Arquivo da categoria: Edição 09: TRAVESSIAS

banco cunha preto e branco (2)

AURORA por Elza Tamas

Minha mãe morreu faz um mês.

Eu não sabia que a morte era calma e que essa travessia podia ser feita de mãos dadas. Não sabia.

Uns vinte dias antes, meu avô enviou um pato para morar em cima do telhado da casa dela , foi assim que ela sonhou.  Quando o pato morresse, ela morria.  Por volta das 16 horas , um mês atrás,  o chão do quintal  ficou cheio de penas brancas.

Eu e ela estávamos de mãos dadas.

 

 

foto do Banner: Elza Tamas

edith banner 2

O QUE FICA DO QUE ESCAPA por Edith Derdyk

 

 

escrevo e desenho como uma sanfona,
ar e fólen, em trânsito, em passagem;

 

 

iscar a primeira linha de um espaço em branco.
a linha carregada por um corpo que vai e vem,
de um ponto ao outro e de outro a outro, a linha multiplica a fiação.
o corpo rasura suas idas e vindas desenhando textos voláteis no ar.
pontos em movimento desalinham trilhas, sem fim,
com pausas e pousos, respiro

 

 

a linha esculpe lugares, aborda contornos, limita arredores,
costura o espaço ao próprio espaço, convoca topografias aéreas.

desenho ao vivo: a linha estendida é a musculatura do ar,
ossatura do espaço, mecânica que não se fixa.

e a linha do novelo mental nunca traça a mesma trilha,
desfia o pensamento, desafia o espaço.

 

 

a fiação do trabalho: ficção fixando experiências
de tempo e  espaço, mesuras desmedidas.
o que sobra? frestas de espaços de tempo
entre um pensamento e  outro, entre uma ação e outra.
e a linha habita este lugar informe entre uma coisa e outra.
gestos suspensos no fluxo temporal que nos atravessa,
aqui e agora, entre  eu e você .

e é assim que faço com as mãos do corpo do pensamento:
sem fios de extensão, as linhas se estendem em palavras, fugazes.

estas palavras não retratam idéias;
talvez  capturam, na contraluz, as sombras de pensamentos
e percepções que se projetam no espaço, se pulverizam no ar.

 

  

e é assim: escrevo como respiro, desenho como escrevo.
e o ar é passagem, nem aqui,  nem ali,  é pelo meio;
a vida pede passagem, a morte pede passagem;
somos alguns viajantes percorrendo as gotas frágeis
de nossas pequenas eternidades – aqui e agora.

 

 

nem saberia como designar  a pulsão de tensionar linhas
que se estendem se alongam se contraem que se  recolhem,
se projetam em iscas vetores direções ritmos;

e depois de fazer, desfazer, deslocar e descolar.
é o que fica do que escapa, pedaços de tempo em estado nômade.

 

 

Imagem 0_  livro  de artista Cópia:Dia Um _2010; Imagem 1 _ desenhos e projetos de instalações; Imagem 2_ Sopro_2010 (agulhas e linhas)_Memorial da América Latina_foto Kátia Kuwabara; Imagem 3_Metragem_20112 (papel , linhas e grampos)_SESC Bom Retiro_foto Katia Kuwabara; Imagem 4_detalhe_ foto Katia Kuwabara; Imagem 5A e B_Rasante_2002_coletivo Galpão 15_foto Denise  Adams _prêmio APCA

 

Edith Derdyk  tem realizado exposições coletivas e individuais no Brasil (MAM- SP/RJ, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Centro Cultural Banco do Brasil/RJ, MASP, Centro Cultural São Paulo, Instituto Tomie Ohtake, Paço das Artrs_SP, Paço Imperial_RJ, Casa das 11 Janelas_Bellém e
outras) e no exterior (México, EUA, Alemanha, Dinamarca, Colômbia, Espanha,
França, Suíça, Bélgica). Prêmios e  Bolsas: Artes Visuais/FIAT/1990; Vermont Studio Center,USA/1993; The  Rockefeller Foundation_Bellagio Center,Itália/1999; Bolsa Vitae de Artes/2002; APCA/2002; Prêmio Fotografia Porto Seguro/2004; The Banff Centre_Canadá Autora: 2012.Linhas de horizonte/Intermeios; 2011. Desenho Impresso. Buriti Edições Limitada; 2010. Linha de Costura.Com/Arte; Formas de pensar  o desenho. Ed.Zouk;  Tudo que reluz. Buriti Edições Limitada; 2008. Disegno.Desenho.Desígnio – antologia sobre desenho. Editora Senac; 1989. O desenho da Figura Humana. Editora Scipione.

Para saber mais sobre  o trabalho de Edith Derdyk:
www.edithderdyk.com.br

 

alberto cidraes com pinhas

A TRANSUBSTANCIAÇÃO E A CERÂMICA por Alberto Cidraes

 

 

O ser humano anseia pela explicação de sua própria  existência, e nessa ânsia, busca caminhos para transformar o transitório em  Eterno.

Materializou à sua imagem e semelhança, o inominável, incognoscível e inatingível, essência e razão de todas as coisas, e lhe deu o  nome de Deus.

Deus, segundo o mito bíblico, modelou o Homem de barro e lhe  insuflou vida, soprando nele a alma. Essa é uma ideia que pode ser  convenientemente colocada como origem conceitual da cerâmica.

Na procura de um Deus que ele próprio criou, como Luz ao fim  do túnel da vida, o ser humano inventou rituais e liturgias, símbolos e  representações, que configuravam e preenchiam um caminho na Sua direção.

Um dos arquétipos que mais tem trazido ao Homem consolação e  esperança é o da transformação. A Ciência consagrou esse conceito na realização  de que na Natureza nada se perde e tudo se transforma.

Sendo o mundo espiritual parte inegável da natureza esse  princípio a ele deve também ser aplicado. No catolicismo, por exemplo, de forma  simbólica ou literal e conforme o grau de fé do praticante, o pão e o vinho se  transubstanciam em corpo e sangue de Cristo.

Na cerâmica, o barro inerme que compõe o chão que pisamos, destituído de estrutura, direção e permanência, é levado pela inspiração  transmitida pela mão, à concretização na forma, posteriormente “eternizada”  pelo fogo.

Este processo é para o ceramista uma réplica do que acontece  na formação vulcânica das rochas e com ele fácil é ver-se como parte integrante  da natureza, oficiante dos rituais e dos fundamentos da geologia. A constatação  desse fato pode levar a um imenso sentimento de vaidade ou ao recolhimento que  proporciona o sacerdócio de qualquer religião. A diferença está no pronome  reflexo, entre “servir-se de” ou simplesmente “servir”.

O objeto de cerâmica tem uma durabilidade física frágil e  uma durabilidade química permanente. Ele pode ser destruído pelo choque mas  ainda assim seus cacos irão testemunhar a época em que a queima perenizou sua forma, cor e textura.

Diz-se que a cerâmica é a mais antiga das artes. Talvez sim  ou talvez não, mas de qualquer forma é aquela que mais preservou sua  antiguidade, transportando-nos a idades e culturas há muito desaparecidas, numa  viagem no tempo.

Nas sociedades tecnológicamente sofisticadas e  espiritualmente subdesenvolvidas em que vivemos a cerâmica pode ser uma boa opção de vida. Ela se coloca em oposição militante ao consumismo desenfreado,  ao imediatismo impaciente, à standardização das mentes e hábitos de vida, à
superficialidade da educação e à total alienação que a megalópole, esse monstro  cancerígeno, provoca no ser humano, separado de suas raízes e perdido de seus  objetivos e sentido da vida.

De forma poética podemos voltar ao tempo em que o mundo  físico era explicado pelos quatro elementos, terra, fogo, ar e água, todos eles  protagonistas da grande dança ritual da cerâmica, comandados pelo quinto  elemento, o Grande Maestro, o Espírito, oficiando a transubstanciação da terra
em pedra e completando assim o Pentagrama, expressão geométrica e também mágica  da Regra do Ouro.

Científicamente se descobriu que tudo é energia, sendo a matéria apenas ilusão dos sentidos. Isso provoca uma confluência entre a razão  e o pensamento esotérico que acredita que tudo é Luz.

Recentemente alguém que conheço me dizia: não somos humanos  tendo uma experiência de Luz, somos sim Luz tendo uma experiência humana.

imagens – esculturas em cerâmica – Alberto Cidraes

 

 

Alberto Cidraes, nasceu em 1945 em Elvas, Portugal. Estudou arquitetura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL), em 1970, e parte para o Japão para fazer pós-graduação em arquitetura tradicional japonesa na Universidade de Kyushu, conhecendo e dedicando-se a cerâmica.
Em 1973 vem para o Brasil  e em 1975, junto com amigos japoneses e brasileiros funda o primeiro ateliê de cerâmica artística de alta temperatura em forno Noborigama de Cunha. Montou e dirigiu o Departamento de Cerâmica do AR.CO, de 1987 a 1990, em Portugal.
Em 1993, monta, com um grupo, o programa da KIDI Kanazawa International Design Institute, filial japonesa da Parsons School of Design de NY, onde leciona até 2002. Organizou com outros ceramistas o I Festival de Cerâmica de Cunha e, em 2006, torna-se membro fundador da Cunhacerâmica e, a partir de 2009, preside o Conselho Superior do ICCC, Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha.

 

tapies jornal

SOCORRO por Marcelino Freire

SOCORRO

Conto inédito de
MARCELINO FREIRE

Eu morreria hoje.
Se fosse pela minha vontade.
Hoje.
Mas você não me ouve.
Vive me dizendo.
Deixa tudo para amanhã.
E eu deixo.
Atraso.
Procuro então o que fazer.
Para esquecer você.
Navego na internet.
Levo o macarrão ao forno.
A sardinha.
Ligo a TV.
Telefono para você e dá ocupado.
Nada.
Estou desesperada.
Deve ser de propósito.
Você não atende.
Vou ao banheiro.
Choro.
Ligo o chuveiro.
Eu não estou bem.
Vou ficando pior.
O médico receitou uns chás.
Eu não tomo.
Deixo recados no seu celular.
Amor.
A minha vontade era sumir.
Ir à janela.
Fazer barulho.
Sonhei em cortar um dos braços.
Atirar à avenida um dos pulsos.
Depois as outras partes.
É isto.
A ideia é original.
Aguentarei?
Você demora demais.
Contra a vontade diz que virá.
Rápido.
Eu preciso de você.
Mas você quer deixar para amanhã.
Tudo você deixa para amanhã.
Como se tivéssemos tempo.
Tem de ser hoje.
Insisto.
E peço que você traga um sorvete de creme.
Se você não vier arrancarei os cabelos.
Ligarei para o bombeiro.
Atirarei a minha mão ao trânsito.
Você nunca me viu assim.
Você gosta de mim.
Repete.
Pede minha calma.
E promete que vem.
E vem.
Você chega e já estou de banho tomado.
Nem pareço a mesma pessoa fúnebre.
Esquece.
Por favor.
Esse meu dramalhão.
Fiz.
Ó.
Nosso macarrão.
O molho de tomate que tanto você gosta.
Ora.
Relaxa.
Vamos ser felizes.
Trouxe o sorvete?
Você faz uma fala doce.
Mansa.
Nossa amizade será para sempre.
Você me diz.
Eternamente.
Difícil de engolir essa desculpa.
Só me passam males pela cabeça.
Vermes.
Vejo luzes tão apagadas.
Devem ser os chás.
Mas eu juro que não tomei nada.
Vou ficando tonta.
Sabe como se chama isto?
Abandono.
Você diz que vai dormir comigo.
Mas não hoje.
Amanhã.
Tudo para você fica para amanhã.
Para outro dia.
Essa sua mania me irrita.
Eu quero me matar hoje.
Grito.
Primeiro quebro os pratos.
Destruo a TV.
Jogo facas em você.
A gente se joga na cama.
Não sei se a gente luta.
Ou se ama.
Pela última vez.
De hoje não passa.
Mas não adianta.
Vejo você indo embora.
Primeiro um braço.
Depois o outro.
Um olho.
Outro olho.
Não me deixa.
Eu choro.
Eu imploro.
Amor.
Hoje não.
Que tal amanhã?
Se você for de vez eu morro.
Pela janela eu grito.
Com as forças do meu corpo todo.
Mas você não me ouve.
Socorro.

 

imagem Banner: Antoni Tapiès

MARCELINO FREIRE é escritor. Autor, entre outros, do livro de contos “Angu de Sangue” (Ateliê  Editorial) e de “Contos Negreiros” (Editora Record – Prêmio Jabuti 2006). Em 2004, idealizou e organizou a antologia “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século” (Ateliê).

É o criador e curador da Balada Literária, evento que  acontece anualmente, desde 2006, no bairro paulistano da Vila Madalena. Faz  parte do coletivo EDITH (visiteedith.com), por onde lançou em julho de 2011 o  livro de contos “Amar É Crime”.

Para saber mais sobre o autor e obra, acesse:
marcelinofreire.wordpress.com.

No Twitter: @marcelinofreire

foto: Renato Parada

ponte elza ok usar

LIDANDO COM AS PASSAGENS DA VIDA por Bel César

A vida é sempre uma supresa. Há momentos que precisamos fazer uma travessia, passar de um estado de coisas conhecido a uma
situação inteiramente diferente. Nesses momentos, costumamos buscar o exemplo de outras pessoas que fizeram as mesmas travessias para nos inspirar a viver melhor essas etapas. Mas existem passagens que  são inéditas, tais como a nossa própria morte.

A morte é uma experiência muito difícil se estivermos despreparados para lidar com ela. Abandonar tudo que é familiar já gera vulnerabilidade. Por isso, quanto mais familiarizados estivermos com nosso mundo interior, melhor enfrentaremos o desconhecido. Quando não podemos mais
nos apoiar no mundo exterior, contamos apenas com nosso eixo de segurança interna.

Lama Gangchen

Foi o medo da morte que me levou a trabalhar compacientes terminais. Em 1988, uma intensa experiência pessoal me fez refletir
profundamente sobre minha mortalidade. Já havia encontrado Lama Gangchen Rinpoche um ano antes. Ao experimentar uma profunda solidão diante do medo da morte, decidi dar um novo rumo à minha vida: superar a resistência de lidar com a minha própria mortalidade e ajudar os outros a se sentirem menos solitários frente à morte.

A morte nos faz pensar na vida. Ao darmos um significado à nossa morte, encontraremos uma nova perspectiva para nossa existência. No entanto, para nos conscientizarmos de algo não basta ter um entendimento intelectual, precisamos ir além de nossas percepções racionais. Ou  seja, não basta refletir filosoficamente sobre a morte, é preciso familiarizar-se com ela positivamente.

Em nossa cultura capitalista, baseada na segurança da realidade imeditada, a morte é vivida como uma aniquilação. Para muitos, o medo  natural que todo ser humano sente diante da própria finitude gera pânico.

O Budismo nos inspira a incluir a consciência da morte em todos os eventos da vida como uma forma de reconhecermos a natureza cíclica e
contínua da existência de todos os fenômenos.

Vivenciamos a morte na vida cotidiana nos momentos em que as coisas não estão funcionando como desejávamos ou prevíamos.

Pema Chodron

Podemos  aprender a lidar com nossas dificuldades cotidianas como uma prática de aceitação emocional de nossa morte futura. Assim como diz Pema Chödrön: “Ter um relacionamento com a morte na vida diária significa ser capaz de esperar e de relaxar na insegurança, no pânico, no constrangimento, naquilo que não vai bem”.

Algumas pessoas sabem lidar com os imprevistos de modo natural, sem alarmes. Mas, a maioria de nós, não está preparada para lidar com  o caos: tememos as situações que estão fora de controle. Não estamos familiarizados com a idéia de contar apenas com a nossa capacidade interna. No entanto, existem momentos na vida em que a única esperança de sair de uma situação caótica consiste em podermos realizar uma transformação interior.

Ao acompanhar aqueles que enfrentam a morte aprendi que o fato de lidar com a morte em si mesma não gera mudanças: nossas  transformações ocorrem porque amadurecemos internamente o desejo de mudar e encontramos os recursos necessários para processá-las.

Aprendi também que não é preciso falar sobre a morte com quem está morrendo. Há algo em comum com entre a morte e o sexo: ambos  aprendemos fazendo e evitamos falar até que haja alguma dúvida que não encontramos mesmo a resposta.

E por fim, aprendi que apesar de não podemos ajudar aquele que não quer ser ajudado, ainda assim, podemos permanecer ao seu lado,
com uma atitude sincera de abertura e disponibilidade, isto é, “de não querer transformá-los, nem ser por eles transformados”. Então, algo positivo acontece.

Abertura, clareza e flexibilidade são as qualidades de uma mente saudável. Cultivá-las diante dos momentos de difíceis passagens nos
ajuda a seguir em frente. Seja lá para onde for…

* foto Banner: Elza Tamas

Bel César psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde  1990.

Trabalha com a técnica de EMDR, um método de Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares,especialmente  empregado no tratamento de transtorno de estresse pós-traumático,
quadros de ansiedade, depressão e síndrome do pânico. Desde 1991, dedica-se ao  acompanhamento daqueles que enfrentam a morte.

Em 1987, organizou a primeira vinda de Lama Gangchen Rimpoche
ao Brasil. Presidiu o Centro de Dharma da Paz por 16 anos. Desde 2004, em  parceria com Peter Webb, desenvolve atividades de Ecopsicologia no Sítio Vida de  Clara Luz, em Itapevi, São Paulo e administra aulas sobre a psicologia budista
na Sede Vida de Clara Luz em São Paulo – www.vidadeclaraluz.com.br

Desde 2002, colabora com o site www.somostodosum.com.br
na sessão Psicologia Budista.

Elaborou o livro “Oráculo I Lung Ten”, compilando 108 predições
de Lama Gangchen Rimpoche e outros mestres tibetanos. É também autora dos livros
“Viagem Interior ao Tibete” e “Morrer não se improvisa”, “O livro das Emoções”,
“Mania de Sofrer” e “O Sutil Desequilíbrio do Estresse” (em parceria com o Dr.
Sergio Klepacz e Lama Michel Rinpoche). Todos editados pela Editora Gaia.

É conselheira da Fundação Lama Gangchen para a Cultura de Paz
www.flgculturadepaz.org.br

 

Silvana caronte 2

A TRAVESSIA DE INANA PELO MUNDO DOS MORTOS por Silvana Parisi

“A cada um dos sete portões do mundo dos mortos, a  terra de onde não há retorno, é removida uma peça das ricas vestes de Inana.

‘O  que é isso?’ ela questiona. ‘Quieta, diz o porteiro real, as leis do mundo  inferior são perfeitas, não podem ser questionadas”.

 

Este é um trecho  do antigo mito sumério, de cinco mil anos atrás que conta da descida da deusa  Inana ao mundo inferior, governado por sua irmã, a terrível rainha dos mortos:  Ereshkigal. Lá, desnuda, a poderosa deusa do céu e da terra, estrela da manhã e  do entardecer, é condenada à morte. Após três dias, em que a terra fica  estéril, Inana é resgatada, renasce e volta ao mundo superior transformada, acompanhada  de seres demoníacos e tendo que encontrar um substituto para deixar em seu  lugar.

Simbolizando uma  verdadeira viagem ao inconsciente, este mito retrata os processos profundos da  alma em que ocorre a morte e o renascimento, o que também é característico dos  rituais de iniciação: abandonar velhos hábitos e apegos, despojar-se da antiga
persona, para dar lugar a um novo modo de ser. Atravessar cada portão e ser despida  implica sacrifício, entrega, rendição. Há que se ter coragem para empreender  tal jornada.

Nos mitos,  muitas vezes, a grande travessia de heróis e heroínas é para o reino dos  mortos. As travessias marcam as passagens importantes, as transformações  necessárias no percurso da vida. Uma parte de nós morre a cada doença, perda,
separação. Fechamentos de ciclos, épocas de transição e mudanças que a vida nos  impõe, ou talvez nos convide a fazer. Como canta Milton Nascimento: “Quando você foi embora, fez-se noite em meu  viver; forte eu sou, mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar”.

 

Chega o  tempo da noite e das lágrimas em que sob o olhar de Hécate, atravessamos o  Estige na barca de Caronte  e percorremos as terras áridas e desoladas do mundo  dos mortos. Às vezes a visita às paisagens ermas é breve – uma sombra escurece
por instantes nossa visão. Outras vezes, é visceral – descemos aos abismos da  alma. Na vida, fazemos essa travessia várias vezes e de maneiras diferentes,  geralmente, de forma involuntária.

É uma terra que  tem leis próprias: uma advertência sobre os riscos destes subterrâneos da  psique. Associada à vivencia depressiva, a estadia prolongada nesta dimensão, entorpece e congela a vida, lembremos, é a “terra de onde não há retorno”.

Ao mesmo tempo,  a travessia pelo mundo inferior é potencialmente transformadora: é o lugar dos  lentos processos de gestação. A semente só pode germinar no escuro e na umidade  do útero da terra. Há um tempo para isso, o que exige acolhida e respeito.
Embora possa ser uma espera dolorosa, a natureza tem seus ciclos: a morte é  adubo para a nova vida.

* foto banner – Caronte – Gustave Doré

 

Silvana Parisi  é  psicóloga clinica de orientação junguiana com mestrado e doutorado pelo  Instituto de Psicologia da USP.
Deu aulas em algumas faculdades de Psicologia e ministrou cursos no Instituto Sedes Sapientiae. Estudiosa de mitologia, contos de fadas e psicologia feminina, há muitos anos coordena grupos vivenciais de mulheres e workshops sobre mitos.
 Atende como psicoterapeuta em seu consultório em São Paulo.
 Está para lançar o livro “Amor e separação: reencontro com a alma  feminina” pela Vetor editora.