Arquivo da categoria: Edição 05: MEMÓRIA

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O pretérito imperfeito por Elza Tamas

Minha memória mais remota inclui duas chupetas que se alternam na minha boca, uma salada de alface temperada com açúcar e um desconforto, daquele que anuncia que alguma coisa muito grave está por acontecer. Tenho três anos de idade.

As lembranças se confundem com os relatos orais: noite de trovoadas, o pau da cortina caindo sobre a cabeça da minha mãe bem na hora do parto, meu avô de chinelos caminhando pelo quintal para enterrar a placenta no jardim. Uma coisa de cara amassada no meu colo que eu não tardei em descobrir que se tratava do meu irmãozinho, o primeiro banho, a família reunida e feliz. Memórias em preto e branco como são os registros fotográficos da época.

Minha mãe garante que eu estava na casa da outra avó, a paterna, e que seguramente não comi alface com açúcar, nem presenciei o parto, nem o desastre da cortina, mas meu desatino mnêmico insiste em me colocar na situação, espreitando. Inventei uma cortina florida, um rosto de dor, o alvoroço no quarto e até o choro do bebê nascendo.

Falsa memória. Um relato aqui, uma lembrança ali, fotos e um tanto de imaginação no meio.

Um amigo justificou uma série de fracassos em sua vida, em função de um episódio bem traumático na infância. Uma vez em família, se encheu de coragem para falar sobre o assunto e pasmem!, o tal fato tinha acontecido, mas não com ele e sim com seu primo.

Em termos psíquicos tanto faz se o registro é fabricado ou real, porque real é o que vivemos subjetivamente. Não temos um olhar ingênuo sobre a realidade, ela nunca nos é original. Nossos filtros pessoais criam e retroalimentam nosso rastro de memória, o que chamamos de nossa história, nossa identidade.

Somos na natureza os únicos seres autobiográficos. Narramos e nos narramos incessantemente, criando a sensação de uma experiência coerente, contínua e de tempos distintos.

Meu pai não se conta mais desta forma. Para ele, duas cidades distintas podem atravessar a  mesma sala de jantar, duas pessoas diferentes podem ocupar o mesmo corpo e  vinte, trinta anos se pulverizam da sua cronologia depois de um passeio no parque. Fenômenos observáveis apenas no mundo onírico. Acho que meu pai vive na 4ª. dimensão.

 

(e seus olhos, não eram quase verdes? Minhas mãos se lembram de uma cicatriz grande no seu corpo – elas não sabem onde, desculpe, jurei nunca esquecer a data do seu aniversário, o tempo engoliu minhas promessas. Esqueci, porque há muito tempo parei de nos relatar.)

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“Cinema, sonho, memória: uma coisa só?” Por José Geraldo Couto

O cinema e a memória se entrelaçam de inúmeras maneiras.

Ao registrar em imagem (e eventualmente também em som) uma determinada ação, um determinado espaço, um determinado ser, não importa se num documentário ou num filme de ficção, o cinema ajuda objetivamente a preservar a memória, a derrotar o esquecimento.

Num nível íntimo e prosaico, o cinema se vincula à memória afetiva de cada espectador. Filmes que nos causaram impacto ou encantamento quando vistos pela primeira vez tendem a evocar aquele mesmo momento primordial, aquele mesmo estado de espírito, toda vez que os revemos ou relembramos. Um nos remeterá a infância, outro fará aflorar a presença de um amor, de uma amizade, de uma descoberta.

Mas cinema e memória estão ligados num sentido mais profundo. Muita gente (em especial Edgard Morin em O cinema ou o homem imaginário) já mostrou as similitudes entre a linguagem cinematográfica e a linguagem onírica, em termos de construção narrativa. Assim como o sonho, um filme comprime e distende livremente o tempo, permite deslocamentos ilimitados no espaço, bem como mudanças bruscas de ponto de vista. Em ambos, as situações mais triviais podem ser investidas de intensa emoção.

Ora, a memória é uma elaboração narrativa com o mesmo caráter dúctil, maleável, modular. Ela se constrói em sequências mais ou menos autônomas, que se juntam e combinam de acordo com o desejo daquele que recorda.

Inúmeros cineastas, assim como inúmeros escritores, buscaram expressar de algum modo a matéria fugidia, inapreensível, da memória. Alguns exemplos óbvios de filmes que explicitam essa busca são Cidadão Kane, Rebecca e as várias tentativas, todas mais ou menos frustradas, de adaptar Em busca do tempo perdido, de Proust – a obra literária máxima em torno do tema.

Mas, a meu ver, os cineastas de primeiro time que mais se dedicaram a essa tarefa impossível, e que mais se aproximaram do êxito, foram Alain Resnais e Federico Fellini, por vias, temas e estilos totalmente diversos. Boa parte da cinematografia desses dois gigantes mergulha na memória e seus desvãos, Resnais por um viés mais lógico-analítico, Fellini de modo visceral e intuitivo. (Não que não haja intuição em Resnais, ou inteligência lógica em Fellini, mas só para marcar as linhas gerais.)

E, dentro da obra dos dois, os filmes que talvez tenham mergulhado mais fundo no poço da memória são Hiroshima meu amor

e Amarcord  

 

Obras-primas literalmente memoráveis.

 

José Geraldo Couto é jornalista, crítico de cinema e tradutor. Escreveu os livros André Breton – A transparência do sonho (Brasiliense), Brasil: Anos 60 (Ática), Florianópolis (Publifolha) e Futebol brasileiro hoje (Publifolha). Mantém uma coluna de cinema no blog do Instituto Moreira Salles: http://blogdoims.uol.com.br/jose-geraldo-couto-no-cinema/.

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“Congado e os ritos da memória” por Alex Salim

Congado é uma das manifestações de cultura e de fé mais populares no Brasil.

Antônio Pires, um jesuita importante da época, foi um dos primeiros a descrever, em 1552, que os negros africanos de Pernambuco se reuniam, com frequência, em congregações e organizavam procissões religiosas, das quais os brancos não participavam.

O lendário escravo, Francisco da Natividade, conhecido como Chico-Rei, foi um dos responsáveis pela fundação do Reinado de Nossa Senhora do Rosário, em Ouro Preto, MG.

Chico-Rei também foi responsável pela construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, santa católica protetora dos negros

Com uma igreja própria, os negros escravos podiam, então, orar e organizar suas procissões. Usavam seus instrumentos musicais

e podiam então dançar, cantar.

Nesta manifestação, que acontece desde aqueles tempos até os dias de hoje, os componentes do congado usam trajes especiais para representar seus ancentrais

 

 

 

 

 

 

 

Um rei e uma rainha, um príncipe e uma princesa, embaixadores e outros representantes negros estão sempre presentes nesta manifestação.

 

 

 

 

 

 

 

 

Com características e datas próprias de cada região, o Congado é festejado em quase todos os estados brasileiros, mobilizando multidões de congadeiros e admiradores. Mas é em São Paulo e, principalmente, em Minas Gerais que encontramos o maior número de grupos ou guardas de Congado, o que tem garantido a continuidade desta tradição cultural até os dias de hoje.

 

pesquisa de texto: Mauro Eustáquio Ferreira

Aqui um trecho da palestra de Alex Salim no festival divino reinado

aqui uma apresentação de congado

 

Mineiro, Alex Salim é fotógrafo documental e viveu na cidade de São Paulo por quase 30 anos e atualmente mora no Rio de Janeiro. Há mais de 20 anos, desenvolve projeto para divulgar aspectos da cultura negra ainda pouco conhecidos nos grandes centros do Sudeste, visando preservar a identidade cultural étnica. Participou de exposições em centros culturais do Brasil, Dinamarca, Itália e Inglaterra. Além disso, tem diversas publicações em veículos nacionais e internacionais, como a Time -USA e a Panorama – Panamá, Cinco livros de arte, autorais além de ter participado de centenas de livros didáticos e paradidáticos.

 

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“O segredo do sucesso” por Paulo Markun

Sempre achei que a memória só piorasse com a idade. A minha, particularmente, é como aquelas câmeras polaroid (alguém se lembra?): no instante seguinte, como num passe de mágica, oferece uma foto nítida, colorida e brilhante. Mas se você guarda o retrato na gaveta e o apanha meses ou anos mais tarde, terá, quando muito, uma imagem esmaecida, pálida, quase incompreensível.

Foi, portanto, com alguma surpresa que fiquei sabendo que cientistas da Universidade Saarland na Alemanha acabam de demonstrar que os adultos tem maior capacidade de identificar a origem das memórias. Do ponto de vista prático, o trabalho só serve para colocar em dúvida o depoimento de crianças nos tribunais, por exemplo, já que eles seriam mais sensíveis aos erros e à manipulação, tomando a nuvem por Juno, como Ixião, o mitológico pai dos centauros.

No território não menos fantástico das minhas lembranças, elas agora deram para aparecer emboladas como um spaghetti cozido em pouca água – e não há garfo que as desembole. Tanto surge o primeiro pedido de namoro – cruelmente rejeitado 24 horas mais tarde por uma certa

Edna (lembro o sobrenome, mas omito propositalmente), como os afluentes da margem direita do Amazonas, decorados no tempo do vestibular: Javari, Juruá, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu. Quer os da esquerda? Içá, Japurá, Negro, Trombetas, Paru e Jari.

Na bagunça desse armário embutido, como diria o Chico Buarque, surgem, em câmera lenta, a descida da rampa da minha casa sobre a bicicleta com freio de pé que não soube manejar, o portão de ferro que barrou a viagem graças a meu nariz, a primeira trombada de carro, numa noite chuvosa em que pneus carecas não deram conta do recado, a folha de papel almaço em que tive de descrever o temperamento de um amigo preso.

Há boas recordações, é claro: o prazer de fisgar um peixe grande em alto mar, um pôr do sol no mar do Caribe ou em Santo Antônio de Lisboa, o espanto dos filhos ante o vulcão de areia que aprendi com meu pai, um jantar-supresa em Brasília…Outras lembranças ficam num território duvidoso, do bom que é ruim ou vice-versa. Como a amidalite que me tirava da escola ou a rajada de vento que fazia voar – e pender assustadoramente o pequeno veleiro em que me imaginava um novo Amyr Klink.

Entre acidentes e incidentes, brilha uma noite ao relento em Casemiro de Abreu, no Estado do Rio.

Puxando pela memória, lembro da multidão encarapitada no morro afastado da cidade, olhando o céu cheio de estrelas, em busca de um disco voador – e a luz dos isqueiros acendendo cigarros logo passados de mão em mão.

Fui buscar o registro racional e imutável daquela noite num recorte amarelado e encontrei isto:


PM executa “Operação Ufo” nas estradasMilhares à espera do “disco” hoje em Casimiro de AbreuReunidas na Fazenda Nossa Senhora da Conceição, em Casimiro de Abreu, a 135 quilômetros do Rio, milhares de pessoas de várias regiões do País aguardam a descida hoje, às 5h20m da madrugada, de um disco voador, anunciado por Edílcio Barbosa, que se diz “mensageiro de Júpiter”.Junto à BR – 101, multiplicam-se os ambulantes e barracas que vendem frutas, refrigerantes, sanduíches, maçãs-do-amor e bugigangas – bebidas alcoólicas foram proibidas pelo delegado Heralmir Ramirez.Foi constituída uma “Comissão de Recepção” para receber os seres extraterrenos, presidida por Edílcio Barbosa, que entretanto está desaparecido há dois dias. Membros da Comissão afirmam que ele está “em retiro”, concentrando-se para a comunicação com os tripulantes da nave. Ele não tem hora para reaparecer.

A fazenda e suas imediações estava ontem ocupada por soldados da PM – um reforço veio de Magé – jornalistas, membros de um grupo “Fios 8 de março”, que organizou a recepção ao disco, centenas de vendedores e uma multidão de curiosos.

O camelô Luís Gutemberg, o Baiano, veio de Magé, para vender uma centena de binóculos, a Cr$1 mil, e pequenos robôs movidos a corda, que custarão Cr$200 ou “até Cr$500, se o momento estiver bom”.

O portão que veda a pequena estrada de acesso ao “campo de pouso” continua fechado e cadeado. Ontem ele foi aberto para que uma patrulha da PM fosse até o local desalojar alguns curiosos que haviam se instalado por antecipação; e investigar o furto dos documentos de Mauro Ismard, que dormia sob uma árvore.

De manhã, membros da “Comissão de Recepção” estiveram reunidos com a imprensa, para estabelecer normas de conduta e segurança, como se o disco fosse mesmo descer. Repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, depois de receberem credenciais fornecidas pelo “Fios 8 de Março”, foram informados pelo major Paulo Guedes (da “comissão”) de que deverão ficar num platô, aberto a trator, a 300 metros do “campo de pouso”. A distância tem uma “explicação científica”, segundo Manoel Cirne Rocha, integrante da Comissão e que se diz engenheiro: é que, segundo ele, a intenção radiação emitida pela nave – de 60 metros de diâmetro e 38 de altura, conforme “descrição” de “viajantes” – velaria os filmes de fotógrafos e cinegrafistas a menos de 300 metros. Abaixo do platô, ao nível do “campo de pouso”, ficarão os convidados, todos credenciados pela Comissão.

Ontem a Polícia Militar anunciou que intensificará o patrulhamento nas rodovias 104, 106, 124 e 162 e nas imediações de Casimiro de Abreu, colocando em estado de alerta os Postos 1, 2, 3, 4, 5 e 18, no que classificou de Operação Ufo, para prevenir a possibilidade de qualquer tumulto. O esquema de segurança procurará atender a quaisquer ocorrências em bares, postos de gasolina e outros locais públicos. A nota diz que o 7º BPM fará o policiamento com um contingente de cerca de 180 homens, sob o comando de um capitão, e que a fazenda será interditada, só sendo permitido o acesso à imprensa e convidados.

Os primeiros policiais chegaram num ônibus e em dois camburões e logo foram impedindo a entrada de carros na fazenda. O capitão Sidney informou que mais tarde chegariam outros 130 homens e ambulâncias, com soro antiofídico e medicamentos para atendimento de urgência.

Apesar da presença policial, e prefeito Céli Sarzeda não está tranqüilo, temendo “um linchamento como o de Cantagalo, se o disco não pousar”:

– Se aparecer, tudo bem. Mas se não desce, o povo é capaz de arrebentar tudo. Estou torcendo para que não venha muita gente. Acho ótimo que emissoras de rádio do Rio digam que há gente demais, que não há mais comida nem água, porque assim o pessoal não sobe até aqui.

O prof. Neves Gurgel, do Rio, compôs um Hino-saudação, para ser cantado “no momento da chegada dos extraterrenos”. O coro diz: “Vem do Alto o caminho que faz/Do Cosmos a substância e a luz/Do planeta do Bem e da paz/Prá ventura a todos conduz”.

D. Pérola, uma das integrantes da “Comissão de Recepção”, dizia ontem, a um repórter cético, que os pensamentos negativos não facilitam o pouso da nave, “que é sempre precedido por uma intensa vigilância por parte dos jupiterianos”. Já d. Esmeralda Xavier de Castro, diretora da Sociedade Interplanetária do Rio de Janeiro, não tem nenhuma dúvida:

– O disco vai descer, porque chegou a hora da verdade. Os jupiterianos acham que estamos perto do fim do mundo e querem divulgação total. Por isso há tanta imprensa aqui. Eles sabem que, se aparecerem para meia dúzia, o governo abafa tudo. Quero ver como calar essa multidão.

Esmeralda explicou que Edílcio Barbosa não pertence a nenhuma sociedade ou religião:

– Ele tem contato direto com Júpiter. É sozinho, não está ligado a ninguém.

A Comissão de Recepção foi formada pelo próprio Edílcio, “a partir de nomes indicados pelos jupiterianos, há três meses”. Depois, os primeiros selecionados indicaram outros e chegou-se a um grupo de pelos menos 30 pessoas.

O prefeito Célio Sarzeda diz que “entrou na história só para garantir a ordem e a tranqüilidade”. Entretanto, suas palavras de descrença são desmentida por um ofício que enviou à Enciclopédia Britânica, solicitando a doação de uma Enciclopédia Mirador Internacional, avaliada em Cr$70 mil, para ser presenteada aos visitantes extraterrestres. O pedido foi atendido e a Prefeitura ganhou a obra do vendedor Antônio Paulo Andreazzi. O ofício do prefeito, nº 073, de 5 de março deste ano, é o seguinte:

“Prezados Senhores

“Conforme tem sido amplamente divulgado pela imprensa, uma sociedade ufológica informa que n

o próximo Sábado chegará a esta cidade um disco voador, trazendo 4 (quatro) pessoas que retornam a este Planeta.

“A Comissão está organizando uma recepção oficial para o caso de efetivamente ocorrer este evento. Nessa hipótese, seria indispensável a doação de algum presente para os jupterianos e nada melhor que uma enciclopédia (sic) que contenha informações sobre os mais diversos aspectos da vida no nosso planeta.

“Sabedores que a Mirador Internacional é a mais ampla obra de referência existente no país, tomamos a liberdade de solicitar uma coleção da Enciclopédia Luxo Branco Imperial, que assim seria o presente oficial deste planeta ao povo visitante.

“Deixamos claro que esta Prefeitura se empenha em efetuar a doação, caso efetivamente se consume a chegada do disco voador; caso contrário essa enciclopédia reverterá a nossa Biblioteca para utilização do povo desta cidade.

“Agradecemos a atenção dispensada ao nosso emissário junto a esta empresa que manteve os contatos iniciais.

CÉLIO SARZEDAS – Prefeito”.

O recorte de 8 de março de 1980 está guardado num álbum. Não há nada do dia 9. O disco não pousou é claro. E o repórter, hoje menos cético, gostaria muito de ter escrito a segunda matéria. Que O Globo não publicaria naquela época, tenho a impressão.

 

Como diria meu velho colega de redação da Folha de S. Paulo, Carlos Rangel (Antonio Carlos Carpi Rangel, buzina algum neurônio), o segredo do sucesso é a má memória. Velho jornalista metido a galã, cabelo aplastrado com Gumex, sempre às voltas com uma paixão impossível e uma pauta incômoda, atribuía essa frase a Ava Gardner. Faz sentido. O segredo do sucesso é a má memória…e alguns retoques.

 

Paulo Markun nasceu em São Paulo, em 1952. Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Por dez anos, apresentou o Roda Viva da TV Cultura. Presidiu o Santacine, Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de Santa Catarina, onde vive desde 1998 e a Fundação Padre Anchieta, responsável pela gestão da TV Cultura, Univesp TV, Multicultura, Cultura Brasil e Cultura FM. Markun criou veículos de comunicação (Pasquim São Paulo, Imprensa, Radar, Deadline, Jornal do Norte); escreveu treze livros, dirigiu vários documentários e vídeos. No momento, trabalha como consultor da Unesco na reformulação da TV Escola do MEC. Criou o   Brado Retumbante, projeto multimídia que resgata a história da luta pela democracia. Prepara uma série de documentários sobre arquitetura para o SESCTV. Em razão de sua larga experiência como jornalista e apresentador, Paulo Markun atua frequentemente como mediador e mestre de cerimônias.

http://markun.com.br/memoriacoletiva/

https://www.facebook.com/#!/BradoRetumbante

http://paulo.markun.com.br/

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“Memória e memórias” por Lívia Garcia-Roza

Caso o passado se atualizasse a cada momento, nossa vida seria invadida por uma avalanche de lembranças que mal teríamos condições de suportar. Assim, podemos dizer que a principal função da memória é esquecer, e não, lembrar, sobretudo se aceitarmos a tese de que o passado se conserva integralmente.

Esquece-se portanto não por deficiência, mas por eficiência.

Foto Fernando Lemos – auto retrato

 

 

Quando morávamos em Icaraí, todas as noites meu pai ia verificar a altura da água da cisterna. Levava o flash light (como ele chamava a lanterna), e um dos filhos pra segurar a tampa. Quando chegava a minha vez eu olhava para o céu, e a noite tinha olhos azuis.

 

 

 

Livia Garcia-Roza nasceu no Rio de Janeiro e é psicanalista, pós-graduada em psicologia clínica, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estreou na literatura em 1995, com o romance Quarto de menina, que ganhou o selo altamente recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Desde então lançou vários outros romances, livros de contos e infanto-juvenis; entre os quais Meus queridos estranhos, Cartão-postal, A cara da mãe e A casa que vendia elefante. Ora trazendo histórias cotidianas, ora situações extraordinárias ou dramáticas; a prosa de Livia sempre imerge nas emoções humanas, com extrema delicadeza e profundidade. A autora é casada com o também escritor e psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza.

 

Como os figos secam no quintal por Luciana Gerbovic

“Como os figos secam no quintal ?” por Luciana Gerbovic

Eu vi seus olhos perderem a voz. Encovados e opacos da cor das uvas amassadas com seus pequenos pés na ilha de Korcula. Viveram além do permitido pela memória. Ninguém brinca com o tempo impunemente. Não sei se foi essa a lição. Não sei se existe uma lição. Olhos que não lacrimejavam por mais ninguém. Você sabe quem eu sou? Se eu saí de alguém que saiu de você você está em mim e não sabe quem somos? Nem por um som. Kako si baba dobro? Foi você quem me ensinou essas palavras naquelas tardes de sábado em que você se juntava com sua mãe e suas irmãs numa cozinha um oceano distante do que um dia chamaram de lar. Um lar invadido pela guerra. Uma confraria de mulheres narigudas compartilhando segredos alegres numa língua não revelada às crianças ao redor do pão e do vinho. Não lacrimejavam nem por um toque. Quando a mais velha falava em seu código indecifrável eu só me acalmava quando você segurava meus braços assim ó e dizia que ela só queria saber se eu era uma boa aluna. Eu balançava a cabeça num sim e você me liberava até o portão. Gostava das risadas que o vento trazia da cozinha até a rua,  acompanhadas do perfume das roseiras e das pimenteiras capturado no meio do caminho. Nunca desvendei as confidências trocadas.

 

Não sei nem contar até dez no seu idioma poético aos meus ouvidos. Você não me disse qual o gosto do pêssego nascido na terra que te germinou num armistício. Seu nome Paz e Glória. Nem me falou do sabor do sal adriático. Você não me explicou como os figos secavam no quintal e não descreveu as cores das pedras pisadas por esses pés transformados em gravetos. Grito pela herança que me foi furtada pelo tempo. Levada para um espaço fechado a qualquer investigador. Tenho coisas que não quero. Sua casa e suas jóias. A penteadeira que viu seus cabelos branquearem antes das rugas comerem seu viço. O tique-taque do despertador que guiava meu sono misturado com sua reza na língua encantada das mulheres narigudas. A mala de couro recheada de fotos de pessoas que eu trago no sangue e não consigo imaginar coloridas.

 

Quero suas memórias. Essas que ficaram enterradas com os pêssegos e o sal e os figos e as pedras e as confidências das narigudas em alguma curva do seu cérebro entre a hipófise e o córtex.


 

 

 

 

 

Luciana Gerbovic – advogada, leitora e escritora (ou escrevinhadora?)