovation Center.
– Vice Presidente na Câmera de Comercio Brasil-Dinamarca.
– Professor de MBA na Fundação Getúlio Vargas (FGV).
– Mentor para empresas de comunicação digital na aceleradora StartYouUp
É Engenheiro Eletrônico e de Computação pela Universidade Técnica de
Copenhague, Bacharel em Marketing & Vendas pela Universidade de Copenhague, e
formado em Gestão Global de Telecomunicações pela Escola Americana Thunderbird de Gestão Internacional. Recentemente, também se especializou em Administração de Empresas pela London Business School.