Arquivo da categoria: Edição 12: O TEMPO

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TRES TEMPOS E DUAS HISTÓRIAS DE AMOR por Elza Tamas

1) Os gregos têm duas divindades para designar o tempo. O primeiro reina  linear, mensurável, implacável, o tempo do  calendário que engole os dias, as semanas, as flores do jardim, esbranquiça meus cabelos, o tempo tic tac insuportável do  relogio da casa da minha avó, que  na infância me dizia – nunca mais, nunca mais, nunca mais.
Eu tinha 6 anos de idade e Kronos já me avisava que ia me devorar sem piedade.

2) O segundo, Kairós é tempo do instante preciso, a oportunidade, a experiência vivida, a não separação, o mergulho.
Quando estamos realmente envolvidos em alguma coisa, desfrutando da qualidade de um momento, estamos sob a égide de Kairós.  Kairós é calvo e tem um topete  na frente da testa. Fugidío e rápido, anda sempre sem roupas, passa despercebido a  olhares menos atentos e só é possivel  agarrá-lo pelo cabelo.  Uma vez  que ele tenha passado,  a oportunidade foi perdida,  e é impossível trazê-lo de volta

3) Se eu deixasse cair o copo de vinho que seguro agora na mão, o momento preciso em que isto ocorreu, somado  a  minha história, ao sentimento interno que permitiu que o copo caisse e ao gesto involuntário de todo meu corpo na tentativa de ampará-lo antes que ele se despedacesse no chão; e se eu fosse capaz de ler o mosaico desordenado de cacos  que se formasse entre a espuma avermelhada desperdiçada, eu conheceria o meu destino.
Cada fenomeno está grávido da qualidade do momento, cada instante antecipa o próximo passo.
Este é principio das técnicas divinatórias: a borra de café, o I Ching, o tarô, o jogo de buzios. Sujeito e acontecimento interdependentes numa relação não causal, mas repleta de significado. O tempo sincronico que  antecipa  o futuro.

I) Eles resolveram morar juntos. Celebramos com um pequeno jantar as vicissitudes ultrapassadas  e a soberania do amor. Ganhei flores e um   sabonete cubo lavanda, a provence todo dia no meu banho. O sabonete era ainda uma lamina fina, quando ela voltou com  as malas, os móveis, uns pedaços de sonhos.

II) Julie e Luca  prenderam  um cadeado numa ponte da cidade de Lyon, na França.
Um  gesto simbólico do  que eles sabem e  sentem verdadeiramente – me garantiram: que o amor deles é para sempre e que nada, nunca, poderá separá-los. A chave foi jogada no Rio Saône.

foto banner : Elza Tamas 

 

Rodrigo matez

UM COLAR DE INSTANTES por Rodrigo Maltez Novaes

Vilém Flusser provoca.  Um provocar do pensamento que se desdobra em várias facetas.

Em 1962 publicou no  jornal O Estado de São Paulo o ensaio titulado “Do tempo e de como ele acabará” , onde explora o conceito do tempo objetivo e subjetivo. Este ensaio foi escrito e publicado após ter escrito o livro “A Historia do Diabo” (1958),     que publicou no Brasil somente em 1965. Mas foi neste livro que iniciou sua exploração do conceito do tempo usando a figura do Diabo
como  alegoria. Mais tarde, durante as décadas de 70 e 80, desenvolveu outra imagem do tempo, baseada na física quântica e informática–o tempo como abismo. Criou uma imagem do tempo que se desmancha na zero-dimensionalidade,composto de calculi que agrupam e desagrupam dando forma à tudo o que existe.

Esta é a imagem de um tempo amorfo,que não concebe o principio de um começo, meio e fim e que caracteriza a realidade pós-histórica. Mas neste texto inicial de 62, Flusser explora as diferentes correntes de pensamento e suas interpretações do tempo, e por final cria  um primeiro esboço de uma teoria própria.

Em sua divisão do tempo enquanto tempo objetivo e subjetivo, o tempo da matéria e o tempo da memória, apresentam-se para  Flusser duas imagens claras: a imagem de um tempo linear de eventos sucessivos e a imagem de um tempo guardado na memória,  de eventos que se misturam, quebrando assim a linha do tempo vivido. Diz ele portanto que a morte é o limite do tempo subjetivo e a entropia o limite do tempo objetivo. Na morte do organismo que também significa morte térmica, sugere a imagem de um ponto final.
Mas é possível ir-se além desta imagem se apenas trocarmos o angulo de visão.

Por exemplo:  hoje em dia é possível formular o conceito de que a entropia é na verdade o verdadeiro objetivo da vida, e não a vida em si.
Ou seja: sem decadência orgânica não haveria vida na terra. A vida existe para que possa ser decomposta, assim servindo de combustível para vida nova. Pesquisas na área da biologia, mais especificamente em relação à decomposição da matéria orgânica,  demonstra que durante a decomposição os átomos que constituíam o  organismo são reciclados e retornam em novos organismos vivos. Ou seja: átomos  são continuamente reciclados. Todos os átomos que formam nosso organismo já  passaram por vários outros organismos durante a historia da Terra. Seria  portanto perfeitamente possível especular sobre a possibilidade de conter em  nossos corpos átomos que um dia já fizeram parte de diversos outros organismos,  tais como dinossauros, peixes, plantas, etc. Não só atravessando as barreiras  das espécies (se realmente somos essa mistura de átomos que já foram tantas  outras coisas, como que ainda podemos manter uma visão antropocêntrica em  relação à vida?), mas também mais importante, a barreira do tempo. Portanto  de um ponto de vista biológico atual, o modelo do tempo cambia novamente. Mas
desta vez o modelo não pode ser tão objetivo como o da roda ou o da flecha em  voo. Neste novo modelo, não só o modelo do tempo circular, como também o modelo  do tempo em linha reta se desmancham e o que surge é a imagem de um tempo  amorfo, caótico – a visão da decomposição material se vista do ponto de vista  atômico e subatômico, demonstra que assim como Flusser propõe, o tempo  compõe-se de instantes (pérolas), mas proponho que estas não se alinham em fio  formando um colar assim como ele sugere, porque colar ainda sugere  não
só linha  reta, de eventos sucessivos que seguem o fio, mas também moção circular.

Nesta visão de tempo em campo zero-dimensional, tanto o tempo objetivo como o subjetivo dissolvem-se um no outro. No entanto, do ponto
de vista subjetivo, ainda tenho a experiência do tempo  de forma linear – o que vivi de acordo com os anos e com a sequência de  eventos.
E com isso, sim, poder-se-ia dizer que o tempo adquire esse aspecto “colar  de pérolas” ao pensar ou tentar visualizar o tempo  através da mente. Mas o  problema que se apresenta rapidamente é que uma vez passado ao nível da  memoria, o tempo se desmancha, o fio  do colar rompe e as pérolas voam soltas  pelo espaço da memoria. Lá, até mesmo as pérolas se desmancham, e assim como átomos,  revelam um mundo interior vasto, um cosmos. De fato, coisas acontecem a mim. Mas  a partir do momento em que essas “coisas”,  “eventos” ou qual  seja o termo preferido, passam a habitar a dimensão da memoria, lá nem o modelo  linear nem o circular dão conta  de representar para mim o “tempo”.
Na  memoria, a imagem do tempo como “campo” é mais adequada. Porque lá, após o  desmanche do  colar e a desintegração das pérolas,
não se trata mais apenas de  fluxos ou processos, mas também de agrupamentos, amalgames, misturas,  e seus  reversos. Aquilo que vivi aos quatro anos de idade se mistura com aquilo que  vivi ontem e ainda aquilo que projeto como possíveis vivências futuras. O tempo  objetivo
impõe-se à mim, mas o tempo subjetivo não só parte de mim, mas está  sujeito à mim, ou seja, eu o  crio e descrio ao sabor do momento.
E dentro disto  surge a questão da realidade, pois se o tempo objetivo que impõe-se à mim cria  a realidade, então eu, ao subjetivar esse mesmo tempo e ao fazer dele minha  matéria prima, crio então minhas realidades  ao meu próprio ritmo.

O raciocínio portanto sobre a possível estrutura do tempo demonstra claramente, assim como Flusser sugere,  que o tempo acabará
através da razão. Ou seja: ao desenvolvermos a cada dia, “melhores” e mais sofisticados  modelos para compreender o tempo,
acabaremos portanto desmanchando-o. Mas a fé na imortalidade à qual  Flusser aponta, permanece, independentemente de qual seja
a estrutura vigente da nossa visão do  tempo. Porque seja essa qual for, não altera a nossa crença e esperança de que  o futuro se fará
presente mesmo quando formos passado.

imagem banner: Jean- Michel Basquiat/ Riding with dead

 

Rodrigo Maltez Novaes é formado pela University of Gloucestershire e pós-graduado pela University of the Arts na Inglaterra, é artista plástico e Doutorando na European Graduate School e na Universität der Künste Berlin. Atua nas áreas de pintura, filosofia, mídia e comunicação e atualmente vive e trabalha em Berlim
onde desenvolve projeto de pesquisa sobre a obra e o pensamento de Vilém Flusser junto ao Acervo Vilém Flusser com a orientação do Prof. Dr. S. Zielinski.
Em 2011 publicou em New York, pela Átropos Press, sua tradução da primeira versão em inglês da obra Vampyroteuthisinfernalis de V. Flusser.

www.posteverything-neonothing.com

 

 

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OS CICLOS SATURNINOS E O REINADO DE URANO por Susie Verde

Saturno é o senhor do tempo e do seu desenrolar cíclico, que envolve a todos, em nossa experiência terrena. Saturno, pai de Urano, de acordo com a lenda mitológica, é um Titã que come seus filhos sem piedade. Sua lei é soberana, na imutabilidade dos desígnios Divinos sobre a pequena vontade humana.
O tempo, assim como Saturno, parece nos engolir em sua vontade unilateral. Queiramos ou não, a existência humana é definida e limitada pela dimensão temporal, desde o dia de nosso nascimento até o momento de nosso desenlace terreno. Carregamos os reflexos de todas as primaveras vividas em nossos corpos e faces, em um processo natural da trajetória humana durante uma vida. Como prêmio, os anos vividos nos oferecem as preciosas chaves para o sábio viver e para a descoberta de níveis de verdade totalmente desconhecidos para o jovem inexperiente.
Como um sábio mestre, Saturno nos ensina a desenvolver nossa capacidade de discernimento e apreciação da vida, a partir de vários ângulos. A maturidade nos revela a certeza de que tudo acontece a seu momento próprio, sem que possamos adicionar um dia sequer às nossas vidas. Por isto, o tempo de Saturno é sagrado, pois nos ajuda a ver aquilo que antes era invisível aos olhos a partir da experiência pessoal através do tempo.
Sob sua influência, somos convidados ao trabalho em direção ao que podemos conquistar e a aceitação daquilo que não podemos   modificar. Os ciclos de tempo saturninos, sempre mais lentos do que gostaríamos, nos ensinam a paciência necessária para que nossos esforços individuais possam gerar frutos de vitória.
A história da cigarra e da formiga é um exemplo clássico do tempo de Saturno, quando nos remonta a questões ligadas ao esforço necessário para que, em tempos de inverno, o bom trabalhador ( Saturno) tenha a casa abastada. Aqui, o tempo é linear e lento, preenchido com trabalho árduo e longo. A lei de Saturno é árdua e severa, não deixando margens para momentos de contemplação não produtiva. A mensagem é que somos vítimas da lei de ação e reação imutável, em um modelo de realidade que exclui completamente o fator mágico ou inusitado.
Entretanto, ao contrário da mensagem restritiva deste conto, há quem diga que a cigarra, na verdade, nunca perdeu tempo explorando sua arte e respondendo ao chamado da sua alma. Nunca saberemos se, de fato, ela passou fome no inverno ou se alguma alma pródiga, que passava na rua no momento certo, a convidou a estrelar um show na Broadway. O que significa, de fato, ganhar ou perder tempo? Como podemos quantificar a relação entre tempo e produtividade?
A verdade é que estamos adentrando, neste momento, um novo paradigma do tempo e da ordem mundial. Neste novo contexto, ao invés do tempo linear, tudo flue de acordo com uma nova lei: a sincronicidade. Acontecimentos se desdobram de maneira espontânea e o ritmo da vida é acelerado. Pessoas ligam, logo após pensarmos nelas e os problemas se resolvem de maneira fantástica, pela metade do tempo que levaríamos para procurar a sua solução. Isto não é apenas uma coincidência!

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Estamos entrando no reinado de Urano, ligado ao plano mental superior, aonde a mente adquire um papel de importância extraordinária e o tempo de Saturno passa, em muitos casos, a ter importância relativa. Como continua o mito, Gaia, a mãe de Saturno pede a seu filho  que, num momento de distração do pai, corte os genitais do seu  pai.   Do esperma de Urano  derramado nas águas do mar, nasce Venus, a deusa da beleza.O dualismo entre pai e filho é superado pelo elemento feminino, subjetivo, e, nas águas do inconsciente coletivo, nasce a mais bela das criaturas, Venus.
Este mito parece nos ensinar que, mais do que um fator determinista, a energia do modelo Saturnino é um portal a ser superado, a partir de um novo paradigma de realidade. Neste processo, somos convidados a adotar uma atitude individual e corajosa em direção a nossas próprias verdades, livre do domínio paternalista de Saturno.
Através do novo paradigma do tempo percebemos que os ciclos passados de vida, embora verdadeiros, muitas vezes nos fazem prisioneiros do tempo e de um determinismo restritivo. A onda energética Uraniana nos oferece ferramentas que auxiliam na mudança de percepção do tempo linear, assim como a habilidade de lidar, de maneira criativa, com seus ciclos a partir da perspectiva do eterno presente.
O famoso autor alemão Eckhart Tolle, em seu livro best seller “O Poder do Agora”, divulgado extensivamente pela apresentadora Oprah Winfrey, nos recorda o inestimável valor do momento presente. Ele nos diz: “A mente, para garantir que permanece no poder, procura constantemente encobrir o momento presente com o passado e o futuro e, assim, ao mesmo tempo que a vitalidade e o infinito potencial criativo do Ser, que é inseparável do Agora, começam a ficar encobertos pelo tempo, também a sua verdadeira natureza começa a ficar encoberta pela mente.”
A partir desta perspectiva, somos convidados a trazer o poder de nossa consciência para o único ponto realmente existente no Universo- o Eterno Agora. Urano nos traz a capacidade de nos posicionarmos de maneira dinâmica neste ponto de consciência, que nos permite perceber a vida com mais fluidez e força. Assim, a cada dia, vivemos a Eternidade, assumindo posturas cada vez mais alinhadas com a última versão de nós mesmos.
Saturno e Urano sempre existirão como em um eterno romance entre o velho e o novo, entre o rápido e o lento, entre o pai e o filho rebelde. Longe de nos prender a modelos obsoletos, o tempo Saturnino nos acondiciona e nos oferece a sensação de pertencermos a algo maior do que nós mesmos- a tradição de nossas raízes. Se elas forem bem plantadas e sólidas, estaremos prontos para os ventos uranianos do Novo Tempo, que com sua rapidez, nos oferece a oportunidade do recomeço a cada novo ciclo e cada amanhecer.

 

Susie Verde é astróloga profissional há mais de 20 anos, membra da associações britânica e americana de astrologia, e do Sinarj, Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro. Susie é palestrante internacional, tendo apresentado trabalhos de astrologia em conferências na Europa, Estados Unidos e Australia. Atualmente, oferece atendimentos via Skype para clientes de vários países a partir de sua casa, em Boulder, Estados Unidos, e está trabalhando em seu primeiro livro a respeito de Fé, Cura e Ciclos de Vida. Seu e-mail para
contato é [email protected].
Renata Har

1a+ = 1a- por Renata Har

 

Peguei o metro para chegar em casa.  O banco ainda  estava quente do calor do passageiro anterior . Para  chegar a  essa casa  tive que pegar trem,  avião  e  carro. Navio ainda não.
Fumei ( materializei com fumaça o ato invisivel e aéreo da respiraçao),
Andei (ação que contém o passado, o futuro e o presente em si),
Tomei uma coca cola (para me localizar em um momento histórico mais preciso).
O metro era daquele tipo inteiriço, sem vagões, então quando olhamos  para frente,  se estivermos sentados no sentido oposto de onde  o trem avança, podemos ver o percurso feito pelo trem se afastando rapidamente.  Sem controle algum. Um a mais é um a menos.

Tudo aquilo que estimamos pode perder a importancia e parar de existir em um  segundo. Seja pela relativizaçao, pela violência, pela sorte, ou  pelo tempo.
A relativizaçao  do mundo me leva ao nada, assim como a morte. A  resposta  “porque não” continua inexoravelmente presente para explicar a vida.
A materia viva e  sua transformaçao em alguma coisa insignificante. A eminencia de um fim presente em cada objeto, sentimento, pessoa. A concentraçao do tempo em nós mesmos, nos lugares, nas relaçoes.

Cada gesto é um formigueiro. A impossibilidade, as potencialidades. O que me aflige é a aridez.
O banal com a  qual nossa vida se confronta, e que acaba sempre por ganhar.Progressao,  tentativa, erro.  Tudo vai desaparecer. O confronto com esta ideia me leva a criar.

 

Renata Har é brasileira e nasceu em 1981. Em 2005 se mudou para Paris e  formou-se em Artes Plasticas na Ecole Nationale Superieure de Beaux Arts no atelier de Christian Boltanski. Seu trabalho é livre de categorizaçoes e busca a contaminaçao dos meios. A artista produz instalações, desenhos, videos e livros de artista, explorando seus limites e buscando intersecções entre eles.
Desde novembro vive e trabalha em Berlim integrando o coletivo de arte AGORA. A artista que já expôs em Sao Paulo, Paris e Nova Iorque acaba de abrir sua primeira exposiçao individual The Non Spectacular Please em Berlim.

www.renatahar.com

 

 

 

 

 

Fernando Araujo - futebol (2)

A FILOSOFIA DAS CHUTEIRAS por Claudio Mello Wagner

 

 

Vou fazer uma revelação: Henri Bergson jogou  futebol. E mais, jogou no meio de campo, aquela zona da cancha onde o cérebro  intui, reflete e calcula o lançamento preciso e fatal. De resto, o futebol são  músculos e pulmões cumprindo seus desígnios. Não fosse o futebol, e Bergson jamais teria feito a distinção entre tempo e duração. Me explico.

Passei minha adolescência e juventude  correndo atras da bola, das meninas e do rock and roll. (As meninas e o rock,
deixo para uma outra oportunidade). Enquanto corria, vivia uma experiência  inusitada com o tempo. Nas peladas (ops! meninas e rock, depois), o tempo só  contava quando o zelador da quadra apagava os refletores. A intensidade e a  duração eram prazerosamente eternas. Já nos jogos de taça …

Quando o senhor de preto apitava, corriam os  jogadores, corria a bola, corria o relógio. Todos em direção à fatalidade: o
fim do jogo. Apesar disso, a duração do tempo variava, dependendo de como  andava o placar. Era só estarmos ganhando fácil e o tempo passava rapidão.
Ganhando suado, parecia a fila da vacina na infância: um suplício interminável.
Quando as coisas não iam la muito bem, negociava com Cronos e pedia só mais uma  jogada (como o cavaleiro d’O sétimo selo). Agora, quando estava tudo pra la de  ruim, queria mais é que o tempo passasse logo e acabasse com aquele vexame.

Aos poucos fui aprendendo que o prazer do  jogo está na sua duração. E que o resultado é mera distração para a platéia.Também
aprendi que quem entra em campo, saboreia a intensidade e a duração de estar  vivo. E quem não entra, aplaude e vaia, se orgulha e se envergonha, da vida dos  outros!

Deixei de lado os jogos oficiais e hoje só  jogo peladas. E pra mim pelada é coisa séria, onde só participam os amigos  compromissados com o prazer da ética e da estética de mais uma bela jogada. Até  que o zelador apague as luzes…

Em tempo: Não sei se Bergson jogou na  seleção da França, mas no campo da filosofia ele bateu um bolão!

foto Banner: Fernando Araujo

 

Claudio Mello Wagner é psicólogo, Dr.  em Psicologia Clínica, Psicoterapeuta.
Autor dos  livros: Freud e Reich: continuidade ou ruptura (Summus);  A Transferência na clínica reichiana (Casa do
psicólogo);  Futebol e orgasmo (Ed. do  autor).
[email protected]
 (11) 36756144

Andre feliciano Jardineiro

O TEMPO DA NATUREZA QUE FOTOGRAFA por André Feliciano Jardineiro

 

 

Posar significa “se relacionar diretamente”.
Quando posamos para uma câmera fotográfica, geralmente paralisamos –  sorrimos e esperamos -, pois a imagem resultante também será paralisada. Quando posamos para uma câmera de vídeo, ao contrário, posamos em movimento – acenamos, falamos alguma coisa -, pois a imagem resultante também será em movimento. De certa forma quando posamos para algo, tentamos nos relacionar diretamente, imitando a linguagem daquilo que estamos posando para.

 

 

Nesse sentido,   quando a natureza nos fotografa, como que posamos para ela? Será que tentamos imitar a linguagem da natureza  para nos
relacionar diretamente? E assim, tentamos descobrir o que de natureza humana temos?

 

Essa  natureza que nos fotografa não nos paralisa. Ela nos fotografa mas não registra  nossa imagem. Ela nos fotografa e apenas está ali, criando uma oportunidade para sermos fotografados naturalmente: como não há uma imagem resultante, ela não nos julga e apenas se oferece para registrar toda nossa poesia.

Quando uma natureza desse tipo nos fotografa o tempo não para, mas continua. Pelo contrário, quando somos fotografados por algo que estimula nossa natureza, o tempo aumenta junto com toda poesia que desse encontro brotou!

André Feliciano Jardineiro
Sou jardineiro de arte.No campo das artes existem várias profissões, como historiador, critico, artista e jardineiro. Cada uma tem uma relação específica com o tempo da arte. O historiador estuda o passado da arte, o crítico utiliza os conceitos estabelecidos durante a história para analisar o presente da arte, o artista produz a contemporaneidade da arte, e o jardineiro cultiva o futuro.
Então, eu cultivo a arte da atualidade para que um dia possa brotar uma arte “pós-contemporânea”, Florescentista.