Arquivo da categoria: Edição 03: A TRANSITORIEDADE DAS COISAS

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Passa e me ensina a passar por Elza Tamas

Heráclito já nos havia avisado sobre as águas do rio: não se apegue a elas, elas não lhe serão fieis, são  outras.

De acaso em acaso saímos do mar, abrimos os olhos, nos colocamos em pé, viramos Sapiens.  Eretos nos descobrimos finitos e construímos cavernas para nos esconder do medo da morte.

Fluidos e passageiros. O chão é liquido e balança. Um dia ele é aveludado e acaricia os meus pés.  Às vezes é tão sólido que faz barulho quando eu ando, e muda e muda. Aprendi a surfar, eu tive que aprender a surfar. Todo dia o mar me manda uma onda diferente. Meu bebê virou um adolescente questionador. Minha avó morreu.  Nunca usei óculos; agora nem escuto se estou sem eles. Casei de novo, ele não vê o tempo no meu corpo, também usa óculos e me acha linda. Uma neurologista indiana jura que viu uma camada milimétrica de néo-néo córtex se formando nos cérebros de exímios meditadores.

O caleidoscópio gira bem devagar, eu quase não percebo. De  quando em quando despeja  uma  nova forma. Às vezes eu gosto, quero que tudo fique estático, psiu!  não  se mova. Mas somos seres desejantes e nos fartamos rapidamente com o banquete monocromático que a estabilidade oferece.

Pó de estrelas, as cinzas dela geraram lavandas e alfaces (responde rápido, como é depois da morte?)

Se tudo não pulsasse, sístole e diástole, o cheio e vazio se alternando, como eu suportaria  as dificuldades do itinerário da vida, o luto, a dor, a perda?

Gosto do pôr do sol porque ele dura pouco, eu não penso, ele me captura. Assim também com a vida: efêmera, mas um sopro eterno quando degustada na leveza do momento presente.

(Que sejamos capazes.)

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Moda por Graça Cabral

Transito no verbo que indica movimento,

Passeio nômade por tempos e espaços sem apego e ponto fixo.

Vivo no trânsito-subjetivo do descolamento.

Refaço-me em sínteses, cópias originais, fantasias de personagens muitos

E vou além.

A transitoriedade em si define um padrão de mudança constante próprio do que se convencionou chamar de moda. Moda é imaginação, invenção, criação. É transe e trânsito. Transitoriedade em essência.

 

 

 

Espaços do eu em solos coletivos

Onde transito com maior ou menor atenção

Nos detalhes

Retalhos fragmentos

Presentes

Camadas, sobreposições

Harmonias exibidas de singularidades

Mundos sem fim

 

A moda-roupa carregada de símbolos, sentidos, significados. A moda passageira fútil em sintonia com a nossa condição de mutantes, sempre. A moda segunda-pele, extensão da mente corpo que, a cada momento, nos veste e desveste de sentimentos, pensamentos, emoções, traduzidos em cores, formas e texturas. A moda fantasia do tempo existencial carregada de sonho e ilusão. A moda libertária que rompe padrões, afirma, provoca, critíca. A moda de costumes e hábitos com seus reflexos, filtros, lentes, conceitos e mais conceitos, a impor e compor breves ditaduras da imagem em acordos com os tempos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na linha sem tempo do espaço aberto

Na linha tênue entre sonho e realidade

A transitoriedade da moda

Nos permite brincar

Simplesmente brincar

E tudo mais

Já foi

 

 

Moda pra mim é um espaço de expressão. E é nesse espaço da subjetividade, em que nada está pronto, em que nada é definitivo, que me permito a fazer da moda poesia brincadeira.

 

 

Me permita dizer

Me permita de ser

Um e muitos

Uma só cor

Uma só roupa

Uma só moda

Não me habito mais

E se o hábito faz o monge

Eu me habilito a ir além

A brincar entre o alguém e o ninguém

O visível e o invisível

Nos territórios do transe

A incorporação de passagem

Através da moda

Me permite estar permanentemente em contato com

A impermanência e minha própria transitoriedade.

 

Mais informações:

www.ffw.com.br

www.luminosidade.com.br

 

Graça Cabral,jornalista, com mais de 20 anos de experiência no mercado de comunicação e marketing, com foco em pensamento estratégico, branding e projetos especiais. É sócia fundadora da empresa Luminosidade, criadora e organizadora do São Paulo Fashion Week, principal plataforma de moda da América Latina e do Hot Spot, primeira incubadora de novos talentos de moda no país. É uma das idealizadoras e membro do conselho editorial da ffw Mag!, revista bimestral de arte, comportamento, design, cinema, literatura, fotografia, pensamento, inovação. E diretora do In-Mod – Instituto Nacional de Moda e Design, onde é responsável, desde 2007, pelo projeto pioneiro de economia criativa.

 

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Transitoriedades permanentes por Néle Azevedo

A artista plástica Néle Azevedo nos mostra suas intervenções efêmeras,  Monumentos Mínimos em gelo,  que derretem ao redor do mundo.

Há um longo tempo trabalho com intervenções efêmeras nos espaços urbanos, construindo Monumentos Mínimos em gelo que, além de pequenos, desaparecem. Milhares de esculturas derreteram nas praças de dezessete cidades pelo mundo, atraindo a atenção daqueles que passavam pelo local, promovendo uma suspensão do seu trajeto quotidiano.

Em uma ação de poucos minutos, o Monumento Mínimo inverte conceitualmente, os cânones oficiais do registro da memória em monumentos públicos, propondo uma escala mínima, um homenageado sem rosto que se senta ao chão e desaparece – um monumento para o esquecimento. Ele realiza uma apreensão concreta, poética e política do espaço, do corpo na cidade e do monumento no espaço coletivo.

Mesmo fazendo-o muitas vezes algo me escapa, é intangível. O gelo  derrete num tempo cronológico, mas a experiência do derretimento suspende o tempo linear e nestes momentos só existe o movimento  de desaparição. Ao final, as escadas molhadas  (porque sempre são colocadas em escadas nas cidades), parece que foi um sonho distante que preciso alcançar para compreender.

 


Como desdobrando deste trabalho, preparei uma instalação dentro da galeria Rivera & Rivera – Los Angeles,  na qual apenas uma escultura em gelo fica suspensa. Ela derrete. As gotas caem em um recipiente, o som dessas gotas é ampliado por um microfone que pode ser ouvido em toda a galeria.

 

 

 



A proposta é que o visitante experimente o derretimento, sem nenhuma intermediação de fotos ou vídeos. O gelo derrete em um tempo cronológico, mas ele acentua uma metáfora de outro tempo: o tempo de duração espacial vivida através do corpo. Ele propõe a experiência do tempo como duração.

 Mais informações:

www.neleazevedo.com.br

http://www.youtube.com/watch?v=WCeRQ3dkKH8&feature=related

 

NÉLE AZEVEDO, (Santos Dumont-MG, Brasil) Artista e pesquisadora independente. Vive e trabalha em São Paulo.

É mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista – UNESP em 2003, Bacharel em Artes Plásticas pela Faculdade Santa Marcelina em 1997. Em 1998 inicia sua carreira com uma instalação de esculturas em ferro no Centro Cultural dos Correios – RJ e ganha o prêmio aquisição no Salão de  Arte Contemporânea de Santo André-SP.  Em 2002 recebeu o prêmio viagem ao Japão pelo Salão Bunkyo com um trabalho de instalação de esculturas em acrílico. No final de 2001 dá início às  intervenções no espaço urbano com o Projeto Monumento Mínimo tendo como eixo de discussão os monumentos públicos nas metrópoles contemporâneas como Brasília, Salvador, Curitiba, São Paulo, Havana -Cuba, Tóquio e Kyoto- Japão, Paris-França, Braunschweig-Alemanha, Porto–Portugal, Florença-Itália, Berlin-Alemanha e Stavanger-Noruega. Essas intervenções ficaram mundialmente conhecidas como “melting men” ou “army of melting men”.

Além do Monumento Mínimo realizou diferentes intervenções efêmeras no espaço urbano e arquitetônico que resultaram em trabalhos de escultura, desenho, fotografia e vídeo.

 

 

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O estado migratório da alma pela poeta Ana Peluso

 

 

 

 

Estranhamente assim, ela mudava seus gostos. De manhã preferia o rosa, à noite o vinho, e de madrugada ainda era possível gostar do lilás. Do roxo. A cor da morte. Do hematoma, da cura. Aos sábados ela sorria, mas nem sempre. Todo mundo à sua volta estava decantado. Era desnecessária. Trocou a cerveja pelo uísque num piscar de olhos. Em outros, os deixou pela soda com rodela de limão, mãos limpas, óculos assíduos. Era multiface. Era uma multidão. No entanto, o seu perfume era sempre o mesmo. Imã, magneto. Uma rodela de batata doce puxando toda a acidez do mundo do meio da sua cara. E ela mentia. Dizia estar tudo bem. Era por fora mais ela do que se fosse outro alguém. Qualquer outro. Desses que têm sempre a mesma opinião, e sempre se coçam do mesmo jeito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ficou feia

depois de roubar a beleza com a data de validade vencida que a amiga comprou no Wal-Mart.

 

 

 

 

 

Efêmero como um passeio de carrossel no parque. Como o gosto do chocolate de maça-do-amor recheada. Como aroma que passa por lembrança. Como a tua visita sempre rápida. Como a troca dos olhares medrosos e o roçar das mãos ingênuas. Como um oi, às vezes, tão indeciso quanto um adeus.  Como a vida que não deixa rastro do azul que foi o céu, visto de baixo, um dia. Como qualquer coisa do mundo quando se está amando.

 

Ana Peluso, São Paulo, ilustradora, escritora, poeta, participou de algumas antologias, não sabe quando lança livro. Tuíta como  @anapeluso, e agrega feeds  aqui)

 

 

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O artista multimídia Fernando Lemos fala sobre transitoriedade

O artista multimídia Fernando Lemos em entrevista ao fora de mim fala sobre transitoriedade, novos territórios e de como seu trabalho não passa pela técnica do agrado.

 

 

 

 

Exposição Lá &Cá, retrospectiva Fernando Lemos, na Pinacoteca de SP até 15 de novembro de 2011.

Link da exposição: http://www.pinacoteca.org.br/pinacoteca/default.aspx?c=exposicoes&idexp=563&mn=100

 

Artista plástico português, José Fernandes de Lemos nasceu em 1926, em Lisboa. A sua atividade estende-se a áreas como a pintura, desenho, fotografia, gravura, artes gráficas e poesia.Vive no Brasil desde 1953,  quando deixou  Portugal em virtude da sua oposição ao regime salazarista. Ganhador de inúmeros prêmios,  Fernando Lemos  está em cartaz com uma retrospectiva da sua obra  na pinacoteca do estado de São Paulo.

 

 

 

 

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As mandalas tibetanas de areia e a impermanência

A tradição tibetana de construção de mandalas de areia é praticada como um ensinamento.

Os monges, nesta execução, demoraram duas semanas. Um projeto minucioso, rico em cores e detalhes, que exige planejamento, concentração, e habiidade. São representados o universo, céu , terra, oceanos, relações interpessoais, mostrando como todos os acontecimentos são interligados e inerdependentes.

Quando a mandala está pronta, ela é destruida. Em minutos, com gestos precisos toda a areia é varrida em direção ao centro e daí é recolhida num vaso e geralmente é jogada num rio ou lago proximo.

Um ensinamento direto sobre a transitoriedade, a valorização e o cuidado com a vida e a necessidade do desapego.

 

 

 

 

 

Trabalho realizado em 27 de janeiro de 2007, no Mary Brogan – Museu de Arte e Ciencia  na Flórida

Mary Brogan Museum of Art and Science Tallahassee, Florida. January 27, 2007

Fotos:
– Gerald Grow

Para saber mais:

Trecho do documentário produzido por  Werner Herzog

-“ Wheel of  Time” sobre a cerimônia do Kalachacra realizada pelo Dalai Lama. Nele , a  produção de uma mandala linda e sua dissolução.