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o fim do mundo - tommy ingberg 3 olho (2)

NÃO DESTRUA A PRÓPRIA CASA por Elza Tamas

 

No  dia 21 de dezembro de 2012 o mundo vai acabar, e eu não quero
nem pensar se comi  lentilhas demais durante a minha vida, ou se devia
ter tomado muito mais  sorvetes. Nem por um instante.
Que os conselhos para tal efeméride não me venham de um falso Borges.
Mas, certamente não vou ficar perto do mar, isso me parece sensato.

Próximo do dia 21 de dezembro o sol estará furioso, regurgitando labaredas
imensas que afetarão a temperatura do nosso planeta. A Terra convulsionará
sacudida por tsunamis, terremotos e vulcões. O mar engolirá a costa brasileira,
reinos unidos e desunidos e avançará sem trégua, redefinindo sua supremacia
territorial e criando novas geografias. E isso será apenas o começo.
Nibiru, o planeta melancolia também está em rota de colisão.
Nibiru é rebelde e tem um movimento de translação original, diferente dos
outros  planetas – minha velha traga meu jantar sopa uva nozes e- sinto muito,
nos tiraram  o pão.
Traça seu próprio caminho numa rota elíptica perpendicular,
e nas suas  esporádicas visitas  a cada 3600 anos, causa um grande desastre.
As  consequências de Nibiru nas nossas cercanias galácticas podem ser tão
nefastas,  que a NASA inaugurou a censura ao céu. Um grande buraco
quadrado negro,  coberto  por uma tarja preta é o que se vê no GOOGLE SKY,
nas coordenadas que  corresponderiam ao local da sua presença: -6.01931   -91.5903.
Evitar o pânico. Outras inteligências que não a minha decidem o que posso
saber, o que posso ver, o que não posso temer.
Isso sem falar em alinhamentos com o centro da galaxia determinando
a mudança dos polos. Desnorteados e fadados a perdição.

Combinamos que morreremos todos juntos e de mãos dadas. Mãos pequenas,
grandes,  antigas, mãos com quatro dedos como as das minhas cachorras.
Quanto ao aquário,  não sei o que faremos com ele, acho que deveríamos
perguntar aos peixes. (Queria  ser capaz de crer que suas mãos de dedos
longos e unhas de rapina, sempre nos  defendendo  e novamente pintadas
de vermelho, estarão nos esperando do lado de lá.  Casinha montada,
flores, sem dor; bolo com raspinhas de limão e açúcar de confeiteiro
por cima, sorriso no rosto, nunca mais dor; isso sim seria uma recepção
celestial,  mas sofro de déficit de fé).

Cento e vinte tipos distintos de arroz e mais de 100 milhões de espécies de
sementes foram armazenados em um bunker, na região ártica da Noruega.
Uma arca  de Noé que preservará o patrimônio agro alimentar da
humanidade, enterrada nas  profundezas do gelo. Estima-se que a cevada
nestas condições sobreviverá por  2000 anos, o trigo por 1700 e o sorgo
por 20 milênios.
Que homo haverá de encontrá-las?

No dia 21 de dezembro os voos entre Salvador e São Paulo estarão operando
normalmente. Mas e se a Terra se pulverizar e os aviões não tiverem
onde pousar, ficaremos vagando perdidos eternamente pelo espaço?

No dia 21 de dezembro, o dia do fim do mundo, será o chá de bebê de Marcus
Vinicius  ou Ana Paula. Os pais vivem na roça no meio de espinafres, leite
de vaca e estrelas riscando o céu. Nunca ouviram falar em Mayas, Nibiru,
nem tem ideia de que o céu está censurado. Fizeram um único ultrassom
que não permitiu saber se vão ter um menino ou menina, e isto pouco importa.
Apenas preferem que os presentes sejam de cores mais neutras, nada de azul ou rosa.

O bebê nascerá no próximo mês de janeiro e será saudável.  Sabe-se hoje que
mais do que seis ultrassons  feitos durante a vida, aumentam
exponencialmente o risco de câncer. Que mamografias levaram ao avanço
expressivo do câncer de tireoide em mulheres. E que nossas tentativas de
controle sobre a vida serão sempre infrutíferas, porque somos filhos do acaso.
Os pais de Marcus Vinicius ou Ana Paula acordam muito cedo. Os afazeres
do campo se iniciam por volta das 5.30 da manhã.
Eles estavam próximos ao galinheiro, na parte mais alta do terreno, quando
viram a esquerda do sol nascente, uma bola igualmente luminosa e brilhante,
um filho menor do sol. Nenhum pensamento se colocou entre eles e aquela
presença magnífica, só maravilhamento.  E isso tem se repetido diariamente,
desde o ultimo mês de setembro.

foto banner – Tommy Ingberg

 


Elza Tamas idealizou e desenvolve este site

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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AMNÉSIA E AS GUERRAS DO FIM DO MUNDO por Rachel Rosalen

“A crueldade é uma das formas da violência organizada.


Ela não é forçosamente erótica, mas ela pode derivar em direção
a outras formas da violência que a transgressão organiza. Como a
crueldade, o erotismo é pensado. A crueldade e o erotismo se
organizam no espírito que a resolução de ir além dos limites da
interdição possui.

Essa resolução não é geral, mas é sempre possível que ela se desloque
de um campo para outro: trata-se de campos vizinhos fundados um e
outro sobre a embriaguez de escapar do poder da interdição” (Bataille).

Acredito eu em fim do mundo? Mais que pensar o fim do mundo como um final dos tempos, fui pouco a pouco mergulhando nas reflexões que me levaram a produzir uma série de trabalhos.

O mal estar que produzem as guerras e a certeza de que não existe guerra, invasão, violência, crueldade ou matança que se justifique.

Mas também de que elas são recorrentes na história da humanidade como recurso último quando falta o diálogo, o respeito, a ética e a aceitação da diferença. Sem falar em ganância por poder e econômica, e em outras paixões humanas tristes. E aqui não poderia deixar de fazer referência a Mario Vargas Llosa, ao seu maravilhoso texto “A Guerra do Fim do Mundo”.

No livro, Vargas Llosa mescla personagens reais e fictícios perdidos em uma guerra no fim do mundo. Personagens estes destópicos em guerras dos mundos, facilmente atualizados na mediatização perversa e ficional dos meios de comunicação, que mesclam, como no texto de Llosa, ficção e realidade na criação de uma narrativa da vida cotidiana que se reescreve ao mesmo tempo em que é apagada e esquecida.

Ensaios Anti-Guerra

Realizei uma série de projetos “anti-guerra”, iniciada com Corpus Urbanus e seguida por Black Rain # an anti-war project, Ensaio sobre a crueldade ou
O encontro do Sr. Fatzer com a Rainha de Copas, # 07 Ensaios sobre a crueldade e Amnésia.


Corpus Urbanus trata da violência nas grandes cidades e a posição entre violação e violado.

Em Black Rain # an anti-war project, cento e quarenta arquivos de vídeo são distribuídos em quatros projeções ao longo de um corredor de 20 m de comprimento. Estes vídeos são controlados por sensores de presença acionáveis através do trânsito do público no espaço da instalação.

A paisagem sonora é produzida em tempo real a partir do improviso do violoncelo gravado para o trabalho. A relação entre imagem projetada, imagem refletida e o sujeito que ativa a imagem coloca três vetores de tensão no espaço, necessários para criar o que Eisenstein chamou de dinamização da matéria.

Black Rain utiliza imagens de documentais de Hiroshima, explosões, escrituras japonesas e de performances gravadas em estúdio com sete atores trabalhando sobre referências dos teatros clássicos japoneses, Noh e Kabuki. Em muitas destas peças as personagens morrem e não sabem que morreram e muitas vezes repetem infinitamente ações de quando estavam vivos. No caso de Black Rain, a guerra não oferece salvação e as personagens ajudam-se neste sofrimento. Há uma negação a aceitação do que lhes aconteceu que lhes atribui dignidade.

A distorção e o derretimento não aparecem nos corpos (tal qual o efeito das bombas nucleares) mas estão deslocados para o áudio da obra, resultante dos efeitos da intervenção de programação algorítmica que alteram o som triste do violoncelo

#07 Ensaios sobre a crueldade está baseado em um levantamento de imagens da mídia e na pesquisa sobre o núcleo patológico que gera esta violência – pura perversão, sede de poder e crueldade. Para tratar da estupidez e mesquinhez humana, foi escolhida a personagem Alice. Inspirada nos texto de Lewis Carrol, uma personagem feminina atravessa este cenário de guerra e discute as relações entre poder, mídiatização e banalização do mal e o imaginário que os sustentam.

Ensaio sobre a crueldade ou o encontro do Sr. Fatzer com a Rainha de Copas traz a discussão ao palco dando voz a estas personagens em um diálogo entre o Sr. Fazter (Brecht), A Rainha de Copas e a Alice (Lewis Carrol). É neste fictício encontro que a guerra é debatida. Aborda o espanto perante a crueldade e a perversidade do que se processa nestes períodos.

Um grande banco de imagens históricas sobre guerras de diferentes localizações geográficas, razões políticas, religiosas, étnicas, com um ponto em comum: todas sem razão ética – formam a matéria-base que vai sendo moldada através da navegação da Alice. Essa personagem, gravada em estúdio, leva o espectador a atravessar diferentes situações destes períodos de extrapolação, banalização e mediatização do mal.

Amnésia trata do apagamento da memória e da repetição incessante de imagens de guerra, que por mais diversas que sejam, trazem-nos de volta a antigas paisagens de destruição, colocando tais eventos em uma suspensão que assombra e retorna como fantasmagoria. Quanto mais retorna, mais se sobrepõe. Suspensas no tempo e no espaço, tais situações insistem e impregnam a retina.

Amnésia aborda os efeitos a longo prazo dos sistemas autoritários, traumáticos, repressivos e violentas situações contemporâneas que se constroem a partir da repetição. Através de uma narrativa não-linear, esse projeto desenha uma narrativa ficcional, cheia de labirintos e loops que descrevem essa situação perversa.

imagem 01, imagem 02, imagem 03  da obra Amnésia  ­- Rachel Rosalen
imagem 04 – # 07 Ensaios sobre a Crueldade – Rachel Rosalen / fotografia em estúdio Giacomo Favretto/ atriz Patricia Gordo
imagem 05 – Black Rain # an anti-war project – Rache l Rosalen / fotografia em estúdio Giacomo Favretto
imagem 06 – Ensaio sobre a crueldade ou o Encontro do Sr. Fatzer com a Rainha de Copas – foto de registro Gal Oppido
imagem 07 – Ensaio sobre a crueldade ou o Encontro do Sr. Fatzer com a Rainha de Copas – foto de registro Giacomo Favretto/ cantora Paula Pretta

Referências obras:

Amnésia >
Black Rain # an anti-war project >
# 07 Ensaios sobre a Crueldade >
Ensaio sobre a crueldade ou
O Encontro do Sr. Fatzer com a Rainha de Copas >
Corpus Urbanus >

Textos sobre os trabalhos

Texto curatorial da exposição individual Black Rain # an anti-war project
realizada no Instituto Tomie Ohtake por Agnaldo Farias.

Ensaio sobre a crueldade ou O encontro do Sr. Fatzer com a Rainha de Copas, de Arlindo Machado.

As poéticas do silêncio nos trabalhos de Rachel Rosalen por Priscila Arantes.

Texto critico de Priscila Arantes 

A produção de Rachel Rosalen está
baseada na construção de espaços
fazendo uso de múltiplas mídias e
conceitos de arquitetura, onde mescla
interfaces, programações, vídeos e
performances para realização de
vídeo instalações interativas e
performances de live-cinema.

A construção destes espaços envolve desde a direção de atores até a colaboração com músicos, engenheiros eletrônicos para o desenvolvimento econstrução de interfaces e programadores. Suas obras foram expostas em Tokyo, Yokohama, Paris, Zurich, Basel, Buenos Aires, São Paulo, Rio de Janeiro, Nápoles, Roma, Milão, Atlanta entre outros. Ganhadora de prêmios na área de Arte e Tecnologia e Artista em Residência na N&A pela Fundação Japão, Tokyo , YCAM – Yamaguchi Center for Arts and Media, Yamaguchi, Japão, Werkraum Warteck PP em Basel e no Bain :: Connective, Bruxelas. Desde 2007 trabalho em parceria com Rafael Marchetti.

www.rachelrosalen.com.br,

artista representada pela Light Cone, Paris.
foto retrato: Denise Andrade

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CONVERSA MOLE? por Sylvia Mello Silva Baptista

 

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar
Beijei na boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou

 

Nessa canção de Assis Valente, gravada por vários dos melhores cantores de
nosso país, o mundo não acabou e deu a maior confusão.
Quando se lê e se estuda mitologia grega, parece que tudo o que podemos
pensar ou viver,  que esteja no perímetro do humano, já está ali exposto.
É sempre uma emoção  encontrar descritas as nossas angústias, as nossas
iras, os modos mais  improváveis de dar cabo a dores, em histórias trágicas,
épicas, cômicas ou  prosaicas.
Foi nessa fonte que me deparei com uma passagem que fala também do fim
do mundo,  ou quase, e que passo a relatar aqui. Afinal, não é o mundo uma
grande roda de histórias  e estórias, para as quais afinamos os ouvidos,
suspendemos o tempo e assim, adiamos a morte?

Corônis era o nome da bela ninfa, filha de Flégias, rei dos lápitas. Apolo,
o grande deus luminoso e flecheiro, por ela se apaixonou, no que teve seu
amor correspondido.

apolo e coronis

No entanto, apesar de já levar a semente do deus em seu ventre, temia que
o imortal se desinteressasse por ela, quando a velhice a alcançasse (vejam
como a questão do  envelhecer e da morte vem de tempos imemoriais).
Entregou-se então a Ísquis,  um mortal, com quem poderia sofrer
acompanhada os efeitos do tempo. Apolo não era lá muito bem sucedido
nos amores e resolvia sua pendências de forma cabal. Pediu ajuda a sua
irmã Ártemis – deusa das florestas e da natureza  selvagem, também
exímia arqueira -, e executou sua vingança: com flechas morreram
Ísquis pelas mãos de Apolo, e Corônis pelas de Ártemis. (Quantos acertos
de contas aconteceram entre nós, mortais errantes, dessa forma apolínea,
terrível? O mito nos fala metaforicamente do tamanho da dor da exclusão).

Mas a criança que crescia no ventre da  ninfa foi dali retirada -talvez a
primeira cesariana jamais realizada -, e  nasceu Asclépio.

Como usava acontecer com todos os heróis, foi educado
pelo grande centauro Quíron. Tinha um talento nato no uso das ervas bem
como da  magia. Desenvolveu a arte da cura, e fez de Epidauro um centro
ao qual muitos  acorriam para dar fim a suas aflições.

Asclepio e Higia

Casou-se com Epíone
e teve com ela dois filhos, Podalírio e Macáon (presentes na Ilíada de Homero),
e quatro filhas  cujos nomes devemos atentar: Áceso (a que cuida), Iaso(a cura),
Panaceia (a que  socorre a todos) e Higia (a saúde). Tal filiação nos dá a
possibilidade de  entender que esse semi-deus se desdobra em aspectos que
provêm do próprio Apolo  –igualmente o deus da cura, além da  música e da
mântica – e que apontam para o cuidado.

De fato, Asclépio,  além de sabedor das artes curativas, era possuidor de um
poderoso pharmacón: o sangue da jugular direita  da cabeça degolada da Medusa.
Atena, a deusa que ajudou Perseu a cortar a cabeça da Górgona horripilante –
que transformava os que a olhassem nos olhos em estátua de pedra -, deu a
Asclépio um vidro com o sangue capaz de fazer ressuscitar  os mortos.
E assim ele fez. E fez com tanto gosto que o mundo dos mortos começou
a minguar.

Hades, o rei dos  Ínfernos passou a se preocupar ao ver que nenhuma alma
aparecia por ali desde que Asclépio exercia seu ofício. E foi reclamar com
Zeus, o grande maestro do Olimpo. Este não teve dúvida: num piscar de
olhos fulminou o curador com seus raios.

Hades

Não há quem não fique indignado ao ouvir essa parte do mito. Como pôde
Zeus, o grande regente, zelador de tudo o que há sobre a Terra, como ele
teria tido a coragem de matar quem estava em pleno exercício do dito
“bem”? Mas nada é casual na sabedoria grega. Quem se indigna é a nossa
consciência ocidental baseada na cultura judaico-cristã que propala a
existência de um bem e um mal dissociados. Continuemos nossa história
para entendermos o modo flexível do raciocínio aqui  presente.

Apolo ficou furioso em ver seu filho morto, e num troco indireto liquidou
os Ciclopes, seres gigantescos, filhos de Urano e Geia, aqueles que
presentearamZeus com o raio, o trovão e o relâmpago. Com isso talvez
tenha tentado dar a Zeus  o gosto amargo da perda de um afeto, como a
que padecia, a ele imposta pelo  senhor do Olimpo. Hades, rei dos
Ínfernos, gostou desse ato, e viu seus domínios  se povoarem novamente.

asclepio

O mundo não acabou para Hades, mas acabou para o mortal Asclépio,
que no entanto, depois de fulminado, foi divinizado.

Isso nos faz pensar na relatividade das situações. A Psicologia Analítica,
fundada por C. G. Jung, olha para o manancial de conhecimentos da Grécia
antiga e vê ali uma sapiência em nada dispensável. Nesse casamento de
olhares, vemos que a unilateralidade das coisas leva a um desequilíbrio
insuportável com conseqüências nefastas. Apesar do ato de Asclépio ser
revestido das melhores intenções, ele incorreu no grave erro da hybris,
a imperdoável soberba que os gregos não admitiam nem mesmo aos mais
bravos heróis. Asclépio arrojou-se no papel de um deus. Fez um uso abusivo
do instrumento que lhe foi dado, o sangue da cabeça da Medusa. Esse
impulso ao  qual seguiu, passou do ponto e sua morte o lembra (nos lembra)
de seus (nossos) limites e da necessidade de humildade na sua (nossa) ação.

perseu e medusa

O termo  “humildade” tem em sua raiz “húmus”, que significa matéria orgânica,
a mais rica em nutrientes; ela se forma sobre a superfície terra, e para dela nos
aproximarmos, devemos nos ajoelhar, nos dobrar. Não por coincidência, a meu
ver, a palavra “reflexão” também possui o sentido do fletir-se.  Ao se refletir,
volta-se a consciência em direção a si mesmo. Com isso quero apontar para a
necessidade de observação deste necessário movimento de reflexão humilde.
O fim do mundo, o fim da picada, é não nos dobrarmos a essas verdades seculares.

E vejam que interessante. Em Epidauro, a medicina praticada, idealizada por
Asclépio, era a chamada nooterapia, ou seja, a cura pela mente.
O lugar era um centro cultural e de lazer, composto por um Odéon
(teatro onde se ouvia música e poesia), um Estádio (onde se faziam
competições esportivas de quatro em quatro anos), um Ginásio
(para exercícios físicos), um Teatro e uma Biblioteca com obras de arte.

Teatro Epidauro

Convido o leitor  a refletir onde estão, na nossa forma contemporânea de viver,
essas práticas que apontam para uma inteireza do homem, unindo corpo
e mente, pensamento e sentimento, arte e beleza. A perda desse referencial
harmônico e a constatação de uma visão de mundo e do homem tão
fragmentada, isso não  é o fim do mundo?

__________________________

1] As informações sobre o mito de Asclépio aqui relatado foram por mim
colhidas no Dicionário Mítico-etimológico de Junito de Souza Brandão, Editora
Vozes.

 

 

 Sylvia  Mello Silva Baptista formou-se em Psicologia pela PUC-SP.
É analista junguiana, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia
Analítica, professora de cursos abertos e de formação da SBPA,
coordenadora do MiPA, Núcleo de Mitologia e Psicologia Analítica
da Clínica da SBPA.
Como escritora, publicou “Maternidade e Profissão: Oportunidades
de Desenvolvimento”,  “Arquétipo do Caminho – Guilgamesh e
Parsifal de mãos dadas”, “Mitologia Simbólica – Estruturas da
Psique e Regências Míticas” e “Ulisses, o herói da astúcia”,
todos  editados pela Editora Casa do Psicólogo.

Lançou seu primeiro romance – “Segunda Pedra” – em novembro de 2012 pelo selo Edith.

 

http://www.visiteedith.com/

[email protected]

 

 

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O CALENDARIO MAYA – 21/12/2012 por Mark Lund

 

Estamos nos aproximando da data dos Mayas tão aguardada.
Poucas datas receberam tanta atenção e geraram tantos livros e tiveram
tantas teorias divulgadas. A maioria sem fundamento.  Mesmo que
muitas  dessas teorias furadas parecem ser frutos de um alarmismo e
sensacionalismo, não deveríamos ignorar a ciência e raciocínio profundo
por trás dessa data: 21/12/2012.

Quando eu a  vi pela primeira vez, uns dez anos atrás,  o que me chamou
a atenção foi que no mínimo se  tratava de uma data astronômica: por ser
o dia 21 de dezembro um solstício.  Um solstício significa que os “dias” a
partir  dessa data do ano começam (para nós do hemisfério do sul) a
“encurtar”.  O sol nessa data inicia a sua mudança de  rota, e começa a
assumir uma trajetória em que cada dia ele passa um pouquinho
mais ao norte.

Por ser uma data astronômica o que estava por trás das “Profecias Maya”,
e não uma visão  mística de um Nostradamus, ou a canalização de uma
mensagem de um ente estelar, eu me encantei.  Me encantei por ter
imaginado que, por ser astronômica e científica, eu poderia refazer o cálculo
que levou a essa profecia.   Em retrospecto, depois de 10 anos de muito
estudo, hoje vejo quão presunçoso eu fui.  Meus estudos me obrigaram a fazer
viagens aos sítios arqueológicos e entrar em inúmeros campos acadêmicos
(geofísica, astrofísica, mitologia, estudos orientais, arqueo-astronomia e
várias outras disciplinas). Mesmo assim, depois de tudo isso, vejo que eu nem
arranhei a superfície da imensa sabedoria que está por trás da cosmologia dos
Mayas.

maya Glifo TEMPO

Faltam menos de duas semanas para a data chegar.
Vai “acabar o mundo”?  Vai ser o “apocalipse”? O mundo não acabará,
o planeta passa periodiamente por processos desconstrutivos e desde
que a vida apareceu aqui na Terra,  jamais foi extinta.
Em  outras palavras; nem o mundo e nem a vida vão acabar,
muito menos de um dia para o outro !  E o conceito de um “apocalipse”
associado à data 21/12/2012 é uma projeção bíblica (que  se originou na
Persia) superposta a uma cosmologia indígena de América Central.
Temos que ter cuidado com tais con-fusões.

Talvez a coisa mais fascinante que aprendi nessa jornada de 10 anos foi a
descoberta de um fenômeno terrestre que gera um ciclo astronômico de
quase 26,000 anos.  Já fiz palestras para dezenas de platéias,
centenas de pessoas, e só uma ou duas delas tinha ouvida falar desse ciclo
chamado “PRECESSÃO”.  Até estudar os Mayas, eu não tinha a mínima noção
de que a Terra tem um terceiro movimento além de rotação e translação:
a PRECESSÃO.


O dia e o ano eram ‘fichinhas’ para os povos antigos da China, India, Egípcia,
Grécia, e América Central.  O que lhes interessava era mapear esse
mega-ciclo celestial de PRECESSÃO.  As  cosmologias e as mitologias de
todos esses povos se baseavam nesse terceiro movimento (um
cambaleamento do planeta). E garanto: se voce não entender os múltiplos
ciclos dentro do mega-ciclo da PRECESSÃO, os mitos vão parecer ser
fantasias de um bando de  primitivos.

MAYA -Pacal Votan tombstone

Agora, se  voce abordar os mitos e a cosmologia dos povos antigos
(principalmente os Mayas) entrando pela porta da PRECESSÃO,
voce vai se deparar com um conhecimento astronômico tão
complexo
que terá a mesma reação perplexa de todas as minhas
platéias: “como é que eles sabiam disso?”.  Então sugiro que ao
inves de aceitar ou rejeitar a data dos Mayas, que faça a sua ‘lição de
casa’ e descubra esse fascinante fenomeno e o mega-ciclo de TEMPO
que ele gera; e que tanto intrigava o mundo antigo, e que a grande
maioria da nossa sociedade moderna desconhece.
Daí, a sua pergunta vai ser bem  diferente: “por que é que os nossos
sistemas de educação sempre ignoraram um dos maiores espetáculos
celestiais do cosmos?”.

Clique aqui e entenda a contagem do tempo Maya e como o dia 21/12/2012 zera o calendario MAYA.

 
Mark Lund é provavelmente mais conhecido pelos 20 anos em que
marcou o litoral norte de São Paulo com seus dois empreendimentos:
a doceira Le Moussier que acabou abrindo lojas no litoral, na capital, e no
interior de São Paulo e uma espécie de Hard Rock Café do surf, localizado em
Maresias chamado “Legends”. Esses empreendimentos o levaram a GV e
a dar palestras em universidades
nos EUA, sobre o seu empreendedorismo de “lifestyle” tão único.
É palestrante em diversas outras áreas: para empresas de surfwear
sobre “A Espiritualidade Havaiana”; na Casa do Saber e na USP
sobre “A Visão Cética do Aquecimento Global”; no TEDx daluz
sobre “A Jornada do Herói” de Joseph Campbel.
Porém, há 10 anos um dos temas favoritos tem sido a “Arqueo-Astronomia”,
que sonda a astronomia escondida por trás das obras da mitologia
(narrativas e monumentais). Baseado nesses estudos ministrou muitas
palestras sobre a mitologia astronômica dos Mayas e outros povos, e acabou
se tornando um profundo conhecedor do calendário Maya.

[email protected]

 

Nestor foto- atílio avancini-22 (3)

APOCALIPSE por Nestor Müller

 

 

 

A palavra apocalipse ligou-se, no transcurso de séculos, à ideia de cataclisma
cósmico e fim do mundo.  Com  efeito, coisas assim estão figuradas no texto
do  Apocalipse de João, último livro do Novo Testamento cristão. Lá
consta que  Deus haverá de transformar este mundo de lágrimas, através
de várias  e conturbadas etapas, de modo a abater os poderes do mal e
conduzir  os fiéis a  “novos céus e nova terra”.

durer - Apocalipse

Entretanto, o que sabemos hoje sobre o apocalipse pode nos abrir horizontes
bem  mais amplos. A pesquisa sobre os livros bíblicos e sobre toda a literatura
antiga  expandiu-se nas últimas décadas, inclusive com a descoberta de novos
manuscritos,  tais como os do Mar Morto e os de Nag Hamadi. Vou aqui
apresentar três aspectos  que podem ajudar o entendimento mais lúcido sobre
esse tema.

 

manuscritos mar morto

 

Em  primeiro lugar, o Apocalipse de João  faz parte de um vasto conjunto de
escritos  – a chamada literatura apocalíptica  – típicos em todo o Oriente
Médio,  desde o final do  século III a.C. até o  início do século II d.C.[1]
Todos eles são  “histórias  para tempos difíceis”, redigidos quando a
interpretação religiosa dos  acontecimentos tornou-se obscura, e a fidelidade
às crenças antigas foi posta  em xeque por novos conceitos. Todos assumem
uma linguagem  simbólica e uma  imaginação bizarra.

Características comuns desse gênero literário: sempre têm a forma de
revelações  (a palavra  grega apokálypsis significa  exatamente revelação
ou desvendamento)  dadas por Deus ou um  anjo a uma pessoa  entusiasmada
e visionaria. Tais revelações  ocorrem durante sonhos.  Relatam, em  termos
alegóricos, o drama das perseguições  sofridas pelos justos, a ocorrência de
uma catástrofe que põe fim a essa situação, e a  chegada de um novo mundo
de  paz e felicidade. Os textos não interpretam a realidade  presente
salientando  os deveres éticos, como o faziam os profetas, mas sim usando
metáforas,  arquétipos  e mitos que apontam para a destruição escatológica
e a  instauração de um mundo  novo. O conteúdo tende ao dualismo entre as
forças  cósmicas  do bem e do mal e  entre as duas eras universais, a antiga
que sucumbe  e a nova instaurada por  Deus. É frequente o uso da
numerologia  e a narração  de viagens aos planos celestiais.

Apocalipse - Boldeian Library

A  literatura apocalíptica expressa uma cosmovisão, uma mentalidade que
responde à  profunda crise vivenciada por alguns grupos religiosos do
Oriente  Médio, depois  da conquista de Alexandre da Macedônia e do
predomínio da  cultura helenística. Sem  forças para superar o jugo
estrangeiro, sem perspectivas  animadoras, eles  mantiveram sua
esperança mediante a imaginação de uma decisiva intervenção  divina
que rompesse as dificuldades concretas e trouxesse  uma vitória para
suas  antigas tradições. A mentalidade apocalíptica floresceu
especialmente em movimentos  sociais minoritários, tais como
os essênios ou  os mandeus.

Em  segundo lugar, o que chamamos de mentalidade apocalíptica parece,
de certo  modo, retornar em todos os tempos de crise severa[2].
Nesse sentido, podemos  reencontrar em nossos dias algumas daquelas
características, presentes em toda uma série de expressões de revelação,
canalização ou psicografia, ou então de  imaginação exacerbada. Por
exemplo, em obras de sabedoria esotérica que atualizam  fontes antigas.
Ou em manifestações de grupos que propagam visões, prenunciando
grandes calamidades futuras. Ou em filmes que mostram destruições
planetárias e  mundos paralelos. Ou em romances sobre seres
extraordinários como as sagas de “Senhor  dos Aneis”, “Harry Potter”
ou “Crepúsculo”. Todos possuem um certo elemento ou  tempero da
mentalidade apocalíptica.

O Senhor dos Aneis

Em  terceiro lugar, podemos interpretar todas essas manifestações, antigas ou
atuais, como sendo uma expressão de anseios, mais ou menos tenebrosos,
acerca  de mudanças que estão de fato ocorrendo. Elas projetam um desejo de
mudança,  comunicando temores diante do futuro e também a esperança de
liberação de  potenciais ainda desconhecidos, mas pressentidos.

No  caso dos povos antigos, dominados pelo helenismo e depois pelo
império romano,  eles viram suas ideias e seus ideais, suas leis e seus
hábitos, serem minados por  novas condições dentro das quais as crenças
antigas pareciam não fazer mais  sentido.

Atualmente estamos enfrentando mudanças rápidas, amplas  e profundas,
nunca antes registradas na  história humana, trazendo inovações
e impasses para todos  os setores da vida e  do conhecimento. Torna-se difícil,
mesmo para quem busca melhores  informações, formar uma visão de
conjunto  sobre as transformações em curso, as quais indicam claramente
novos  problemas, novos desafios e novas possibilidades, impensadas por
nossos ancestrais ou mesmo durante a juventude daqueles que hoje são mais
idosos.

Salvador Dali

Sabemos,  todos, que a vida humana daqui a algumas décadas será bastante
diferente da  atual. É natural que sintamos – mesmo aqueles que se esforçam
em estar sintonizados com as  mudanças e  buscar meios de intervir nos
acontecimentos – um medo enorme, difícil de ser  administrado. Torna-se
assim mais forte a tendência a se deixar levar pela  tremenda capacidade
humana de fabulação incontrolada, a via tortuosa de acreditar  em mudanças
terríveis operadas por algum poder desconhecido e  superior. Enfim,
refugiar-se em cenas imaginárias é uma projeção de esperanças,
mas também pode  ser um mecanismo de defesa que pouco
acrescenta à nossa vida real.

Muitos  sábios cristãos encontraram no Apocalipse  de João,
um chamado para o amadurecimento da fé e a renovação
espiritual, e  não apenas o vaticínio sobre a queda do Império Romano.
Creio que esses mestres  indicam o melhor caminho para acolhermos e
compreendermos as visões que hoje se  disseminam.


[1] Exemplos dessas obras são, na literatura judaica, os capítulos 53 a  74
do Livro de Baruc, os capítulos 9  a 12 do Quarto Livro de Esdras, os
capítulos 14 e 15 do Primeiro Livro de  Enoc, os capítulos 7 a 12 do
livro bíblico do profeta Daniel, e muitos outros textos. Na literatura cristã e
gnóstica são  conhecidos trechos do Pastor de Hermas,  o Apocalipse
de Pedro
,  e outras obras  tardias. Importantes paralelos persas são o
Bahman  Yasht, e o Arda Viraf, redigidos  na era sassânida, mas
conservando uma tradição oral muito antiga.

[2] Foi assim na Europa central, assustada com o poder dos califas
muçulmanos e com a ameaça de invasões normandas e búlgaras, que esperou
o final dos tempos com a chegada do ano 1000.

foto banner- Atilio  Avancini

 

Nestor Müller, mestre em filosofia pela UFSCar, gosta de longas caminhadas
e é professor na E. E. Otoniel Mota em Ribeirão Preto. Foi professor convidado
da  PUCSP e do Instituto Teológico Pio XI, em São Paulo.
VENUS cruzando a face do sol

2012 – DAQUI POR DIANTE por Amâncio Friaça

 

 

Amplificar a voz dos que gritam implica tornar inaudível a voz dos que
tem algo a dizer. Esse mecanismo das mídias contemporâneas, revelado
pelos estudos de Marshall McLuhan, está presente na propagação dos mitos
nazistas  pelo ministério de Goebbels, nas peças de propaganda ao leste e ao
oeste durante a guerra fria, na submissão do jornalismo ao entretenimento, na
fabricação do consenso contra Belo Monte, e do fenômeno 2012.
O que foi abafado pela amplificação da gritaria da indústria do espetáculo
(por exemplo, o filme “2012”)e da indústria do esoterismo (“Calendário Maia” etc.)?

Vênus, de deusa ao diabo

Os maias tinham um calendário bastante preciso, fruto de uma astronomia
e matemática sofisticadas.

calendario maia

O cômputo do tempo dos maias se baseava fortemente nas observações de Sol e Vênus.
Isso não é único dessa civilização. Na Mesopotâmia, as observações de Vênus
são centrais para as cosmologias que sumérios e babilônios desenvolveram.
Vênus é o planeta mais brilhante visto da Terra. É resplandecente quando visto
após o por do Sol (quando é chamada de Estrela Vespertina) ou antes do
nascer do Sol (Estrela Matutina).

 

Pode-se dizer que foram as observações de Vênus que impulsionaram os
primórdios da astronomia. E há duas coincidências felizes em relação à
Vênus para os primeiros astrônomos: a órbita de Vênus é a mais circular
dos planetas do Sistema Solar; o período entre as conjunções Vênus-Sol,
que correspondem ao ciclo Estrela Vespertina- Estrela Matutina, é
584 dias, ou, muito aproximadamente, 1,6 anos. A quase-circularidade da
órbita de Vênus torna mais regular qualquer cálculo de tempo baseado em
observações de Vênus. E o ciclo de 1,6 anos corresponde à razão 8:5.
Ou seja, em 8 anos há 5 ciclos de Vênus vespertina ou matutina, que
desenham o Pentáculo, a estrela de cinco pontas no céu, que passou a ser
o emblema de Vênus. Tradições posteriores, seguindo a lógica de transformar
deuses das civilizações anteriores em demônios, converteram a deusas Vênus,
Innana, Ishtar ou Astarte em Lúcifer, que, aliás, é o nome grego do planeta
Vênus, significando apropriadamente “portador da luz”.
E o Pentáculo foi transformado no símbolo do diabo.

Trânsitos de Vênus

Mas, afinal, o que se abafou em relação a 2012? Voltando ao ciclo
Vênus-Sol. O período de 584 dias é o intervalo entre conjunções do
mesmo tipo, pois há dois tipos de conjunção, a inferior em que Vênus
fica entre o Sol e a Terra, e a superior, em que Vênus passa atrás do Sol.
Se a órbita de Vênus estivesse no mesmo plano que a órbita da Terra,
em toda conjunção inferior, Vênus passaria na frente do disco e seria
visto como um ponto escuro. Isto é chamado um trânsito. A duração
de um trânsito é poucas horas, e, assim para ser observado, temos que
estar no hemisfério certo da Terra. Acontece que Vênus tem uma órbita
inclinada em 3,4° em relação à da Terra, e normalmente passa sob
ou sobre o Sol no céu na conjunção inferior. Essa conjunção normal tem
o período de 1,6 anos. Contudo, o trânsito é um evento muito mais raro,
separados por mais de 100 anos entre si. Tão raro que não houve nenhum
no século XX. E, quando eles ocorrem, em geral são em duplas, separados
por oito anos, conforme a razão 8:5 mencionada acima. E no século XXI,
houve um par desses trânsitos, um em 8 de junho de 2004, e outro em 6 de
junho de 2012. Este foi o grande evento de 2012!

Como era de se esperar, a mídia se calou sobre o que era significativo,
o trânsito, e continuou repetindo à exaustão a historinha do fim do mundo em
2012. Marshall McLuhan explica. Para que se tenha uma idéia da raridade do
evento, houve somente apenas oito desses eventos desde a invenção do
telescópio, em 1631, 1639, 1761, 1769, 1874, 1882, 2004 e em 2012.
E o que aconteceu que marcou 2012? Em 22 de maio de 2012, o foguete
Falcon 9, da empresa SpaceX, partiu de Cabo Canaveral
no primeiro voo orbital privado,transportando a cápsula Dragon para
reabastecer a ISS (Estação Internacional Espacial).
O lançamento bem sucedido foi saudado como um marco histórico na
exploração do espaço, pois a utilização de naves privadas irá reduzir o custo
do transporte para fora da Terra. Foi dado mais um “passo para libertar
o homem de sua prisão na terra”. Essa citação de um repórter americano
por ocasião do lançamento do Sputnik encontra-se no segundo parágrafo
do A Condição Humana de Hanna Arendt. A filósofa ilustra com essa fala
o profundo significado do evento da saída da humanidade ao espaço que
“em importância ultrapassa todos os outros.”

Por mais outra feliz coincidência, em 2004, foi dado outro “passo para
libertar o homem de sua prisão na terra”. O avião-foguete SpaceShipOne,
projetado por Burt Rutan, e financiado por Burt Allen, o co-fundador da
Microsoft, ganhou o Ansari X Prize, por ser a primeira espaçonave reutilizável
lançando-se ao espaço em voo sub-orbital. O prêmio foi concedido em 4 de
outubro de 2004, data de lançamento do Sputnik 1. De volta a 2012, neste ano
a Planetary Resources Inc.anunciou seus planos de mineração de asteróides
próximos da Terra em busca de metais do grupo da platina. Seu co-fundador,
Peter Diamondis, tem promovido o turismo espacial através de sua empresa
Virgin Galactic, ainda em fase de testes. Desse modo, os acontecimentos
se encaminham para concretizar a profecia do pioneiro russo das viagens espaciais:
“A Terra é o berço da humanidade, mas ninguém vive no seu berço para sempre.”

 


Amâncio Friaça
 Astrofisico, professor livre-docente do Instituto
de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade
de São Paulo (IAG-USP). Pesquisador nas áreas de Evolução de
Galáxias, Cosmologia e Transdisciplinaridade e Astrobiologia.
É responsável pela disciplina de astrobiologia  “A Vida no
Contexto Cósmico”, oferecida pelo IAG-USP.

the ruins of Detroit (2)

O FIM DO MUNDO de João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade

 

O fim do mundo – João Cabral de Melo Neto

No fim de um mundo melancólico os homens lêem
jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas que ardem como o sol.
Me deram uma maça para lembrar a morte.
Sei que cidades telegrafam pedindo querosene.
O véu que olhei voar caiu no deserto.O poema final ninguém
escreverá desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim
me preocupa o sonho final.

 

 

 

 

 

 

 

Poema da Necessidade – Carlos Drummond de Andrade

É preciso casar João,
é preciso suportar, Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o fim do mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

foto banner- The ruins of Detroit -Yves Marchand and Romain Meffre

 

 

the old horizon  - Geoff Diego Litherland

O MUNDO NÃO ACABOU ONTEM – os esclarecimentos da NASA

A NASA está tão convicta que nada vai acontecer no dia 21/12/2012 que,  se antecipando ao fim do mundo, soltou um video que só deveria ir ao ar no dia 22/12.
Batizado de O MUNDO NÃO ACABOU ONTEM,  o vídeo é um esclarecimento formal sobre o Calendário Maia,  planeta Nibiru, explosões solares e outras possibilidades de ameaças, temas tratados pela NASA e seus especialistas como boatos, sem nenhuma base real.

 

O site da NASA  http://www.nasa.gov/topics/earth/features/2012.html

 

Abaixo o texto que o site yahoo news publicou comentando a atitude da Nasa e o vídeo:

Dec. 21, 2012, has long been rumored to be the day of the Mayan apocalypse, when Earth comes to its inglorious end. The good folks at NASA want you to know that isn’t going to happen.

In fact, NASA is so confident that it recently published a video that appears as if it were intended to be aired on Dec. 22. Titled “The World Didn’t End Yesterday,” the four-minute clip explains how the idea of the Mayan apocalypse was a huge hoax and how the rumors began. A commenter on YouTube jokes, “The correct title for this video: Told ya so!—Love, NASA.”

Time magazine reports that the space agency has been besieged with questions from citizens worried that their lives are about to end. NASA is taking the fears seriously, not because there is any danger, but because irrational fears can sometimes lead to irrational and dangerous actions.

[Related: NASA to launch new Mars rover in 2020]

NASA’s official site features an area dedicated to debunking the claims. “The world will not end in 2012,” NASA writes. “Our planet has been getting along just fine for more than 4 billion years, and credible scientists worldwide know of no threat associated with 2012.”

NASA experts go on to explain the origins of the hoax. “The story started with claims that Nibiru, a supposed planet discovered by the Sumerians, is headed toward Earth. This catastrophe was initially predicted for May 2003, but when nothing happened the doomsday date was moved forward to December 2012 and linked to the end of one of the cycles in the ancient Mayan calendar at the winter solstice in 2012—hence the predicted doomsday date of Dec. 21, 2012.”

Nibiru, by the way, is not a real planet. If it were, NASA says the agency “would have been tracking it for at least the past decade, and it would be visible by now to the naked eye.”

Translation: The world isn’t going to end. You still have to finish your holiday shopping. You still have to come up with something fun to do on New Year’s Eve. Sorry.

http://news.yahoo.com/blogs/lookout/nasa-releases-told-ya-apocalypse-video-early-205905003.html

foto banner: The Old Horizont – Geoff Diego Litherland 

 

 

 

 

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17a. Edição- O FIM DO MUNDO

Chegamos a 17a. Edição – O FIM DO MUNDO.
Por que as idéias sobre o Apocalipse movem tanto o nosso imáginario?
Sylvia Mello Baptista, Amâncio Friaça, Nestor Muller, Rachel Rosalen, Flávia Reis, Mark Lund e até Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto deram suas impressões sobre o evento.
Poetas, seresteiros, astrofísicos, filósofos, teólogos, escritores, psicólogos, estudiosos e até a Nasa foram unânimes: temos muita vida pela frente. Que cada um de nós possa soltar e se desprender do antigo e que sejamos capazes de renascer melhor a cada fim de um ciclo, de um ano, de um mundo.

Em janeiro o forademim tira uma pausa, férias!, e voltamos em fevereiro com uma nova edição.

As edições anteriores estão na barra vermelha, na parte inferior do site, onde estamos construindo a nossa história.

Feliz Ano Novo para todos. Boas festas!

Elza Tamas

 

foto Banner – Elza Tamas sobre fotografia de Grete Stern