Arquivo da categoria: Edição 06: A MENTIRA

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“Foi o gato” por Elza Tamas

Koko, a gorila treinada na linguagem de sinais, durante um ataque de raiva arrancou e quebrou uma pia. Questionada pelos treinadores sobre a sua conduta, apontou para o seu animalzinho de estimação e sinalizou: “foi o gato”.

Nosso cérebro ancestral sempre utilizou a mentira como um recurso de sobrevivência. Usamos a mentira para nos qualificarmos, para seduzir, para não sermos punidos, para sermos educados e aceitos e muitas vezes nos mentimos tão eficientemente, que não somos capazes de perceber o nosso auto-engano. Judite mente muito. Mal me lembro do momento que ela resolveu escrever a carta, mas ela garante que eu estava presente.

Além de mentir, Judite tem métodos bastante heterodoxos quando quer explicitar uma verdade.

 Prezada Dona Martha,

Desculpe-me, mas vou ser direta. Seu marido Abílio, há cerca de quatro anos se relaciona com uma jovem de nome Paula. Não uma Paula qualquer, mas uma moça de 23 anos. Uma jovem que viaja com ele, com quem ele janta e se diverte sem medo de ser visto, como se fosse um homem livre. E com esta mesma jovem, dona Martha, ele pretende morar em breve.

Dona Martha, escrevo-lhe em nome da grande admiração que nutro pela senhora e sendo assim, me atrevo a lhe dar um conselho de amiga: se antecipe a ele, não se humilhe mais implorando por um amor que ele não merece. Não compartilhe desta farsa e em respeito à sua família considere a separação como a alternativa mais digna para uma alma como a sua. Só assim ele poderá valorizar o que perdeu. A senhora há de encontrar alento junto aos seus, ao decoro da sua conduta e a sua fé cristã.

Encaminhei esta mesma carta aos seus filhos para que eles saibam quem é na verdade o pai deles, evitando que a senhora fraqueje frente ao que deve ser feito.

Da amiga espiritual.

Sei que ela sorriu ao digitar a última frase, e que se sentiu tomada por um tipo de entusiasmo pueril.  Afinal não é todo dia que se pode mudar o destino de alguém.  “Da amiga espiritual”. As Donas Celestes de qualquer paróquia poderiam ter escrito esta carta.

Ninguém nunca saberia, e isto é o que importava. Éramos boas em guardar segredos, Judite mais do que eu. Em breve nos divertiríamos com as tentativas de Abílio em descobrir a boa samaritana que enfim, solucionava o seu dilema. Nenhuma transgressão ética, já que tudo foi feito em nome de um bem maior. Não ser descoberto numa mentira é o mesmo que dizer a verdade, dizia Judite que repetia Aristóteles. A ação eficaz e a motivação absolutamente correta trariam  bons resultados. Tive que concordar, cinco anos como analista de Abílio qualificavam Judite a atuar a seu favor. Ela chamava de “um ato de compaixão”, afinal Abílio tinha direito a viver sua história de amor; Dona Martha, a que nunca tinha dúvidas, que se encantasse com o divino.

Seu conflito era moral, (como deixar dona Martha?) e só poderia ter sido solucionado se uma terceira força atravessasse o caminho e desestabilizasse o prato da balança. Neste caso a terceira força foi Judite.

Todo mundo tem um gato. O meu se chama Judite.

 

 

 

 

 

 

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A maior mentira brasileira por Ruy Fernando Barboza

A maior mentira brasileira é Brasília. Aquilo (chame de labirinto, monumento, brinquedo, arapuca, utopia, absurdo ou o que mais quiser – cidade é que não é) já nasceu como uma múltipla mentira, e como mentira sobrevive.

Tenho amigos queridíssimos em Brasília, e que amam aquilo. Um deles, doutor em transporte urbano, revelou-me que, na opinião de muitos urbanistas, Brasília será abandonada no futuro, por ser inviável. Ficará apenas como patrimônio da Humanidade (o que já é – um símbolo muito bonito do lado incompetente da humanidade) e monumento a Juscelino (o que ela sempre foi). As pessoas terão de ir pra outro lugar – um que seja habitável.  Mesmo assim, meu amigo gosta de Brasília. Resisto um pouco a entender esse amor, mas o amor é assim mesmo, muitas vezes inexplicável. Não há pessoas que amam quem as espanca? Não há pessoas que amam morar no Alaska, na Sibéria, no alto do Himalaia, em Teresina, em Manaus, em plena selva, no deserto? Pois então, por que não em Brasília?

Haveria muito que falar, mas vou me limitar a poucas linhas e itens (se quiser saber mais, remeto você ao livro de 366 páginas “A Cidade Modernista”, do antropólogo estadunidense James Holston, publicado pela Companhia das Letras. O livro me ajudou a entender o engodo brasiliense, e baseia o que digo e cito aqui).

É mentira que Lucio Costa idealizou Brasília. O projeto que originou Brasilia – o de uma “cidade” vista como ideal, revolucionária e que tinha a pretensão de mudar as estruturas da sociedade, está (desde a década de 1920!) muito bem elaborado, em seu traçado e seus edifícios, por Le Corbusier e pode ser visto nos seus livros “Uma Cidade Contemporânea para Três Milhões de Habitantes” (de 1922) e “A Cidade Radiosa” (de 1930).

Este projeto foi consolidado como modelo, desde a década de 1930, pelo grupo de arquitetos e urbanistas denominado CIAM (a sigla vem de seus encontros periódicos, os Congrès Internationaux d’Architecture Moderne). O grupo, segundo afirma o próprio Le Corbusier em 1933, era composto por “sindicalistas catalães, coletivistas de Moscou, fascistas italianos e (…) especialistas técnicos de visão aguçada”. Nos seus manifestos e desenhos, está tudinho que Costa copiou. A começar pelo objetivo, explícito, de criar um novo tipo de cidade que criaria um novo tipo de sociedade, acabando com o capitalismo. Os planejadores de Brasília, assim, copiaram desde os princípios segundo os quais o planejamento urbano deveria levar em conta cinco funções da cidade: moradia, trabalho, lazer, circulação, e centro público (para a administração), e tudo isso baseado num zoneamento em que as funções se dividem em setores mutuamente excludentes em termos de ocupação territorial – gerando aquela maluquice que põe os postos de gasolina num extremo, as diversões em outro, a escola das crianças em outro, os restaurantes em outro, e por isso as avenidas larguíssimas separando tudo, e impedindo que se ande a pé.

O fato é que o projeto elaborado pela equipe de Le Corbusier e do CIAM é, com pequenas adaptações (a leveza do estilo da arquitetura de Niemeyer, por exemplo), o que é Brasília.

  

Estão lá os dois grandes eixos viários ( “para o tráfego de alta velocidade”, segundo o francês); as superquadras residenciais ao longo de um dos eixos; as áreas de trabalho ao longo do outro eixo; o centro público num lado do cruzamento dos dois eixos; e – se houvesse alguma dúvida – até mesmo o grande lago artificial para a area de recreação e o cinturão verde rodeando a cidade! Os croquis de Le Corbusier, de 1922 e 1930 não deixam margem a dúvidas, pois, repito, está tudo lá! E tudo isso foi escondido no “projeto” de Lucio Costa, que apresenta o plano como surgido espontaneamente, e fechado em si. Como uma idéia genial, em que muitos acreditam até hoje.

Outra grande fajutice foi, ao que tudo indica, o próprio “concurso” para a escolha do projeto de Brasilia. Não houve propriamente um concurso. A não ser formalmente. Houve um edital,um júri e concorreram 26 escritórios de arquitetura e urbanismo. Holston dá um exemplo de por que outros projetos, na justificativa do júri, foram rejeitados. A respeito do plano do escritório MMM Roberto, o júri reconheceu que nunca no mundo fora feito “um plano mais abrangente e profundo para uma nova capital em sitio aberto”, mas seria preciso gente demais para executá-lo! O plano do ecritório MMM Roberto tinha “séries de plantas, volumosas projeções estatísticas sobre crescimento populacional e econômico, além de planos detalhados para a administração e o desenvolvimento regional”. Talvez se esse tivesse sido o plano escolhido, o Distrito Federal não seria hoje o desastre que é – um Plano Piloto onde a renda media dos habitantes é uma das maiores do mundo (paga por nós, contribuintes brasileiros) e onde não há pobres, pois estes só podem habitar os imensos favelões das cidades satélites, dominadas pela miséria, o banditismo e a violência.

 JK e Lucio Costa

O representante do Instituto dos Arquitetos do Brasil rompeu com o júri e declarou, na época (1957) que um júri sério jamais teria aprovado o “plano” de Lucio Costa, que mais parecia uma grande brincadeira.

Lucio Costa apresentou, conta Holston, apenas “cinco cartões contendo quinze croquis a mão livre e um breve texto de 23 itens”.

E mais: “nenhuma linha de desenho técnico, nenhuma maquete, estudos de uso da terra, mapas demográficos ou esquemas para desenvolvimento econômico ou organização administrativa – em suma nada senão a idéia”(ainda por cima copiada, como vimos) “de uma capital”!  Mas o júri se declarou encantado com o malandro texto de Costa, verdadeira poesia, “lírica e impactante”.

Deu no que deu.

RUY FERNANDO BARBOZA , jornalista, psicólogo e advogado, é editor de Texto da revista Retrato do Brasil. Como psicólogo, formou em Brasília, nos anos 90, monitores para um programa de apoio emocional a pacientes de câncer e familiares. Dirigiu em Brasilia a Rádio e a TV Justiça, do Supremo Tribunal Federal, em 2010, por cinco meses. Mais não agüentaria. Espera não ter de ir de novo ao Distrito Federal, a não ser para ver os grandes amigos que tem lá – e que gostam de Brasília.

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O nono círculo do Inferno de Dante por Maria Elisabeth Montagna

“Ao meio do caminho de nossa vida, me encontrei em uma selva escura, onde a via direita estava turvada” – este verso inicia a viagem de Dante Alighieri, através do Inferno, Purgatório e Paraíso,  narrada em sua obra “A Divina Comédia” , do século XIII

Neste primeiro verso ao falar sobre o meio do caminho de nossas vidas, Dante refere-se à idade culminante de um homem, os trinta e cinco anos. A selva escura de Dante refere-se à selva errônea da vida, os labirintos do pecado e o seu extraviamento individual.

Na jornada do Inferno, Purgatório e Paraíso, Dante tenta reencontrar a via direita, reta. No Inferno encontra o que de pior povoa os desvios humanos e faz seu julgamento moral, colocando em cada um dos círculos descendentes do Inferno, os erros cometidos pelos homens

No último e mais impiedoso círculo, o nono, os traidores são condenados a, paradoxalmente, enfrentar o mais gélido frio – “ Ao pranto o mesmo pranto ali contende/ e a lágrima detida sobre o cilho,/ em gelo transformada, a dor estende,/ tornando-se terrível empecilho:/ param as lágrimas e aumenta a dor” (1)

A traição, quebra da fidelidade prometida e da palavra empenhada, do distanciamento da virtude, inclui a mentira e vai para além dela: “Que preso fosse e morto não memoro, / por sua maldade eu nele confiando,/ não há quem dizer possa: ‘Eu isto ignoro’ (2). Para Dante, o amor ao próximo é o vínculo natural que deve unir o homem a seu próximo. A falsidade, mentira, a quebra da confiança são suficientes para que o amor incondicional ao próximo, virtude de todas as virtudes, sejam punidas com castigos do Inferno. A conduta do homem deve ser regida pela busca da beatitude. A mentira é inaceitável e destrói a retidão humana. A escuridão, o abandono, o medo, a desesperança são a condenação para aqueles que faltaram com a verdade. É interessante notar que Dante condena aqueles que mentem tanto para os outros como para si mesmo. A correção, força interior e o caráter de um homem não devem ser desviados  jamais do caminho da verdade: contraponto entre a sombra e a luz.

Dante, ao condenar os traidores ao pior dos expurgos inclui aqueles que além da mentira traem a pátria, os traidores de seus hóspedes e daqueles que foram seus benfeitores. Mas, comum a todos perpassa a grande traição cometida a si mesmos: o afastamento das virtudes, onde o homem deve buscar na Natureza e  nas Artes o modo de permanecer na direita via.

 

Referências:

1 e 2) Divina Comédia/ Dante Alighieri; João Trentino Ziller, tradução e notas. Editora da Unicamp, 2010 – Coleção Clássicos Comentados – Inferno, Canto XXXI, pag 203

 

Assista aqui um trailer de “Abandon All Hope” a história do Inferno de Dante, narrada por  mais 15 artistas  e estudiosos dos Estados Unidos e da Itália

Fotos por ordem de apresentação

Domenico de Michellino – Dante e os  3 reinos da Divina Comedia

Gustavo Doré

Botticelli

Gustavo Doré

 

Maria Elisabeth Montagna é doutora em Psicologia Clínica Pela PUC/SP e é  estudiosa e admiradora da obra de Dante Allighieri

 

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O buraco negro da imagem verdadeira por Georgia Quintas

“Toda fotografia é uma ficção que se apresenta como verdadeira. Contra o que nos inculcaram, contra o que costumamos pensar, a fotografia mente sempre, mente por instinto, mente porque sua natureza não lhe permite fazer outra coisa.”

Joan Fontcuberta

 

Em um dia langoroso, percebi que a fotografia era um consolo. Alguns retratos de família, de viagens, de parentes mortos, de bebês nonsense com seus olhares vãos, de certa forma sibilaram para mim a dimensão simbólica da fotografia que me acompanha até hoje. Confesso que esta lembrança já se faz turva e eu, menina, não entendi muito bem o significado daquela experiência. Decerto, instaurou-se um estado de espírito entremeado de desejo, cobiça e encantamento com relação às imagens.

Com a imagem fotográfica somos, frequentemente, solapados pela força de um possível testemunho de algo em certo espaço e em certo tempo. Embora tudo o que vemos na fotografia seja visível; é, contudo, em seu nicho mais velado e incógnito que encontramos verdadeiras significações. É justo no espírito entremeado de desejo em imaginar que percebemos novas realidades.

Discordo daqueles que acreditam que a fotografia é uma cópia fiel da realidade. Não é. A firmeza do meu credo encontra vazão na obra teórica O beijo de Judas – Fotografia e Verdade (Editorial Gustavo Gilli, 2010),  do fotógrafo catalão Joan Fontcuberta.

O beijo de Judas é um daqueles livros inspiradores que nos ajudam a compreender as sutilezas e simulacros inerentes à fotografia.  Nem tudo que reluz na superfície imagética é real, assim como nem tudo que pensamos a partir dela é consequência de um mecanismo realista, verossímil, de uma verdade visual e cândida. É com precisão argumentativa que Fontcuberta discorre sobre esse buraco negro da imagem verdadeira. Ele nos apresenta várias facetas sobre o amálgama entre mentira e ficção.

Foto: Fontcuberta

Num estado de espírito entremeado pelo desejo de viver fotografias, as evidências se colocam como pistas para o devaneio. Não estaria falseando ao dizer que a fotografia é interseção de prazeres, vontades, volúpias, afeto, ressurreição e fantasia. Já não contemplo aqueles álbuns da infância há algum tempo. Fico com a memória retida daquele momento o qual persiste em alimentar minha imaginação. Quem sabe, ao revê-las serei traída por fantasmas do que pensava ter visto…

Foto João Castilho – série Temperos - 2009

Sigo com a ideia da fotografia sentida muito mais como materialização de uma experiência do olhar. Esse é meu consolo, absoluto desejo de seguir outros mundos e sensações.

 

Georgia Quintas é professora e pesquisadora no campo da teoria, filosofia e crítica da imagem fotográfica. Doutora em Antropologia pela Universidade de Salamanca (Espanha), mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pós-graduada em História da Arte pela Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP/SP. Atualmente, é Coordenadora da Pós-graduação em Fotografia da Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP/SP. Autora do livro “Man Ray e a Imagem da Mulher – A vanguarda do olhar e das técnicas fotográficas” (CEPE, 2008).

Site com textos críticos: Extraquadrohttp://www.olhave.com.br/extraquadro

 

foto do banner:  André Kertész – Polaroids -1979

 

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Pinóquio e o mentiroso em nós por Alex Cerveny

No começo, acho que entendia a mentira apenas como uma mera estratégia de sobrevivência(“- Já tomou banho?  -Tomei!”…), mas, com o tempo, percebi que mentir também nos ajuda a obter recompensas preciosas, tais como prazer e vingança.  Penso que todos nós que sobrevivemos aos horrores da infância e às infâmias da adolescência, obtivemos tal êxito porque aprendemos a mentir com convicção. E assim nos tornamos crianças mais adequadas e adultos mais bem preparados para enfrentar o mundo real.

Ler e ilustrar o Pinóquio de Carlo Collodi, na tradução de Ivo Barroso foi uma redescoberta. Não apenas quanto ao texto, sem cortes e original. Mas também pelas frestas que se abriram nele, para que eu reencontrasse na memória as minhas primeiras estripulias e atos inconfessáveis. Este trabalho fez com que eu me projetasse em muitas das cenas apresentadas, algumas vezes próximas dos vestígios de minha própria, (ou de qualquer) infância e das fantasias vividas no processo de metamorfose para a vida adulta.

Este Pinóquio completo, que pode ser subentendido também como um “manual de conduta para meninos”, é bem diferente das histórias educativas de Heinrich Hoffmann reunidas em Der Struwwelpeter anos antes. Collodi junta tudo em uma galopante narrativa e ainda acrescenta importantes ingredientes morais e sentimentais. Contém um oceano de possibilidades para o ilustrador.

Seu mundo é um lugar mágico, e como tal, é cheio de armadilhas perigosas para uma presa perfeita como Pinóquio. Ele fala demais, não escuta, é exibido e não suporta ser contrariado. É ingenuo, impaciente e não pensa antes de agir. Suas mentiras frágeis não convencem enquanto boneco, e talvez o objetivo maior, por trás do “tornar se um menino de verdade”, seja justamente o desejo de aprender a mentir de uma maneira convincente.

Foi em setembro de 2011, depois de quase um ano de tentativas, de busca de um traço e de um formato para o boneco e seu mundo mágico, que eu achei que este Pinóquio poderia se “revelar” através do cliché-verre.

Neste procedimento híbrido, meio gravura e meio fotografia, as imagens foram desenhadas em chapas de vidro coberto de fuligem, e depois reveladas. Resultam de um artesanato onde quase não existe atrito, porque a agulha desliza na superfície do vidro removendo a fuligem sem nenhuma resistência. A luz que atravessa o negativo de vidro grava a imagem no papel. O resultado traz um pouco da atmosfera e da textura dos calotypes do século dezenove.

A partir daí, em poucas semanas Pinóquio foi “revelado” em cerca de sessenta imagens e entregues quase diariamente. Não foram feitos esboços preliminares, e tive que fazer muito poucas correções; assim, penso que estes clichés contém bastante sinceridade.

É preciso admitir que fiz uso de um novo instrumento para a execução desta série, uma lupa, que me permitiu fazer com mais conforto e precisão todas as caligrafias e filigranas, e a enxergar as miudezas do desenho, como na juventude.

 

 

Alex Cerveny nasceu em 1963, em São Paulo, onde até hoje vive e
trabalha. Sua formação aconteceu principalmente nos ateliers de dois
artistas: Valdir Sarubbi e Selma D’affrè, com os quais estudou desenho
e gravura; e para os mesmos, trabalhou como assistente entre 1979 e
1984. Expõe regularmente desde 1982. Seus desenhos, gravuras, bronzes,
azulejos e pinturas estão sempre carregadas de história.
Paralelamente, realizou atividades ligadas ao ensino livre da arte e à
contínua produção de desenhos de ilustração para jornais, livros e
revistas.

http://casatriangulo.com/pt/artista/3/trabalhos/1/

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As traças não comem mingau por André Gravatá

Contamos menos mentiras para os outros do que para nós. Mentimos por dentro para continuarmos na nossa zona de conforto, que nem sempre é aconchegante, mas produz uma sensação de segurança. A zona de conforto é nossa segunda mãe. Se pudesse, ela nos beijaria à noite e nos alimentaria com mingau.

Mentimos em prol da preservação da identidade que construímos, numa tentativa de nos agarrarmos aos fios de vida que pendem no ar. Inventamos um mundo em nós e daí seguimos uma trajetória curva com a fixação de reafirmá-lo. Mas sabemos, no mínimo desconfiamos, que grande parte das nossas certezas estão roídas por traças. Convivemos com traças dentro de nós, mais até do que órgãos. Enquanto as traças destroem as certezas, muitos continuam imponentes, inebriados pela caixa em que entraram.

Deixe as traças consumirem parte de você. Parte de você é mentira que você nem sabe que é.

Colabore com o trabalho das traças, catalise os processos de corrosão – dói menos do que parece.

As traças não comem mingau, preferem corroer artefatos de lã, seda, peles e certezas. Há algumas traças que carregam o casulo nas costas, como a maioria de nós. As traças com casulos nas costas gostam de ouvir música clássica e forró. Se elas estiverem corroendo suas certezas num ritmo vagaroso demais, adicione músicas energéticas no seu iPod, inclusive as que aguçam seus preconceitos – Michel Teló entra na playlist –, daí o trabalho das traças será mais rápido.

Contamos menos mentiras para os outros do que para nós. Mas não contamos mentiras para as traças que vivem em nós. Elas são surdas. Aliás, as traças nem têm ouvidos, apenas olhos verdes. Ou você não sabia que as traças têm olhos verdes? Elas roem tantas mentiras que acabaram criando uma proteção no olhar, um musgo carnívoro que carcome cada migalha de certeza, inclusive os caroços das migalhas. As bases da mentira afundam na floresta ocular das traças.

Conheci uma das traças que morava em mim. Ela não tinha nome, os pais não a batizaram. No mundo das traças há tanta burocracia que batizar os filhos se tornou uma via crúcis – inclusive a taxa de natalidade no mundo das traças tem diminuído, outro problema sério, que será tema de um texto futuro. Em questão de dias a traça se tornou minha amiga. Sempre que encontrava uma mentira minha, ela me cutucava por dentro, um sinal de advertimento que me deixava com azia.

Nas sextas-feiras, às vezes a convidava para beber cerveja comigo, então ela me contava detalhes de todas as falsidades que estava inventando para mim mesmo. Ficava impressionado. Não só com a quantidade de mentiras internas, mas também com o volume de cerveja que a traça bebia.

Tinha receio de que ela voltasse a ocupar meus interiores ainda bêbada – e então começasse a destruir minhas verdades. Certa ocasião, pensei alto demais e a traça captou meu receio com suas antenas. Colocou o copo na mesa do bar e disse: sua maior mentira é achar que você tem verdades. Bebi mais um copo, voltei para casa e dormi com a televisão ligada. Quando durmo, a traça começa a trabalhar. O ronco é o barulho que a traça faz dentro de nós – os médicos ainda teimam em dizer que se trata apenas de questões respiratórias. Deixe as traças consumirem parte de você. Parte de você é mentira que você nem sabe que é.

 

André Gravatá, 21 anos, é jornalista, colaborador de revistas como Vida Simples e Superinteressante. É especialista em traças e desdoutor pela Universidade do Espanto Diante da Vida. Idealizador do [email protected]

www.tedxjovemibira.com

 

 

 

 

 

Imagens: Thiago Martins (www.flickr.com/photos/thiagomartins, foto da home)

“O Terraço do Café na Place du Forum, Arles, à Noite”, 1888, Van Gogh (foto acima)