Arquivo da categoria: Edição 16: O QUE ME AFETA

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O TERCEIRO ATO por Elza Tamas

 

O que me afeta é o que me pega de surpresa. E as surpresas só podem ser de duas ordens: boas ou ruins. Neutralidades não são do universo da surpresa, porque são a própria antítese do espanto e não determinam nada em ninguém.  Surpresas boas são aquelas que me potencializam, chamam a  vida em mim. São como um peteleco na agulha, que afinal consegue mover-se  num disco riscado, e assim liberta a música que é linda e  nos relaxa, embora  saibamos   que a qualquer momento, ele pode  travar novamente. São assim os discos riscados, não?                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               Como Como quando imaginei que poderíamos derreter algumas geleiras dos seus invernos chupando juntos, um picolé de tangerina. Os semelhantes curam-se pelos semelhantes, um princípio homeopático. E quase conseguimos, quer dizer conseguimos um pouco, o tanto que sua própria surpresa permitiu, mas a música parou de novo, bem no melhor pedaço e logo você me mostrou uma enorme cortina fechada ao nosso lado, grossa, pesada.  Detrás dela saltavam ruídos assombrosos, talvez peixes gritando ou uivos- lamentos de florestas, vagando sem saber onde se depositar. Eu quis abri-la, você me disse que não. Eu quis espiar, você disse não.
Sou a favor das cortinas abertas; fechadas só temporariamente, quando exercem sua própria função de cortina, mas nunca ocupando o lugar de uma porta, ou de uma parede ou de um muro fronteira.  Eu ainda tentei, talvez esse som que você teme porque não reconhece, seja somente o vento passeando entre alguma de suas memórias. Você disse não.
Julia adora ir ao teatro. Chega, senta-se de costas para o palco com o rosto enfiado no colo da mãe e fica assim até a cortina abrir. Ela tem medo da cortina fechada.
Julia tem 3 anos e já sabe que cortinas fechadas podem conter surpresas e que surpresas podem ser boas ou ruins.

foto banner: William Klein

 

 

 

Elza Tamas idealizou e desenvolve este site.

 

 

foto: Mario Bock

02

LOVE ADDICTION por Marilene Damaso

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“Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia e na pele quero ter o mesmo ar que te bronzeia…” O que me afeta? É que ele não chegue agora. É não saber onde ele está. É pensar que ele possa dançar com outra ou mesmo apenas lançar um olhar para outra, mas principalmente que ele desvie o olhar de mim. O sofrimento no território do amor é uma constante. Não há dúvida de que onde está o amor está a dor, não só para rimar, mas para traduzir um enlaçamento paradoxal entre os dois sentimentos, nesta importante dimensão da vida humana.

Na paixão o objeto de amor tem que estar amalgamado ao peito do sujeito num sonho de unidade e completude. Assim ele fortalece a identidade e resignifica a vida. Mas quando alguma distância se impõe entre o eu e o amado, o eixo central do amante estremece, o sofrimento se instala, e a única saída para o apaixonado é correr atrás de seu par como uma droga. Similar a qualquer vício, a abstinência do “outro-droga” não é tolerada. Ainda que gere decepções inevitáveis, a paixão é acolhida por nós como melhor representante do amor romântico, respeitamos a paixão com todo pathos que lhe pertence e todo paradoxo que este estado carrega.

 

Na atualidade, observamos a presença recorrente de outras formas de amor nas quais habitam uma dimensão adicta, cuja manifestação é diferente da paixão. Será que podemos pensar em outras formas de love addiction além da paixão?   O fenômeno adicto diz respeito a  necessidade do individuo  de se apoiar em algum objeto para  existir, perdendo a autonomia e sem possibilidade de escolha. Seguem duas formas diferentes de relações amorosas, ambas ligadas ao campo das dependências:

Primeiro, o fenômeno atual do “ficar”, observado nos jovens, implica numa troca recorrente de parceiros, movida pela busca da sensação de prazer no plano afetivo e/ou sexual. Alguns desses jovens buscam um percurso amoroso baseado na intensidade das emoções que o encontro promove. Quando os fortes sentimentos não se repetem, há uma rápida troca de parceiro. No lugar do desenvolvimento da intimidade está a busca de excitação própria do estágio inicial das estórias de amor. O comportamento adicto tem como objeto de apoio a própria sensação intensa de estar amando e o vício parece dirigir-se para a excitabilidade que a relação amorosa pode gerar.

A dependência nesta perspectiva é do estado amoroso, são indivíduos viciados em amar com intensidade. Aquilo que me afeta é o tédio da minha vida, eu preciso das emoções inebriantes que os meus amores me dão.  Paradoxalmente há um sofrimento do sujeito, que vive uma incansável busca em manter esse amor excitante nas veias. A meta, então, é tolerar o inevitável sentimento da “falta” que produz dor psíquica. A internet e as redes sociais da atualidade servem de palco para o exercício deste tipo de ligação com o outro, que pode ser virtual para o fim que se destina.

Neste tipo de ligação, o amar “até que a morte nos separe” está completamente fora de moda, ocupa este lugar o amor imprevisível, as noites avulsas e intensas, as relações de amor que escoam fluidamente e não ganham contornos definidos. O ideal para este tipo de amor fugaz é que o ciúme seja abolido, mas nem sempre isto acontece.   Enfim, são relacionamentos próprios dos nossos tempos, marcados pela fragilidade dos laços humanos, pela rapidez e urgência que afastam as relações de longo prazo, construídas com solidez e compromisso.

Num segundo tipo de love addiction observamos um comportamento repetitivo e descontrolado de atenção e cuidados do amante dirigidos ao parceiro, junto à negligência relacionada aos cuidados e a atenção a si mesmo. Agrada o parceiro para receber amor e consideração, também para evitar sentimentos de desqualificação ou mais nitidamente de rejeição. Um tipo de relacionamento gerador de ansiedade, decepções, depressão, enfim de profunda dor psíquica.  Apesar do sofrimento que acompanha este tipo de amante, e as evidências de que o relacionamento está sendo prejudicial a sua vida, ele persiste em mantê-lo. Neste quadro a autonomia do amante cede lugar para um aprisionamento ao objeto de amor.

Amor, ou o desejo de controlar o parceiro para mantê-lo perto e imobilizado? Ou apenas uma dependência deste “outro-droga” que é apoio para minha existência? Não está em jogo aqui a intensidade do amor, mas a persistência em manter o relacionamento apesar do sofrimento que ele imprime, mas que  constitui uma âncora para o viver. Aqui, aquilo que me afeta é sentir que apesar de tudo que eu faço ele não me retribui. Sei que ele não me quer, mas não tenho pernas para seguir sozinha. A individualidade, típica dos tempos modernos, caracterizada pelo narcisismo, não encontra espaço neste tipo de relacionamento. A possibilidade de escolha, própria do sujeito, se apaga em nome do apego excessivo ao parceiro.

Os tipos de love addiction na contemporaneidade expressam nossa fragilidade e solidão. Em tempos de vazio e tédio as emoções intensas do amor podem se tornar um vício, um excitante para servir de apoio ao existir. Também o risco de perder o objeto de amor na atualidade é grande, a ética amorosa do amor romântico está sendo rompida cada vez mais, e os enlaçamentos amorosos são feitos com tecidos esgarçados. Frente a este cenário resta ao frágil ego se agarrar a um amor “para chamar de meu”, mesmo que aí morra o sujeito aprisionado. “Porque você não cola em mim? Tô me sentindo muito sozinho…”.

 

foto banner: Elza Tamas
foto 1: Akitoshi Sasakura
foto 3:  Gravura Laura Salgado

 

 

 Marilene Damaso de Oliveira é  psicóloga clínica e  psicoterapeuta junguiana. Estudiosa da psicanálise é mestre em Psicologia da Saúde. Especializada em transtornos da alimentação e dependências comportamentais ministra cursos nestas áreas e publicou artigos sobre estes temas em revistas especializadas.  Atualmente   pesquisa o tema do  amor adicto.

 

[email protected]

 

 

 

 

06

ENTER AND TOUCH por Jessica Cooke

 For English Version, click here

Meus pés submersos pela água do rio. As pedrinhas entre meus dedos cedem e afundam bem devagarzinho. Como eu, montanha tão grande, me desestruturo pela areia movediça?
A água me mostra como a terra é realidade frágil. Parece invencível, mas não é.
Água demais faz a terra parar de respirar. Pode matar a terra. Pode matar meu corpo, essa terra que pertence somente a mim.
My body is land.

Water makes flood.

Quero existir, fala a montanha. Meu corpo transparente aparece no ato destrutivo. O vulcão destrói sem piedade, mas a ilha feita de vulcão nunca é vencida pela água.
A explosão move a terra. A explosão gera terra. A explosão salva a terra.

O único jeito de criar é destruir.

A ambiguidade do corpo está em seus movimentos. Ora aparece, ora transparece. Eternamente envolvidos por laços que abrem e fecham. Soltam e prendem. Contração e expansão se alternando como morte e vida no meu corpo.

I want to be involved.
http://jessica-cooke.com/2012/08/16/i-want-to-be-involved/
Explosões se manifestam de formas únicas. Não existem regras.

A força infincada na parede pode sustentar uma casa.
O prego não tem data para morrer. Pode ficar no mesmo lugar perpetuamente até o dia em que nada mais faz sentido e só restar a intenção encravada na madeira.

Marca choro de lamentação.
Quem vencerá? O prego ou a madeira?

Quero momento imortal. Para sempre uma foto.
Estática, parada, perfeita.
Igual a paixão à primeira vista.

Me apaixonei por um homem que nunca conheci, mas tive certeza que poderia amá-lo para sempre.
O momento estático, perfeito.
Apenas lhe  dei minha mão, disse olá e ele tirou sua mão de mim. Destruiu o momento e eu fui destruída junto.
Quero entrar dentro do seu casaco  e junto ao seu corpo, dormir para sempre.
Me aperta bem forte?
Quero existir.
O cabelo e barba dele tem cheiro de óleos baratos. Ele não sabe escolher coisas de qualidades, mas ele tenta e por mais terrível que seja funciona. Tudo funciona nele. Ele é invencível. Ele é o herói da historia dele, quase foi da minha.
Ele tirou sua mão, pediu as direções, virou a esquina e nunca mais o vi. Foi tudo muito rápido, nem tive chance de me despedir.

Volta! Qual seu endereço? quero te escrever!
Será que ficaremos velhinhos juntos?

Vejo a nuvem passar e quase consigo segurá-la.
Quase, é sempre quase. Parece tão palpável. Igual a ele. Ele será sempre quase.
Quero a nuvem estática, perfeita, pregada por um alfinete no meu corpo.
A mão dele na minha para sempre.

Fotos:
Banner,Foto 1,2| My Body is Land Water Makes Flood| Fotografia
Foto 3,4,5,video| I Want To be Involved| Performance
Foto 6| Untitled| Fotografia
Foto 7| Thorn Stone| Escultura
Foto 8,9,10,11| I Fell In Love With a Man I Never Met| Escultura

 

 

Jessica Cooke é artista plástica nascida em São Paulo, reside em Berlim, Alemanha onde estuda artes visuais na Universidade de Artes, Berlin (UdK – Universität der Kunst), sob tutoria da artista Susanne Lorenz. Usa como tema sua vida pessoal e suas emoções para criar uma ponte entre artista e público. Acredita que os objetos pulsam e busca traduzir esses sentimentos para uma linguagem poética. Com uma grande influência do teatro,  usa a performance entre suas mídias principais, além de fotografia, instalação e video.  Participou de exposições como Friends of Agora e Unbound, no espaço Agora, Berlin Germany| 2011 e Drei Eck, no espaço Stadtt Bad Wedding, Berlin, Germany|2012. Como integrante do Coletivo de arte AGORA participou de Transient Museum, na Galeria Freies Museum, Berlin, Germany| 2012 e The month of performance, na galeria L’Atelie Kunst Spiele Raum, Berlin, Germany| 2012.

www.jessica-cooke.com

 

05

O ESPIRITO E A EPIDERME por Natália Barros

 

     o espírito                                                                                  

de escrever, as mãos

do  filho, o quadril

do desejo, o pulsar

da lua, o sexo

da palavra, a boca

do  tempo, a respiração

do hábito, os músculos

do mistério, o gozo

da estrela, o considerar

de dentro, o hálito

do trabalho, o labirinto

do que sou

feito                                                         

                                                                  

           a epiderme

da dúvida, o pensamento

da janela, o olhar

de abraçar, os braços

do peso, os ombros

da sombra, os sonhos

de deus, o sim

do pão, a fome

do mar, a imensidão

da nuvem, a memória

do sal, o sangue

do afeto, o outro

feito

do que sou

 

 imagem banner e desenho: Natalia de Barros

 

foto: Priscila Prade


Natalia Barros
é cantora, poeta e jardineira.Contemplada pelo Proac 2011 de literatura, acabou de editar seu primeiro livro, Caligrafias, pela Ofício das Palavras Editora, com seus poemas, mini contos e ilustrações.
Apresenta-se num show, que acompanha o livro, onde canta e fala seus textos.
Publica seus poemas no site de literatura Cronópios, onde também tem um programa de entrevistas: Tea for Two.

 

Programa Tea For Two: ttp://www.cronopios.com.br/t42/videos/ 

https://www.facebook.com/nataliabarroscaligrafias?ref=hl
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

01

AFORISMOS por Juliano Garcia Pessanha

 

1.

Na escuridão gelada de Helsinque, uma gaivota cruzou o céu e saudou minha cabeça e, no Chile, vi um ramalhete de flores nascendo entre os trilhos do trem… Descobri então, que viajar é aumentar o desconhecido e, um dia, atravessado por tantos lugares e povoado por tantos países, uma palavra surge, como uma gaivota, saindo do peito-portal.

 

2.

No dia em que a malha vermelha pinicou a pele e corri suado rente ao cipreste – queria ter morrido ali! Embora só muitos anos depois eu tenha escutado que o âmbar é a resina dos pinheiros depositada no fundo do oceano, foi ali, enfiado na malha vermelha, que estremeci pela primeira vez ao olhar a gosma alaranjada num toco de lenha. Queria ter morrido ali, olhando para o chão. Queria ter morrido ali, na respiração do odor inédito e, amparado pela obscuridade, teria poupado minha vida da infelicidade do conceito.

                                                             

foto banner: Frantic- Francesco Calvetti


Juliano Garcia Pessanha é escritor e ensaísta. Publicou a trilogia Sabedoria do nunca (1999), Ignorância do sempre (2000), Certeza do agora (2002) além de Instabilidade perpétua (2009), todos  pela  Ateliê Editorial. Vencedor do prêmio Nascente, promovido pela Abril e USP, nas categorias poesia e ficção, graduou-se em filosofia na USP, onde atualmente desenvolve sua pesquisa de doutorado.

 

 

 

 

03

O QUE NOS AFETA? por Pedro Abramovay

 

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O que nos afeta? Enfurnados em nossas vidas multiagitadas, algo nos afeta? Aplicativos para resolver quase todos os nossos problemas. A vida cabe em um iphone? Nada nos afeta. O facebook nos fecha as janelas para o mundo, esconde a pluralidade de vozes da internet e nos fecha em nosso próprio círculo de amigos. “Eu tenho um grupo heterogêneo de amigos”. O Facebook nos esconde. Ele só nos mostra os amigos cujos links já clicamos. Só clicamos nos links que já nos interessavam antes de clicarmos neles. A internet transformou a vida em uma janela, o Facebook redefiniu-a em um espelho. Nada nos afeta.
Mas a internet é mais do que o Facebook. As milhares de vozes distintas estão lá. Procurando alguém para afetar. E nos afetam.
O professor Yochai Benkler, especialista na riqueza das redes, usa sempre um exemplo muito ilustrativo. Imagine a famosa cena do jovem chinês enfrentando os tanques na praça da paz. Muitas fotos foram tiradas daquele momento. Mas tenho certeza que posso descrever com precisão a imagem que está em sua cabeça. O olhar se posiciona na diagonal superior. O rapaz está de costas. Os tanques de frente. Por que todos temos a exata mesma imagem na cabeça se eram tantos fotógrafos presentes naquele momento? Por que todos estavam no mesmo prédio destinado aos correspondentes estrangeiros em Pequim. O Estado Chinês conseguiu criar apenas um ângulo para esta imagem. Uma versão. Uma voz. Uma voz dissidente, mas uma voz.

Agora imagine as revoltas na praça Tahir no ano passado. Ou os indignados na Espanha. Não há uma só imagem possível. Há milhares, uma efervescência de imagens. Imagens para quem se apaixonou pelas revoluções, imagens para quem as acha perigosas. Imagens bem feitas, imagens trêmulas. Imagens banais, imagens inspiradoras. Há tantas vozes quanto bocas.
O que mudou? Hoje não se pode isolar os correspondentes estrangeiros em prédios. Todos somos correspondentes estrangeiros. Um celular. E a foto está no mundo.
Como isso nos afeta? Nós que escolhemos. O que nós queremos ver ou saber? Cabe a nós buscarmos.
E quando nos abrimos para o mundo, quando rompemos as barreiras que nos impõem os facebooks ou os Estados (na China, a censura sobre o google faz com que a busca sobre a praça da paz não traga qualquer imagem do rapaz ou dos tanques), tudo isso nos afeta. Nos afeta, em primeiro lugar, porque de alguma maneira furamos o bloqueio.
Mas nos afeta também porque é possível fazer nossa voz ser ouvida.
Uma adolescente no Paquistão escrevia um blog defendendo o direito das mulheres irem à escola. Ela é alvejada pelo Talebã, que não admite esta campanha. Vozes do mundo inteiro se unem em uma petição gigantesca que envolve grandes líderes mundiais. O presidente do Paquistão a assina. Talvez não haja mais como os governadores retrógrados fugirem de programas de inclusão das mulheres no ensino formal.

Uma tribo de guaranis ocupando sua terra tradicional sofre uma ordem de despejo. Escrevem uma carta emocionante, mas não mais do que tantas outras cartas já escritas. Mas essa afetou tanta gente, juntou tantas vozes, mais de 300.000 pessoas gritaram juntas. E a ordem de despejo foi revista. E o governo, que há tanto retardava soluções para os guaranis, promete acelerar a demarcação das terras.
Tudo nos afeta. Cabe a nós manter os olhos e os dedos abertos. Abertos para aquilo que pode nos indignar e abertos contra os movimentos que querem fechar nossos olhos. Que querem criar uma internet mais espelho e menos janela.
Tudo nos afeta também porque podemos afetar o mundo todo ao nos unirmos a outras tantas vozes afetadas, indignadas com o mundo que vêem pela janela.
O que nos afeta é o que escolhemos que nos afete. E escolhemos, também quem queremos afetar. Temos os sentimento do mundo. Dois olhos e duas mãos. E isso basta.

foto banner:  O Livro Vermelho – C. G. Jung 

 


Pedro Vieira Abramovay é formado em direito pela USP, tem mestrado em direito constitucional pela UnB, e é doutorando em ciência política pelo IESP-UERj Foi secretário de assuntos legislativos do ministério da justiça e secretário nacional de justiça. Atualmente é professor da Fgv Direito Rio e diretor de campanhas da Avaaz.

 

 

 

 

 

bocah bohor  - help me

AS MICROREVOLUÇÕES ESTÃO POR TODA PARTE por André Gravatá

 

Acordamos todos os dias e nos arrastamos/corremos pelas ruas para alimentar vidas que deixam um impacto na realidade. Vivemos um movimento que é também construído por nós. Como diria Dostoiévski, “todos somos responsáveis de tudo, perante todos”.

Não estou aqui para falar sobre os problemas da realidade em que estamos imersos. Os contrastes são tão explícitos que, com um pouco de sensibilidade, qualquer um de nós sente as entranhas se movimentarem em desconforto. Venho falar sobre um segundo passo: aquele passo possível a partir do momento em que o desconforto se instaura dentro de nós, quando olhamos um velhinho pedindo esmola na rua e nossa pupila se dilata com a miséria áspera no asfalto, quando lemos nos jornais que tantas pessoas morrem asfixiadas com a miséria humana e nosso estômago se comprime como se estivesse sendo apertado por mãos constituídas apenas de ossos. Se você já se indignou com a realidade, o que pode fazer, o que dá para fazer?

(Diga aí, em silêncio, para você mesmo: gostaria de ouvir uma resposta que te indicasse exatamente o que você poderia fazer para aliviar sua carga de responsabilidades? Respostas prontas e cheias de fórmulas sempre são mais fáceis, felizmente não tenho nenhuma – além de anular a diversidade presente no mundo, elas são uma farsa na maioria das vezes, senão em todas.)

Quando nos indignamos com a realidade, nasce em nós uma faísca rara. “Eu desejo a todos, a cada um de vocês, que tenham seu motivo de indignação. Isto é precioso. Quando alguma coisa nos indigna, como fiquei indignado com o nazismo, nos transformamos em militantes; fortes e engajados, nos unimos à corrente da história, e a grande corrente da história prossegue graças a cada um de nós”, conta Stéphane Hessel em seu pequeno livro “Indignai-vos!”, um sobrevivente de campos de concentração que participou da redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. A indignação é um afeto que pode esfacelar nossa inércia.

Após a indignação, um passo possível é a ação, é começar com qualquer ato pequeno – esse segundo passo é, muitas vezes, apenas mais um passo, para que você olhe a situação com mais distanciamento e encontre um ponto por onde começar. Se você esperar para agir só quando encontrar uma situação propensa para sua ação, talvez não aja nunca. A melhor situação para mudar seu comportamento é agora: você nunca muda no futuro, você só muda no agora, nesse instante que cai como uma enxurrada de água nas nossas cabeças. Falo tudo isso para compartilhar um termo que tem me inspirado bastante: “microrrevolução”. Uma microrrevolução é uma ação simples, que começa com uma indignação administrada numa ação, que impacta pessoas num nível local. Desde que comecei a transformar meus sonhos em microrrevoluções, senti um movimento novo ao meu redor. Um movimento de aprendizagem intensiva, de mudança ininterrupta.

Não faltam exemplos de projetos microrrevolucionários no mundo: uma moeda social na periferia de SP; uma empresa que emprega mulheres de baixa renda; um poeta que aborda conflitos sociais nos seus livros; um grupo de jovens que transforma uma sala de aula vazia em uma sala de cinema; um coletivo de amigos que decide escrever um livro sobre educação inovadora (a propósito, faço parte desse coletivo); e outros, muitos outros. As microrrevoluções acontecem por toda a parte, hoje e sempre, nascem de seres humanos comprometidos com a vida.

Nossas vidas deixam um impacto na realidade, seja a marca de uma microrrevolução, seja uma pisada de indiferença. Qual é a sua contribuição para o mundo, ao menos para o seu mundo? Espero que essa pergunta ecoe na sua cabeça hoje e amanhã. No café, no almoço e no jantar. Inclusive de madrugada, quando você acordar de um sonho no qual uma pessoa te perguntará: qual é a sua contribuição para o mundo?

 

imagem banner: Bocah Boror – Help me

 

André Gravatá é jornalista e membro do coletivo Educ-ação. Atualmente, está mergulhado em entrevistas para transformá-las em capítulos do livro Volta ao Mundo em 12 Escolas. Colabora com revistas como Vida Simples e Superinteressante, além de desenvolver um projeto de engajamento jovem chamado Jogo de Cinema, realizado pela Via Gutenberg. Também é organizador do [email protected] e do TEDxSéED.

 

armando prado dupla_08

O QUE O TEMPO FARÁ CONOSCO por Armando Prado

 

Estas imagens compõe um trabalho que venho fazendo desde 1995  e que se encerrará em 2015.
Levando em conta a ação do tempo sobre o ser humano e como ele nos afeta,  passei a acompanhar
fotograficamente 20 pessoas de diversas áreas, a cada dez anos . Provisoriamente este projeto se chama “Decanos”.
As duas primeiras fases do projeto estão nas fotos que seguem abaixo:
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Armando Prado , nasceu em 1952 , em São Paulo .Comunicador por formação, trabalhou como fotojornalista em jornais como o Estado de São Paulo e Jornal da Tarde . Desde 1980 vem publicando e expondo regularmente no
Brasil e no exterior . Professor convidado do curso de pós graduação da FAAP , tem seus trabalhos em coleções públicas e privadas , como Masp , Itaú cultural .
É Consultor da Fauna Galeria e curador da Mostra SP de Fotografia.
www.armandoprado.com.br
www.fotospot.com.br
www.mostraspdefotografia.com.br