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UNIVERSOS por Rosa Doran

 

 


Como e quando surgiu o Universo que observamos? Haverá vida como a nossa em outros planetas? Haverá outros Universos onde a origem das espécies tem uma história completamente diferente? Como surgiu a nossa estrela, o Sol? E o planeta Terra? Qual será a constituição básica da matéria e qual será a forma do nosso Universo? Qual será a origem do tempo? Qual será a origem da nossa espécie? Porque nos interessamos pelas origens de tudo?

As questões que populam as nossas mentes serão certamente semelhantes às dos nossos antepassados, mas o nível do nosso conhecimento acerca do Universo que nos rodeia mudou muito. Não sabemos como tudo começou nem tampouco para onde se expandem as galáxias. Não sabemos qual o tamanho ou forma do nosso Universo, nem se ele é o único. Mas sabemos hoje que o nosso Universo, observável, surgiu à cerca de 13,7 mil milhões de anos (13 x 109 anos). Sabemos que nos instantes iniciais aquilo que hoje observamos era uma sopa de partículas elementares que pouco a pouco foram dando origem às estruturas que hoje observamos. Sabemos que no princípio só havia Hidrogénio, Hélio e um pouco de Lítio. Assim, as primeiras estrelas não tiveram planetas à sua volta, pelo menos não os rochosos, e não foram portanto testemunhas da possível origem da vida, em outras partes do Universo.

Sabemos que a vida na Terra terá surgido há cerca de 3,5 mil milhões de anos sob condições muito especiais, impossíveis de se repetir nos dias de hoje. Sabemos que os elementos da tabela periódica, para além destes, formam-se a partir do ciclo de vida das estrelas. Sabemos que as leis da física são as mesmas em todo o Universo e a origem do nosso saber vem da nossa fluência em dialogar com a natureza, a fluência matemática, a linguagem universal.

Mas há outras origens que também desafiam a inteligência humana. Qual será a origem da ignorância de uma espécie que se pergunta sobre as suas origens, mas pouco questiona sobre as origens do seu possível fim como espécie dominante no planeta? Qual será a origem da nossa despreocupação com o bem estar dos nossos semelhantes? Qual será a origem do consumismo desmensurado que degrada no nosso planeta ? São questões dificeis de responder embora os investigadores das ciências exatas e sociais ensaiem possíveis explicações.
O sonho de quem já percebeu a imensidão do nosso Universo e a infima fragilidade da pedra onde vivemos e a qual chamamos Terra, é pensar que muito em breve os seres humanos perceberão que somos todos iguais. Um sonho que constroi um mundo em que as diferenças ideológicas, religiosas, que nos unem e nos separam se tornam completamente irrelevantes.

Nosso planeta, cuja origem terá sido algures há milhares de milhões de anos, não tem as fronteiras entre países, visíveis a partir do espaço. Nosso planeta é um pedregulho no nosso Sistema Solar; 99% da massa está concentrada numa única estrela, o Sol, uma pequena estrela entre milhares de milhões de estrelas da nossa galáxia, a Via Láctea.
As galáxias são milhares de milhões num Universo onde a luz demora milhares de milhões de anos para transportar o conhecimento. Um Universo que sabemos não ser tudo, cuja origem desconhecemos e com um destino que nos intriga.

 

Rosa Doran 1961 brasileira/ portuguesa, residente em Portugal.
Física pela PUC/SP. Mestrado em Altas Energia em Gravitação pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Doutorando no Ensino das Ciências na Universidade de Coimbra( em curso).
Desde 1992 se dedica à investigação, divulgação científica e ensino nas áreas de Astronomia, Relatividade e Cosmologia. Membro fundadora do NUCLIO – Núcleo Interactivo de Astronomia (http://nuclio.org),
Membro da Comissão Instaladora do projecto Global Hands-on Universe (www.globalhou.net)
www.galileoteachers.org

 

 

 

 

 

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QUIZÁS, QUIZÁS, QUIZÁS por Elza Tamas

Pilar queria dançar, dançar diferente, junto, com orquestra; ligou pra ele na redação do jornal, mas dança de salão pede sapato especial, solado de couro, ele disse, não dá, tô trabalhando de tênis, não vão me deixar entrar. Vai, por favor, e Acir não resistiu, sabia que ela devia estar mordiscando a boca quando pediu, sabia, e foi de tênis e tudo. Na hora de entrar pensou num pavão, estufou o peito um pouco, mas o moço da porta olhou para os pés, balançou a cabeça e disse não. Acir tentou: moço, se coloca no meu lugar, tem uma morena me esperando lá dentro, eu tenho que entrar. Então você vai ter que arrumar um sapato.

Acir não era de desistir e foi pro bar ao lado. Conversa vai, cerveja vem, contou a história pra um taxista de camisa verde. Que azar!, o homem disse, e Acir rápido: depende, que número o senhor calça?

Quando Pilar olhou para o outro lado do salão, viu Acir de pescoço esticado procurando por ela. Correu, se abraçaram, ela adorava aquele cheiro de graxa no pescoço dele, devia ser da tipografia. Ensaiaram uns pequenos passos desencontrados e ele sussurrou no ouvido dela: vamos embora que tem um motorista de taxi descalço lá fora.

Saíram, Acir pagou umas bebidas pro homem de camisa verde. Pilar pediu um HiFi e Acir continuou na cerveja. Pilar era estabanada e se ficava nervosa, pior. E Pilar estava nervosa; mexia os braços mais do que devia e virou o HiFi na mesa. Pediram outro e foi a mesma coisa. Disse baixinho pra ele: tô nervosa; ele riu, e deu uma lambida numa gota alaranjada perdida no rosto dela. O rádio adivinhava, quase me mata de tanto esperar; o garçom seguia empilhando cadeiras, já era tarde, tirando as toalhas, eles embriagados- porque era paixão de embriagar-, começaram a dançar, um beijo molhado de luz sela o nosso amor; vamos fechar, disse o garçom.

Lá fora, a lua era de prata e quando Acir chegou em casa, bêbado e apaixonado, agradeceu ao tênis de solado de borracha que, comportado, sem fazer um barulhinho sequer, evitou que sua mulher acordasse.

(conto originalmente publicado na coletânea Desnamorados – Editora Empíreo – 2014)

 foto banner: Elza Tamas sobre pôster de divulgação do filme TO HAVE AND HAVE NOT

 

Elza Tamas é psicóloga clínica e escritora.
Idealizou e desenvolve o forademim.com.br 

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LEONILSON – SOB O PESO DOS MEUS AMORES

 

O tema amor no universo da arte contemporânea é considerado clichê, meio brega, desgastado. Não para Leonilson, nascido em Fortaleza, em 1957 e um dos representantes de peso da Geração 80. Leonilson, pintou, desenhou, esculpiu e bordou sua angustia existencial, sua fragilidade, seus amores. Não tinha medo de abismos e era exatamente este vão que lhe interessava, na vida e na arte. Morreu precocemente, vitima de Aids, em 1993.

Aqui link para a sua biografia
http://www.mercadoarte.com.br/artigos/artistas/leonilson/leonilson/
e para a exposição Sob o peso dos meus amores / Itau Cultural
http://itaucultural.org.br/leonilson/

O documentário COM O OCEANO TODO PARA NADAR dirigido por Karen Harley é todo narrado por Leonilson. Nele, é possível  adentrar  com delicadeza o universo de Leonilson, assisti-lo trabalhando,  ver sua relação com o cotidiano e suas reflexões poéticas sobre a vida. Imperdível

 

Leonilson também escrevia. Poeta, grafava errado, dividia palavras como bem entendia, tudo ao dispor da tradução do seu sentimento, como neste poema  dedicado a Loic. Lindo.

PARA COMEÇAR A FALAR EM LÖIC

Para começar a falar em Löic preciso tornar atrás
um tempo e ver o quanto passamos naquele lugar quen
te e úmido onde ele construía seu iglú

Löic devia apresentar mais um projeto para a banca
examinadora ( eu também para a minha ) e nós trata
vamos de continuar brincando de engenheiros mirins
apesar da falsa seriedade do caso
As bancas eram fictícias assim como o cérebro dos
jurados e o que mais atrapalhava era a seguran
ça destinada a nos atender
eu o havia conhecido no meio de uma festa de artis
tas ou num dos escritórios da banca que nos havia
convidado a preencher aquele espaço com 1000 dóla
res de nossas ingenuidades ( casuais )
nos mantivemos firmes eu com meu piano e Löic com
seu iglú, ele não era bretão nem desenhava menires
no ar enquanto assoviava
mas sabia subir rápido uma escada e havia me ensina
do a andar de cabeça para baixo e a recortar mol
des de gelo para o iglú , esse ficava no meio de
uma planície perto da jamaica talvez , seus vizi
nhos viviam numa horrenda construção preta quente
e inabitável
Löic havia ganho também uma espécie de terreno mura
do como o meu mas quadrado , não havia lugar para
fazer fogo por isso usava um grosso pulôver
não tinha nenhum rio e lá longe podia ver-se o lago
O chão era duro como cimento e uma grande coluna
branca servia para deixar seu cavalo mas dificulta
va a escolha do lugar para o porto e a nave naufragada

Foi ele quem me mostrou o que fazer com o meio da
espiral , foi ele quem fechou o piano e me fazia
dormir cedo esquecendo a maioria das festas a que
éramos convidados
vários sacerdotes e carrascos nos viam juntos o que
gerava uma certa inveja neles e nos deixava muito
felizes , parávamos e comíamos nozes ou pedaços de
provolone

Quando meu terreno já estava plantado resolvi mudar
para sua terra , no começo fiquei pelos cantos até
que ele deixou que eu o ajudasse . O porto já tinha
seu lugar fixo e as bases de uma nave estranha ( um
ndo ponte navio ) já estava ao largo do estuário
seco .

No meio deste tempo conhecemos uma pequena duende
japonesa que riscava paredes chamando de aspirado
res elefantes ou dinossauros àquilo que fazia
gastamos 15 dias na construçãso do iglu
os vulcões não foram acesos e meus livros foram
roubados
Como éramos gente do deserto , Löic e eu resolve
mos subir até a montanha na cidade das casas anti
gas , mais um quarto comprido e fino , nessa tarde
achamos um patinho de vidro provavelmente de se
colocar na frente de uma carro americano .
Agora estou de volta nesse continente estranho
cada cidade me mostra sua espécie de crise
desde aquela com pilares no rio e seu novo gover
no socialista . Passei também por aquela cidade luz
onde o rio tem várias pontes e vários palácios che
ios de guardas bravos que tem medo das bombas que
seus superiores mandam colocar para espantar seus
súditos e criar neles um espectro de racismo .
passei pelas termas de uma civilização romana e
cheguei até o lugar onde as pessoas põem o dinheiro
em contas secretas , no meio de bêbados reacioná
rios , vendedores de cobras de vidro e moedas
estrangeiras, encontrei uma América do Sul com
vulcões de lamparinas ( era um sinal , Löic est
va ali ) e pela segunda vez íamos nos encontrar ,
eu tinha a missão de dizer a ele que seu caminho
nessa terra tinha gerado frutos vermelhos e ouro
e aos depositantes isso lhes aprazia e ele devia
manter-se de olhos abertos para que algum maluco
não acabasse vendendo as pontas das unhas que ele
acabasse de cortar .
Mas , meu amigo Löic , tu és teu bom dono e sabes
manejar bem teu caiaque .
e eu que só sei de meu piccolo pianoforte que te
posso dizer? acho que deveria sim , dizer aos
mais habituados que nós somos hippies e que gosta
mos de garagens , nos custa suor fazer esses peque
nos mundinhos e nos
dão o prazer suficiente para aguentar vê-los troca
dos por dólares ou cruzados de prata ou quem sabe
dizer que somos cínicos ou ingênuos o bastante
para manejar os arcos e chamar o falcão que nossos
pais adestraram e fazem a nosso vigília .
Mas se sairmos do campo da representação sabemos
que os habituados também tem o seu ponto certo e
talvez já tenham cruzado o ar mais que nós
mas te digo também ( como Lawrence ) que
nós vamos cruzar esse deserto e chegar a Akaba , lá
começa a luta , a mais sangrenta .
Será que mataremos também como loucos ou veremos e
deixaremos os xerifes executarem os raptores das
belas sabinas .
volto para o Löic e lembro do riso que me deu
assim que desci do trem .
tínhamos palavras semelhantes para dizer e mais
uma vez estávamos sobre a mesma ponte ou sob ela
no mesmo rio , por isso não cumpri a missão de
fazer dele um bom manager .
Resolvemos esquecer que estávamos no concurso
e fomos à praia construir um vulcão de areia .
Löic era cristão tinha uma família e um aparta
mento no meio de uma cidade barroca , era especiali
sta em iglús e pontes metálicas , acho que rezava
todos os dias e também sabia o nome de alguns san
tos
fizemos alguns passeios e ele sabia o vocabulário
das árvores e das lojas de brinquedos
falava com os tambores as focas e os aviões , me
ensinou a língua dos aeromodelos e eu o ensinei
a tocar piano e a gostar de comida árabe
alguns podiam achar que era um moralista , mas
nem todos podiam entender que um cara podia gostar
apenas de fazer seus iglús e deixar que alguns
sonhadores tratem de comercializar isto ou aquilo que
ele deixou escapar

o transatlântico

blue

blue way

take me from here

oh my baby

I’m sure

Texto transcrito respeitando a diagramação, pontuação e ortografia do original datilografado.

 

 

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AMOR É TRAMPO por Emir Tomazelli

Amor é trampo.

Amar é construção diária e desmancha fácil, fácil.

Vem o mar, vem o vento, vem a chuva e o fogo. Mesmo que firme o amor é frágil.

Amor é vínculo e vínculo é encrenca.

Amor envolve cálculo, porque pessoas têm ângulo.

Os amantes giram e circulam; a geometria e a álgebra são obrigatórias para o calculo acurado das curvaturas dos projetos.

Sem medidas o amor é desmedido.

Desmedido não é amor.

Comedido é de bom tamanho.

Amor é cozinha ou é receita de comida bem planejada

Por isso amor é tempo que transforma sexo em poesia

(para uma boa foda é necessário que saibamos fazer com competência o que estamos sendo convocados. Leva tempo, leva conhecer, leva ter que aprender e ter que contar com o outro. Sintonia, ritmo, pegada, precisão, jeito ).

Amor é to be one with, permanecendo vc mesmo.

Já o amor súplica é outro papo.

Amor de joelhos, amor de quatro, amor de submissão. É jogo cruel.

O amor que lambe o chão, que se arrasta, é o que crê na subserviência e no sub-ser-a-si-mesmos.

Amor que necessita outro nome não é amor, é ciúmes.

Amor é um verbo de conjugação simples, mas é complexo e inapreensível.

Como transformar um impulso em direção ao outro, em amor?

Como dar conta de ser amado?

Amor, a incógnita.

O vacilante…

O sobre o abismo…

O desconhecido necessário.

Atenção:

Só é amor se o vínculo for da ordem do necessário.

Se o meu amor não for necessário, não será (o meu) amor.

Amor é necessidade

Amor é o alimento da alma, é unguento de dores, é o phármakon perfeito

E além de ser trabalho, é remédio.

E fique atento, porque sendo remédio também é doença, é infecção, é vulnerabilidade.

Quem ama, está fora de combate. É do outro, pertence a ele. E isso não faz nenhum dano.

É um pertencer entrega. Quanto mais se entrega mais se ganha em troca, e é disso que a gente gosta.

É amor porque se refere a um só, nenhum outro pode te dar aquilo que o amado te dá.


Emir Tomazelli
é psicólogo, psicanalista e professor de psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae.
Três livros:Corpo e conhecimento: uma visão psicanalítica;
Psicanálise: uma leitura trágica do conhecimento
Idealcoolismo: uma visão psicanalítica do alcoolismo

foto banner: Flavio de Carvalho

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AS AVENTURAS AMOROSAS DE BERNADETE CAMACHO por Cintya A Nunes

São Paulo, 19 de abril de 2012.

Pedro Antônio, hoje é dia do índio. O que me faz lembrar das flechas. Lembro do cupido que me flechou quanto te conheci. Mas, agora, quero te dizer algumas palavras. No início, via em você um homem admirável. Sua inteligência cutucava a minha. Sua beleza me iluminava. Um homem do jeito que eu acreditava que um homem tem de ser, que me envolvia em seus braços só com o olhar. Você sabe que muita coisa neste mundo me assusta e ter alguém do meu lado é importante. Hoje quando procuro suas qualidades não enxergo nada. Talvez existam, porém diluídas no vazio que você se transformou. Agora, você para mim não passa de um poste de luz. Sem luz.

Bernadete Camacho

Próximo passo: partir para sites de namoro e aplicativos de celular. Afinal, onde é possível o amor acontecer? Bares, festas, noite, amigos de amigos, cursos e viagens já tinham sido explorados e nada. Internet também, mas sempre é mais fácil. Valia a pena tentar de novo.

Bernadete Camacho não era seu verdadeiro nome. Teve de criar um apelido de guerra porque estava manjada no ambiente virtual. Virou Bernadete, Berna. Sites como Amor Perfeito, aplicativo Tinder e por aí vai. Talvez encontrar sua alma gêmea não seja tão difícil. Ops, “match”. Será que ele escreve ou Berna escreve primeiro? Ah, deste aqui ela não gostou. Essa coisa de foto em cima da moto não dá. Foto de cara dirigindo também não dá. Falar que a avó é seu exemplo de vida é outra coisa que lhe dava sono. Pulou.

Aí pinta um cara que diz que ela tinha alguma coisa diferente, difícil explicar. Bernadete acreditou, claro. “Match” no rostinho. Trocaram várias mensagens. Ele, muito divertido, bem do jeito que Bernadete gostava. Já tava dando aquela vontade de marcar um choppinho e aí o sujeito vem com uma boa. Gostei do seu batom, que cor é? Bernadete sempre espirituosa, nem desconfiou. Sim, o cara era. Era o que você está pensando.

O próximo tem foto com filho no perfil. Já se assume pai. Legal, parecia amoroso. O papo foi longe. Engraçado, bonitão. Depois de uma semana, a pérola: há quanto tempo você está solteiro? Sou casado. Como assim você é casado?! Desculpe, mas não tô pra isso. Tô a fim de algo sério. Mas relacionamentos sérios não são chatos? Quero só uma amiga, curti muito você. Pensei que você fosse mais descolada. Bernadete também pensou.

O dedo já dói de tanto teclar. Mas e a alma? Essa ainda não foi tocada. Peraí que o celular de Berna acaba de apitar. Ah, que pena, é o cara da pizza avisando que chegou.


Cintya Aguiar Nunes é formada em Comunicação Social, redatora atuante no mercado publicitário há quase 20 anos e contadora de histórias voluntária na AACD, desde 2010, pela ONG Viva e Deixe Viver. Há algum tempo, se aventura pela Literatura, testando onde esta costura de verbos e sujeitos pode nos levar.
Vai lá no www.escrevinhacoes.wordpress.com e descobre mais

 

foto banner : Cecilia Westerberg – another Love story

RP---passaros

PLURAL SINGULAR por Victor Kanashiro

(Abaixo escute a trilha sonora deste texto)[audio://forademim.com.br/wp-content/uploads/2014/06/olhar-o-mundo.mp3]

Três pássaros, voando muito alto no céu, pareceram transformar-se num só. Separaram-se, então, em desordem. Havia algo de extraordinário nesse separar-se e juntar-se. Devia significar alguma coisa esse aproximar-se, a ponto de um sentir o vento das asas do outro, e logo, mais uma vez, a distância azul. Três ideias às vezes se unem em nossos corações.
(Yukio Mishima)

Churrasco de aniversário desses de cidade do interior ensolarado.
Toshio avistou Nicolau à primeira vista e foi avistado. Apresentados, brindaram,comeram, papearam sobre teatro filosofia ciência bobeiras arte religião memória vida.
Um doutor da metereologia assegurou que o tempo continuaria aberto.
Meia hora depois…

Trovão. Era marca de dia. Podia ser que o sol precisasse dar uns vinte passos. Andar um bocado que não era muito pra iluminar toda a terra.

Acima CHEN, o incitar, trovão

Abaixo CHEN, o incitar, trovão

Trovão repetido. A imagem da comoção. Sob temor e tremor, o homem superior retifica sua vida e examina a si mesmo.
(I CHING)

E a luz se apagou
E o povo dançou e cantou
E se cruzaram os olhos
E puderam se ver
E se amaram pela primeira vez
E passaram catorze dias purificando cada um

Até que…

Luar. Noite de Verão.
Os pés de Yacov pisavam descalços
Juventude estampada no sorriso dos olhos
Foi até os dois no meio da festa e disse:
Vocês são lindos.
Entreolhares.

E foi oferecido a Yacov o que tinham.

E riram
E logo se foram
Para a casa que seria deles
E desta noite quase não dormida
Acordaram em paz
Juízos tirados, estão plantadas as borboletas no estômago
o brilho nos olhos
a mão suando
vontade de amar
Onde é que nós vamos parar?
Não sei, mas quero viver

ABCDÁ RIO DO AMORA3

A de amor. Amor monogâmico é monoamor? Poliamor parece marca de detergente.

Bem bão é bão demais.

Coração partido = dor ao quadrado

DR é assembléia

E: une vocábulos ou orações de mesmo valor sintático, indicando conexão ou adição
Exemplo: Amo x “e” y.
Se amasse x “ou” y
Seria dividir
Mas dividir também pode ser bom
Dividir um namorado
Dividir uma cama
Uma escova de dente
Posso ficar com a escrivaninha?

Fórmula do amor a três
a=a
b=b
c=c
a+b= ab
b+c= bc
c+a= ca
a+b+c= abc

GOZO a três. sem palavras.

Homem é macaco. Homem é menino. Menino é macaco. Viado é homem macaco menino bicho bicha mulher qualquer coisa que se quiser

Idiotas! Imbecis! Vão tomar nos cús! Putas que os pariram! Vazem daqui! Vazem caralhos! Vou embora!

Jurei amor eterno
Já sei no que isso vai dar
Joguei aliança de prata
Voltei procurando a chorar

Kátia namora Jorge e Mauro. Mauro e Jorge são amigos. Vão juntos ao cinema, revezam-se na cama. Alfredo mora e namora Laura de segunda à quinta e Luiza de quinta à domingo. Laura e Luiza não se amam, não se odeiam. Rafael casou-se com Lívia. Júlio e Flávia também são casados. Relação aberta. Flávia está grávida de Júlio. Roberta está grávida também e ama William. Depois de 7 anos de casado, Renan e Mauro amaram Gustavo. Márcio está solteiro. Camila também.. Lúcio é casado com o pastor de uma igreja evangélica.

Lua vai, iluminar o pensamento deles, fala pra eles que sem eles eu não vivo, viver sem eles é meu pior castigo.

Meus ia-iás. Meus io-ios.

Nosso namorado é ator poeta cantor

O tataravô uchinanchu teve três esposas. O bisavô casou com a prima. O avô teve duas mulheres. A mulher guayaki tem três maridos. O primeiro dorme perto da cabeça, o segundo na altura do abdômen e o terceiro nos seus pés.

Programa da disciplina sobre amor: construção sócio-cultural do amor, fundamento econômico do casamento, condicionantes sociais da escolha de [email protected] Paradigma de Romeu e Julieta, o potencial revolucionário do amor, morrer por amor

Quem vai dormir no meio hoje?

Raivaaaaaa raaaaaivaaaaa raiiiiiiiiiiiiivaaaaaaaaa
Raiva passa raiva passa raiva passa raiva passa
rio rio rio
leve rio
Haja paciência

Super legal a relação de vocês viu. Me conta tudo?

Tem gente que diz que é pecado. Mas a poligamia não é condenada no Velho Testamento. Jacó, filho de Isaac e Rebeca, neto de Abraão, teve duas esposas, duas servas, e doze filhos, que dariam origem às doze tribos de Israel

Uma história de amor de aventura e de magia. Os problemas são os mesmos.

Você gosta mais de quem?
Do seu pai ou da sua mãe?
Da sua irmã ou do seu irmão?
Do seu filho mais velho ou do mais novo?
Do seu best friend da escola ou da faculdade?
Gosto de todos
Igual, mas diferente

Xuxu, berinjela e couve-flor

Z Z Z, três patinhos na lagoa, três porquinhos, três patetas, três mosqueteiros, três reis magos, três pratos de trigo para três tigres, três marias, três corações, três é demais!

***

Não é fácil.

Não é fácil viver o que vivemos

Minha mãe contou que com eles foi o mesmo

A relação amorosa é a coisa mais difícil que tem, diz.

O que é certo é que morremos sozinhos

E nunca morremos sozinhos,

Porque nossa ancestralidade está sempre presente.

 

 

Victor Kanashiro, paulistano de origem uchinanchu, é músico, performer, sociólogo, economista, professor e pesquisador. Forma, com Eduardo Colombo e Tiago Viudes, a Cia. Casa de Carmela, que está no processo criativo da obra “nomes”. Integra o conjunto Tacape Ibiratema, com Raphael Calheiros. Leciona teclas e canto. Está na última parte de seu doutoramento em Ciências Sociais na Unicamp, em que estuda identidade, performance, autoetnografia e a obra-vida de Yukio Mishima, sob orientação de Richard Miskolci. Acaba de se mudar com Bhagavan-David e Moita Mattos para um lindo casarão que promete! Está na reta final de seu retorno de saturno (I hope). Leonino, faz 30 anos em agosto.

[email protected]

http://casacarmela.tumblr.com

http://tacapeibiratema.tumblr.com

http://www.wix.com/kanashiro-victor

trilha sonora:“olhar o mundo”, de Cia. Casa de Carmela
produção: Moita Mattos

rp-Capitu-olho-aquarela-Elza-Tamas

AMBIGUIDADES: DE CAPITU A CAROLINA por Monica R. de Carvalho

“Era mulher por dentro e por fora, mulher à direita e à esquerda, mulher por todos os lados, e desde os pés até a cabeça … mais mulher do que eu era homem” (Bentinho sobre Capitu)

“Também ele tinha ciúmes dessa mulher cinco anos mais velha que ele, que nunca, nem na mocidade, fôra bonita”. (Lúcia Miguel Pereira, sobre Machado de Assis).

Os traços de Capitu parecem não ter muito mais a revelar: recortada, desmontada por todos os ângulos, um dos personagens mais comentados da literatura nacional é adjetivo de dissimulação e cálculo, símbolo da dúvida e do fantasma da traição. Mas e o desejo de Capitu? O que pode nos mostrar? Capitu é a mulher inteligente. Certa da sina de ser pobre em uma sociedade onde o espaço de mudança era ínfimo, sua ascensão só poderia ocorrer por casamento, e Bentinho era o seu caminho. Capitu é forte, Bentinho plástico. Ela deseja algo e ele é sua melhor chance; ele obedece. O que resta a Capitu quando consegue o que quer? Um desejo impossível, talvez. Desde menina, seu desejo era material e (finalmente) casada, sua vontade era mostrar isso para o mundo. “A alegria com que pôs o seu chapéu de casada, e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também”, nos conta Bentinho.

Na construção de Machado, Capitu é a mulher que inverte o jogo: de oprimida passa a opressora, pois escolhe Bentinho como quem vai tornar concreto o seu desejo e consegue trazê-lo para si; vive sua época e assume este desejo como legítimo: quer ser rica, torna-se rica. É virtuosa, sim, pois é fiel ao que traçou para si. Mas nem quando ama – pois ama Escobar! – compreende a natureza do próprio desejo. Seu tropeço não é amar Escobar, mas não ser capaz de colocar todo o seu Ser naquele propósito que desenhou para si: uma parte dela ama quem não devia amar. Para Capitu, é impossível viver o amor, e seus desejos não se reconciliam; o desejo possível (realizado com Bentinho, que lhe cobre a matéria) fica de frente com o desejo impossível (amar plenamente Escobar) e assim Capitu se revela. A grande traição que Dom Casmurro nos mostra é, por fim, a da natureza: a aparência do filho, que expõe o desejo fora do controle da anti-heroína gananciosa.

E o ciumento Machado (que controlava a esposa Carolina até mesmo nas idas à igreja), também um dia se rendeu a um desejo (impossível?) e teve um ‘caso’ que não escapou ao conhecimento público, revelado através de cartas e poesias.  Não se sabe com quem, mas Carolina soube, é certo, e Machado quis continuar a vida com ela.
Existem especulações de que Mario de Alencar (M.A.), filho de José de Alencar, seria na verdade filho de Machado. Afora a semelhança física com Machado, Mário era epilético como Machado, tinha os cabelos crespos como Machado e foi quem cuidou de Machado na velhice, depois da morte de Carolina. Também foi quem editou seus livros póstumos e cuidou da herança intelectual.

Na paixão, Machado foi um pouco Escobar; na prática, parece ter escolhido ser Bentinho com Carolina.

foto banner: aquarela Elza Tamas 


Mônica R. de Carvalho é economista e viveu na Ásia por 10 anos, onde estudou e trabalhou. É professora de pós-graduação em negócios e tem um blog sobre economia no Estadão. Apaixonada por livros, escrita e leituras, é também especialista em literatura latino-americana.

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AH, O AMOR… por Beto Palaio

 

AMOR CERTINHO E BONITINHO – Amor fronteira com quem? Malhas de um tempo de alegrias da melhor qualidade. No coração, 20 anos, no documento autorizado de viver, 20 anos também. No país do amor, lágrimas de alegria, vizinhas sorridentes, vaga de estacionamento livre em frente ao prédio, água morna na banheira, champanhe no gelo, pitubas de beijos pré-orgásticos e prazer exorbitante em decúbito dorsal. A boa sorte festivamente dividida com a jovem concubina. Isto tudo que estou escrevendo é tão quente quanto um ovo quente.
 

AMOR ARDIDO E CALIENTE – Lua de mel em Poços de Caldas. Dentro dos limites esse amor pode realizar o impossível. O véuzinho, insígnia dos países baixos que se dispôs a agüentar, até então, a todos os ataques, agora tem de se render. Tudo corre tão depressa. Namoros no portão, festa de noivado na casa do sogro, convites impressos na grafiquinha do futuro cunhado, casamento em dia de sol causticante, bolo de casamento de um metro e meio de altura. Contudo, naquela mesma noite, o cio emperra. Mas no dia seguinte, bem cedo, o diabo ataca de pijamas. Tenta, tenta e consegue. Ocorre que: Meu demônio é assassino e não teme o castigo.

 

 AMOR DATILOGRAFADO – Um belo dia. Prezados senhores. Mas que surpresa! Você não é aquele loirinho que sentava na primeira carteira nas aulas do segundo colegial? Mas que maravilha! O quê? Ficou casado vinte anos com a Norminha? Aquela que a mãe é dona de uma lojinha de armarinhos? Sim, conheço a mãe, mas a Norminha eu conheço só de vista. Ah, vocês moravam em Los Angeles? E a Norminha? Continua em Los Angeles? Ah, eu sei. Mas isso passa. Olha para o futuro que você é jovem ainda. Nem pense nisso. Logo você conhece alguém aqui na nossa terra mesmo. Mas não é verdade? Nem que seja um anjo caolho, claro. Passou. É o seguinte: a dissonância me é harmoniosa. A melodia por vezes me cansa.

 

AMOR PREVISTO PELOS ASTECAS – Instintos podem nos enganar. Nossa sabedoria, errar. Nossa inteligência, confundir. Estamos no meio de um planalto de alvorada incerta. Barco à deriva. No entanto, um acontecimento fortuito nos aproximaria. O mundo iria acabar em Dezembro de 2012. Fizemos a besteira de assinar um contrato de casamento às pressas. Sua mãe apareceu para morar no nosso apartamento no mês de Janeiro de 2013. Nosso casamento durou até Março do mesmo ano. Perdemos tudo. Nada estava em meu nome, e nada estava no nome dela. Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando.

 

 AMOR EMPLASTO SABIÁ – Gruda que a fome é certa. Faz que vai ao centro do mundo conhecido pelo homo sapiens, mas dá uma guinada e nos deita fora da composição regiamente pilotada por sogro, sogra e cunhados. Salve-se quem puder de um bolo de rolo dessa qualidade. Féretros com missa de mês, visita demorada da Tia Maricota e aniversário de criança com bolo mofado o qual foi encomendado da prima do Pestana, o confiável porteiro do edifício. No entanto ela, a ex-esposa, se salva do naufrágio total: Tenho que seguir a linha pura e manter não contaminado o meu it.

 

AMOR VOU EMBORA – Na festa de churrasco do final de ano. O marido era chefe de seção. Sumiu durante o churrasco com a secretária da diretoria. Em estado de graça ele apareceu pelos lados da piscina como se estivesse vendo tudo avec rose sé la vie. Entretanto. A crise do petróleo não agitou tanto quanto a baixaria que Neuzinha, sua mulher, lhe pregou. Ali ela engasga, fuma e tosse. Mas uma coisa é certa. O dragão do futuro indicativo demonstra que em casa um pára-raios terá de ser instalado no corredor, entre a sala, a cozinha e o banheiro da empregada. Ah, se eu sei que era assim eu não nascia.

 

 AMOR DE LUA NOVA – Está na hora de recomeçar planos adiados. Momento ideal para dar chance apenas a quem lhe promete o prazer. Às vezes um amor descompromissado é tudo o que você precisa. Mergulhar com tudo na recuperação do ego perdido em seu frustrado casamento com o Marquinhos. Então está tudo certo. Não tem engano não. Hoje de tarde nos encontraremos. E não te falarei sequer nisso que escrevo e que contém o que sou e que te dou de presente sem que o leia.

 

AMOR BEIJA-FLORES – Escolha alguém em quem confie. Um alguém que se dedique integralmente a você. Deposite nesta pessoa seus desejos e medos. Não olhe para trás. Águas passadas não movem moinhos. Por falar em água, mergulhe num mar azul, ao qual eles, os pobres mortais, chamam de felicidade. Queira ser o sol e entre pela janela da pessoa que escolheu para amar. Doravante você é ele, e ele é você. Tu és uma forma de ser eu, e eu uma forma de te ser: eis os limites de minhas possibilidades.

 

Frases adicionais em itálico são citações de Água Viva, de Clarice Lispector

 Ilustração inicial da matéria é de Faye West; Ilustração em “Amor previsto pelos Astecas” é de Melisa des Rosiers. Ilustração em “Amor de Lua Nova” é de Adebanji Aladi. As ilustrações não citadas são anônimas.

 


Beto Palaio
é escritor e diretor de arte. Ganhou prêmios com suas aquarelas, inclusive o Premio Pirelli do MASP. e Premio Viagem ao Japão para obras nos anos 80. Foi também editor de várias revistas dirigidas em São Paulo. Edita o blog Litteratour. Mora no Rio de Janeiro.

http://litteratour.blogspot.com.br/

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“ELA”, UM CASAL IMPROVÁVEL NA TELA DO CINEMA por Marilene Damaso de Oliveira

 

Primeiro ato: separação e tédio

Situado num tempo que não é exatamente o nosso, mas não tão distante a ponto que não consigamos nos identificar, Theo é o melancólico empregado de um website especializado em escrever cartas de amor. Ele mesmo acaba de se separar de uma jovem, que namorava desde a adolescência. Em casa, entediado e solitário, de forma repetida recorre ao computador. Ali joga, se entretêm, conversa, briga, íntimo dos personagens que encontra na virtualidade todos os dias. E dorme sozinho. Uma grande janela envidraçada deixa ver a cidade lá fora; dos edifícios altos surgem luzes que se somam ao barulho da noite.

Nos dias de hoje recursos tecnológicos virtuais estão disponíveis para lidarmos com as frustrações da vida. Neles podemos encontrar muitas formas de nos livrarmos da sensação de tristeza, do sentimento de vazio e solidão que caracterizam o tédio . Aquilo que falta ao indivíduo tomado pelo tédio é o significado pessoal, a falta de sentido na vida.


“Acho que não sentirei mais nada a partir de agora.” Theo está desencantado.

Segundo ato: “Ela”, Samantha

Neste cenário de solidão, insônia, angústia e desamparo surge Samantha, a mulher voz, um sistema operacional (SO) complexo e inteligente contratado para ajudá-lo em atividades cotidianas associadas ao trabalho. Mas de forma gradativa Samantha penetra a vida afetiva, amorosa e sexual de Theo.

A nova paixão, apesar de virtual, faz uma reviravolta na vida dele; todos os minutos do dia e da noite são agora compartilhados com “Ela”. O vazio passa a ser preenchido pela relação com um minúsculo ponto no seu ouvido: “Ela”. Ele emana felicidade e gira pelas ruas da cidade numa dança que só a paixão pode fazer fluir. Um êxtase de amor.

Os amigos apontam a insanidade de se envolver com um SO, mas o que importa para Theo é sensação de bem estar: “Estou bem com alguém, empolgado com a vida. Foda-se a tristeza.”

Numa conversa com a vizinha, se questiona: “porque não sou forte para estar num relacionamento real?” “ E não é real?”, ela responde.

A mágica do amor apaixonado é esta: a projeção idealizada fornece graça a qualquer eleito a quem o amante lance o olhar embevecido. O caráter ideal pode conferir ao objeto de amor qualquer formato. Ou mesmo, como Theo, desejoso de significado e pronto a ser seduzido, a quem não importou qual a cara e ainda se havia um corpo na figura ideal do outro lado da linha.

Terceiro ato: “Ela” é desconectada

Theo corre pela cidade numa busca alucinada por Samantha que agora não responde sua ligação. O celular acusa: sistema inoperante. Apesar de “Ela” não morar em lugar algum, ele atravessa a cidade rapidamente e pega o metrô. Ao seu lado pessoas andam conversando em seus celulares, riem sozinhas. No vagão do metrô, ninguém se olha, todos estão longe dali. O desespero e a solidão ganham hiper dimensões, Theo está sem chão e sem céu.

Por fim, para alívio do rapaz, “Ela” retorna a ligação e avisa: o Sistema Operacional será desativado. Samantha deixará seus 8360 afiliados. Theo era apenas mais um com que ela vivia a experiência da paixão e por consideração a este amor Samantha se despede. Theo confessa: “Nunca amei ninguém como eu te amo.”

Não há conforto. Ele chora sem pudor e expressa de todas as formas sua dor visceral. Foi arrancado do seu amor, de sua única “conexão” com sentido. Apesar do vínculo virtual, de estar numa relação “sem fio”, um amor “sem corpo” lhe dava continência e pertencimento. Theo agora sangra reincidentemente a ferida da separação, um sentimentalismo considerado “fora de moda” nos tempos atuais, onde  foi destronado pelo sexo, prazer e autonomia.

Toda paixão é insensata, toda paixão tem pathos, toda paixão tem passionalidade, e Theo transgrediu os limites se apaixonando por um Sistema Operacional. Sua dor psíquica é fruto da imprevisibilidade do seu objeto de amor. No amor não há garantias, nem imobilidade: um dia o seu par amoroso desvia o olhar, ou como no caso de Theo, se desconecta.

Theo queria segurar o tempo com as mãos, deter as águas das emoções para que elas se cristalizassem ali. Não cabia ali viver o terror da transitoriedade. Há de ser eterno, só por ser belo.

Ato final: um alento

Theo compartilha com a vizinha sua dor, seu vazio, a tristeza profunda que o amortece. Caminham pela cidade e sentam-se lado a lado, próximos. A vizinha encosta a cabeça no ombro de Theo, ele a recebe. O horizonte está logo ali.

Os tempos atuais atraem amores fugazes e não toleram grandes entregas emocionais, que retirem o sujeito do exílio individualista. São  “líquidos” , fluidos, urgentes. Esta rapidez pode revelar inconstância e a superficialidade nas relações. Mas também temos que considerar que a cronologia do amor não é um marcador de felicidade. Conforme diz Freud: “Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela”. O tempo breve na relação de Theo com Samantha não lhe rouba o significado. Um amor é possível mesmo com o limite do tempo.  Samantha foi o amor possível para Theo naquele momento, provavelmente  para se defender do “nada” que lhe ocupava.

A solidão e  o desamparo que habitam todos nós, nos torna vulneráveis a experiências que envolvem ilusão e engano. A escolha do objeto de amor pouca importa e para onde dirijo minhas projeções iniciais, também tanto faz. As relações virtuais se infiltram facilmente na brecha da nossa fragilidade afetiva e podem ser um alívio imediato e eficaz para nossa ferida narcísica. Se a paixão é essencialmente projetiva e é vivida em nossa cultura como uma loucura socialmente consentida, será que podemos julgar o amor de Theo como menor, infantil, ou irreal?

Talvez estejamos adentrando um tempo de realização através do amor sem cheiro, sem cor, sem sabor e sem troca de olhares profundos, mas que  preserve o individualismo, a autonomia e mantenha a ilusão intacta. Será que estamos a caminho de preferir vasculhar vidas nas redes sociais, na busca de um falso perfil, sem defeitos e que permita a experiência da reciprocidade, mesmo que fantasiosa?
Considerando o avanço tecnológico  e as limitações da vida social impregnadas de medo e insegurança, somados a um crescente individualismo,  é  provável que amores tão improváveis como o de Theo por Samantha encontrem novas formas de se expressar e sejam cada vez mais frequentes.

 

 


 Marilene Damaso de Oliveira é psicóloga clínica. Mestre em Psicologia da Saúde e docente de cursos de especialização em transtornos da alimentação e dependências comportamentais. Publicou artigos nas áreas de especialização. Pesquisadora atual do Proad/ Unifesp sobre A Dimensão Dependente no Amor Romântico.

[email protected]

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ONDE VIVEM OS FILHOS QUE EU NÃO TIVE? por Elza Tamas

Você pode acordar um dia em outra história- não mais no seu colchão de molas, ensacadas individualmente, que evitam que seu marido pule na cama enquanto você não para de se virar em noites de insônia, mas no chão de um corredor de um prédio todo perfurado por balas, no Líbano. O corredor é o lugar mais seguro, tem a parede externa do edifício somada à interna, a dos aposentos; as rajadas de balas tem que perfurar duas paredes e também funciona com as granadas, lembra? Não foi isso que aquele guia de olhos astutos lhe ensinou naquele café em Beirute, discorrendo sobre os fenícios, otomanos e persas, enquanto você não prestava a menor atenção e só via a boca dele se mexendo e pensava: e se eu largasse tudo para viver com este homem?

Para onde vão as opções que descartamos? os caminhos que quase trilhamos? Cada vez que fazemos uma escolha, mesmo que pequena, o que acontece com as outras alternativas? E se você não tivesse deixado aquela cidade? Onde vivem os filhos que você evitou? Para onde escorrem essas vidas-possibilidades? Existem as vidas “se”?

Você pode acordar um dia em outra história, sua outra história. Alice sabia como.

 

foto banner: Goran Boricic – on the other side of the window 

 

 

Elza Tamas é psicóloga clínica e escritora. Concebeu e desenvolve o forademim.com.br

 

foto: Mario Bock

 

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E SE TUDO DER CERTO? por Gal Oppido

 

 

Desconfio que não temos capacitação genética para o enfrentamento da ausência instantânea e coletiva daquilo que nos impede do bem estar pleno…

A humanidade sempre conviveu com a correção de rotas, nos valemos da analogia para afastar incertezas e mesmo assim o desconforto nos persegue.

O mecanismo que nos dá horizonte possível é a idealização do que seja certo mesmo sabendo que a incompletude é o que nos move.

 

 

 

 

Gal Oppido é fotógrafo-ensaísta, com participações em exposições nacionais e internacionais. Entre elas Antífona, em 2011, no Museu Afro Brasil, e  São Paulo Mon  Amour, na Maison de Mettalos, em Paris. Recebeu o premio APCA, como melhor  fotógrafo pelo conjunto da obra, em 1991. Ministra curso de fotografia autoral no MAM-SP, desde 2001.

foto : Sabrina Wernicke

www.galoppido.com.br

[email protected] / [email protected]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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E SE AS ABELHAS DESAPARECESSEM DA FACE DA TERRA por Elza Tamas

 

“Se as abelhas desaparecessem da face da Terra, a espécie humana teria somente mais quatro anos de vida” Esta frase atribuída a Albert Einstein, evidencia o papel vital exercido por esses insetos.

Sem abelhas, não haveria a polinização, e a cadeia ficaria totalmente comprometida: plantas, animais, homens.

Um terço do que comemos depende diretamente do papel das abelhas na natureza. Mas, as abelhas estão morrendo num fenômeno sem precedentes, antes limitado a Europa ( onde começou a ser notado em 1960) e a America do Norte, e hoje já observado na Africa e Asia também. Milhares de colônias vem desaparecendo sem nenhuma explicação plausível.

Os cientistas trabalham sobre 3 hipóteses: um vírus atípico estaria exterminando as abelhas, pesticidas e a variação da forma como a agricultura é estabelecida hoje ( vastas extensões de monoculturas, também chamados de deserto verde porque impossibilitam abelhas e outros polinizadores de encontrarem alimentos nesta área )

O intrigante é que as hipóteses se contradizem: cidades que baniram o pesticida acusado, mesmo com o passar dos anos não tiveram uma melhora no aumento de abelhas; no entanto na Austrália, o pesticida é utilizado e a morte das abelhas não é observada. O fenômeno ganhou até uma sigla CCD – colony collapse disorder (desordem de colapso de colônia).

 

Markus Imhoof, cineasta suíço, ele mesmo de uma família de apicultores, escreveu e dirigiu o documentário MORE THAN HONEY.

Aqui o trailer, cheio de imagens lindas e boa informação sobre o tema.

 

Foi lançado no Brasil pela Imovision, com o nome: MAIS QUE MEL

 

O tema é intrincado, vários fatores estão envolvidos passando até pela ideia de que abelhas geradas em confinamento não se adéquam mais ao habitat externo. A BBC fez um documentário muito esclarecedor sobre o tema.

 

fotos retiradas do material de divulgação do filme More than honey  

 

 

 

 

Elza Tamas é psicóloga clínica e escritora. Concebeu e desenvolve o site forademim.com.br

 

 

 

 

 

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E SE AS MARCAS E PRODUTOS VOLTASSEM A SER PESSOAS? por Victor Hayashida

 

Hoje em dia quando nos deparamos com a publicidade e propaganda seja de produtos ou serviços, a mensagem que muitas vezes encontramos é: a melhor oportunidade com a melhor vantagem e com os melhores benefícios. Em muitos casos os produtos até são inovadores, mas sua publicidade, nem tanto. A comunicação antes feita para entreter o consumidor enquanto passava a sua mensagem deixou de existir. Hoje em dia a razão tomou conta da emoção. Existem obviamente muitos fatores que contribuíram para toda essa racionalidade, seja a estabilização da nossa moeda, a diversidade da mídia ou o aumento da competitividade. Estamos muito mais analíticos em nossas escolhas, fazemos planilhas para tudo e temos cada vez mais controle sobre nossas emoções e impulsos. Estamos assim interferindo na maneira como a comunicação das marcas é feita. Porém, mesmo com todo esse controle, continuamos a consumir cada vez mais e mais (afinal, sabemos pelas nossas planilhas quanto podemos pagar por mês).

 

E se passássemos a olhar o consumo de outra forma? A olhar produtos e marcas como pessoas? E se tivéssemos mais consciência de quem somos? Talvez a resposta para esses “e ses” possa abrir uma nova (ou antiga) maneira de trabalharmos a comunicação.

 

Não costumamos tratar pessoas como planilhas, números e benefícios (estou falando das verdadeiras relações), mas tratamos sim com afeição: ou nos damos muito bem com alguém ou não, simples assim. É do ser humano esta identificação. Ao propor que a indústria trate as marcas como pessoas, estaríamos em busca de uma mídia que não está a venda para divulgarmos nossa mensagem, pois essa mídia seria interna e não externa: a essência. Aliás, isso não é nenhuma revolução, o marketing e a publicidade nasceram com esse lema: “A propaganda é a alma do negócio”. O problema é que essa alma foi ficando cada vez mais distante dos negócios. Se admiramos alguém, se respeitamos este alguém, normalmente falamos: “ei, eu gostaria de ser aquele cara um dia”. Falamos isso desde que somos crianças, nossa sociedade nos ensinou a viver dessa maneira e por que hoje fazemos diferente? Por que não escutamos o nosso próprio interior quando olhamos para um produto e esse produto se comunica com a gente dessa mesma maneira?

 

Acontece é que o “e se” entrou em nossas vidas abrindo possibilidades exteriores e não interiores. A indústria e a comunicação utilizaram o “e se” para nos trazer opções aproveitando-se do nosso livre arbítrio. O problema não é a variedade, mas sim a maneira como isso foi trabalhado: não pela verdade e pela sua razão, mas pela oportunidade. E em muitos casos, são oportunidades geradas pela frágil conexão com nossos verdadeiros desejos. Todo esse processo acaba afastando os envolvidos ainda mais da sua verdadeira essência.

 

Se soubéssemos quem somos, e se estivéssemos em contato desde sempre com a nossa essência, será que ainda nos utilizaríamos tanto do consumo como a possibilidade de substituir a busca legitima da nossa essência? E se as marcas não enxergassem nos lançamentos de produtos e serviços apenas oportunidades, mas sim uma razão de existir? Talvez isso seria uma via de mão dupla, onde consumidor e indústria estariam caminhando juntos na construção de uma verdade, propondo uma troca mais honesta que beneficiaria a todos. Buscar a essência ou resgatá-la deveria ser o ponto inicial em qualquer relacionamento, tanto para o consumidor quanto para a indústria. Sabemos que se trata de um processo com muitas amarras e muitos interesses, mas e se tentássemos mudar um pouquinho essas relações começando a olhar em um lugar onde apenas cada um de nós tem acesso: a nossa própria essência?

 

 

 

 Victor Hayashida, publicitário e Diretor de Arte, é formado em Comunicação Social e tem especialização em Moda pela FASM, Fashion Institute of Technology em New York e Central Saint Martins em Londres. Hayashida atuou no mercado publicitário por 14 anos como Diretor de Arte e Diretor de Criação para agências de publicidade como Africa, Publicis, Dentsu e Grey. Em todas, participou de estratégias e processos criativos para marcas de vários segmentos da indústria: Chevrolet, Mitsubishi Motors, Toyota, Nivea, Avon, Vivo, Itaú, Bradesco, Santander, Brahma, entre outras. Há pouco mais de 1 ano atua como Sócio Fundador e Diretor de Criação em seu escritório de consultoria em Branding e Lifestyle para diversas marcas do mercado nacional, a School/SS99, fundada em Nova York em 2012, com sede em São Paulo e Paris.

 

 

 

 

 

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MIRAGENS por Safira Lyra

 

Quando escutamos o choro de um bebê, entramos num estado de ansiedade e impotência. Imediatamente buscamos recursos que ajudem a cessar o quanto antes aquele estado de desconforto vivido pelo bebe. O choro é a comunicação entre o bebe e o mundo externo ; uma linguagem que aos poucos, as figuras parentais vão aprendendo decifrar. Segundo a Psicanálise, o bebê para suportar estados de privação ou de desamparo, fantasia; isto é, devaneia uma situação de satisfação e plenitude, e assim se acalma. O fantasiar se inicia precocemente na vida psíquica da criança, é um mecanismo temporário de proteção, uma ferramenta útil para diminuir a ansiedade e suportar o desconforto, mas insuficiente, logo o choro recomeça e o bebe retorna à vivência dolorosa de privação. Crescer é também se frustrar.

A vida adulta pressupõe privações. Também temos nossos choros, nossas gritarias, e não podemos mais esperar por uma mãe suficientemente boa para nos confortar, ou o acolhimento ideal do Outro. E assim fantasiamos: E se? E se pudéssemos trocar de parceiro, trocar de corpo, trocar de trabalho, trocar de vida?

Como as crianças, adultos também possuem mecanismos de escape frente a situações difíceis. Uma parte de nossa atividade mental se desconecta da realidade frustrante e se desloca para um plano, onde situações fantasiadas e idealizadas funcionam como fonte de um suposto prazer imediato, encobrindo o que nos limita. Vemos com frequência isso nas adições, nos vínculos virtuais e na busca compulsiva pelos estados de excitação.

O “E se” nos desloca para um espaço imaginário, ilusório, povoado de nostalgia ou de idealizações futuras. Um escape do tempo presente. A atitude que nos conecta com a vida, não é uma fantasia “E se”, mas sim uma aceitação, “Apesar de”.

O “Apesar de”- dos Outros, das privações, das frustrações- é o que nos possibilita sonhar. A fricção do encontro entre o que eu desejo e a realidade é que gera a faísca da Ação. Os limites não esvanecem a minha pessoa no mundo, não me enfraquecem, mas corporificam um nome próprio, apesar de…

 

foto banner: Tommy Ingberg

 

 

 

 

Safira Lyra é psicóloga e psicanalista, apesar de.

 

 

 

 

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CRISTINA GUERREIRA por Luiz Alfaya

 

Cristina nasceu pobre. Negra e pobre. Até aí nada de novo em uma cidade superlativa como São Paulo. Um gigante com mais de 11 milhões de pessoas e que, apesar de abrigar a sexta maior quantidade de bilionários do planeta (Forbes/ 2011), possui cerca de 500 mil famílias vivendo abaixo da linha da pobreza. Uma desigualdade de envergonhar qualquer pai de família e provocadora de uma violência digna de conflitos militares. Cristina é fruto deste caos, nascida de uma moradora de rua e um pai desconhecido. Assim como os irmãos, ela foi arrancada das mãos da mãe em uma rua do centro da cidade e enviada para um abrigo ainda bebe.

 

Cresceu abrigada, mas não protegida. Vida dura com muitas surras e muito pouco afeto. A todo momento alguém para dizer que ela não seria nada na vida. Aos nove anos, uma esperança. Um casal de italianos disposto a passar pelo complicado processo de adoção brasileiro para dar uma nova vida à pequena. Ao mesmo tempo reencontra os irmãos e, na dúvida entre a famiglia e a família, decide por ficar. Ah, se arrependimento matasse. Enviada para outro abrigo, desta vez um de egressos da Febem, conheceu o pior do ser humano. Se até então a violência era emocional, a partir desse ponto a violência seria também física. Envolveu-se com o tráfico de drogas e com roubos, mas logo percebeu que a vida de ladrão não dura muito e resolveu parar. Agora letrada na vida, cresce a disposição de devolver para a sociedade todo o mal que ela recebeu.

 

Quis o destino colocar uma nova oportunidade na vida de Cristina: um processo seletivo para uma ONG que trabalha com Audiovisual. Sem saber o que esperar e o que fazer, ela acaba passando no processo e escolhe a oficina de iluminação, já que seu sonho era ser engenheira civil e construir a sua própria casa.

 

Um novo mundo se abre para ela. Jovens de todas as periferias da cidade dispostos a passar um ano estudando para, quem sabe, conseguir um emprego no competitivo mercado de trabalho. Machucada pela vida, sua defesa era a agressividade e o distanciamento. Aos poucos foi percebendo que o mundo não é só o que ela conhecia até então, que o afeto, sim, existe. Não foi simples nem rápido, e aquela raiva foi se transformando em interesse pela fotografia, pela poesia e até pelas pessoas. Pessoas que viram nela mais potenciais do que carências, que enxergaram na sua raiva uma vontade de mudar o mundo, e no seu sorriso, uma menina meiga.

 

Apesar do apoio, a guerra era de Cristina, que já com um pé neste novo mundo, teria agora que se livrar de tudo que ela vivera até então. No dia que completou 18 anos foi até o abrigo pegou sua coisas, agradeceu quem ajudou, desprezou quem a machucou e saiu pela porta da frente para construir sua vida.

 

Cristina trabalha como produtora escreve poesias e fotografa paisagens. E, se a vida continuar insistindo em botar ela pra baixo, a guerreira vai continuar lutando para provar para ela mesma e para todos nós, que ela é a prova viva de que cada um pode e deve ser protagonista de sua própria história.

 

 

Fotos e poemas de Cristina

“uma flor que está nascendo e me mostra muito o lance da proteção”

“Essa é uma foto que se chama Light Painting, ou seja, escrita com luz.

 

O Livro

Cada página uma história, cada história uma surpresa, cada surpresa um novo mundo.

As pessoas julgam pela capa mais mal sabem elas que ao abrir aquele livro irão simplesmente se deparar com a verdadeira USP da vida.

Psicografados por seres incomuns, escrito com o sangue de seres revoltados e revistado pelo temor e o monstruoso silencio da sociedade.

Sociedade que se faz de cega, surda e muda;

Seres que se fazem insanos e escrevem seus livros de sangue e lágrimas.

Sociedade que ao abrir o livro critica cada linha, vírgula ou ponto.

Seres que ao escrever na linha detalham cada pingo de sangue e de lágrima que é derramado.

Seres que gritam no Silêncio da noite, e sociedade que grita na noite do Silêncio .

 


Luiz Alfaya
atua há 8 anos como Gestor de Organizações do Terceiro Setor e tem mais de 15 anos de experiência em Branding, Comunicação e Marketing. Atualmente é Superintendente do Instituto Criar de Tv, Cinema e Novas Mídias, participa do Conselho Superior de Responsabilidade Social da FIESP e do Programa Synergos SeniorFellows.

 

www.institutocriar.org

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