Arquivo da categoria: Edição 13: NÚMEROS

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MINIMO MULTIPLO COMUM por Elza Tamas

 

Por falta de chão, acabei me apoiando nas estrelas.Elas me enganaram e ele achou que eu era mística.
Depois tentou consertar: mística não, talvez meio excêntrica.Vi minha cabeça enorme, solta, em fuga tangencial, vagando frenética no espaço, sem chance de reencontrar o eixo do bom senso. Você é fora da curva, isso é um elogio ele disse, é inteligente, rápida,  preferia que você me achasse bonita, mas você  é linda,  e ainda tentando reparar o desencontro que se instalava tentou algo mais concreto, ele é matemático,  e começou a falar de teoremas, e  de catetos e hipotenusas, e números  e letras ao quadrado.
Eu tinha delirado beijos ao cubo, João Bosco tocando e cometas no céu da minha boca, mãos com trinta dedos ágeis enfeitando a noite,  nossos corpos confundidos elevados à potência que só o desejo poderia produzir.
Mas não, seus lábios se moviam desencontrados do texto esperado, do meu, do dele, tudo tenso, a contração e o medo nos reduzindo à categoria de um filme B. Ele me olhava como se eu fosse uma maça, não mais  a do Éden,  vermelha suculenta, mas  a  do Newton, sem graça, fadada ao chão. Nossa historia afetiva ia  sendo capturada pela gravidade, tudo era pré-determinado,  já não flutuaríamos mais.
Na porta, saindo ele ainda disse: nós dois gostamos de café sem açúcar, e riu.  Demos um abraço pálido; meu mundo se precipitando,  partículas desencontradas para todos os lados  e  ele tentando achar nosso mínimo múltiplo comum.

ilustração banner : Milton Rodrigues Alves

 

 

Elza Tamas idealizou e desenvolve este site

www.forademim.com.br

 

foto: Mario Bock 

 

 

 

Milton Rodrigues Alves é ilustrador  e trabalhou como editor  de arte na Folha de São Paulo, Revista Veja, Superinteressante. Foi diretor de arte da TV Abril. Há 25 anos  dirige sua própria empresa:  Casa Paulistana de Comunicação.

www.casapaulistana.com.br

 

 

 

 

 

equacao - fora de mim capa - samir

EQUAÇÃO por Samir Mesquita

Ela não sabia quase nada sobre o Holocausto. O que evitava sua ignorância eram alguns filmes vistos e o que  havia estudado para uma prova na qual ficara  abaixo da média. Contudo, ela sabia o suficiente para reconhecer o que era a imagem na capa daquele livro.

Vamos chamá-la de Ann.

Ann acreditava mais em números do que em santos. Para Ann, a matemática era sua verdade: era mais coerente crer nas projeções de  gráficos do que em milagres divinos. Portanto, quando Ann acessou aquele site de vendas, sua busca era também um ato de fé. O livro que ela queria se chamava We translated in Numbers – a global  economic research de Ingo Herman.

O livro estava esgotado. Mas esse tipo de site é inteligente o suficiente para não deixar você ir embora sem nenhuma compra.

Abaixo da imagem de We translated in Numbers, havia uma lista de sugestões de outros livros que talvez pudessem interessá-la. E entre eles, um cuja capa trazia a  fotografia em preto e branco de um braço magérrimo tatuado com um número de  vários dígitos.

Por que esse livro estava entre as sugestões? Ann não se perguntou porque sabia como essas listas funcionavam, como os resultados  vinham do cruzamento de uma série de informações. O que ela não sabia era a razão dos seus próximos passos.

Ann clicou no item. E clicou para comprá-lo. A página seguinte pedia o número do seu cartão de crédito. Foi então que Ann viu a  confirmação de uma lógica matemática. Seu número já estava na tela. Mais exatamente, na capa daquele livro.



Samir  Mesquita é autor dos livros de microcontos Dois Palitos (2007) e 18:30 (2009).
Participou da mostras de literatura e artes no Brasil, Argentina, Itália e
Inglaterra. Tem textos publicados nas revistas Playboy, Claudia, Carta na
Escola, Carta Fundamental, Revista da Folha, Gloss, entre outras.

 

www.samirmesquita.com.br

www.twitter.com/samirmesquita

 

foto banner: Samir Mesquita

ceu star walk (2)

O DIA DO ANIVERSÁRIO por Barbara Abramo

 

 

Cada aniversário que a gente faz nos dá a chance de explorar melhor um determinado signo ou conjuntura astrológica. E os  astrólogos acham bom calcular o mapa para o momento exato em que o Sol passa no grau exato em que estava quando nascemos. Para nós, o Sol é o astro central, que nos dá a vida, com seu calor e nos ilumina com a sua luz. Ele representa a centelha da criação.

Quem já fez sua própria revolução solar, pode notar como a cada ano mudamos o nosso Ascendente, e algumas outras notas
astrológicas que acrescentam toques novos, realçando pontos especiais de nosso  mapa de nascimento. Este, ninguém muda! Ele é como uma certidão de nascimento  cósmica, algo que está sempre ali, como um pano de fundo onde todas as nossas
vocações e escolhas se misturam, num todo dinâmico, sempre novo.

mapa nascimento George Harrison

Então, a cada ano que passa acrescentamos  uma sabedoria a mais, representada pelo signo que fica no ascendente, que é  como um estilo ou uma tendências mais forte que nos faz um apelo especial  naquele período de tempo que dura 365 dias.

O próprio mapa astral da revolução – ou  retorno – solar – em lá seus segredos. São 12 meses divididos em 12 casas  astrológicas, cada uma relacionada a um assunto da vida, e são 4 estações  distribuídas em cada quadrante do mapa, nossa bussola para vivermos plenamente  aqueles 365 dias que duram o ciclo da Terra em volta do Sol.

A astrologia tem nos seus inícios uma  profunda ligação com alguns conceitos de filósofos gregos – como o conceito  platônico do um e do si mesmo, ou a teoria da tetratkys pitagorica, ou a dos temperamentos – mas dos egípcios e  dos árabes herdamos a matemática, a ciência dos números e de suas significações  ocultas, suas vibrações especialíssimas, que se desdobram em cada casa  astrológica, em cada ano de vida. De zero a seis anos, por exemplo, estamos sob  o poder da Lua, dos sete aos 14 sob o de Mercúrio e assim por diante, cada  astro imprimindo com sua inteligência e natureza aquele pedaço de nossas vidas.

Os mistérios dos números também são vistos  na razão dourada, muito estudada pelos arquitetos e filósofos, mais tarde por  astrólogos que tentaram ver, em padrões celestes, a repetição  de constantes numéricas.

Para saber mais:
Razão Dourada – http://pt.wikipedia.org/wiki/Propor%C3%A7%C3%A3o_%C3%A1urea

Conceitos, historia da astrologia,  explicações sobre revolução solar:
Skyscript – http://www.skyscript.co.uk/

 

Barbara Abramo é  paulistana, astróloga desde  1981, é horoscopista da Folha de São Paulo e da UOL.
Mantem o site Horóscopo: http://www1.folha.uol.com.br/horoscopo/

 

 

 

 

 

quadrado

Arte e geometria por Tuneu

 

 

 

“O quadrado tem uma longa tradição na Historia da Arte, figurando como protagonista nos episódios de confronto entre a arte moderna e a tradição narrativa em pintura. Ele foi o heroi do suprematismo de Kazimir Malévich,  tornou-se a obsessão de Piet Mondrian e o principio fundador da arte de Sol LeWitt.

Tuneu retoma o quadrado como tema de reflexão e se instala em meio ao seu poderoso silêncio.

 Nos quadros de Tuneu o quadrado aparece  como principio construtor do mundo.

Diante de seus quadros vemos cessar o discurso,  esquecemos a realidade e saltamos para fora do tempo.”

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Texto: Claudia Valladão de Matos, exposição Puro Espaço , junho de 2008

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 Tuneu (Antonio Carlos Rodrigues) é pintor e desenhista. Estudou com Tarsila do Amaral entre 1960 e 1966 e recebeu influência de Wesley Duke Lee. Foi assistente de Willys de Castro e Hércules Barsotti durante vários anos. Em 1966 realizou sua primeira mostra individual no João Sebastião Bar, em São Paulo.Entre as exposições de que participou, destacam-se: Salão de Arte Contemporânea de Campinas (várias edições entre 1966 e 1974, Prêmio Viagem à Europa, 1970, e Prêmio Aquisição, 1974); 16º e 17º Salão Paulista de Arte Moderna (São Paulo, 1967 e 1968); Bienal Internacional de São Paulo (várias edições entre 1967 e 1975, Prêmio Aquisição Itamaraty, 1971 e 1975); Panorama da Arte Atual Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (várias edições entre 1971 e 1989); 3º e 6º Salão Paulista de Arte Contemporânea, no Museu de Arte de São Paulo (1971 e 1975); Arte na Rua 2 (São Paulo, 1984); Off Bienal, no Museu Brasileiro de Escultura (São Paulo, 1996). Apresentou uma exposição individual na Galeria Raquel Arnaud, em 2008, e em 2010 na Casa de Cultura de Paraty (Rio de Janeiro).
www.tuneu.com.br

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20120802 by Tillmann Lange

Para visualizar a versão em português, clique aqui

I no longer work with calculations, nor am I interested
in data and their meanings.

I saw something in the past or it was something
someone told me. These fragments of past information transformed themselves in
my mind into forms. The numbers still exist within and the structures appear
like a flash.

I’m on paper.

It isn’t important to decode the original information:
absolute knowledge is impossible.

Fragments seen before have no relation to information.

Number is image and the pages of a math book are drawings.

The math book was shifted: I want to create a situation similar to listening to music, without understanding it’s
composition. You look at the drawing and I hope there is something you can feel, without further information.

The final outcome of musics equation is greater then its numbers, its the melody.

I like not to know what the melody means.

I like not to know.

Codes without keys. Maybe there is someone who could see the structure of the pattern.

It is interesting to see a information encoded and then to question: What is it about?

I want to freeze at this point. There is a question but there isn’t an answer.

The mystery is magical alone. Without answers.

 

translated by Jessica Cooke

Tillmann  Lange was born in Cottbus, Germany in 1981, he began his studies in the  Technical University of Dresden, Germany in 2001 in computer science. During this time he performed a parallel painting study in the Academy of Fine Arts  Dresden. In 2005 he moved to Berlin, where he currently lives and works as a  graphic designer and studies painting in the Berlin Weissensee School of Arts.
He had his work published in the ‘Prolog 7’ magazine of Berlin in 2011. His
solo exhibitions were ‘Linienkompott’ in Galerie  im Zwischenraum, Berlin 2012 and ‘Aktstudien und freie Blätter’, in the Galerie Ostart, Berlin.

www.tillmann-lange.de

christian banner -tecido

MOEDA DE TROCA por Christian Heymes

 

Quanto custa uma mulher? Na África tribal, não existe dinheiro, só moeda de troca.
No Congo, na tribo Kassai, essa moeda é um quadrado de tecido feito de ráfia bordado.

Esses tecidos estão no  centro da vida social.O filho deve dar ao pai ou a mãe uns dez quadrados quando começa sua vida ativa;  para casar o futuro marido deve oferecer  sessenta larguras de tecido ao pai da noiva, sobretudo se ela tem as ancas  largas,  promessa de muitos filhos.
A mulher vai receber no mínimo dez tecidos quando nasce um filho.
A aquisição de um cargo social ou religioso e serviços também  são pagos em têxteis.

Para se ter boas relações com familiares, amigos, vizinhos; para ser admitido à um culto, tudo tem seu preço em tecidos. A posse de uma grande quantidade aumenta o prestigio,  e  o  próprio vilarejo como coletividade,  possui seu tesouro de tecidos. Dependendo da tribo, esses tecidos vem em quadrados ou rolos de vários comprimentos, que podem ser usados como vestimenta, sendo enrolados em  volta do corpo.
Os desenhos tem um significado e contam uma história, que hoje em dia muitas vezes se perdeu. Cada desenho tem que ser bonito e bem executado, pois na África a criação é antes de tudo uma aventura espiritual e noções abstratas como a tensão,  equilíbrio, audácia e  ritmo  presentes nos trabalhos,  são primordiais para descrever a qualidade profunda desse povo.

 

 

Christian Heymes é frances,radicado no Brasil há 40 anos, arquiteto,decorador e antiquario, agora especializado em  arte tribal: Africa, Oceania e Asia. Ministrou cursos sobre arte africana no Masp. Escreve para revista eletronica Taste.

http://taste.com.br/habitat/arquitetura/item/7853-arquitetura-de-terra-do-povo-dogon.html

www.patrimonioantiquidades.com