Arquivo da categoria: Edição 19: O ESPELHO

eliasson

ALBEDO por Elza Tamas

                                                                                                                                               para Aurora

Tem até um nome: chama-se Albedo o índice que mede a capacidade de um corpo refletir luz. Assim como a neve, os oceanos, as areias do deserto, certos corpos são mais propícios à reflexão da luz. Curiosamente, o índice de albedo da Terra é maior do que o da Lua. De longe, brilhamos azuis e inspiramos namorados de outros mundos.

Pessoas com zero de albedo são aquelas de superfície cheia de reentrâncias, massas opacas, densas. Planetas obscuros, autocentrados, incapazes de refletir vagam deprimidos, isolados sob a crosta rugosa e endurecida que a dor e o ressentimento podem produzir. Movem-se lentamente, provocando extensas áreas de sombra e têm um odor que lembra mofo.

Pessoas com  índice de albedo perto de 1 são radiantes. Capturam todos os olhares e são como pequenos sóis que parecem emitir luz própria. Generosas dividem o encantamento: iluminam e são iluminadas. Brilham, mas não ofuscam; ao contrário, transferem lucidez e força para os que estão próximos.

Há um ano ela mora do lado de lá do espelho. Nos encontramos todos os dias nos traços refletidos, que insistem cada vez mais em ser parecidos com os dela.

Sua intensidade solar transbordou em novas genealogias; outras luzes nos alegram. Acreditamos que ela deve ter dado um empurrãozinho para que mais alguém despencasse do céu e quisesse entrar em nossas vidas. Pra nunca andar com os pés no chão e sempre pedir bis, esperamos você, que acho, vai se chamar Beatriz.

 

foto banner: instalação Olafur Eliasson   

 

 

Elza Tamas é psicóloga e escritora.
Concebeu e desenvolve este site.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

adriana-peliano

ALICIS ESPECULARIS por Adriana Peliano

                                                                                                                                                                                                             

Num enerdia de verão, aos 7 anos de idade, olhei através do espelho de Alice. Encontrei uma menina enigmágica que logo me perguntou: Quem é você? Ela não aceitou meu nome como resposta: assim é como você é chamada, retrucou. De súbito nossos espelhos se refletiram entre as curvas do espaço-tempo como um myse en abyme. Naquele instante perdi meu nome no espelho. Hoje busco novas Alices em aventuras labirínticas atravessando múltiplas artes. Me reinvento em Ali-se e seus tantos nomes que se expandem em uma inesgotável criação de eus: Alis, A lys, Alyssos, Alastos, Allistos, Alussas, Alions, entre outras crises e devires: reino das alicinações

                                                                                                                                                                                                    

Com Alices reviajo no país dos espelhos por caminhos espiralados e mergulho numa floresta misteriosa aonde se perde e se encontra essa menina rompiecabezas, plurilíngua, borboletra alicenógena, proliflora desejos em casulos oníricos, fantasmagorias deliram psicodelícias. Amaravilhas. Vislumbro um rio de florosofias errantes, espelhos líquidos, clepsidras lúdicas, Lúcia no céu com diamantes. Sonhos de Escher dançam geometrias impossíveis. Cabelos revoam anéis de Moebius.

                                                                                                                                                                                                           

Aliceoscópios são uma singular criação catóptrica, uma arte de conceber engenhos especulares que criam visões insólitas, perspectivas paradoxais, geografias exdruxulistas, cartografias escalafobéticas. Num golpe de máquina o espelho mutante de Alice viaja através de tempos loucos e sonhos quânticos em uma inesgotável “sede do infinito”. Sua experimentação exige constante movimento, um amor pelo estranho e indomesticável, libertando armadilhas do conhecido. Alikezan! Alices extrapolam saberes cômodos e estagnados e vão viver novas aventuras desafiando fontes de desejos e desfiando teias e constelações em novos feixes de fabulações. CURIOUSER and curiouser! Estou me esticando agora como o maior telescópio jamais visto. Adeus pés!

                                                                                                                                                                                                          

Surrealices nos convidam a atravessar os espelhos de Magritte, janelas para o invisível, sonhos dentro de sonhos, inclassificáveis confabulando atrás dos pensamentos. Nos ‘Livros de Próspero’ de Peter Greenaway, um dos vinte e quatro livros é composto por páginas de diferentes espécies de espelhos. Cada página produz um reflexo metamórfico devolvendo inesgotáveis imagens de Alices quem somos. Sua leitura se faz nascente de fluxos cósmicos de criação de sentidos, mágica pulsante de investigação de si-m. Monstros do espelho, uni-vos!

Alice foi a heroína vitoriana deum estrambólico e feraz  livro de histórias infantis. Viajou para a Disneylândia e foi capturada em ondas de colonização de sonhos. Mergulhou em habit wholes e num fluxo rebelde, irradiou wanderlands. Hoje respira novos artes em jogos de ser o não ser. Eu… eu… nem eu mesmo sei, senhora, nesse momento … eu … enfim, ei quem eu era, quando me levantei hoje de manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então.


Em diferentes encarnações novas Alices não buscam reproduzir em imagens o que está escrito nos livros, mas de viajar em suas veias e teias, entre mergulhos, travessias e cogumelias. Inúmeras alicinações podem ser criadas desvairando em paradoxos, línguas inventadas, desejos nômades, metamorfoses sem cabeças, sonhos dentro de sonhos, caminhos erráticos, risos loucos pairando no ar, desloucamentes. Ao invés da pergunta: quem é Alice, hoje desdobram caminhos para quem Alice pode tornar-se…

 

Na travessia dos mil anos o espelho de Alice explodiu em milhares de pedaços, ploriferando no imaginário coletivo novas meta-alices numa ampulheta magicósmica, aliceoscópio de alicinações. Nesse universo de mundos possíveis, procuram-se artistas movidos pelo desejo de rebelar os modelos alienados da menina e suas viagens cem sentidos. Hoje extrapolam Alices que entorpecem a imaginação e se desdobram em estereótipos que aprisionam e banalidades que insistem em empobrecer a vida e a arte. Em suas desventuras, exércitos de Alices bebem da garrafa escrito “clichês”. Mas Alice acha quite dull and stupid for life to go on in the common way.

 

O país das maravilhas e o país do espelho podem estimular o encontro com o desconhecido, a incerteza e o mistério. Jardins de alicismos buscam o que é inexprimível pela palavra, o invisível, jorrando possibilidades inesgotáveis que habitam nas margens e entrelinhas. Menina caleidoscópio, jogo de reflexos múltiplos e simultâneos, fragmentos que cruzam monstrologias e alimentam nossos rios, riscos e risos. Alice nos convida a mergulharmos no poço profundo e atravessar o espelho em diálogo com as loucuras que nos atravessam. Como escreveu Paulo Mendes Campos em carta para sua filha Maria da Graça: Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

 

 

“As aventuras de Alice dentro da toca do coelho ou através do espelho encoraja a procurarmos outras brechas para penetrarmos no maravilhoso.”  Pierre Mabille

“O artista terá, tal como Alice no país das maravilhas, que atravessar o espelho da retina para alcançar uma dimensão mais profunda.”
Marcel Duchamp

 

“Com a prudência que lhe confere a sua inteligência matemática e o seu sentido de humor Lewis Carroll escolheu a barca do sonho para atravessar mais confortavelmente o espelho dos olhos de Alice.”    Frédéric Delanglade

 

 

“lewis carroll olhou através do espelho e encontrou uma espécie de espaço-tempo que é o modo normal do homem eletrônico. antes de einstein, carroll já havia penetrado o universo ultrassofisticado da relatividade. cada momento, para carroll, tinha o seu próprio espaço e o seu próprio tempo. Alice cria o seu próprio espaço e tempo.”  Marshall Mcluhan

 

 

“Tudo quanto possuímos de poético e também de absurdo se apresenta nos livros de Alice. Ao descer pela toca do coelho, Alice passa a habitar – como quando atravessa o espelho – um pais diferente do conhecido, como quando fechamos os olhos e nos percorremos. As surpresas despontam de todos os lados. Quem somos, afinal?”  Cecília Meirelles

 

Alice por enquanto é um
espelho andante, menina sonho.
Membro honorário da
coleção de eus da
especialice Adriana Peliano.
Adriana por enquanto é uma
Alice de renascimento,
Rainha e fundadora da
Sociedade Lewis Carroll do Brasil,
que não sabe quem é Alice
e por isso
não se cansa de alicinar
em suas buscas
cosmicômicas.

Em 2012, Adriana ganhou mais um jabuti com o projeto gráfico do livro “Aventuras de Alice no Subterrâneo” de Lewis Carroll.
Recriou em português o manuscrito original das aventuras de Alice, que o autor deu de presente para Alice Liddell.

 

Créditos das imagens:

1 – Jan Švankmajer

2 – John Tenniel

3 – Kenneth Rougeau

4 – Trevor Brown

5 – René Magritte

6 – Michele Lapointe

7 – Alice Through the Looking Glass

8 – Adriana Peliano

9 – Elena Kalis

10 – Yayoi Kusama

11 – Frédéric Delanglade

12 – Alain Gauthier

13 – Margarita Prachatika

14 – Hajime Sawatari

15 – Adriana e meu Aliceoscópio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

carreteis

IBERÊ CAMARGO E O GOLPE NARCÍSICO por Brenda Gottlieb

 

Espelho, espelho meu- “Falta-me coragem para ver o outro que vive fora de mim”.

Iberê Camargo, pintor, gravador, desenhista, escritor e professor, nasceu em 1914, em Restinga Seca, RS. Morreu em Porto Alegre em 1994, depois de quatro anos de luta contra um câncer de pulmão.

paisagem -1941

 

serie carreteis anos 60

Não sou critica nem expert em arte, simplesmente me encanto com ela e vivo em busca da criatividade do ser “Analista”. Entendo que,  apenas os aspectos psíquicos do trabalho artístico podem ser contemplados pela psicologia. Não me proponho a  interpretar uma obra de arte; no entanto, o olhar atento e curioso sobre a arte e o artista pode nos revelar aspectos que transcendem o artístico: facetas  que envolvem  não somente a personalidade do artista, como também o mundo em que vive e o momento em que está produzindo e criando.
Considero uma obra de arte não como apenas um produto ou derivado, mas sim como uma reorganização criativa de conteúdos.
Devemos ser capazes de olhar o trabalho artístico como um espelho da alma e tratá-lo com delicadeza e respeito. Não se trata de abordar a arte como sendo engajada psicologicamente, mas sim como uma mescla de aspectos que podem agregar sensibilidade, introspecção e mudanças.

Iberê Camargo começou a escrever Gaveta dos Guardados (EDUSP 1998), no início de 1990. Cito esse título por dois motivos fundamentais à argumentação: o livro é maravilhoso e nele podemos ler o lamento e a dor que percebemos em suas pinturas pós 1980.

ciclista- 1989

Gaveta dos Guardados não explica a obra pictórica, mas nos ajuda a compreendê-la e a traçar correspondências e analogias. Iberê no texto “O Duplo”,  aponta para a sua grande ferida, tal qual um grande espelho nos revela a dualidade. -“–falta-me coragem para ver o outro que vive fora de mim”.
O Narcisismo – assunto exaustivamente explorado pela psicologia – pode ilustrar nosso tema. Tal qual Narciso, parece que Iberê não podia se conhecer, e ao não se reconhecer na totalidade, ficou sujeito aos caprichos do seu “outro”: violento, leviano, arrogante, e que, impulsivamente (por ter sido ameaçado ou não), mata outro ser humano.

auto retrato 1943

eu-1981

Os que se detiverem em leituras de sua biografia, mesmo que breves, perceberão arrogância e vaidade de Iberê, à Oscar Wilde. Por exemplo, desafiou  professores e artistas mais velhos e renomados e abandonou  a Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro – que cursava graças a uma bolsa concedida pelo governo do Rio Grande do Sul – por não concordar com a proposta acadêmica.

Cito estes episódios como ilustração para o que vem a seguir:
O editor do livro Gaveta dos Guardados, Augusto Massi, relata o episódio: ¨Na tarde de cinco de dezembro de 1980, por volta das três horas da tarde, Iberê Camargo, acompanhado de sua secretária, Sueli Santos da Silva, 27, deixa seu atelier na Rua das Palmeiras, pega a Rua Sorocaba, quase na esquina da Voluntários da Pátria, em Botafogo, à procura de cartões de natal. Pouco tempo depois surge o engenheiro projetista do setor de mineração e metalurgia da IESA, Sérgio Alexandre Esteves Areal, 32, que trajando apenas um short, interpela Iberê: “O que você está olhando?” Ao que este respondeu: “Não estou olhando nada”. Depois de empurrar Sueli, Sérgio avança contra Iberê e o derruba no chão. Este, recomposto, pega a arma na capanga e ameaça: “Não vem que eu atiro.” O engenheiro investe novamente contra o pintor que dispara duas vezes um Smith & Wesson Magnum, calibre 357. O pintor possuía porte de arma. Defendido pelos advogados Evandro e Técio Lins e Silva, foi absolvido liminarmente em sentença confirmada pelo Tribunal de Justiça, pois prevaleceu a tese de que agira em legítima defesa. (pag.19).”

Com perplexidade, nos perguntamos: Como um artista sensível, profundo, reconhecido e criativo, no auge do sucesso de sua carreira comete um ato tão violento e irresponsável?
Notamos nas biografias um ser onipotente, vaidoso e arrogante (traços narcisistas), que (dizem as más línguas), sentiu-se ameaçado pela beleza e juventude de Sérgio, que aparentemente havia cortejado sua assistente – uma versão bem diferente da apresentada pelo artista, que alegou legitima defesa por agressão. A partir desse episódio toda sua obra passa por uma mudança intensa, seu humor se revela depressivo e um câncer o acomete.

auto retrato 1984

Em Gaveta dos Guardados e em suas telas percebemos o “outro Iberê”, revelado pelo espelho, tal qual Dorian Gray por seu retrato. Doryan Gray, célebre personagem do romance de Oscar Wilde é retratado por Basil e a obra do pintor passa a ser responsável por envelhecer no lugar de Doryan . Ambos devem “guardar” a obra: Basil por ela conter muito de si mesmo e Doryan para preservar a juventude eterna, adquirida na sinistra negociação, em que oferece a sua alma em troca da juventude.

As Idiotas

Nem Doryan nem Iberê toleram confrontar-se consigo mesmos em suas totalidades. Narciso fora predestinado a perecer ao se conhecer, e ao não se reconhecer é capturado na armadilha de um amor próprio exaltado, que impede a integração de seus lados sombrios, facilitando atuações desastrosas. Iberê é assaltado por uma fúria estranha, que não reconhece como sua, sendo incapaz de conscientemente fazer um mea culpa, que sua obra fica encarregada de expressar.

tudo te é falso e inútil -1994

 

 

Brenda Gottlieb é psicóloga, Analista da S.B.P.A.( Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, vinculada a IAAP , International Association for Analytical Psychology). Formou-se em Terapia Ocupacional em 1969, na USP, tendo atuado por 11 anos na área, anteriores a sua formação como analista.
Atualmente atende em consultório particular, adultos, casais e famílias.
Interessada em arte, aprofundou seus estudos no tema, pesquisando o trabalho artístico feito por psicóticos.

 

[email protected]

 

lagrima

SOBRE A ORIGEM DOS ESPELHOS por Gica Yabu

A primeira aparição dos espelhos na história da humanidade data do começo da grande Era Aquela. De acordo com a mitologia selfina, o espelho é fruto do amor de um deus artesão – Argilo – e de uma alquimista pagã, Polia.

Argilo esculpia juras de amor à Polia em fiordes e montanhas, nas nuvens pretas de tempestade e em pétalas de flor. Ela, que como toda mulher daquela época e de anos atuais, adorava ser cortejada por entidades mitológicas, resolveu dar um filho ao seu parceiro celeste.

Durante a gestação de tão amada criatura, todas as coisas da natureza viraram matéria-prima para Argilo, que expressava seu contentamento e excitação criando e dando novas formas ao mundo. No momento do nascimento do filho lá no céu, a surpresa se fez. O pequeno menino nasceu translúcido e, em contato com o ar, assumiu uma textura reflexiva nunca vista antes. Era lindo. Mas ao segurar o bebê, Argilo se viu inteiro nele e chorou. O choro vinha de algum lugar distante dentro de si e foi se espalhando de modo que as nuvens não conseguiram mais conter e romperam no primeiro grande dilúvio da história.

Todas as esculturas de Argilo se dissolveram. Algumas em agonia, outras em tristeza. As criaturas e coisas vivas perderam a poesia e assumiram formas insossas: débeis ou absolutamente simétricas. Em um ato de desespero, querendo estancar aquele estranho sentimento de vergonha, culpa e a tremenda carga de responsabilidade, Argilo arremessou o filho no chão. Frágil que era, o bebê se estilhaçou em milhares de cacos que se espalharam pelo mundo. De acordo com a lenda, Polia abandonou a alquimia e passou o resto de sua vida tentando colar os pedaços do filho, mas eles eram muitos. Argilo nunca mais foi visto, ou louvado e até hoje, milhares de anos depois, as pessoas ainda choram quando se vêem no espelho.

 

 foto banner: ilustração Natasha Xavier

 


Gica Yabu est? sintonizada em uma dimens?o paralela onda nem tudo foi definido ou descoberto e as coisas s?o mais flex?veis. ? filha, m?e, esposa, publicit?ria e enfrenta o espelho todos os dias. Deposita seus escritos em
www.verdevelma.com.br
 

 

 

 

 

 

 

 

pierre-cardin

E CARDIN TINHA RAZÃO por Cynthia Garcia

 

LUIS XIV

Ah! o luxo mudou. Mas mudou assim como vem acontecendo desde o final do século 16 e início dos cem anos seguintes, quando essa manifestação do sublime se estabeleceu formal e organizadamente com Luiz XIV (1638–1715) da Casa dos Bourbon. O delfim de cinco anos teve sua personalidade cinzelada por seu primeiro ministro, o cardinal Mazarin (1602-1661), um italiano culto e ambicioso, que vivera em Roma e conhecia Florença, amante de sua mãe, a viúva de Luiz XIII, Anna da Áustria, regente da França até a maioridade da criança. Quando “o italiano” morreu havia legado ao futuro absolutista o gosto do trabalho, da organização, do luxo. Jean Baptiste Colbert, sucessor de Mazarin (que afrancesou seu Mazzarino original), acreditava nesses valores. A França foi o primeiro país a ser governado como uma empresa com dividendos jorrando nos cofres de sua alteza, o rei sol, que erigiu Versailles, com sua magnífica Galerie des Glaces, a Galeria dos Espelhos. Colbert arquitetou uma estratégia que diminuiu a importação e serviu de base para o mercantilismo. Para a conquista do mercado europeu, formulou o conceito do luxo moderno baseado em outra ideia sua, o controle de qualidade, criando a aura de requinte que até hoje envolve a marca Made in France.

Versailles

O espelho, o Made in France e os diamantes de sangue

No século 16, ao conseguir banhar com mercúrio uma superfície plana de vidro, os vidreiros de Murano, em Veneza, inventaram o espelho com reflexo sem distorção. Foi uma invenção e tanto. O segredo foi cobiçadíssimo. Durante cem anos, os venezianos conseguiram manter o monopólio da fórmula e cobravam verdadeiras fortunas pelo privilégio de ter um objeto que, como mágica, refletisse imagens à perfeição. Quando Luiz XIV reformou Versailles para abrigar sua Galerie des Glaces, o espaço se tornou uma das maravilhas do mundo das artes decorativas. Técnicos em vidraria da República de Veneza foram contratados por Colbert, que montou uma fábrica em Cherbourg para a produção. A razão disso eram duas. Os venezianos exigiam total controle da fabricação – não havia um só francês no staff – e a política mercantilista do primeiro ministro exigia que os espelhos fossem produzidos em solo francês para receber o selo Made in France. Segundo lendas, para manutenção do segredo industrial, Veneza enviou agentes para assassinar, na França, todos os funcionários que Colbert havia importado da república, assim que terminaram a encomenda que durou de 1678 a 1684. Nem mesmo o autor do projeto, o arquiteto Mansart, sabia o segredo. Com 73 m de comprimento, 10 m de largura e 12 m de altura, a galeria com 17 espelhos lado a lado que refletem as janelas, tendo ao fundo o jardim de Versailles, obra de Le Nôtre, o jardineiro do rei. É a apoteose do luxo decorativo com seu equivalente nos diamantes de sangue de nosso dias.

Galeria dos espelhos

 

Os ingleses

Beau Brummell

Na virada da século 18 para o 19, o luxo absorveu a tecnologia que caminhava a passos largos com a Revolução Industrial, sob comando do arquipélago do outro lado do Canal da Mancha, que iria conquistar um império vitoriano onde o sol não se punha. Com a ascensão da burguesia, os homens da nova elite do dinheiro foram sofisticando modos e modas. Ditadas pelos alfaiates da londrina Savile Row e o novo ícone da moda, Beau Brummel, casimiras da Índia, sedas da China, lãs da Escócia, criaram um novo luxo sem floreios, sedimentando o caminho para o que hoje chamamos de estilo masculino.

As musas

Mas o luxo aristocrático – que ainda hoje permeia o conceito da moda feminina -, esse não largara a França, que consegue produzir musas – versão antiga da celebridade -, beldades que personalizam as tendências e rezam no altar do “espelho, espelho meu, quem é mais bela que eu?”.

Maria Antonieta - o filme

Joséphine de Beauharnais

Após 1793, o Antigo Regime deposto, Marie Antoinette, a musa do rococó, guilhotinada, a visibilidade se dirigiu às musas do neo-helenismo, Madame de Staël e Madame Récamier, hoje associada a um tipo de sofá neoclássico.
Ambas seriam eclipsadas por Joséphine de Beauharnais, uma mulata da Martinica, uma espécie de Josephine Baker do (curto) Império e (grande) desejo de Napoleão I. Enquanto a Inglaterra tinha sua rainha Vitória, pequena grande mulher sem charme algum, o glamour ocupou mais uma vez o trono francês na figura da Imperatriz Eugenia, a belíssima espanhola de Napoleão III, eternizada nas telas de Winterhalter. Assim como Marie Antonieta era “a austríaca”, Eugenia para seus detratores era “a espanhola”. Mas foi justamente essa marquesa de sangue quente, peninsular, quem estimulou o novo ciclo da indústria do luxo francesa e, em particular, da indústria da alta moda ao oficializar le grand Worth, seu costureiro.

imperatriz Eugenia

 

O inglês

charles frederick worth

Charles Frederick Worth, um inglês de boa família, viu a sorte desandar quando o pai advogado enterrou a fortuna no carteado. O rapazote começou cedo a trabalhar em uma loja de artigos finos, em Picadilly Circus, aprendendo tudo muito rápido. Não só isso, apaixonou-se pelo métier, aprofundando-se nas tardes que passava nos museus londrinos, observando as roupas da elite emoldurada nos retratos. Mas a swinging London não surgira e a capital impecavelmente masculina em que ele vivia, carecia do glamour que ele tanto desejava no outro lado da Mancha. Mudou-se para Paris, trabalhou muito, mas a sorte e o talento para o belo, novas estratégias e o marketing pessoal o puseram no caminho da melhor amiga de Eugénie, Pauline de Metternich, a embaixatriz da Áustria. As contribuições do imperador Napoléon III – um conquistador que não cabia nas calças -, também merecem destaque, como a reurbanização de Paris à cargo do Barão Haussmann que, não só redesenhou a cidade que, hoje, nos encanta, como implantou a luz elétrica, daí ter sido cunhada Ville Lumière, Cidade-Luz, e as duas últimas décadas do século, Belle Époque. Os parisienses estavam em festa: eram os primeiros a sair da milenar escuridão. E a palavra luxo tem luz na raiz.

la belle epoque

 

A nova monarquia

Cem anos depois, na tradição de assimilação do melhor para sua manutenção – seja em capital humano, novos produtos, novas tecnologias ou estratégias de marketing – , o luxo produzido por famílias ou pequenos grupos há décadas ou séculos passou a ser incorporado pelos novos monarcas do mercado: Bernard Arnault, à frente da LVMH, com mais de 70 grifes; seguido por François Pinault da PPR, sogro da atriz mexicana, Salma Hayek. No entanto, algumas marcas, como a Chanel da família Wertheimer e o italiano Giorgio Armani resistem. São aves cada vez mais raras na paisagem dominada por poucos.

O novo “rei”

Com a democratização do luxo e a hipermundialização do consumo, as grifes se viram obrigadas a aderir às edições limitadas, a fórmula para manter ou aumentar a produção, diversificando os produtos-chaves das coleções, ao mesmo tempo, em que mantém a pseudo aura de exclusividade, inexistente quando os produtos são massificados como ocorre no luxo contemporâneo. Mas o consumidor é habilmente iludido por campanhas belíssimas, modelos estonteantes e seduzido com os salamaleques que sustentam o conceito que ele é o “rei”. A outra fórmula? A criação de hotéis e restaurantes com o universo estético da grife. Outra saída? Se jogar em cama, mesa e banho como fez a família italiana Missoni, que ainda produz prêt-à-porter só para glamurizar a marca e cobrar mais por seus roupões que sustentam o luxo da grande família, que tem na Margherita Missoni, a celebrity da vez da dinastia que começou com agulhas de tricô, muita luta e molto lavoro.

margherita missoni

O mundo gira, a Lusitana roda

Nos anos 70, Pierre Cardin foi mal faladíssimo ao “invadir” a China. Depois, o corso Cardin (que afrancesou seu Cardini original) salvou da falência o Maxim’s, patrimônio da Belle Époque. O que Cardin tem a ver com restaurantes? Ironizavam os incrédulos. O créateur-empresário criou o Espace Cardin para arte. Pinault, hoje, tem dois museus em Veneza; a Cartier tem a Fundação Cartier de arte contemporânea, em Paris; a Louis Vuitton se associa a nomes de artistas nas mais diferentes ações…

pierre cardin

Pierre Cardin tinha razão. Ser visionário nesse planeta míope tem dessas coisas. Mas, um dia, dão o braço a torcer.

 

 

Cynthia Garcia é jornalista, escritora e historiadora de arte. Carioca, vive em São Paulo, faz parte do seleto time de formadores de opinião do País. Viveu na Inglaterra, na Suíça e nos EUA. Diplomou-se em História da Arte e Artes Plásticas no Fleming College Florence, Florença, Itália. É co-autora de livros como “Enciclopédia da Moda” (Cia. das Letras), “Huis Clos” (CosacNaify), “Um passeio na História” (Arezzo) e “Peter Marino” (Ed. Carta). É mãe de America Cavaliere, it girl e sales manager no ramo das artes, e Pedro Cavaliere, o DJ Drop.

 

 

 

 

 

 

 

Yayoi-Kusama mirror purple (2)

O QUE EU DESEJO ESPELHAR por Marjorye Marge

Andar pelas ruas, para mim, nunca é sem propósito. Sempre saio de casa com o olhar atento e ávido em busca de novas imagens, movimentos urbanos, palavras, arte, ideias e pessoas interessantes que inspirem e que possam agregar elementos ao meu universo criativo.

Uma pequena imagem colada ou pintada num muro pode trazer não só um sorriso no rosto como também um insight para um novo post sobre arte, um novo assunto na mesa de bar e discussões reflexivas sobre o momento em que vivemos.

A rua é o palco que não cobra entrada, e aqueles que transitam por ela podem receber e partilhar aquilo que ela oferece. A rua é generosa, mas nem todos os olhos estão abertos. Em meio a pressa, estresse e cansaço, elementos que por vezes se encontram em sua composição passam desapercebidos, quando poderiam trazer diversas possibilidades, mesmo que somente num minuto de puro devaneio.

Certa vez, andando por uma rua em Copenhage, percebi que no chão haviam bolinhas brancas, e aquilo me fascinou. Me vi pensando em mil coisas; apenas algumas bolinhas no chão, me despertaram.

Pensei em jogo da velha, em pular de bola em bola, no que a pessoa que criou poderia estar pensando, no cuidado que teve com detalhes, pensei sobre o movimento artístico denominado pontilismo, na Yayoi Kusama e sua obsessão por pontinhos, enfim, esse breve momento, ofereceu muito ao meu universo imaginativo.

yayoi kusama

Nem sei por onde começar a contar sobre a minha mais nova história de amor: a arte de rua. Cada dia que vago por ruas que poderiam ser mais cinzas, a arte vem para dar mais vida, cor e movimento aos muros estáticos que delimitam espaços. Vejo o muro como um canvas em branco, pedindo cor, pedindo ideias que reflitam histórias, críticas sociais, desenhos que, caso estivessem em um caderno, ou em galerias seriam vistos por poucos. Vejo poesia, vejo distrações para quem fica parado no trânsito, vejo democracia artística, vejo despretensão, vejo utilidade combinada com arte.

O que queremos refletir? Pensando nisso, criei um blog para ser o espelho de tudo aquilo que enxergo mundo a fora. Nele posso discutir e dividir o que pesquiso, escuto, o que encontro espontaneamente; coisas que crio, movimentos que me fazem questionar, pessoas incríveis e talentosas, fotos que fizeram meu dia mais feliz.

Também comecei a utilizar a mesma rua que me inspira, para inspirar.
Tirei do meu caderno um dos meus desenhos, comprei spray e passei a expressar de muro em muro, o que mais quero acreditar: o amor.

E enquanto pinto, pessoas passam, conversam, dividem suas histórias, contam o que acham sobre arte de rua, garotos que pixam, garotos que pintam, garotas que estão nesse movimento há anos e são finalmente reconhecidas, escuto críticas também , mas o mais importante, é a troca: inspirar e acabar sendo inspirada por tudo que acontece ao meu redor.
Esse é o verdadeiro valor de vivenciar a rua e suas infinitas possibilidades, que são espontâneas e inesperadas. Não tem como planejar o que pode acontecer ou o que irei ver, e para mim é um valor poder repassar isso. Trago a vontade de ser o espelho para outros espelhos, de coletar e repassar, de me inspirar e tentar despretensiosamente inspirar o outro. Sinto que essa é a minha colaboração, o de promover o que me encanta.

yayoi kusama

E você? O que te encanta, te move por dentro e te preenche?
O que você deseja espelhar?

 

foto banner: Yayoi Kusama

 


Marjorye, mais conhecida por Marge, nasceu em São Paulo em 85, morou em Cambridge, Sydney, Paris e Berlim. Formou-se em publicidade pela FAAP, canta desde pequena, maqueia, e vaga pelas ruas do mundo em busca de inspiração e novos artistas.

 

www.blogdamarge.com

www.youtube.com/marjoryek

Marge not Simpson