Arquivo da categoria: Edição 14: O PROIBIDO

Elza-Texto

NÃO AMARÁS por Elza Tamas

 

As novas  gerações atravessaram a barreira da sexualidade, mas estabeleceram  outras fronteiras para o proibido.  O jovem pode ficar na balada com mais de uma  pessoa, beijar e ter intimidades físicas  de toda ordem.  As interdições agora são outras.
Meninas aprenderam a rejeitar antes de serem  rejeitadas. Preferem nem correr o risco de dar o telefone à cair na angústia  da espera do dia seguinte. Pra que? Eu sei que  ele não vai ligar mesmo… No caso dele, mesmo que esteja super afim de  ligar tem que esperar uns dois, três dias, senão parece que está desesperado ou pegando no pé.
O jogo da imagem tem prevalência sobre a expressão do afeto e  este pode acabar tão reprimido, que quando se quer  encontrá-lo,  anestesiado,  ele  já não responde.   Não se  consegue acessar mais o que se sente.
Homens e mulheres adultos  imaturos  também  têm dificuldades em demonstrar seu desejo pelo outro, porque “pega mal”; temem o compromisso e o envolvimento.  O desejo é muito mais investido na imagem,  em como se  é percebido, no status social que uma certa companhia oferece,  do que no prazer da própria experiência. A própria terminologia vigente já denuncia o que é valorizado: “pegou quantas?”.   A satisfação é de cunho  narcísico, dissociada do  contato com o próprio corpo.
A independência  afetiva  e a auto suficiência estão no topo da nova lista de necessidades, encobrindo  o medo contemporâneo de se sentir dispensável.  Contra a dor da rejeição aparece a equivocada tentativa de blindar o sentimento.

Nos pensamos livres, mas  estamos seduzidos pela velocidade do mundo e suas  ofertas.  Tudo rápido, superficial e descartável. Acreditamos que, se escolhermos e nos  comprometermos  aqui,  podemos perder uma possibilidade muito melhor ali adiante. E sofremos, porque nesta dinâmica em que o bom está lá na frente, não existe preenchimento e bem estar, só voracidade e ansiedade.
Talvez muito das patologias atuais  se expliquem por aí. Curiosamente a tentativa de saná-las opera dentro do mesmo desvio:  rápido!, um remédio que  me ajude a sair desta. Perde-se a diversidade  da experiência humana,  seus  tons e relevos e qualquer coisa que não seja do âmbito da expansão e da alegria passa a ser vivido como  intolerável; blues só na música e olhe lá.

Amar é perigoso, pode machucar. Requer audácia e demanda tempo: ver o outro, me reconhecer nele, me estranhar, estranhá-lo. É tão transgressor que está proibido.

 

foto banner: imagem do LIVRO VERMELHO de C.G. JUNG

 

 

 

Elza Tamas é psicologa e escritora. Idealizou e desenvolve este site.

 

 

 

foto : Mario Bock

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A FITA BRANCA DE HANECKE por Marcia Tiburi

 

A Fita Branca do austríaco Michael Hanecke tem “o proibido” como sua  lógica de fundo. Quem o assistiu percebeu que os autores dos crimes em torno  dos quais se constrói o roteiro, eram o efeito de um tipo de educação que  implicava em sua performance, ou seja, no modo de atuar de seus agentes, uma  lógica conhecida de todos nós.  Aquela  lógica da hierarquia em que está em jogo a submissão de uns a outros e, às  vezes, alguma forma de revolta dos submissos no grande jogo de poder a que se  reduz a espécie humana.

Esta lógica implica, por exemplo, a desigualdade de classe. Mas também a de gênero.
No caso do filme, demonstram-se estes aspectos, mas surge um outro mais surpreendente e pouco trabalhado na sociedade em geral: aquele que se refere à desigualdade entre  gerações. Será, assim, a questão da “idade” o locus onde desaguará o sentimento de horror aos crimes cometidos.
Se a autoria dos crimes é do grupo de crianças, percebemos no desenho verossímil  feito pelo diretor do filme, que os adultos são a origem do mal. São a origem  do que, deste horror indizível, é o efeito de “mal estar” causado por eles  mesmos. A infância e a juventude nada mais são do que a revolta contra uma  lógica pela qual não podem ser responsabilizados justamente por que não são  origem do mal que cometem. Os adultos são os verdadeiros irresponsáveis, são de  certo modo, infantis, por que não querem aceitar o efeito daquilo que produzem.

O proibido, portanto, não é senão o efeito de uma lógica. Esta lógica se caracteriza por um  acordo. Este acordo é aquele que se dá entre o que, desde Freud, chamamos de repressão,  ou aquilo que não se pode ou não se deve fazer, sobre o qual a sociedade e o que  ele chamava de “super-eu” tem controle; e o recalque, aquilo ao que não se tem  acesso de modo algum, aquilo que não sabemos de nós mesmos.

O recalque diz respeito a uma interdição como que ancestral. Está perdido no tempo.
A  repressão precisa ser exercitada diariamente. Dizer que surge uma prazer da  repressão, ou concordar com o senso comum que inventa a “verdade” de que “tudo  o que é proibido é mais gostoso” é tão superficial quanto dizer que os  “limites” são educativos. Se fossemos discutir isso, o que não cabe no espaço  deste artigo, teríamos que começar por definir o que são “limites” e quem teria  o direito de construí-los. Falamos das crianças e dos jovens, mas sabemos muito  bem que o capitalismo trata o consumo como a inversão do proibido em prazer  perverso. Os adultos (pais e professores) de nossa sociedade são idênticos aos  adultos do filme: oprimem as crianças como se estas fossem pequenos animais  escravizados. Enquanto isso se permitem perversões que proíbem às crianças. Ao  mesmo tempo, educam pela frieza e pela repressão aqueles que, no futuro, serão  idênticos a eles. Maus e vis. A lógica do proibido é usada pelos adultos contra  as crianças, ao mesmo tempo vale os adultos não fazem nada de diferente do que  as próprias crianças. O proibido é justamente o permitido quando a liberdade  não é mais do que uma sombra da própria miséria espiritual. Neste sentido, a  vida adulta é a mera sombra da infância e vice-versa.

Dialética entre perversão e recalque 

Repressão e recalque são, assim, como espessuras diferentes no fio único do proibido.
A  corda em que se amarra a moral até o enforcamento da condição humana. O  recalcado é a parte mais fina, sedosa até, como a teia de aranha que se une gradativamente  a uma cardação mais grossa sem solução de continuidade. A delicadeza do  recalque nos faz sentir nojo e um profundo mal-estar, muitas vezes,  inexprimível. A brutalidade da repressão nos faz sentir uma raiva mais simples. Pela repressão somos capazes de nos vingar, como a menina do filme, a perversa e, no entanto, delicadíssima filha do pastor, que mata o passarinho do pai com uma tesoura.

Pelo  recalque somos capazes de cometer atos infinitamente mais loucos, justamente  porque incompreensíveis, como maltratar uma criança com problemas mentais. A  lógica do proibido implica a dialética entre a  compreensão e a incompreensibilidade das coisas.

É que, por incrível que possa parecer, a repressão tem linguagem.
Ela constrói o proibido  nos deixando saber o que ele é. No filme, por exemplo, a linguagem da repressão  aparece  no discurso do pai que proíbe o filho de masturbar-se amarrando suas  mãos à cama.  A  linguagem do recalque, porém, é muda. Dizer linguagem é apenas um  jeito de se referir à mudez. Ela está, por exemplo, no mal estar finamente  inoculado pelo pastor no próprio filho, quando, na mesma conversa, ele conta  uma história terrível sobre outro garoto masturbador que teria, em função de  sua prática, definhado à morte. A masturbação, sabemos desde Foucault, era uma  prática monstruosa naquela época e, para muitos, é até hoje. Mas o recalque não  é a simples repressão, é o envenenamento, é o miasma que o menino terá que  carregar para sempre sem poder dizer nada.

Outro exemplo, nos ajuda a entender melhor ainda. A repressão está na ordem dada pelo pai, em outra cena, de que todos irão para a cama sem comer. O recalque, no entanto,  como teia finíssima, surge na chantagem emocional do pai, especialista  sacerdote da moral, em promover sentimento de culpa. Afinal que, informa os  filhos, todos irão para a cama sentindo-se muito mal pelo que eles fizeram. E o  que fizeram? Ora, nada demais, apenas demoraram a chegar para jantar. As  crianças terão que passar a vida com aquela introjeção de que fizeram mal ao  pai porque não agiram como ele queria. Pais invasivos e  autovitimados são  sacerdotes da moral muito espertos.

A repressão é da ordem de uma lei falada. É aquilo que se pode entender de um grito, de uma violência declarada, mas não da parte fina da violência, do seu miasma indizível, da sombra que fica por trás da letra. O recalque é o resto,  o resquício do que, de um grito, de um soco, de um espancamento, de um  assassinato, não pode ser compreendido, não porque não se entenda a sua fonte,  mas porque seu efeito venenoso é contínuo no tempo. Não se trata, no entanto,  de um efeito simbólico, mas de um efeito antissimbólico, justamente aquele que  proíbe a constituição de relações.

No filme, o recalque é a lógica contínua da destruição e da autodestruição que une pessoas em família, justamente enquanto as desune. Não é à toa que o filme se passa no instante anterior à eclosão da primeira guerra mundial. Não é à toa que o  narrador ligará aos fatos estranhos ocorridos durante o século na Alemanha,  local onde a flor doentia do nazismo pode desabrochar em toda a sua exuberância  demencial.  Tudo começa na família, a mais criticada das instituições e que, no entanto, não conheceu até agora a autocrítica.

 

 


Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia pela  UFRGS. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles “As Mulheres e a  Filosofia” (Ed. Unisinos, 2002), “Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero”  (EDUNISC, 2008), “Filosofia em Comum” (Ed. Record, 2008), “Filosofia Brincante”  (Record, 2010, indicado ao Jabuti em 2011), “Olho de Vidro” (Record 2011) e  “Filosofia Pop” (Ed. Bregantini, 2011). Publicou os romances Magnólia (2005,  indicado ao Jabuti em 2006), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009) da  chamada Trilogia Íntima. Em 2012 lançou seu quarto romance “Era meu esse Rosto”  (Record). É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e  História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da revista Cult.

Site: www.marciatiburi.com.br

blog: http://filosofiacinza.wordpress.com/

 

 

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OLHAR É PROIBIDO? COPIAR É PROIBIDO? por Eduardo Muylaert

 

Mulheres dos outros. Olhar é proibido? Copiar é proibido?

A série Mulheres dos Outros questiona duas ordens de proibições. O título já contém dupla provocação, ao enfrentar a proibição bíblica de não desejar a mulher do próximo e, pior, numa era de pós-femininismo, dar a impressão de que situa a mulher como objeto.

A questão é mais simples, mas também desafiadora. É um trabalho de apropriação — e reconstrução, diga-se — de velhos slides comprados numa feirinha de antiguidades, sob a singela classificação de nus artísticos.

 

 

Originalmente, são fotos de pin-ups, símbolos sexuais bem americanos dos anos 50, que hoje parecem ingênuos. Pode-se imaginar, naquele tempo, homens respeitáveis reunidos com amigos — longe dos olhares da família — em torno de um projetor de slides, para apreciar as beldades.

Depois de escaneadas, tratadas e recortadas as fotografias, chega-se a nova interpretação, que retoma sob outra luz a questão da imagem do corpo feminino.


Nesse novo recorte, as figuras ganham vida e contemporaneidade, mas podem ser aproximadas também da visão idealizada da estatuária greco-romana.

Coloca, por outro lado, em questão a noção de autoria. Em que medida pode-se retomar trabalhos, mesmo comerciais, e torná-los objeto de apropriação e de reconstrução? A suposta proibição vem caindo e alguns dos mais importantes artistas contemporâneos, como Richard Prince, por exemplo, se consagraram através desse processo.

Todas as divagações são possíveis, pode-se gostar ou não, tanto das imagens como de seu possível sentido. O autor, ou artista, não se intimida com proibições. É esse seu papel, elaborar a seu modo o material que vai colhendo pelo mundo. A obra é aberta, o mundo pode se espelhar nela, mas só se quiser. E puder.

 

 

A série completa pode ser vista em www.mulheresdosoutros.com.br .

Eduardo Muylaert é advogado criminal e fotógrafo. Publicou O Espírito dos Lugares (3º Nome, 2003), e Boa Noite, Paulicéia! (Pinacoteca, 2006).
Principais individuais:
Mulheres dos Outros (Fauna Galeria, SP, e Galeria Zoom, de Paraty, 2011); Boa Noite, Paulicéia! (Pinacoteca, 2006); O Espírito dos Lugares (Nara Roesler, 2003); Tiras compridas do Brasil (Millan, 99); Paris – Fragmentos (Luísa Strina/Bar des Arts, 95) e Transferências (Bar do MIS, 93).

 

 

 

 

 

 

 

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DOR E SEDUÇÃO por Nazareth Pacheco

 

São objetos sedutores que despertam o desejo ao mesmo tempo
que provocam ferimentos
.

 

 

 

 

 

Clique aqui para ler o artigo: Inventando corpos e/ou desvelando o erótico em inquietante devassidão:
o encantamento dolorido por Miriam Chnaiderman

 

lista das imagens :
 banner: 2007  Ponta Gotas. Fotografia sobre metacrilato 14 x 35 cm
 1 -2007 . Inclusão Acrilico e agulhas 91x46x42cm
 2- 2007 . Inclusão Acrilico e agulhas 91x46x42cm
 5-2007 ORH+, acrilico e vidro  16x10x10cm
 6-S/T 2003 cristal, miçanga, acrílico e lamina de barbear
 7-S/T 2003 aço, acrílico, cristal, miçanga e Gillete  240x350x420cm
 8-1998 miçanga, lâmina de barbear,acrilico e aço 140x80x55cm

 

 

 


Nazareth Pacheco e Silva é artista visual e  mestre pela ECA/USP. Em 1989, obtém o prêmio aquisição no 11° Salão Nacional de Artes Plásticas, no Rio de Janeiro. Participou de  diversas exposições coletivas no Brasil e no exterior entre as quais se destacam: O Panorama da Arte Brasileira de São Paulo em 1988, 1991 e 1997(Premio Embratel) e 1999 (sala especial) ,  e a 24a. Bienal Internacional de Arte de São Paulo em 1998; “Fio da Trama“( Buenos Aires e “Nova York ,2001)  e “Virgin Territory” ( Washington, 2001). Em 2003 teve um livro publicado sobre a sua obra pela editora D&Z , com texto de Miriam Chnaiderman. Vive e trabalha em São Paulo

os gemeos grafite

DA PROIBIÇÃO COMO ÉTICA CULTURAL por Marcelo Ariel

 

Da proibição como ética cultural   –     Um poema disfarçado de ensaio

 

1.  Controle do esquecimento

A segregação de conteúdos em nome de uma visão dicotômica é a configuração sutil de uma proibição promovida pelo esquecimento geral ou ostracismo,  ou pela simples falta de interesse na arte que escapa dos códigos de classificação do entretenimento?

O caso do filme Quattre nuits d’un reveur (Quatro noites de um sonhador) de Bresson é grave, porque envolve um cineasta que pensava o cinema como poética em detrimento do cinema como Mercado.  Envolve  também um  dos grandes músicos e atores brasileiros em atividade Marku Ribas, que atuou no filme.  O silêncio sobre este  filme com trilha composta por ele, ao meu ver  só se explica pelo fracasso dos cadernos culturais e  por uma amnésia  provocada pelo excesso de informação formatada nos padrões do pensamento publicitário, algo que não se converte em conhecimento. Excesso de informação das marcas dentro do espaço a ser ocupado pela autêntica produção artística e amnésia geral estão profundamente interligados inclusive  dentro da  rede mundial de computadores, cada vez mais reduzida a rede de negócios de câmbio entre informações privada redimensionadas  como informações agregadas a marcas publicitárias .
Não existe crise na publicidade, ela é um dos efeitos da crise da transmissão de conhecimento e um dos efeitos dessa crise é a segregação e nichos ocultos, etéreos e abstratos de  grandes trabalhos artisticos nas áreas da música, do cinema e da literatura.
Podemos chamar isso de  proibição de circulação de uma simbologia mitopoética que representa a vida do espírito, pensada não dentro de uma visão dicotômica, mas dentro de um enorme campo de acessibilidade, campo este quase que totalmente proibido.

Marku Ribas

Utilizei  para ilustrar isso, a aura de esquecimento que recobre o  filme de Bresson e a valorização do trabalho do cantor , compositor e ator  Marku Ribas, mas existem ‘n’ exemplos em todas as áreas do chamado campo de produção de bens artisticos e culturais.

 

2. Da  segmentação e do gênero como elementos da censura ou  fronteiras-fantasma são  muito difíceis de serem abolidas.
Segue  abaixo um poema meu inspirado na canção  Strange Fruit :

Billie Holiday, Strange Fruit
Ninguém imaginou
uma
sereia negra

no fundo
do Mississipi,

mergulhando
na dor

como
Sulamita

diante
dos guardas,

nem a
igualdade

começando
no alto,

e depois
como todo esse sangue

evaporada,

é
improvável que um poema

repare
tanto estrago,

nem Eva

imaginou

encontrar

em uma
árvore

feita de
asas

arrancadas,

um fruto
tão amargo…

Neste poema  tento de um modo sutil praticar o não reconhecimento das fronteiras entre  mito, canção popular e poesia. Nunca existiu uma dicotomia entre canção popular  e poesia, todos os sonetos de Shakespeare poderiam ter sido musicados por  Cartola ou Paulinho da Viola.
Reproduzo agora o verbete da Wikipédia  para a canção de Billie Holiday: “Strange Fruit foi composta como um poema,  escrito por Abel Meeropol, um professor judeu de colégio do Bronx, sobre o linchamento de dois homens negros. Meeropol escreveu “Strange Fruit” para expressar seu horror com os linchamentos, possivelmente após ter visto a fotografia de Lawrence Beitler do linchamento de Thomas  Shipp e Abram Smith em Marion, Indiana, ocorrido em 7 de agosto de 1930.

 Ele publicou o poema em 1936, em The New York Teacher, uma publicação  sindical e só após algum tempo ele musicou Strange Fruit. A canção teve algum  sucesso como canção de protesto na região de Nova Iorque. Meeropol, sua esposa  e a vocalista negra Laura Duncan apresentaram-na no Madison Square  Garden[4]. Barney  Josephson, o fundador do Cafe Society em Greenwich Village, a primeira casa noturna integrada da cidade,  ouviu a canção e a apresentou a Billie Holiday. Holiday cantou a  música pela primeira vez no Cafe Society em 1939. Ela disse que cantá-la  fazia-a ter medo de retaliações. Holiday mais tarde disse que as imagens de  “Strange Fruit” lembravam-na de seu pai, isto fez com que ela  continuasse a cantar a música. A canção tornou-se parte regular das  apresentações ao vivo de Holiday[5].
Holiday se aproximou de sua gravadora, a Columbia Records, para gravar a  canção. Mas a Columbia, temendo a repercussão das lojas de discos no sul, assim  como a possível reação negativa de rádios afiliadas à CBS,
recusou-se a gravar a canção
[6]. Mesmo o grande  produtor da Columbia, John Hammond, recusou-se também. Decepcionada, ela  procurou seu amigo Milt Gabler (tio do comediante Billy Crystal), cuja selo, a  Commodore Records, gravava músicas de jazz alternativo. Holiday cantou para ele  “Strange Fruit” a cappella e a canção comoveu Gabler ao ponto de fazê-lo chorar. Em 1939, Gabler fez um arranjo especial com a  Vocalion Records
para gravar e distribuir a canção
[7] e a Columbia permitiu a realização de uma sessão fora do contrato para poder gravar a música.  “Strange Fruit” foi altamente  considerada. Na época, tornou-se o maior sucesso de vendas de Billie Holiday.
Em sua autobiografia, Lady Sings the  Blues, Holiday sugeriu que ela, junto com
Lewis Allan, seu acompanhante Sonny White e o arranjador Danny  Mendelsohn, musicaram o poema. Quando  perguntada, Holiday – cuja autobiografia fora escrita pelo ghost-writer William Dufty – dizia, “Eu  nunca li aquele livro”. Barney  Josephson reconheceu o impacto da canção e insistiu para que Holiday encerrasse  suas apresentações com ela. Quando a canção estava para começar, os garçons  paravam de servir as mesas, todas as luzes se apagavam e um único foco de luz  iluminava Holiday no palco.  Durante a introdução musical,  Holiday ficava com seus olhos fechados, como se evocando uma oração. Numerosos  outros cantores também fizeram versões da canção. Em outubro de 1939, Samuel  Grafton do The New York Post assim descreveu  “Strange Fruit”: “Se a ira dos explorados já foi além do  suportável no Sul, agora há a sua Marseillaise.” Em dezembro de 1999, a revista Time deu a “Strange Fruit”   o título de canção do Século[9]. Em 2002, a Biblioteca do Congresso colocou a canção dentre as 50 que seriam  adicionadas ao National  Recording Registry.

 

Billie Holiday possuía uma poderosa intuição  e essa canção inaugurou  a fantasmagorização das fronteiras entre poesia e  canção no século XX.
Os motivos que levaram Billie Holiday a gravar Strange Fruit não foram  apenas sociais, tampouco literários. Ela percebeu uma conexão profunda  entre o poema e o fim do limite  entre vida interior e vida exterior, simbolizados  de um modo insuspeito pelas fronteiras entre canção popular e poema.

 

3. Da pixação e do Grafite como irmãos siameses ou o não reconhecimento  da caligrafia hieroglífica como parte da arte de reconfiguração dos espaços  urbanos.

Se existe,  e isso é mais do que verificável,  uma relação óbvia entre os  grafites  e o teto da Capela Sistina,  fato capaz de elevar o grafite a condição de arte por que  a existência de  uma relação entre as pixações e os poemas visuais do dadaísmo e de outras  correntes intervencionistas da arte não é suficiente para elevar a pixação à categoria de arte urbana?

 

 

4. Artaud: Um edital  público-privado para a publicação de um livro de poesia é algo absolutamente  antipoético.

Fernando Pessoa: Concursos  de poesia são algo equivalente, seriam úteis se todos os participantes fossem
publicados e se todos os não participantes também fossem publicados ou seja  seriam úteis se fossem absolutamente inúteis.

5. O R.A.P. é controlável e o Spoken word não.

A ligação entre o R.A.P. , o HIP HOP,  o Funk Pancadão e o crime  organizado pode ser medida de que modo?
A ligação entre os partidos politicos e o crime organizado pode ser  medida de que modo?

6. Guy Debord: Mendigos e presidiários colocam a democracia em xeque ?

 

 

 

foto banner: Os Gemeos – grafite

 


Marcelo  Ariel é escritor e poeta, autor de TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS ( Letraselvagem,  2008), SAMBA COLTRANE ( Yi Yi Jambo,2009), CONVERSAS COM EMILY DICKINSON E  OUTROS POEMAS ( Multifoco, 2009) , COSMOGRAMAS ( Rubra Cartoneira, 2012)  entre outros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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TRANSGRESSÕES NAS FENDAS CITADINAS por Belkis Trench e Laerte Coaracy

 

Caim, depois de esconder o corpo de seu irmão do Senhor, saiu pelo mundo a fundar cidades. Os prefeitos  e empreiteiros, seus sucessores, empenham-se a asfaltar e cimentar esse mundo todo.


Na geometria das ruas, na precisão dos jardins, nos planos das praças que captam  franca luz, materializa-se um ideal de razão, de escolha e de controle. 
Então, num tempo de outras  paciências, vai-se notando aqui e lá,  pelas fendas, rachas e desvãos da  pele da cidade, a eclosão reiterada de plantinhas em pé de muro, sarjeta  desbeiçada, parede escalavrada, brecha de calçada, parapeito obtuso de  viaduto. É entre as rugas que dá de tudo.

 

Toda fenda, furo ou rego é  oportunidade de instalação de uma sementinha  diminuta, que dá um brotinho milimétrico,  proliferando em seguida num jardinzinho polegar.

 

Essa flora modesta, destinada a passar despercebida, resiste aos múltiplos paradoxos  do urbano, que vão da integridade higiênica à violenta degradação. A cidade com seus ratos, pombos e homens, mas com tufos de capim rebeldes também. Só as  enxergamos, essas verdes trogloditas, ao sabor do acaso e da atenção  despreconcebida. As cidades são cruéis,  mas nesse salpicado apelo verde, afirmada  imagem do Eros, a natureza da vida se confirma.

 

 

 

 

 


Laerte Coaracy 
nasceu em São  Paulo em 1943 e passou a  infância entre a Urca e Paqueta. Professor concursado da Universidade do  Chile durante o governo da Unidade Popular. Depois do assassinato de Allende, acabou indo trabalhar na França onde é psicanalista há muitos anos.

 

Belkis Trench é doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo , pesquisadora do Instituto de  Saúde e trabalha com pesquisas  fotoetnográficas. É co-diretora do documentário Coisa dos Homens e organizadora dos livros,  Almanaque Zero e Nós e os Outros.