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Vou fazer a minha casa no alto de uma quimera- As casas de Tom Jobim

Sempre que eu penso que algumas pessoas não deveriam morrer, Tom Jobim vem a minha cabeça. Por mim, eu eternizava.

Dois videos ótimos.No  primeiro Tom Jobim lê  o poema  Chapadão que fez para a sua casa no Jardim Botânico. Depoimentos de Ana Jobim, sua mulher,  planta da casa, fotos da construção e curiosidades. A casa demorou 4 anos para ficar pronta, o poema 8 anos.

 

 

Ana jobim conta como  Tom Jobim escolheu sua casa em Nova York. A view with a room.

 

VINICIUS DE MORAES 2

VINÍCIUS DE MORAES E A CASA MATERNA

Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As
grades do portão tem uma velha ferrugem e o trinco se encontra num
lugar que só  a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde
e úmido que os demais,  com suas palmas, tinhorões e samambaias,
que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.

É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as
mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga
imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas
poltronas. o assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da
cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras
primaveras. As coisas vivem como em preces, nos mesmos lugares onde as
situaram  as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se
olham dos  porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente.
O piano fechado, com uma  longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda
passadas valsas, de quando  as mãos maternas careciam sonhar.

A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o
olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a
bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta, de cujo teto à
noite pende uma luz morta, com negras aberturas para os quartos cheios de
sombra. Na estante junto à escada há um Tesouro da juventude com o dorso puído
de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial primeiro viu a forma gráfica de
algo qua passaria a ser para ele a forma suprema da beleza: o verso.

Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos
a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o
térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória.
Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort
amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate,
biscoitos de araruta – pois não há lugar mais propício do que a casa materna
para uma boa ceia noturna. E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que
aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficam os
guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em
frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna, sabe porque queima às vezes
uma vela votiva. E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação
diurna. Hoje, vazia.

A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu
violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como que se marca ainda na
velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua
sesta dominical. Ausente para sempre de sua casa materna, a figura paterna
parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem
mais lentas e as mãos filiais ainda mais unidas em torno à grande mesa, onde já
agora vibram também vozes infantis.

 

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OTHONOM * por Elza Tamas

 

É domingo de manhã e eu pergunto ao meu pai como vai a vida dele.
Minha vida vai muito bem minha filha, muito bem, mas eu quero
ir pra casa, chega de férias. Tem um lugar no seu carro?
Hesito, nem sei o que responder. Tem sim pai, você me ensina o caminho?
Ele para, pensa,  e me diz: infelizmente eu não posso lhe ajudar minha filha, porque eu nunca estive aqui.
Estamos sentados na sala de jantar da casa em que ele vive há pelo menos 30 anos.

Embora rodeado por objetos absolutamente familiares e  reconhecidos  como tal,  ele não se sente em casa. Talvez anseie pela casa da infância, ou a memória amálgama afetiva de todos os lugares casa que o acolheram.
Não sei, mas ele tem insistido que neste hotel, ele não quer ficar mais.

 

*em húngaro a palavra Othonom quer dizer  minha casa, o meu lar, a minha terra, o meu país.

 

foto banner: Elza Tamas – prato escultura Cristiano Quirino

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Bachelard e a casa mãe de Henri Bosco

No seu maravilhoso livro “A Poética do Espaço” , Bachelard dedica alguns capitulos à casa  e discorre sobre as funções fenomenológicas e psíquicas do porão, sotão, cofres e fechaduras; dos armários  e dos cantos; e da função arquetipica e imagética da casa.
Cita um trecho do livro  Malicroix,(1948) do escritor frances Henri Bosco, onde a casa é vista como uma representação da proteção materna.

 

 A princípio ela se queixava; as piores rajadas a atacaram de todos os lados ao   mesmo tempo, com um ódio nítido e tais urros de raiva que, durante alguns   momentos, eu tremi de medo. Mas ela resistiu. Quando começou a tempestade,  ventos mal-humorados dedicaram-se a atacar o telhado. Tentaram arrancá-lo,  partir-lhe os rins, fazê-lo em pedaços, aspirá-lo. Mas ele curvou o dorso e  agarrou-se ao velho vigamento. Então outros ventos vieram e, arremessando-se rente ao solo, arremeteram contra as muralhas. Tudo se vergou contra o choque  impetuoso; mas a casa, flexível, tendo-se curvado, resistiu à fera. Sem dúvida   ela se prendia ao solo da ilha por raízes inquebrantáveis, e por isso suas  finas paredes de pau-a-pique e madeira tinham uma força sobrenatural. Por mais  que atacassem as janelas e as portas, pronunciassem ameaças colossais ou  trombeteassem na chaminé, o ser agora humano em que eu abrigava meu corpo nada  cedeu à tempestade. A casa apertou-se contra mim, como uma loba, e por momentos  senti seu cheiro descer maternalmente até o meu coração. Naquela noite ela foi  realmente a minha mãe.

 

foto banner: Elza Tamas sobre escultura em ceramica de Alberto Cidraes

cabala arvore da vida

A CABALÁ E A CASA por Sandra Strauss

 

Cli Lê Shalom é uma técnica cabalística capaz de harmonizar um ambiente.

A palavra Shalom é conhecida como uma saudação de paz, porém sua raiz na língua hebraica se encontra nas palavras pagar e completar. É verdade: toda vez que completamos algo ou estamos completos vem a sensação de paz.

Já a palavra Cli significa recipiente, e isso que é Cabalá, recebimento.

Todo esse trabalho acontece na relação ambiente-habitante. A casa ou o local de trabalho servem como um termômetro de medição da dinâmica energética do local.

Cli Lê Shalom propõem a programação do fluxo energético do espaço (desobstruindo, direcionando, curando e dinamizando) de acordo com a demanda e o relato de cada indivíduo e do espaço em si.

Isso é a reengenharia de harmonização de ambientes.

A Árvore da vida é representada por um diagrama cabalístico que abrange todos os planos através dos quais a vida se manifesta, inclui todas as virtudes a serem trabalhadas pela humanidade ao longo da vida e este diagrama é que será aplicado na planta baixa do ambiente.

As ferramentas principais usadas para essa programação são as letras do alfabeto hebraico. Elas são o DNA espiritual do universo com valores quantitativos e qualitativos e são colocadas em cantinhos específicos da casa após o estudo na planta-baixa.Essas letras tem uma ressonância mórfica (vibração) que irão influenciar o fluxo e assim o fluxo nos influencia criando então um equilíbrio no espaço físico.

E assim a casa passa a ser um receptor para o que desejamos.

 

 

 

Sandra Strauss é engenheira biotecnóloga formada em Israel, estuda assuntos energéticos relacionados à medicina da casa desde 2000.

Trabalha como consultora ambiental baseando-se no princípio da constituição energética de cada lugar (residências, empresas, escritórios, consultórios, terrenos…) programando o fluxo vital e integrando-o de forma particular e dinâmica com as pessoas.

Ministra cursos no Centro de cultura MIDRASH , no Rio de Janeiro

http://www.sandrastrauss.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

meucorpo

SEU CORPO, SUA CASA por Mary Jane Paiva

 

 

Muito se fala de corpo, não? Ele é chamado de corpo do pecado, da estação, da moda, de sarado, perfeito, e por aí vai. Mas, vou falar do corpo como casa, do corpo que você habita, em que você vive. E tomarei como base a ciência/teoria de W.Reich (1897-1957), psiquiatra e psicanalista,criador da psicologia corporal, que estudou o corpo,a mente, a energia; e a integração e relação dessa tridimensionalidade resumida no corpo. Reich defendia que o corpo doente é a fonte das doenças psíquicas. Difundiu a unidade funcional entre o físico e o psíquico, e a teoria de que o corpo abriga nosso ser e as histórias das nossas relações afetivas ao longo da vida.

A partir daí soube-se que desde a fase intra-uterina, quando nosso corpo era abrigado no de nossa mãe, dentro do útero (essa espécie de nave espacial que nos trouxe a terra, deu a luz, o início, o fim e o meio) nossa história vai sendo inscrita em nosso corpo, que é a casa de todos os nossos sinais gravados, como diz o italiano Dr.Gino Ferri, psiquiatra e analista reichiano. Ou seja, a forma como desenvolvemos nosso sistema neuroafetivo e como lidamos com nossa troca afetiva, a partir do útero até final da puberdade, define nosso caráter.

Até o temido e  comentado estresse pode ser resultante de tal fase, que influi ainda no quanto e como recebemos as gratificações que vão determinar nossa forma corporal, nosso comportamento e nosso jeito de agir e reagir na e à vida. Mas é claro, que um bom pai e uma boa mãe também exercem grande influência.

O fato é que existe sim relação entre o modo como você habita seu corpo e a forma como leva sua vida. Desde o útero não há nada que passe por sua vida sem passar pelo seu corpo, sabia? Com ele você sofre e goza, expressa o seu desejo, o seu medo, revela seu carinho,denota sua tristeza e todas as suas percepções, sensações e emoções.O corpo ainda pode suprir todas as suas necessidades e atender aos seus desejos. Nenhum sentimento,pensamento, sonho,projeto, criação ou realização existem sem o corpo. Isso posto, o enigma é: você pertence ao seu corpo, ou o seu corpo te pertence?

Para responder essa questão é preciso perguntar outras. Você sabe dizer como ocupa o seu corpo? Definiria o modo como vive nele?

magritte

Fica mais na cabeça, é mais racional ou intelectual? Se sim, isso quer dizer que usa muito o escritório do seu corpo. Mas, você se lembra de ir ao jardim? Como areja sua moradia, quero dizer, como você respira? Tem portas e janelas amplas? Ou a abertura é limitada e a respiração da casa presa onde o ar é mais denso e poluído? E como vai seu apetite? Come em excesso ocupando uma boa parte do seu tempo na cozinha? Você gosta de se mexer e se exercitar? Acha a sua casa (corpo) barulhenta e agitada? Ou calma e serena? Costuma convidar os amigos para te visitar? Como é a sua sala de visita ? Como você se organiza para receber pessoas em sua casa? Tem espaços para intimidade? Gosta de ficar em casa? Sente a sua casa confortável e aconchegante? Tem quintal ou jardim e gosta de tomar sol? Sente sua casa pequena, apertada e insegura? Quais são os bloqueios e defeitos desta casa? A rede de esgotos funciona? Precisa de reforma? Qual área é a sua preferida? Gosta de enfeitá-la e cuidar dela para que não se deteriore? É uma casa funcional que tem calor, movimento e inteligência afetiva?

Sim, o corpo é uma casa como a sua, que precisa de cuidados, lugar onde circula e flui energia. Se você possui dores crônicas musculares, logo sua casa precisa de manutenção. Frio? É bom aquecer o corpo com energia amorosa.  Mas é bom olhar para trás também. Para Existir, Querer, Escolher e Afirmar quem somos, precisamos de um bom desenvolvimento e funcionamento, de uma casa com uma boa fundação para que possamos explorar nosso potencial natural  e desenvolver nossa identidade.

A casa ideal, ou o corpo ideal, é aquela/ aquele com estruturas sólidas, calor, aconchego e ventilação. Mais: com um bom sistema de alarme que deve ser atendido a cada ressoar. É construída em um terreno seguro onde há sol, água e rede de esgotos, ou melhor, com garantia de dignidade. Possui uma etica  natural afetiva e   a estetica harmonica.E serve como lugar de possibilidades e alternativas para se viver o sentimento de humildade, humanidade e humor. E que analogicamente tenha cabeça, peito e pélvis relacionados e integrados que podem trazer como resultado a alegria de viver  e prazer.

Está tudo bem em sua casa?

 

Mary Jane A. Paiva  é psicologa clínica,  psicoterapeuta e analista reichiana. Diretora da  Sovesp(Sociedade de orgonomia e vegetoterapia de SPaulo ), escola coligada a  Siar (Escola italiana de Analise Reichiana).
Elaborou, fez a revisão científica  e o prefácio da edição brasileira do livro italiano  de Genovino Ferri e Giuseppe Cimini: Psicopatologia e Caráter -a psicanálise no corpo e o corpo na psicanálise).
Deu aula no Senac e no curso de Psicologia Reichiana no instituto Sedes Sapientae .

Escreve semanal sobre comportamento no blog:
http://ligia.tv/site/category/Comportamento

 

 

 

Foto Banner: Elza Tamas sobre o trabalho de Elad Lassry – Ghost