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Edição de Setembro 2011 – Somos Multiplos

Foto comprada em Feirinha

Múltiplos somos, por Eduardo Muylaert

Eu levo uma vida dupla. Que impulso me teria levado a comprar distraidamente, por dois euros, o bottom escolhido entre tantos outros numa cesta sobre o balcão de uma loja de bobagens em Paris?J’ai une double vie. Mentira. Advocacia e fotografia não são senão duas formas de atividade, entre tantas outras. Um é pouco, dois é bom, três é demais, diz a sabedoria popular. Falso de novo. Para Cartier-Bresson, a imagem é muito mais interessante quando pega três figuras ao mesmo tempo. Vejam, confiram.
Quantos botões com os mesmos dizeres haverá em circulação? Milhares. Mesmo que não fossem tantos, trata-se de um múltiplo. O múltiplo como clone, certo, que é a repetição mecânica do mesmo. Assim se cunhavam as moedas na Grécia antiga. Na arte contemporânea, o múltiplo é uma obra de arte editada em vários exemplares, permitindo preços mais razoáveis e pondo em questão o dogma da unicidade.
Um clichê de Daguerre era uma peça única, irreprodutível. Em 1839 custava 25 francos-ouro, qual uma joia. Uma monotipia de Mira Schendel é peça única, mesmo que integre uma série de mesmo motivo. Walter Benjamin foi o primeiro a examinar em profundidade a questão da obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica.

O que faz da Monalisa a Monalisa? Numa época o Louvre quis proibir os visitantes de fotografar o quadro, protegido atrás de vidro blindado, o que já torna a tarefa bem difícil. Uma jovem uniformizada gritava para a fila: No picturres, please. Não adiantava muito. Desistiram.

Todo mundo pode ter uma Monalisa em casa. Há milhares de reproduções da Gioconda, de cartões postais a sofisticadas telas. Mas a figura mágica, marcada pela suposta autenticidade, está no Museu. Será mesmo o quadro de da Vinci, ou uma cópia? Os adoradores nunca saberão, nem querem pensar nessa hipótese. Quando a pintura foi roubada, enormes filas se formavam para ver o espaço vazio onde antes se encontrava.

A lanterna mágica, inventada no século XVII, foi a precursora do projetor de slides. Após a invenção da fotografia, era usada na escola ou nas famílias inglesas para projetar quadrados de vidro de cerca de 10 centímetros. Assim era apresentado o mundo, a geografia, as colônias, os povos exóticos. A multiplicidade como diversidade, mas também como soberania. A visão de mundo cunhava o Império.

David Livingstone levava uma lanterna mágica na sua expedição à África (1858 – 1864), que servia para exibir a superioridade da tecnologia europeia. Também levava câmeras e montava um laboratório, a fim de registrar o continente negro. Mandava os outro fotógrafos captarem os melhores nativos, de preferência homens, mulheres e crianças reunidos.

De manhã me olho no espelho e vejo uma imagem que vai variando, dia após dia, ano após ano. É o múltiplo cronos, sou eu mesmo, mas sou um a cada década, a cada paixão, a cada momento, a cada perda, a cada mês, a cada lapso, a cada minuto, a cada impulso. Por melhor imagem que tenha de mim, sei que sou Dr. Jekill e Mr. Hide, bom e mau, anjo e monstro. Múltiplos somos.

 

Foto: Helô Mello, 2011

 

Eduardo Muylaert é advogado criminal e fotógrafo. Foi professor da PUC/SP, Procurador do Estado, Secretário da Justiça e da Segurança Pública no Governo Montoro, Presidente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. e Juiz do TRE/SP. Como fotógrafo publicou O Espírito dos Lugares (3º Nome, 2003), e Boa Noite, Paulicéia! (Pinacoteca, 2006). Principais individuais: Mulheres dos Outros (Fauna Galeria, SP, 2011); Boa Noite, Paulicéia! (Pinacoteca, 2006); O Espírito dos Lugares (Nara Roesler, 2003); Tiras compridas do Brasil (Millan, 99); Paris – Fragmentos (Luísa Strina/Bar des Arts, 95) e Transferências (Bar do MIS, 93).

gatorato

A interconectividade da vida: Ciência, não dualidade e outros bichos

Como é nos reconhecermos não mais como um eu indivisível, mas como uma multidão complexa de seres vivos,  bactérias, parasitas, fungos, atuando silenciosamente e decidindo o nosso destino?

 


Este vídeo é interessantíssimo e foi  produzido pelo  canal do “Science and nonduality”.

Como ele está em inglês, fiz aqui uma tradução livre.

Dá muito o que pensar…

 

Ciência, não dualidade e outros bichos

Como seres humanos, nos percebemos como criaturas muito inteligentes e capazes de controlar nosso destino, apoiados em   comportamentos baseados na lógica da evolução.

Recentes estudos neurocientíficos revelaram que talvez tenhamos menos liberdade do que podíamos supor: nossos genes, em contato com o meio influenciam nosso comportamento em formas que freqüentemente escapam ao nosso controle consciente e mais, nossas ações são causadas por fatores não accessíveis a nossa consciência, incluindo talvez, alguns diminutos parasitas residindo em nosso cérebro ou nas nossas vísceras nos levando a agir sob os seus controles silenciosos.

Tomemos por exemplo o parasita Toxoplasma Gondii. O parasita Gondii pode apenas se reproduzir dentro do cérebro do gato, embora possa viver em estado latente em quase todos os animais.

Para atingir seu objetivo, Gondii entra no cérebro do rato e elimina o seu instinto de temor ao gato, facilitando desta forma que ele seja comido por ele.

Importante ressaltar que o portador não apresenta nenhum sintoma, nenhum outro comportamento estranho alem desta atração pelos gatos. Nos seres humanos, a presença do parasita gondii, a toxoplasmose é assintomática.

Por outro lado, estudos na republica Tcheca mostraram que motoristas infectados pelo parasita Gondii se envolvem em acidentes 6 vezes mais do que os motoristas não afetados por ele.

Também é sabido que  esquizofrênicos  tem 3 vezes mais chance de terem  o parasita Gondii. E estamos falando apenas de 1 parasita.

No nosso corpo existem mais de 500 espécies diferentes de bactérias, parasitas, fungos e vírus.

90% das células no nosso corpo são bactérias, que não são humanas. Desde os fungos tentando crescer entre os dedos dos nossos pés até quase um quilo de matéria de bactérias vivendo no nosso intestino

Somos um conglomerado complexo de organismos vivos. E cada um deles com uma agenda de evolução muito clara sobre como melhor sobreviver e se reproduzir.

Recentes estudos feitos na Universidade de Hamilton em Ontário provaram que nossas bactérias intestinais podem influenciar nossos pensamentos e mesmo nosso comportamento.

Concordamos que nossos pensamentos influenciam nossas ações, portanto se as bactérias no meu intestino podem influenciar meus pensamentos, seria justo supor que estas bactérias poderiam também influenciar meu processo de decisão e, portanto minha liberdade. Se tomarmos estas descobertas cientificas e aceitarmos que nosso comportamento é um resultado de muitos relacionamentos complexos acontecendo dentro e fora do nosso organismo, se aceitarmos o nosso organismo como um instrumento da orquestra da vida, nosso papel na sinfonia da muda dramaticamente.

Imagine que você não é o único organismo vivo com interesse direto em como o seu corpo e sua vida estão sendo desenvolvidas. Imagine que você não é um organismo único, indivisível no comando do seu comportamento. Você não é apenas um corpo, mas você é a combinação de centenas e centenas de formas inteligentes. Como você se sente em relação a isso?

Nesta visão a vida em si mesmo evolui e se desenvolve como uma complexa interação entre múltiplos e inúmeros organismos

Neste ponto de vista os humanos não estariam mais no topo da pirâmide, não mais o pináculo do conhecimento. Os humanos não seriam mais os únicos seres vivos tomando decisões, conscientes ou não em como a espécie evolui.

Claro, somos uma parte muito importante do quebra cabeça. Um organismo muito complexo com uma extrema capacidade, mas numa visão final se considerarmos a interdependência na natureza, se considerarmos a não dualidade se você quiser, somos apenas um instrumento na orquestra e não a música em si.

Os místicos costumam dizer que a maior razão do nosso sofrimento é o desejo de que as coisas sejam diferentes do que elas são.  Talvez se aceitarmos a vida como um complexo sistema de relações, talvez redefinindo e aceitando o nosso papel como instrumentos na orquestra da vida, possamos descobrir uma nova forma de sermos humanos. Pode ser uma forma que nos mantenha em harmonia com o planeta, em harmonia com as pessoas ao nosso redor, e quem sabe possa nos dar uma melhor compreensão deste pequeno parasita que tenta nos matar na sua tentativa de sobreviver. Talvez sejamos mais capazes em aceitar as coisas como elas são e possamos nos desprender do nosso medo de perder o controle e comecemos a amar incondicionalmente

Você é tão importante quanto um pedaço de grama. Qual é o orgulho sobre isto?

 

Outras referências

http://web.natur.cuni.cz/flegr/pdf/phenotype.pdf

http://www.nytimes.com/2007/12/09/magazine/09_10_catcoat.html

MariaAliceV

Maria Alice Vergueiro em entrevista ao Fora de Mim

Maria Alice Vergueiro em entrevista ao Fora de Mim, fala de como vive a sua multiplicidade interna e como ela é um recurso para os diferentes papeis que interpreta.

De “Katastrophé”, um grande desafio de interpretação, à popularidade alcançada com o vídeo “Tapa na pantera”, ao atual trabalho no teatro, “As Velhas” de Jodorowisky, ela nos conta como a arte e vida não se separam e de que tem medo mesmo é da morte.

 

Tapa na Pantera:

http://www.youtube.com/watch?v=6rMloiFmSbw

 

Maria Alice Vergueiro, atriz, estreou em teatro no ano de 1962, no espetáculo A Mandrágora, sob a direção de Augusto Boal. Passou pelo Teatro Oficina, onde atuou na histórica montagem de O Rei da Vela , de Oswald de Andrade, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa.

Foi fundadora, ao lado de Luiz Roberto Galízia e Cacá Rosset, do Teatro do Ornitorrinco, onde atuou em diversos espetáculos.

Conhecida  como a dama do underground ou velha dama indigna,  esteve presente como atriz em alguns dos mais importantes e instigantes espetáculos da cena paulistana nos últimos 40 anos. Entre eles, Mahagony Songspiel (Cacá Rosset), Electra Com Creta (Gerald Thomas), Katastrophé, Mãe coragem   e muitos outros.

Recentemente ganhou notoriedade com o Tapa na pantera, um dos videos mais vistos na internet.

Colecionadora de premios por suas atuações, atualmente está em cartaz com a peça  As tres velhas,  de Jodorowsky, que lhe rendeu uma homenagem no ultimo premio Shell de teatro.


elzabanner

Aos que me habitam, por Elza Tamas **

A que dorme em mim, a que tem sono, e se deita na cama a noite, não é a mesma que acorda. Tomo decisões noturnas que não se sustentam mesmo antes do café. Planejo acordar cedo, correr no parque, mas de manhã quem desperta, é outra. Sou habitada por uma verdadeira assembléia ruidosa. Meu corpo é vítima de fisgadas,  tensões  se espalham pelos meus ombros e eu sei que são desejos me puxando para lados contrários.   Algo em mim quer paixão, outra, celibato. Leio Darwin, cito Richard Dawkins e quando o inesperado atravessa o meu caminho, disparo rezas como flechas confusas buscando o peito de alguma deidade. É apesar disto, reconheço em mim um senso de identidade e uma experiência de eu contínuo permeia a minha existência.

Assim somos. Complexos, múltiplos e singulares.  Coexistem dentro de nós atitudes contraditórias; podemos  ser tímidos e outras vezes surpreendentemente ousados. Esta multiplicidade  é preciosa, pois são estes recursos internos que quando bem temperados,  criam um repertório original de respostas frente às demandas da vida. No entanto, quando nos  identificamos  com apenas um aspecto nosso, ou um grupo de aspectos com o mesmo tom, podemos gerar desequilíbrio, dor e sofrimento em nossas vidas.  Um ponto de vista cristalizado, sugere que nossas várias partes internas não estão se comunicando.  Perdemos a referência do todo e agimos e pensamos a partir desta única janela estreita, sem perceber que ela é parcial.  Imagine um fígado, muito bem intencionado, que resolvesse assumir o comando de um corpo. O colapso seria eminente. E se uma empresa investisse todo o seu orçamento apenas no departamento de compras? Ou um indivíduo tão dedicado ao trabalho, que acha que nunca precisa tirar férias…

Podemos a partir disto, entender os absurdos cometidos em nome de um time de futebol, uma religião ou mesmo uma posição política. O fanatismo, seja de que ordem for, não passa de uma identificação e uma vez que estejamos identificados com algo passamos a ser regidos  e controlados por aquilo. É assim  também quando  nos apaixonamos. Parcialmente cegos, elevamos a nosso objeto de desejo à condição de príncipe ou  deusa,  e não raro, quando a paixão se vai,  nos surpreendemos com o equivoco da nossa escolha.

O processo de desidentificação requer a ampliação da nossa consciência afim de que  ela inclua os aspectos  negligenciados dentro de nós. Como no social, que é um espelho direto de como operamos no individual, tendemos a empurrar para a periferia, aquilo com o qual não sabemos como lidar, aquilo  que desestabiliza a ordem reinante. E nós bem sabemos o tamanho da nossa periferia, social ou pessoal.

Irmãos de um mesmo tempo, somos bilhões de pessoas morando sobre a Terra neste ano de 2011. Criamos regras, leis, disciplinas de convívio. Fazemos parcerias, fundamos associações.  Privilegiamos alguns em detrimento de muitos.   Assim funcionamos. Dentro ou fora. Uma grande assembléia.

Até que possamos ser compassivos e democráticos na forma como lidamos com o nosso território pessoal, continuaremos a repetir no social a mesma mecânica de preconceito e segregação que praticamos internamente.  Nenhuma mudança no social acontece desconectada de uma mudança no plano pessoal.

 

 

**Máscara de Aude Kater

 

 

 

Psicóloga clinica formada pela PUC/SP, com especialização em Psicossíntese reconhecida pelo Psychosynthesis & Education Trust de Londres. Presta atendimento psicológico individual, de casais e coaching. É palestrante e consultora na área empresarial e coordena  workshops  com temas ligados ao desenvolvimento pessoal. Interessada em compreender a mente e a natureza humana, estudou diversos sistemas de conhecimento em centros no Brasil, Argentina, Estados Unidos, Inglaterra, Dinamarca, India e Nepal.

Elza é a idealizadora do projeto Fora de Mim.

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INTER-SEXUALIDADES: na cruzada dos novos gêneros, por Stéphane Malysse

 “Tenho uma pele de anjo, mas sou um lobo; tenho uma pele de mulher, mas sou um homem; tenho a pele escura, mas sou branca… Nunca tenho a pele do que eu sou, pois não há exceção à regra, nunca sou o que tenho.” Eugénie Lemoine-Luccioni

Ao entrar no século XXI, os humanos descobrem que tiveram filhos com homens e mulheres de Neandertal (este hominídeo das cavernas extinto) e que o cruzamento ou relacionamento amoroso teria ocorrido 50 mil anos atrás, quando grupos de Homo Sapiens saídos da África chegaram ao Oriente Médio pela primeira vez. A decifração do genoma do Neandertal surpreendeu a comunidade cientifica demonstrando geneticamente as mestiçagens originárias: o cruzamento entre Neandertais e seres humanos. Ao entender que, entre quase 7 bilhões de pessoas vivas em 2010, houvesse 50 milhões de descendente dos Neandertais, os humanos reconsideram a mestiçagem e reconhecem que alguns preconceitos não resistem mais à Ciência.

Ao contrario do esperado pela opinião pública, são os Europeus e os Asiáticos (e não os Africanos) que compartilham hoje, mais genes com os homens de Neandertal; o que coloca definitivamente em xeque as teses racistas do século XX. De fato, nos séculos XX e XXI, a mistura sem precedente das culturas (e dos genes), as diversas mestiçagens e migrações internacionais, as novas visões e ideologias do corpo, do espaço e do tempo, transformam o imaginário da Beleza, seus códigos e suas praticas, de forma inédita na historia da Humanidade.

Para os antropólogos, o corpo do recém-nascido é como um livro em branco, uma ficção cultural (David Le Breton) que cada indivíduo vai atualizar ao relacionar-se com a sua cultura e com os outros, através do que Marcel Mauss chama de imitação prestigiosa.

Através dessa incorporação individual da cultura, cada pessoa constrói à la carte a sua identidade a partir das múltiplas escolhas que deve fazer para integrar-se no seu grupo cultural. Multiplicando as suas escolhas conscientes e imitações inconscientes, o individuo se posiciona em relação à cultura na qual  vai crescer e transforma o seu patrimônio genético em uma constelação de especificidades multifacetadas que o tornam ao mesmo tempo único e múltiplo, já que sua personalidade é fruto de uma interação com os demais. Gestos, conceitos, pensamentos, normas… não estamos sozinhos no nosso corpo.

Hoje, numa sociedade que mostra cada vez mais suas ambições igualitárias, a necessidade de codificação, de afirmação e de apresentação das identidades sexuais se intensifica e se diversifica, tornando obsoleta a simples menção de sexo nas carteiras de identidade. Com a globalização e o fim das diferenças étnicas e nacionais, o gênero se torna o único viés de criação de identidade multiplicando as possibilidades de interações entre o Masculino e o Feminino. A construção da identidade sexual é doravante muito mais complexa e modulável: ser um homem ou uma mulher não significa mais nada em si, pois é a construção de uma androginia personalizada que vai definir a relação de cada individuo com a nova gramática do gênero. Todo corpo contém inúmeros outros corpos virtuais que o indivíduo pode atualizar por meio da manipulação de sua aparência e de seus estados afetivos.

Foto: Nan Goldin

Stéphane Malysse é antropólogo e artista. Doutor em Antropologia Social pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS /Paris). Pesquisador associado do departamento de Antropologia da Goldsmith (Londres). Acabou de lançar seu primeiro livro, Diário Acadêmico pela editora Estação das Letras e Cores (SP, 2008)

http://www.each.usp.br/opuscorpus/

Regina Muller - Somos múltiplos

Meu tico-tico no fubá, por Regina Muller

A antropóloga Regina Muller descreve a diversidade de papéis que ocupa num único dia e conta como integrou antropologia e arte.

Meu tico-tico no fubá

Antropóloga Regina Muller

De manhã,  o “suco verde”, ensinado pela filha adepta da “alimentação viva”, uma ação saudável para iniciar o dia de trabalho intenso.

O primeiro turno é dedicado a uma reunião no Napedra- Núcleo de Antropologia, Performance e Drama, da USP, do qual  é coordenadora.Tenta, de maneira mais
intensa do que foi em toda sua carreira na universidade, aliar pesquisa e ensino em Antropologia ao desejo de fazer arte, em performance. No mestrado, até tentou. Deixou a formação acadêmica entrou para os  Dzi Croquettes ( como uma Dzi Croquetta), mas voltou e defendeu mestrado sobre a pintura corporal dos índios Xavante. Sempre arte e antropologia .Com os Asuriní, também foi isso -arte, xamanismo e cosmologia. No Napedra, está organizando um encontro internacional de antropologia da performance e à noite desse dia, com um bom vinho e amigos, estará cuidando da sua própria participação.  À tarde, outro assunto:  reunião sobre  Belo Monte, a usina  no rio Xingu que afeta povos indigenas, dentre

eles, os Asuriní do Xingu, a quem vem dedicando grande parte de sua vida como antropóloga. Terminada a
reunião, segue  ao encontro  do seu “agente promotor”, como denominou o amigo Alberto Camarero, companheiro desde sempre das investidas na performance artística, e João Cláudio, o cineasta que compõe a equipe de seu atual trabalho:  filme e performance ao vivo, inspirada em Carmen Miranda, seu modelo, ícone e inspiração.

Hoje prepara sob a direção de Alberto, a performance que apresentará no Encontro Internacional. Ao lado de mesas com convidados nacionais e internacionais na área da Antropologia, há uma programação de performances e é nesta que se inseriu, culminando sua trajetória de ter saído da USP graduada em Ciências Sociais e chegado à mesma USP, como atriz pesquisadora performática.

Desistiu de se cobrar escolher um ou outro universo e segue se dividindo, multiplicando, somando, rizomando…

 

Regina Müller, doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo, com pós-doutoramento no departamento de Performance Studies/New York University e livre-docente em Antropologia da Dança pela Universidade Estadual de Campinas, onde é professora no Departamento de Artes
Corporais do Instituto de Artes. Coordenadora associada do Napedra-Núcleo de Antropologia, Performance e Drama/Universidade de São Paulo/Unicamp. Desde os anos 70, realiza performances inspiradas em mulheres artistas performáticas como Frida Kahlo, Gilda de Campinas e Carmen Miranda.

Autora do livro“Os Asuriní do Xingu: história e arte” , co-organizadora do livro
“Performance, arte e antropologia” e de vários capítulos de livro e
artigos sobre xamanismo, ritual indígena e performance artística.