Arquivo da categoria: Edição 11: O OUTRO

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O FATOR LETAL por Elza Tamas

 

Toda noite o pássaro preto entra na minha sala, faz um voo rasante e some. Tudo  rápido, fugidio, um piscar de olhos. Só acredito porque se repete. Toda noite  ele volta e eu me assusto. Acho que ele me visita, porque a mãe dele morreu.

Toda manhã o barulho dos saltos impertinentes da vizinha do andar de cima. Eu não a conheço,  nunca a vi, mas admito o efeito que sua ação produz: me acorda,  me deixa de mau humor e cheia de discursos  internos chatos  sobre a incivilidade humana.
Agora gasto um tempo precioso, os primeiros momentos da manhã- antes dedicados a alongamentos e meditação- pensando em como posso me vingar.

Eu não tenho como conhecer o conteúdo da minha mensagem a não ser que ela me seja reenviada, nem que seja sob  a forma do silencio.
Nem se ouvem as asas, ele nunca mais me ligou.

Se o outro é  estranhamento, o estrangeiro, o que se distingue  por essência ou circunstância, ele também é o olhar  inclemente que sempre nos conta sobre nós. A vizinha, o pássaro, o silencio. Atravessamentos.  É no encontro e no desencontro com o outro que posso conhecer mais sobre o limite da minha pele, a extensão interna de mim mesma.  Outorgo ao outro uma chave atávica, minha , mas que vivo ilusoriamente como se fosse  dele.
A tragédia humana – necessito do outro para saber quem eu sou.

 

 

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A BOLA DA VEZ por Caio Vilela

Sou fotografo, jornalista e geográfo e nos últimos dez anos viajei pelos quatro cantos do planeta
produzindo
reportagens para diversos jornais e revistas nacionais e internacionais. Aproveitei cada uma dessas vivências para fotografar flagrantes de peladas em 50 países diferentes.

Neste projeto entitulado “A bola da vez”, retratei  uma reunião de histórias e imagens nas ruas e estádios de
cidades e lugares improváveis no Iêmen, Mianmar, Palestina, Jordânia, Egito, Brasil, Equador, EUA, Antártida entre outros, mostrando que a paixão pelo futebol é capaz de unir todos os povos.

 

 

Para mim, o futebol é idioma universal, uma força de integração entre os povos,  religião para alguns, lazer para outros.
Incluo aqui o comentário que o jornalista e comentarista esportivo Juca Kfouri fez sobre o meu  trabalho :
“Que viagem! Caio Vilela foi passando. Passou por  um, por dois, por três, por quatro, por cinco, por 26!, e marcou um golaço. Ao vivo e em cores.  Vinte e seis partes diferentes do mundo! Tão diferentes como os  Estados Unidos e a China, mas tão iguais quando em torno de uma  bola de futebol.
Pelas esquinas
do mundo, o fotógrafo foi  registrando cenas improváveis, por mais prováveisque sejam as cenas que só o futebol proporciona. Brasil e Argentina. Vietnã e Camboja. Nepal e Nova Zelândia. África do Sul,  é claro, o país da  próxima Copa, e Uruguai, o da primeira.  Se é um perna de pau confesso com a bola nos pés, o artista vira craque com uma câmera nas mãos. E compartilha generosamente com você aquilo que registrou com raro talento e sensibilidade, cada página uma surpresa, cada cenário um gol de placa. Ora, por que  perder tempo com palavras? As imagens, as imagens que vêm  aí valem mais, muito mais que…”

Caio Vilela nascido em São Paulo pouco antes da Copa de 1970, é  fotógrafo, jornalista e colaborador de diversos veículos de mídia no Brasil e no  exterior. Produziu reportagens em mais de 60 países em todos os continentes, inclusive na Antártida, para a Folha de S.Paulo, Rolling Stone, Playboy, Elle, TAM nas Nuvens, Superinteressante, Viagem & Turismo, Horizonte Geográfico, Vida Simples, Jornal da Tarde e outras publicações.Graduado em Geografia pela USP, iniciou carreira como guia de ecoturismo conduzindo grupos de estudantes e turistas no Pantanal, Amazônia, Rio de Janeiro, Ilha do Cardoso, Parati, PETAR, cidades históricas de Minas Gerais e em roteiros internacionais nos EUA, Espanha, Peru, Argentina, África do Sul e
Nepal.
Começou a publicar suas reportagens exclusivas de viagens em 1995  no Jornal da Tarde e hoje mantém regularmente um videocast de viagens na  Folha.com. Peladas: Futebol sem Fronteiras é o seu projeto autoral focado em  futebol de rua e na paixão pelo esporte ao redor do  mundo.
http://caiovilela.com.br/peladas-media.php?l=ptBR
caiovilela.com.br

gui - o outro - banner

WELCOME HOME por Gui Mohallem

Welcome home é um retorno à casa. Em uma fazenda no interior dos EUA, um grupo se reúne para celebrar o Beltane, festividade entre o equinócio da primavera e o solstício de verão

Em tudo o festival remete aos silenciosos ciclos naturais, desde o momento obscuro das sementes até a nova floração. Este é o lugar em que se festeja; é daí que vêm essas imagens.

O fotógrafo se põe no meio da entrega sensual, da partilha da comida; se põe ali, com passos de libélula, contemplando a celebração (e portanto está fora) e participando da sua construção (e portanto está dentro), ao mesmo tempo

É a partir deste ponto intermediário que é possível responder ao medo da aproximação do outro (em direção a ele ou vindo dele); é só a partir desse ponto duplo que a imagem se elabora como pensamento ético e ao mesmo tempo desejoso.

não mimetiza a festa como alguém que se disfarça e se mistura ao exotismo alheio; olha-a de dentro como um dos que festeja, e o faz com a câmera; nada está externo, portanto, nada é invasivo…

texto: Gabriel Bogossian – curador

Gui Mohallem é mineiro de Itajubá, foi educador e colaborador pedagógico de projetos sociais de cinema e educação durante mais de 3 anos .
Em meados de 2007 passou a se dedicar exclusivamente à fotografia e no final de 2008 fez sua primeira exposição individual em Nova York com o Ensaio Para a Loucura.De volta a São Paulo, participou do Paraty em foco 2009 e 2011, e de exposições nas galerias Olido, Babel, Baró Cruz e Emma Thomas. Em 2011  teve duas exposições individuais em São Paulo, uma em Brasília e uma nos EUA. Em junho foi convidado a participar do programa Descubrimientos do Photoespaña e  ganhou o 2º lugar no prêmio Conrado Wessel, o maior do país.Além desenvolver seu trabalho pessoal, ministra workshops e fotografa para empresas e periódicos.
www.guimohallem.com

flavio cafieiro outra mensagem - ilustração 2

MENSAGEM por Flavio Cafiero

Ando ruminando, pensando fundo, tentando entender o que aconteceu,  mas não consigo. O primeiro detalhe em que reparei foi o jeito, semelhante ao  meu, de segurar o garfo: um jeito torto, com o punho quebrado para dentro.  Alguém segurava o garfo igualzinho a mim. Ou quase. Depois, o jeito de colocar  o cabelo para trás da orelha, diferente do meu, um jeito consciente demais,
como um golpe de luta marcial, um movimento único e preciso. Alguém colocava o  cabelo para trás da orelha diferente de mim. E outras descobertas vieram  depois, sempre à luz de mim mesmo, e me apaixonei. Eu me apaixonei por alguém.  Tudo bem rápido, um gole só. De repente, alguém. Quando dei por mim, acabou. O  quê? Acabou o quê? E por mais que rumine, pense fundo, tente entender o que acabou, e o porquê, não consigo. Então, dias passados, bem depois de algo  acabado, dei de ver alguém parado ali na esquina, logo ali, nos olhos  espremidos, na espera pelo sinal fechado, ensaiando o pedido de esmola debaixo  do sol. Muito estranho. No começo, quase subliminar. Dei de notar alguém na caixa do supermercado, no manejo úmido das notas,  no
estalo impaciente da  língua. E alguém cruzou comigo na saída do cinema, ontem, a cabeça acelerada na  frente dos passos, os olhos atentos ao contorno das pessoas e obstáculos,  naquele  cuidado cego para não trombar. Exatamente aquele. E por mais que rumine, pense  fundo, tente entender o que é exatamente, não sei. Dei de notar alguém lendo  revista sem ler, com o canto do olho jogado ainda mais para o canto, pescando  reações, colhendo as admirações, os nacos de atenção que as pessoas soltam sem  alguém olhando. Sabe como? Assim. Dei de reconhecer alguém nas    fotografias, exposição  itinerante, campanha publicitária, cartaz de procura-se, as assimetrias  eternizadas, o defeito do nariz de alguém, que agora virou defeito, como alguém  sempre insistiu que fosse, e os cachos mal cuidados que antes, para mim, eram  ecos de minha própria informalidade. E alguém, agora, me acompanha. Assim, sem  razão, mas com passos muito particulares, nem parecidos nem diferentes dos meus.  Assim, passos, como se antecipasse os meus, como se espionasse meu diário, descobrisse  onde vou, como se eu escrevesse um diário. Como uma cigana que lesse minha mão.  Sabe como? Como se eu acreditasse em cigana. Alguém caminha a meu lado, como se esperasse  tudo de mim, e me seguisse na rua. E sigo ruminando, pensando fundo, tentando  entender. Estou embaralhado no mundo, é esta a imagem. Não há referências  conhecidas, tudo se transformou em  alguém. E agora? No escritório, por exemplo: alguém deu de olhar na minha direção, diariamente, como se soubesse, como se me enxergasse  embaralhado no mundo, e é assustador. E agora que alguém foi embora, digo, aquele alguém físico, alguém de pegar na mão e de sentir o cheiro, alguém de palavras e acenos reais, dei de ver alguém em todos os cantos, alguém aqui, e ali, cada vez menos espelho, cada vez mais outra coisa, esse alguém. Estou ruminando, pensando fundo, tentando entender. Não consigo. E se por acaso, ou por esforço, alguém entender minha letra, entender minhas intenções, ou mesmo sem entender  nada e sentir um impulso, qualquer mínimo impulso de me procurar, que mande um sinal, que envie um recado, ou anuncie na tevê, no mural do estacionamento, ou grite da janela, ou chegue mesmo de surpresa lá em casa, ou me aborde em uma sala de espera qualquer. Quem sabe eu olhe alguém com certa curiosidade, procure o traço mais particular, o gesto peculiar, reconheça em alguém o tom de voz mais específico de todos, e quem sabe eu esqueça de mim, um pouco, um pouco só, e me deixe embaralhar de vez. Vá que isso aconteça e que alguém ganhe um nome, mereça um nome, não deixe que eu rumine, pense fundo, e vá que eu diga a alguém: fica, fica
mais um pouco, que eu não me aguento.

foto banner:  Fernando Azevedo

 


Flavio Cafi
ero é carioca de nascimento, paulista por quilometragem. Tem um diploma de publicitário guardado em algum canto. Um dia foi gerente, por um desses acasos. Hoje é desempregado por opção, mas nem tanto.
Ator por tentativa e erro, tem medo de subir no palco. Gosta de ser deixado quieto e, por isso, escreve mensagens. Pendura uma ou outra na internet.

www.flaviocafiero.blogspot.com.br

 

 

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QUALQUER DIA DESSES EU CAIO EM SI! por Sergio Zlotnic

1- Fico espantado com a loucura  das pessoas, destrambelhadas em seu mundo e tão convenientemente  adaptadas às suas próprias incongruências. A autoimagem sempre benevolente para nunca ferir a  vaidade. Eventos vergonhosos ganham versões condescendentes, quase distorcidas.
Não totalmente distorcidas somente para que o sujeito possa sustentá-las baseado  em ‘argumentos’.
Abandonos humilhantes se modificam convertendo-se em posições  éticas cheias de propósitos elevados; mesquinhez transforma-se em  dádiva; incompetência e falta de esforço se transmutam em ‘opção’ ou crítica  social; o pior defeito vira artigo de exibição e vantagem… Talvez ninguém
sobrevivesse se pudesse se enxergar como realmente é, livre de atenuantes.

Por muito tempo, achei que deveria avisar, sem desconto, da verdadeira versão da história,  da qual o  sujeito se protege, do verdadeiro rosto do amigo, de seu pior ângulo. Achei que  seria um bom serviço para a humanidade, doar a verdade aos outros, especialmente  àqueles  com quem me importo. Seria ‘terapêutico’. ‘Analítico’! Demorei a me dar conta que isso só fazia  aumentar a lista de ex-amigos, que ninguém quer saber da  versão comprometedora, sobre a qual generosa e gratuitamente me propunha a  alertar. As pessoas se sentem agredidas ao serem informadas  da nossa real  percepção. Querem palavras doces, enganadoras, complacentes, hipócritas,  mantenedoras da ordem.

Mas há exceções, poucas, pouquíssimas, há quem reconhece rápido qualquer deslize pessoal, e diz a frase  redentora, única saída digna: “que horrível que eu sou!”. Pessoas que suspeitam  de si são as melhoras. As que têm dúvidas e não certezas. Pois, na maioria das vezes, o cardápio é a teimosia de versões benignas relativas a fatos  estapafúrdios.
“Não me sinto orgulhoso disto”, é o máximo que se ouve de alguém, ao referir-se a alguma falta feiíssima de sua autoria! ‘Eufemismo’ é o nome, não?
Trata-se de suavizar, atenuar, acolchoar o peso das coisas; no dicionário, substituir uma palavra rude [ou desagradável ou grosseira] por outra, educada. Não raramente, entretanto, nessa operação, a verdade escoa pelo  ralo: o bebê vai embora junto com a água do banho… Vai o anel, e o dedo também.

Já comigo, creio que isso não se aplica, pois minha mãe sempre diz que sou bonito e bonzinho. Mesmo assim, confesso que o mundo não tem sido tão justo comigo.

2- O Outro é inatingível, embora a gente se esforce!
O Outro é impossível de metabolizar. Ele faz vinculação com o traumático, com o irredutível à mesmidade.
O Outro habita o território complicado da outridade. Por ser singular de maneira cabal, o heterogêneo esmagaria o sujeito que busca percebê-lo. De fato, a percepção precisa ser sempre secundária: na teoria da psicanálise, o recalque primário dá conta desta questão. Atravessada pela história do sujeito, e pelo seu desejo, a percepção é enviesada desde o princípio. Para os humanos, assim, os objetos do mundo são objetos ‘para-si’ e nunca ‘em-si’.

3- Kiwi! Em 1987 não havia kiwi. Pelo menos eu nunca tinha ouvido falar. Cheguei na casa de um amigo e vi em cima da mesa um croquete peludo. Isso é um kiwi, disse o amigo. Ao abri-lo, notei que parecia um pepino.  Ao experimentar, o gosto era de morango. ‘Você perdeu a chance de apreciar o kiwi em sua singularidade’, disse o amigo. ‘Ao recobri-lo com o já-sabido, não apreciou esta fruta na sua especificidade…’. Mas como fazer se eu tenho uma história da qual não escapo?? [hoje esse engraçadinho metido a filósofo da epistemologia é ex amigo].

4- Disse Freud: ‘todo aquele que não teve sua necessidade de amor inteiramente satisfeita, está fadado a dirigir-se a cada novo objeto com  ideias libidinais antecipadas’. Não seria esta uma boa definição do fenômeno da  transferência?
Precisamos recobrir o mundo com camadas de redundância para  torná-lo palatável! O Outro é aquele que não obedece ao script que escrevemos. É aquele que constantemente nos expulsa de um lugar de conforto. Desmancha-prazer. O mundo é habitado por um bando de desaforados!

5- A propósito, disseram os poetas:

If you had no name

If you had no history

If you had no books

If you had no family

If it were only you

Naked on the grass

Who would you be then?

This is what he asked

And I said I wasn’t really sure

But I would probably be

Cold

And now I´m freezing

Freezing.

From Philip Glass and Suzanne Vega.

 

foto banner: Elza Tamas

 

Sergio Zlotnic é psicanalista, doutor em psicanálise pela USP e colunista mensal do portal da SP Escola de Teatro. É professor do curso ‘diálogos psicanálise/teatro’ na mesma escola e pesquisador de temas que conectam o campo das artes e as contribuições freudianas.

 

http://www.spescoladeteatro.org.br/colunistas/06.php

marie ange no olhos de eunice

DESLOCAMENTOS por Marie Ange Bordas

“Deslocamentos” é um projeto participativo que aborda a experiência dos
refugiados  por meio de   oficinas artísticas e realização de
exposições dentro 
e fora de  suas comunidades  (África do Sul, Quênia, França, Inglaterra,   Sri Lanka e Brasil).
Ele nasceu da  percepção de o quanto minha privilegiada mobilidade
redefiniu 
  minha maneira de  ser e agir no mundo e do desejo de
aproximar minha experiência àquela de pessoas  que, diferente de mim, foram forçadas a abandonar seus lares.

Como o desterro  afeta nossa corporalidade, nossa relação com o espaço e com o outro?
Como  definem-se estas identidades in flux?

Aqueles que partiram e não retornaram as suas terras nem vivos nem mortos seguem errantes pelo mundo.

E nós, que voltamos, ou que nunca saímos, abrigados em nossos sofás, quem somos?

Testemunhas oculares ou espectadores distantes? Fraternos ou indiferentes?

Quem são estes  que vagam pelo mundo? Outros? O que é o outro senão o espelho de nós mesmos?

 

Marie Ange Bordas Artista multimedia e  educadora, mestra em Imagem e Som pela ECA/USP, com especialização no International Center of Photography / NY.
Nos últimos 10 anos tem se concentrado na criação de projetos artísticos colaborativos e dialógicos, sobretudo em comunidades deslocadas e/ou afetadas por conflitos em países africanos e em comunidades tradicionais no Brasil.
A maioria de seus projetos são desenvolvidos a partir da convivência prolongada nestas comunidades e a proposição de dinâmicas criativas individuais e coletivas que resultam na criação de ambientes instalativos, vídeos, paisagens sonoras e livros. Participou de residências artísticas internacionais e coordenou projetos no Brasil, na
Colômbia, Grã-Bretanha, Quênia, Áustria, África do Sul, Etiópia, República Checa
e Sri Lanka, além de ter exposto em diversos países.
Para  saber mais sobre seu trabalho:

links: