Arquivo da categoria: Edição 07: A TOPOGRAFIA DA CULPA

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O comunista e o mal estar dos tubarões por Elza Tamas

Depois de velhos deram para rezar. Ele comunista se saia bem dizendo, não esperem coerência, a idade me permite não ter que dar explicações. Ela, Dona Antonia, rezava seguindo a hierarquia do afeto: primeiro para o marido, depois os filhos, netos, noras e os amigos. Aí vinham os cachorros, os vivos e os que já tinham se encantado. Pelos animais, rezava para que eles se vissem livres da ganância humana.  Um dia pensou nos tubarões e rezou por êles. O marido interditou: Pelos tubarões, não!

O drama de consciência estava instalado. Dona Antonia queria rezar pelos tubarões. Ou mentia para o marido, ou traia seu desejo e deixava os tubarões ao seu próprio azar. Rezar virou uma tortura, e ela lentamente ia sendo devorada pela culpa.

Um conselho familiar deliberou que o marido devia dar seu consentimento expresso e liberá-la. Tudo acertado, a autorização foi lida num manifesto pró predadores, numa grande bacalhoada de domingo.

Sem a culpa, seriamos ainda bárbaros, matando e nos devorando em busca apenas da sobrevivência. A culpa é disciplinatória, ela é fruto do encontro entre o nosso desejo e a lei. Indica que alguma ação ou mesmo um pensamento, violou nossa moral e aponta um caminho de reflexão. Torna-se patológica quando se fixa, e como um disco riscado repete sempre a mesma melodia de acusação.

Em contrapartida a ausência total de culpa se chama psicopatia ou sociopatia. O mal que eu faço a alguém me é completamente indiferente, desde que eu me saia bem; os meios não estão em questão. Inclua-se ai matar, roubar, mentir, manipular, explorar, extorquir, etc.. . Não soa familiar? A doença dos nossos tempos.

Mas talvez o aspecto mais inusitado da culpa se encontra no fato de que ela sempre se ancora na arrogância, na nossa prepotência. Se aceitarmos nossa condição humana, quer dizer, somos falíveis, – não vamos conseguir dar jeito em tudo, vamos errar e muitas vezes não temos como atender as nossas próprias expectativas sobre os nossos desempenhos e muito menos as dos outros-, seremos menos vulneráveis a culpa.

A culpa encontra brecha na auto indignação. Afinal como EU pude? Nosso Eu sempre se julga especial, esperto e detesta ficar exposto. Ele também precisa muito se sentir amado e aceito e tem pavor de ser rejeitado, por isso se esforça muito.   O acerto de contas final é de forro intimo, de eu para EU, e será mais facilmente resolvido com uma boa dose de humildade.

Uma forma saudável de elaborar a culpa é através do arrependimento.   A culpa não dignifica; não nos torna pessoas melhores, a menos que ela gere uma revisão. Como ela tem uma natureza acusativa, autoritária, em geral nos causa paralisia e negação. O arrependimento por sua vez é mais generoso: oferece perspectiva, desdobramentos e ações reparadoras.  Se eu posso ser compassivo comigo, mais facilmente serei com os outros também.

Sobre a Dona Antonia: desde que a sua pratica de reza foi liberada, foi registrado um acentuado decréscimo nos casos de ataques de tubarão, no litoral de Recife. Assim ela entende: agora não pode mais sair de casa, porque dela depende a vida de muitos banhistas.

 

 

 

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A culpa atávica por Rita Ortiz

 

No Brasil Colônia, os negros escravos e alforriados eram devotos de N. Sa. Do Rosário. Na segunda metade do século XVIII, eles se constituíram em uma irmandade e com seus parcos recursos, construíram a Igreja do Rosário dos Pretos, na Ladeira do Pelourinho,em Salvador. Desde então, a liturgia dos cultos têm feito uso de música, ritmo e outros tipos de expressões inspiradas nos Terreiros de Candomblé.

Os africanos escravos foram proibidos de praticar o culto aos seus deuses, os Orixás, e obrigados a se tornarem católicos praticantes, embora freqüentando igrejas separadas. Começaram então a nomear os Orixás com os nomes dos santos dos colonizadores para, assim burlar tal proibição e, ao mesmo tempo, preservar a sua crença. Afinal de contas, eles próprios já haviam também perdido a sua identidade de origem e sido renomeados com nomes católicos através do ritual do batismo. Esta era a prática aplicada: o enfraquecimento da identidade e da unidade através da sua perda. A renegação da raiz.

Até hoje, em Salvador, acontece na Igreja do Rosário dos Pretos, todas as terças-feiras, sempre às 18h00, a missa para S. Antônio de Cartegerona, um santo negro. Como no momento esta igreja está em fase de restauração, a paróquia do Carmo acolheu os fiéis, a imagem de S. Antônio e toda a forma de manifestação religiosa desta irmandade.

Terça-feira passada participei dessa missa na paróquia do Carmo e pude constatar que naquele lugar a religião realmente está fazendo jus ao seu significado etmológico: RELIGARE  – do latim: religar ao divino. O sincretismo é o laço. É a liga. É o que mantém todos unidos. O que acontece ali é o resultado da resistência a anos de perseguição e da tentativa de apagar a força da cultura que está inscrita no sujeito desde o seu nascimento. Podemos chamar a forma encontrada de diversos nomes: inclusão, combinação, condensação… não importa. A prática religiosa se faz dentro de uma igreja católica ministrada por um padre católico com cânticos e orações católicas ao ritmo dos atabaques.

Durante o ofertório os fiéis em procissão levam, dançando, cestas cheias de pão que são depositadas aos pés do altar. É o ápice! Nesse momento as vozes, a dança, os atabaques, tudo junto cria um clima de unidade que nos leva a crer, por um instante, que a paz existe, que somos todos iguais, que Deus é um só e somos seus filhos e que a hierarquia pela cor, pelo credo e pela posição social não existe. Muitos se emocionam e choram. O grande sonho da humanidade está ali posto em ato.

Ao final, o padre ainda utiliza mais um elemento dessa mistura cultural ao benzer tanto os pães ofertados quanto os fiéis com a água benta retirada do cântaro, com folhas sagradas próprias do benzimento africano. E como se não bastasse, os pães, que numa outra igreja bem próxima dali, são entregues ao final da missa aos pobres que ficam do lado de fora, ali, naquele lugar, são distribuídos entre todos os presentes para configurar que somos todos pobres, mesmo estando do lado de dentro.
Ao sair lembrei-me de uma reportagem que eu tinha lido sobre a Jornada Mundial da Juventude Católica que aconteceu em Madri em agosto de 2011. Nessa reportagem tinha uma foto de 200 confessionários, propositalmente construídos para a data e instalados nos Jardins do Bom Retiro, para que os jovens confessassem os seus pecados. Essa é, até os dias de hoje, uma prática comum da Igreja Católica aplicada naqueles que se sentem culpados dos seus atos.

O sincretismo foi a saída encontrada pelos afro-descendentes para viverem a sua crença. O confessionódromo foi a encontrada pelos colonizadores para expurgarem suas culpas.

 

 

um pouco da missa:

 

Rita Ortiz é psicanalista clínica, com especialização em psicofarmacologia, trabalhou durante 25 anos em saúde mental e nos últimos 5 anos vem trabalhando com adolescentes vítimas de violência familiar. Reside em Sa

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Não somos culpados ! pelo cigano Sani Rifati – versão bilingue

 

Não somos culpados. 

“Vamos espremê-los e deixá-los  vazios e aí vamos enchê-los com o que é nosso”  George Orwell, 1984

 

Os Roma*( Ciganos*)  tem sido mal interpretados pela civilização ocidental há muito tempo. Tempo demais!

Apesar de tanta discriminação, rudeza e segregação constantes, os Roma ainda continuam existindo desde sua partida, há mais de mil anos, da terra-mãe India, na região de Punjab no noroeste do país.

Vim a Salvador, na Bahia, em janeiro de 2012, para ensinar as danças ciganas tradicionais Romanis.

Para minha surpresa, percebi que o termo usado no Brasil para designar o meu povo é sempre “cigano”.

Como sou da antiga Yugoslávia, da região  de Kosovo na Servia,  onde estamos acostumados a ser identificados sempre como Roma – romanis, nós nos recusamos a sermos chamados de Ciganos, Gitanos e congêneres.

Antes de lavar minha alma, vou lhes dizer algo e talvez possam avaliar por si mesmos se nós, os Roma somos culpados.

A civilização ocidental sempre viu nossa cultura como uma cultura pária. Consideram que não temos uma cultura verdadeira, sendo que alguns até nos vêem como sub-humanos. Não é nada fácil ser Romani; por conta de nossa diáspora, as nações e sociedades que nos hospedam, com freqüência negam nossa existência. Somos uns andarilhos, os viajantes existenciais.

Entretanto, somos também acusados de sem educação, sujos, ladrões mentirosos e por aí afora…De maneira que vamos aqui, passo a passo, desmitificando o mito, os estereótipos que ainda assombram nossa identidade romani.

Sempre somos empurrados para os limites das cidades, bem longe da sociedade convencional, enxotados para perto dos lixões ou para a periferia sem estrutura das cidades, onde o serviço público nem chega. Se não temos acesso a serviços públicos como à coleta de lixo, isto nos faz mais sujos ou culpados?

Muitos roma na moderna sociedade de hoje não conseguem nem uma certidão de nascimento no lugar onde seus filhos nasceram. O mundo moderno é obcecado por certificados, porém se as crianças ciganas não têm nem chance de conseguir tal certificado isto implica em que as mesmas não podem freqüentar uma escola, não conseguem um emprego, muito menos têm acesso a um bom plano de saúde e isto as torna culpadas por sua falta de instrução? O que lhes resta se não juntar seus trapos e seguir estrada afora e isto as torna culpadas de serem errantes? Uma vez na estrada, as autoridades policiais exigem que os pais exibam os documentos de seus filhos.   

Na cultura romani há sempre o cabeça do clan ou do grupo que representa todo o resto. Às vezes são chamados de reis ou “capo” e são responsáveis por estabelecer uma relação com a polícia e assim contar com a esperança de não serem enxotados para mais adiante, para um outro destino e isto faz com que os Ciganos tenham que mentir. Mas, isto faz de nós mentirosos e culpados?

Quando só o que estamos tentando é nos estabelecer e nutrir a esperança de ter um pedaço de terra ou uma propriedade. É pedir muito?

Não vejo a cultura romani como simples vítima; somos também sobreviventes.

Imagine não ter um país, nem um governo nem uma máquina política que defenda nossos direitos. Ainda assim os romanis existem espalhados pelo mundo todo. Imagine uma cultura que nunca foi à guerra, que não tem heróis nacionais, que não pode se   vangloriar de quanto de arte e outros ofícios  contribuiu, através da diáspora romani. A ironia maior é que sempre se referem à nossa musica como “A Rainha Cigana” ou o Rei dos Ciganos”( Gipsy King) ; na verdade, os roma nunca tiveram reis ou rainhas; este rótulo nos foi erroneamente dado pelo mundo ocidental civilizado.

Devo mencionar alguns poucos Roma, heróis verdadeiros nas artes: Charles Chaplin que  a muitos inspirou, assim como Yul Brinner,  Rita Hayworth.

O Flamenco foi inventado na Espanha por nós, como também as Czardas na Hungria. Ainda Django Reinhardt e muitos mais.

Agora, voltando ao Brasil, fui visitar com o fotógrafo Rogerio Ferrari, um homem adorável, uma mahala Roma, na Bahia.

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Descobri que os Roma do Brasil são provavelmente o primeiro grupo que encontrei que não trouxe a música com eles. A maioria veio de Portugal ou Espanha, e  aqui chegaram com Cristovão Colombo em sua terceira viagem às Américas, por volta de 1.500.

Ainda para minha enorme surpresa, Brasil é o único país que tem o feriado dos Romanis, como já devem saber, no dia 24 de maio. Logo na minha primeira visita ao país, parecia que todos já me conheciam desde sempre, assim compartilhamos muitas histórias, música e confraternização. Senti também que há no Brasil um grande respeito e atenção à nossa cultura. Senti-me em uma grande Mahala, sem culpa!

Oven saste. Obrigado!

 

 

*Rom = ser humano, ou pessoa (sing) também significa marido na lingua Romani

Roma = pessoas (plural)

Romani= adjectivo, ex: lingua Romani, historia etc.

Gypsy – Cigano= A palavra vem do latim, “Gypsian” significa a person nascida no Egito. Em inglês refere-se a Roma como Gypsies – cigano ou existe  uma gíria  “I got gypped”  – em tradução livre – fui ciganeado – que significa que alguém o enganou, roubou.

Cigan= etimologia do grego Tsiganoi ou Atsiganoi que quer dizer “intocável”

Cigano também é um pejorativo em todos os países eslavos.

Tradução do texto feito originalmente em inglês: Helena Heloisa Wanderley 

 

 

Sani Rifati é um percussionista romani, cantor, dançarino e instrutor de danças. Tambem é presidente do Voice of Roma e Produtor de festivais e diretor artistico

 


 

 

 

 

 

 

 

 

Texto original em inglês

 

                                                                                                                                      “Not Guilty”

“We should squeeze you empty, and then we shall fill you with ourselves.”

George Orwell, 1984

 

For a long time, the Roma* (Cigan*) Gypsies*, have been misunderstood by western civilization. For a far too long time.  In spite of so much discrimination, harshness and still constant discrimination, Roma still exist since they left their motherland India over 1,000 years ago from the northwest region, Punjab.  I came to teach traditional Romani dances in Bahia, Salvador in January 2012.. To my surprise, the term “Cigan” was the term that is used always in Brazil. Coming from former Yugoslavia in the Serbia region of Kosovo, we strongly identify as Roma. We refuse to be called other names such as Gypsies, Zingari, Zigonier etc…

Before trying to cleanse my soul, let me tell you a few things and then maybe some of you will understand whether we, the Roma, are guilty.  Western civilization always saw our culture as the ‘pariah’ culture. They told us that we don’t have real culture. As a matter of fact some used to think we were subhuman. Being Roma, it’s not an easy thing, in our diaspora our host nations and societies often deny our existence. We are the wanderers, the existential travelers. Yet we are also uneducated, dirty, thieves liars etc…  So let’s go step by step and demystify the myth, the stereotypes that are still haunting our Roma identity.

We’ve been always kicked from the mainstream society to the margins of towns, near the garbage dumps or most undeveloped part of the town. Most of the roads are unpaved and the environment around has a lot of debris and garbage. The public services don’t even bother to come and clean the space. If we don’t have these services provided to us, does that still makes us dirty or guilty?

Many Roma today in modern civilized world can’t obtain their birth certificates in the place where the children are born. Modern world is obsessed with paper, but if Romani children have no chance for this paper, that means these children are not allowed to go to school, look for work or get adequate healthcare, does that makes these children guilty of being uneducated?  So what’s then left, but to pack your belongings and go on the road, does that makes us being guilty of being wanderers? Once when you’re on the road then the police authorities demand from the parents the proper documents.

In Romani culture there is always the head of the clan or group who represent the rest. Sometimes they are called kings or capo’s in order to establish some relation with the police and hope they would not be kicked in to the next destination, that’s why Roma must lie. Does that makes us liars and guilty?  When we’re just trying to settle in the hope of having land or property. Is that too much to ask. I am not seeing the Romani culture as only victims, we are also survivors.

Imagine having no country, no government, no lobbying machine to defend your rights. Yet we the Roma still exist all over the world. Imagine a culture who never went to war, don’t have national heroes, not to mentioned how much Roma diaspora contributed to the world in arts and other trades. Even another irony is they always refer to Roma music as “Gypsy Queens” or “Gypsy Kings” as a mater of fact Roma never had queens or kings, that label that was given to us by the western civilized world.
I would just mention few of real Roma heroes in arts, Charlie Chaplin inspired many people around the world as well as Yul Brenner, Rita Hayworth, Roma invented Flamenco in Spain, Czardasz in Hungary, Django Reinhardt and many more.

Now, back to Brazil, we went to visit with few Roma mahala (neighborhood) with lovely man named Rogerio Ferrari, a photographer.  To my surprise, I found out that more or less the Roma from Brazil are probably one of the first group of Roma that I encountered who didn’t bring the music with them. Most of them came from Spain and Portugal. Also some of them arrived on the third trip of Christopher Columbus around 1500. Also to my huge surprise, Brazil is the only country that has a national holiday for Roma, as you probably know May 24 .. In my first visit to Brazil it felt like people knew me forever, we shared a lot of stories, music, and togetherness. I felt a lot of respect and attention for my culture. It felt like a huge mahala so we have no reason to feel guilty.  Oven saste (obrigado)!

 

 

*Rom = human being, or person (sing) also means husband in Romani language

Roma = people (plural)

Romani= adjective, example Romani language, history etc.

Gypsy= The word is from Latin, “Gypsian” means a person from Egypt. In English that’s why they refer to Roma as the Gypsies or there is slang “I got gypped” that translates to somebody cheated you.

Cigan= etymology if from Greek Tsiganoi or Atsiganoi means “untouchable”

Also Cigan is a derogatory term throughout all Slavic countries, as well.

 

Sani Rifati is a Rom drummer (dumbek and trap drums), singer, dancer anddance instructor. Sani is also Voice of Roma’s President and Festival Producer and Artistic Director

 

 

 

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A arte sem culpa e umas linhas quebradas por Thiago M. de Melo

 

 

Morder a mão que te alimenta. A culpa de gozar das graças da luz e das trevas.

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A luz é de neon.

A culpa de Adão.  A culpa de não ter coragem de cegar o olho de Deus. Culpa que é empecilho para tornar a si mesmo divino. Culpa que é empecilho para o coito na delícia úmida do útero de Eva.

Da íris fodida.

a iris fodida

O dogma final: o assassinato de Deus. Tentativa de exorcizar todas as culpas impostas pelo ancestral.

A culpa da masturbação frente às curvas do êxtase da virgem. Quebrar o tabu sob a defesa do discurso naturalista.

Medo da mistura. O desejo da conjunção carnal sob a reprovação de categorizações étnico-sexuais arbitrárias.

A culpa do crime do pai, da pouca satisfação vulgar da carne e consequente concepção do bastardo. Culpa do futuro ódio germinado.

Herança de Iroco ou Cama de Ulisses (2010)

A culpa dos excessos do prazer e do falo em constante fogo pela carne farta da bunda da fêmea madura. Da vergonha transferida ao coito engatado dos cães da rua.

A culpa de restaurar signos proibidos. De apagar interpretações caducas, de tirar-lhes o pó. Reinterpreta-los e conecta-los a conceitos vernaculares filosóficos e biotecnológicos.

A culpa de assumir o poder da matéria.

A culpa de Ogum, soberba do sangue que em confusão arranca cabeças puras. Restando a dor do injusto.

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.A culpa de ser covarde e de sentir CULPA.

Exorcizar as culpas ao se exceder, ao buscar saciar, mesmo sendo insaciável.

Assumir-se marginal ou errante entre zonas. Sem o medo de unir as bordas.

O fim da culpa: o assassinato de Deus – Tentativa de destruir todos os temores impostos pelo ancestral.

 

 

Thiago Martins de Melo (São Luis-MA, 1981) é artista visual, formado em Psicologia(UNICEUMA, 2005), mestre em Teoria e Pesquisa do Comportamento(UFPA,2008).

Realizou individuais na Fundação Joaquim Nabuco (2009 ) e Centro Cultural São Paulo(2010). Foi selecionado pelo programa Rumos Artes Visuais 2011-2013, Itaú Cultural;

Entre as principais mostras coletivas estão Caos e Efeito, Itaú Cultural-SP(2011); Amazônia, a Arte, Museu Vale-ES(2010). Possui obras nas coleções do Astrup Fearley Museum, ThyssenBornemisza Art Contemporary, Gilberto Chateaubriand-MAM RJ.

 

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A herança por Adriana Rossatti

Meu avô foi um homem incrível. Inteligente, empreendedor, autodidata.

Veio da roça, de Paraguassú Paulista, para a capital nos anos 40, depois da final da guerra. Trabalhou na Light, foi motorista de bonde; à noite sentava no quintal da casa alugada na Vila Gustavo, Zona Norte de São Paulo, e fabricava colchões para vender.

Aprendeu a ler sozinho, olhando para as figuras do jornal e desvendando as letras. Nunca sentou em um banco de escola, era sua maior frustração.
Da manufatura caseira de colchões, passou para uma pequena fábrica. Abandonou o emprego diurno e abriu uma loja de móveis.
Minha avó virou dondoca. Ia ao cabeleireiro todos os dias, usava luvas. Ele causou furor quando entrou na Tanque Velho com um Simca Chambord verde água novinho em folha, rabo de peixe. Os sapatos estavam sempre lustrados e o cabelo tratado à gumex.
Era um apaixonado pelas evoluções do tempo, uma alma eternamente jovem.

Quando viu uma televisão pela primeira vez, não teve dúvidas. Disse “Isso ainda vai ser uma coisa muito importante.” e comprou o trambolho. Durante anos foi a única televisão de todo o bairro, transformando a casa da família no local de encontro social mais importante da redondeza.
Compensou sua frustração com os dois filhos, formados em Economia e Direito. Só foi ser propriamente alfabetizado pela namorada do filho mais velho, minha mãe, que é pedagoga e ensinou a letra cursiva com a cartilha e cadernos de caligrafia.
Quando se aposentou foi morar com a gente por uns anos. Fez um curso de hidroponia e cultivava verduras e legumes orgânicos em um terreno dos meus pais. Vendia para algumas pessoas, freqüentava os bailes da terceira idade, tinha uma paciência ilimitada com as quatro netas adolescente.
Chorou quando foi para o Chile e viu o Oceano Pacífico. Chorou pela imensidão do mundo. Chorou também, na nossa frente, quando minha irmã mais velha tirou carta e o levou para passear dirigindo um carro pela primeira vez. Era um grande entusiasta da vida e nunca, nem por um segundo, deixou de agarrar uma oportunidade e agradecer pela benção.
Ele teve seus defeitos. Começou a fumar aos 45 anos. Mulherengo, colecionou amantes. Foi morar com a última aos 82 anos de idade, causando a ira da minha avó e do meu pai. Dois anos depois foi assolado pelas doenças pulmonares resultantes do tabagismo. Ficou debilitado. Passou a viver ligado a um balão de oxigênio.
Fui visitá-lo escondida, na casa de sua companheira alguns meses antes de morrer. Estava magro, fraco e falava pouco pela falta de ar.
Os olhos continuavam brilhando.
Aos 87 anos, com uma doença terminal, meu avô me contava de seus planos para o futuro. De como sua companheira havia reformado a casa para atender suas necessidades de saúde e de como eles iriam mudar para o litoral assim que o médico autorizasse. Olhei para aquela mulher com muita gratidão. Apesar de ela ter sido amante do meu avô e de ter causado tanto sofrimento à minha avó, eu aprendi identificar amor e soube na hora que ele não seria tão bem cuidado por nenhum de nós. Foi a última vez que vi meu avô vivo.
No dia 21 de dezembro de 2002 ele morreu. Sua companheira preparou o corpo, entregou aos filhos e não foi ao enterro em respeito a nossa família. Minha avó não foi tão pouco. Sempre foi rancorosa e nunca o perdoou pelas traições. O velho mulherengo teve apenas suas netas de mulheres no enterro.
Seu rosto no caixão era sereno. O sono tranquilo de quem carregava apenas um arrependimento. Ele me disse uma tarde, quando ainda morava conosco: “Não me arrependo de nada na vida, minha filha. Da bebida, das mulheres. A única coisa que me arrependo é do cigarro.” Foi a única culpa que sentiu, a única que o matou. Duas noites após o enterro, ele veio em meu sonho conversar. Eu era, talvez, sua neta favorita de papo.
Em meu sonho ele olhava para mim, sorria e me pedia um favor. “Minha companheira está sofrendo, filha. Fala para ela que ela não precisa chorar. Que eu estou bem e que ela vai ficar bem.”. Acordei com a responsabilidade de ligar para a tal mulher de quem nem podíamos pronunciar o nome em casa. Fiquei com medo, fraquejei. Nunca liguei.
Não há uma única vez em que penso nele e não procure viver com a sede que ele tinha. Também não há uma única vez que eu não me corroa de culpa pelo telefonema que nunca dei.

 

Adriana Rossatti, 35 anos, é pseudo-escritora, ex-fumante e viajante compulsiva. Chorou quando viu o Pacífico, e mais uma dezena de maravilhas que a gente vê quando está vivo. Sentenciada culpada pelos telefonemas não dados, pelos livros não lidos e por cada dia que deixa passar em branco. Espera fervorosamente não morrer disso.

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A mãe judia por Eva Lazar


Uma mãe judia ajuda o mundo a perceber que seus filhos são os mais bonitos, os mais bem sucedidos e os mais talentosos. O mundo está cheio de gente míope e limitada que não consegue perceber isto.

Este fato não é demérito para os filhos de não judeus e sim apenas uma característica histórica, social e psicológica determinada nas entrelinhas das tábuas que Moisés recebeu, portanto exógenas ao ser humano. Está no DNA dos filhos desse povo escolhido.

Uma mãe judia sempre, mas sempre, sabe melhor do que ninguém o que seu filho sente, precisa, gostaria e que o fará feliz; afinal, ele saiu de dentro dela e não será uma zinha qualquer, que ele conheceu outro dia, que poderá se arvorar a achar isto ou aquilo. E muito menos pensar que sabe cozinhar tão bem quanto ela.

Ela pode tudo: perguntar quanto ganham os amigos, esperar acordada até o filhinho de 28 anos voltar para casa às 4 da manhã, ligar para o chefe dele para reclamar do aumento de salário que ainda não foi dado; enfim, a idéia de invasão, privacidade ou espaço próprio não existe para a mãe judia.

Eu também tive uma mãe judia. Lembro dela examinando as listas de aprovados do vestibular nos jornais a cada ano e constatando a grande  proporção de judeus  entre os aprovados, principalmente nos primeiros lugares e achando mais que natural. A mesma conclusão em relação aos ganhadores do Prêmio Nobel nas mais diversas categorias, com ênfase nos campos da Literatura, Medicina e Ciência.

Meus resultados de conquistas acadêmicas, no trabalho, esportes e aparência, além da brilhante inteligência sempre foram comemorados como se fossem nada mais que o óbvio. Performance foi a palavra chave da minha adolescência e início de juventude.  Foi a que fez minha primeira terapeuta concordar imediatamente em me tratar.

E o fundamental dessas conquistas era comunicar às amigas dela, com um ar nonchalant. Sem isso, não teria a menor graça. Olhares e palavras recebidos em resposta, sempre elogiosos, eram a cereja do bolo kosher e o conceito real de felicidade de uma mãe judia.

Qual a contrapartida disso tudo, sob a perspectiva do filho? Uma obrigação que pesava toneladas para fazer frente a esse imenso poço de expectativas. Mesmo fingindo não ser importante, a vítima tinha que se matar nas provas, no esporte, no social, nas leituras e em todas as suas atividades para se destacar, senão… Não adiantava fazer de conta que o essencial na vida não passava por estas coisas. Já estava fincado em seu âmago que sem sucesso, não passaria de um loser. Uma tatuagem que não desapareceria nunca. A nota média na escola, o oitavo lugar no torneio de tênis do clube, a promoção adiada eram recebidos com um olhar gelado e um silêncio gritante, gerando uma enorme culpa.

Assim quando você vira adulto jura que nunca vai repetir esse modelo opressivo com os seus filhos, mas a armadilha é matadora. De repente, você se flagra olhando os sobrenomes nas listas de aprovados do vestibular, dos ganhadores do Prêmio Nobel, dos bem sucedidos em geral. Seu filho é o primeiro da turma a ganhar um celular e você jamais gosta das namoradas dele.

Temos muitos exemplos vivos de filhos de mães judias. Um dos mais representativos é o cineasta Woody Allen, explorando de forma bem humorada este sentimento de culpa presente nos judeus. E garantindo a saudável sobrevivência dos psicólogos.

A mãe judia judia mesmo.

 

Aqui trechos do  episódio dirigido por Woody Allen,  no filme Contos de Nova York

 

Começo do filme com  legenda em espanhol

Aqui  mãe desaparecida está  no céu e conta detalhes da sua vida para toda Nova York

 

 

Eva Maria Lazar, economista, publicitária e tradutora. Importada da Hungria no primeiro ano de vida. Viajante contumaz,  passeia no mundo interior e exterior. Entre outras coisas coleciona piadas de judeus.