Arquivo da categoria: Edição 01: SOM, RUÍDO e SILÊNCIO

emoto

Som, por Elza Tamas.

No princípio era o verbo.

E se o verbo fosse um som, um grande arroto cosmogônico, nascido no fundo do estômago vazio do universo? E se o tom do big som fosse si bemol e o faça-se um bang estrondo silencioso que desse início a tudo?

O Som do Big Bang

Uma onda vibrante vermelha escorreria pelo céu preto, aglutinando e afastando com gravidade formas planeta, luz estrela, galáxias, terra azul.

Na terra azul, o baile incessante de acasos geraria colunas vertebrais, avencas loucas, hieróglifos maias, poluição.

Nosso pequeno território mim é 70% aquoso, curiosamente proporção equivalente a presença da água no planeta Terra. Somos uma ilusão de solidez, quase oceanos.

E se o Dr. Emoto tiver razão e nossas mares internas vazarem e encherem, flores de cristal nos inundando com ondas de prazer quando ouvimos Bach, Mozart ou Beatles e nos esfacelarem quando a cidade grita, quando o hard rock bate pesado? Assim, a intenção também se propagaria em nossos fluidos, gestos de amor e gratidão expandiriam nossos humores em mandalas harmônicas; rancores, ódios fariam em caquinhos confusos o encanto das nossas moléculas líquidas.


Quando os monges budistas repetem e repetem a silaba OM formando círculos concêntricos na xícara de chá, que efeito provocará esta ressonância na água misteriosa que mora na minha pineal? E no meu medo?

Tudo em mim vibra e minha própria voz é musica que massageia meu corpo. O sangue circula mais vivo quando um mantra entoa e a cada OM, grãozinhos diminutos de felicihormonio se espalham pelo meu cérebro, e eu penso que é Deus, e me acalmo. Tons se amplificam na caixa de ressonância do meu vazio e tudo se cria, e volta o verbo e eu olho para o céu e sinto saudades.


 

Mais sobre o som do big bang, cimática, experimentos do Dr. Emoto.

Psicóloga clinica formada pela PUC/SP, com especialização em Psicossíntese reconhecida pelo Psychosynthesis & Education Trust de Londres. Presta atendimento psicológico individual, de casais e coaching. É palestrante e consultora na área empresarial e coordena  workshops  com temas ligados ao desenvolvimento pessoal. Interessada em compreender a mente e a natureza humana, estudou diversos sistemas de conhecimento em centros no Brasil, Argentina, Estados Unidos, Inglaterra, Dinamarca, India e Nepal. Elza é a idealizadora do projeto Fora de Mim.

macaparana

Som, por Macaparana.

O artista plástico Macaparana fala sobre música e a função que ela exerce em seu trabalho. Ele não vive sem música. Criou intimidade com ela, aprofundou a escuta e foi ela que lhe deu a abertura e a coragem para o salto no seu trabalho.

 

Músicas sugeridas pelo artista:

Jackson do Pandeiro canta Sebastiana:

 

Remédios curativos por Eduardo Paniagua – Instrumental

Clique aqui para ouvir

 

Macaparana é artista plástico, pernambucano. Começou sua carreira em Recife, onde realizou sua primeira exposição em 1970. Muda-se para São Paulo em 1973, onde vive e trabalha. Atualmente participa de várias feiras internacionais : sparte – sp / arco – madrid  / artebo – bogotá / fiac – paris / arteba – buenos aires / artbasel – basel / miami / pinta – new york / londres.

supernova

A explosão silenciosa no espaço, por Manoel Belem.

Explodiu. Agora. Toneladas de hidrogênio, bilhões de Hiroshimas, seguem explodindo no espaço e nós não ouvimos nada. Falta meio transmissor, falta matéria, falta intermediador de moléculas. Vácuo não tem nada para atrapalhar o rumo. Nos faz falta um cacoete de filme de ficção cientifica, onde explosão sideral faz barulho e espada a laser tem tamanho finito. Ouvido não funciona no vácuo. Somos surdos num universo que não passa de uma explosão contínua… mas silenciosa.

 

Manoel Belem é físico formado pela USP e escritor. Acabou de publicar o livro “Falsa Dicotomia” e atualmente se empenha em viabilizar sua viagem suborbital em 2015. Visite seu site aqui.

 

 

cimatica

Ruído, por Malu e Isabela.

Fora de Mim pediu a Malu e a Isabella, duas escritoras talentosas, que assistissem este vídeo sobre cimática e que escrevessem a partir do ruído que ele provocasse no imaginário delas.

Não tropece nas notas, por Malu Ferreira Alves.

Pare de cair!
uma mulher, varrendo a calçada, dá esse comando para uma árvore que derruba folhas mortas. A árvore  lhe ofereceu frutos e sombra e se cala. E, agora, em pleno outono, ouve essa ordem. Como se pudéssemos dar um comando único para que todas as folhas caíssem de uma só vez. Pouco trabalho para varrer folhas secas. O outono enxerga nosso corpo e não o comandamos conscientemente. Assim pensamos.
Não o enxergamos?
o corpo ou o outono? Seria uma pergunta absurda já que estamos nele e usamos a linguagem. A letra é um corpo e a ampulheta a figura de um corpo ou da palavra. A alma está no corpo , inteiramente contida em sua malha. A areia habita o corpo enquanto o tempo escorre.
Corpo e alma?
Como dois acrobatas entrelaçados pelo som que a boca emite. Os pensamentos gritam. O símbolo do corpo pode ser uma faca. A palavra lâmina ali montada. Do que são feitas as letras que você pronuncia?
Os ruídos que você provoca enquanto existe?
Os grunhidos?
cansados do saudoso e perdido paraíso mitológico e dos desenhos primitivos nas cavernas. O som ampliado das cavernas sendo arrastado para uma nova sinfonia. O medo guinchando nas savanas descansa numa cama king- size.
Não tememos mais?
a modernidade, as experiências estéticas, eróticas, oníricas, patológicas, curativas boiam num mesmo líquido, o ectoplasma de uma mesma célula que não enxergamos. O corpo destruído pelos ruídos que começam na alma desafinada. E esse medo que nos salva.
Emudeça o homem
e quase tudo morrerá? O sapiens está num altar mas não sabe se é o santo. Criar ou destruir. A morte pode se iniciar com um comando verbal. Uma carnificina pode ocorrer com o apoio de uma assinatura que encobre uma ordem. O cérebro sempre está lá enquanto uma letra se transforma num som. O cérebro cria o som. Mesmo sem as cordas vocais existe uma intenção e um olhar. Não há como se eximir.
Sua letra é assassina?
Quanta morte em nossos corpos, quantas palavras inadequadas. O verbo é seu. Você conjuga o tempo e a música. O verbo de todos –  são como abelhas zunindo um mesmo enxame. Que som você quer fazer?
A evolução está aí se exibindo
na sua cara. A areia habita o corpo enquanto o tempo escorre. Uma onda sonora em compassos. O tecido doce que se forma. Pausas colocadas no caminho de uma transformação dirigida. As flautas dos anjos. Revelações e mistérios. Acorde para a harmonia. Novas frequências vibratórias esperam. Legível o olhar para o emaranhado delicioso das formas. Toda a harmonia possível.

Maria de Lourdes Ferreira Alves é escritora e tem um livro publicado, Velho é o espelho, pelo Ateliê Editorial.

 

 

 

 

 

 O que faz alguém se aventurar, por Isabela Quintella.

Abaixo bem, à esquerda, estão agachados o explorador Britânico e seus companheiros. Observam a serpente. O fotógrafo da equipe  no alto da ruína mira no bote do animal. Ele é um descobridor; quer encontrar a sedução que levou Eva ao pecado, paraíso. Não precisa de teorias ou conceitos, mas de uma fotografia. Os sapatos …passo em falso e o abismo anunciou o luto espalhado por gritos. Na China o azul é a cor do luto. O barulho foi cessando, fez-se silêncio. Todos correram para localizar o corpo, mas o vazio era mais forte. Tão forte que a visão  se perdeu no céu Chinês.
Um sinuoso chocalho deslizava escamas. O explorador e os companheiros não pensaram na cobra, esqueceram que estamos a todo instante expostos ao bem e o mal. Encurralados. Alguém começou a cantar, mas ninguém tinha coragem de tirar os olhos da serpente. Alguém que cantava diante do perigo. Quem consegue cantar? A inércia obedece ao medo. A cobra faz o que quer, ela é o agora, mas o fotógrafo não entendeu e tropeçou nos próprios pés. O que faz alguém se aventurar? A vida é traiçoeira, mas para ele certamente não. Confiava a ponto de arriscá-la. Ele queria uma foto do imaginário. Que missão interminável!
Ninguém acredita no inesperado; Todos presos no agora… Olhe em volta, abra a janela, só o que importa é o imediato. Alguém canta alto. A cobra some. O explorador oferece uma xícara de chá para os companheiros que estão perplexos, hipnotizados pela realidade contínua  e não escutam a voz. O fotógrafo canta alto. Na hora da queda foi salvo por um platô. É preciso entender que o imprevisível lhe pede algo  escondido nos vitrais de paisagem e infinito.

Isabela Quintella é escritora, formada em Publicidade  pela UFRJ.

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Ruído, por Arnaldo Bassoli.

De repente o universo é tensão. O som fala de fora, o silêncio fala de dentro; mas há uma fala não compreendida, um significado não compartilhado, um caminho não cartografado, que me invade agora e não sei o que fazer. Uma floresta virgem, que surge, ameaçadora, mostrando a força da natureza que eu preferiria não ver. Onde está o amor nesta vida, agora que esse ruído ao mesmo tempo sutil e avassalador insiste em querer arrebentar-me os tímpanos? Conflito. Faço isto ou não faço? Não há solução. Há?

Quanto mais forço para fazer prevalecer as idéias pré-concebidas, mais elas se revelam inúteis. Mergulhei em um mar mais profundo do que imaginava, e agora insisto em nadar na superfície… conflito. Ruído. Aferro-me àquilo que já conheço, e vejo-me puxando cada vez mais as pontas do nó do barbante. Assim ficará cada vez mais difícil desatá-lo.

Tudo deveria ser mais fácil… mas por que você não faz assim, ou assado, dizem os amigos? Palpites. Ruído. Regras contra outras regras; passado contra passado. Falta a escuta, falta o espaço interior, e recorro desesperadamente ao que já sei. O passado, no entanto — é claro — não dá conta do presente. O presente é MUITO mais complexo e rico, mas insisto em querer simplificações. Ruído. Conflito. Medo. Sofrimento.

Quero terminar de atravessar esta ponte — já estou no meio dela. Já vejo o outro lado, e já abandonei aquele em que estava. Mas olho para baixo e vejo: é tão alto! Deus, que vertigem, que medo, que pânico! Sigo ou volto? Se sigo, não tenho mais o lado de cá; se volto, não terei o lado de lá… o que faço? o que é melhor? o que é pior? mas está tão alto… não agüento mais… preciso fazer alguma coisa… mas se sigo, não tenho mais o lado de cá; se volto, não terei o lado de lá… o que faço? o que é melhor? o que é pior? mas está tão alto… não agüento mais… preciso fazer alguma coisa… mas se…

Esse discos riscados que conheço desde sempre, a mente no comando, não vejo mais deus nem luz, não sei mais o que é a liberdade nem a vida. Não sei o rumo. Medo. Conflito. Ruído. Medo, medo, medo, medo, medo. Vivo desta maneira, agora. Meu corpo se encolheu, minha respiração se encurtou. Vejo que os outros não me compreendem. Por que deus é tão ruim? por que a vida é assim? por que todos fazem coisas e eu não? por que a minha cabeça não pára de gritar? por que estou tão irritado? o que é mesmo que devo fazer? mas nem sei se devo fazer alguma coisa… minha cabeça não pára de gritar!

O som fala, o silêncio fala. O ruído me diz que algo não está sendo visto como é. Diz-me, no conflito que o manifesta, que há algo que preciso perceber e que ainda não estou percebendo. Diz-me que preciso participar com uma atenção muito presente, que preciso me envolver, sair do automatismo. Se eu perceber como o nó está formado, consigo desatá-lo. Mas por que não o faço? Porque não consigo olhar para dentro de mim, de tanto medo que tenho. Medo atávico: nele, depositam-se todos os medos dos que vieram antes de mim, em minha família, em minha linhagem, na humanidade. Sou o protagonista atual dessa batalha épica do herói, da busca pelo autoconhecimento. Ou venço, ou condeno meus descendentes a passar pela mesma prova. Preciso compreender que o ruído é a provocação para que eu instaure o som. Ou o silêncio. Aí, tudo estará bem, e estarei no Presente, esse eterno e sempre novo Presente. Só há uma saída: consciência. Tomo para nós as palavras de Jean-Yves Leloup: “Só aquilo que for consciente será salvo”.

 

Arnaldo Bassoli, 56, é psicoterapeuta de indivíduos e grupos, adultos e adolescentes, com especializações em Cinesiologia Psicológica e Gestalt- Terapia. É fundador da Escola de Diálogo de São Paulo, onde conduz aulas, seminários e oficinas, e trabalha com organizações de todos os setores. Pratica meditação e estuda o conhecimento tradicional, principalmente do budismo e da mística cristã. Confira seu site aqui.