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Edição Origens

Origem é o cálcio da estrela no meu metatarso, a ponta da flecha, o x e o y, o medo da morte. É Nyx, a noite escura, é a bola de couro, é a bola da Terra, é Gaia, é o grito de gol. É o pátrio, é a mãe, minhas costas; é o lácio, é Lucy, é Aurora. Tudo que é original tem a ver com a origem; é a ideia que espoca, é o disco de ouro na nave voyager que toca Chucky Berry. Origem é o agora, é o futuro, é ver nascer a máquina mais inteligente que o homem.

Para falar de origens na história, no espaço, na imaginação, na psique, no futuro, nas artes, convidamos:

LEDA CARTUM escritora, com o conto Atrás de todas as coisas.

JESPER RHODE especialista em  mídias e tecnologias.  Inteligência Artificial chegando logo ali.

MAGDA PUCCI musicóloga, artista,  e o link entre a origem da musica e a linguagem.

ALEX CERVENY  artista plástico, compartilhando em 1a. mão sua próxima exposição : O GLOSSÁRIO DOS NOMES PRÓPRIOS.

ANDREA MIGLIANO  PHD formada em Antropologia biológica pela Universidade de Cambridge e as origens e singularidades dos homens

ROSA DORAN astrofísica brasileira residente em Portugal sobre a origem do Universo e dos questionamentos

AUDE KATER  terapeuta e artista, especialista  em Constelações Sistêmicas sobre os efeitos da anscestralidade no nosso comportamento

e  um conto de ELZA TAMAS  sobre as  suas origens húngaras.

 

 

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O GLOSSÁRIO DOS NOMES PRÓPRIOS por Alex Cerveny

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O “glossário dos nomes próprios” que deu origem a esta pintura foi o que encontrei em uma edição de Os Lusíadas, de 1884. Retirei dali os primeiros nomes da lista: Abraham, Achilles, Acrísio, Acteon, Adamastor, Adão e assim por diante até o terrível Zopyro, o sátrapa persa. Escolhi apenas homens e os imaginei todos com suas feições semíticas, todos semelhantes e habitantes de um mundo anterior à existência das mulheres. E também vieram faraós, papas, profetas, psicanalistas e homens de todo tipo. Todos eles nascidos das costelas uns dos outros, desde Adão até Michael E. Dritschel, o inventor da margarina cremosa(mesmo gelada!) e assim por diante. Em cada pintura existe um mundo. Neste é assim. E nele a existência humana está prestes a se acabar porque toda a matéria combustível já ardeu para forjar o metal das correntes titânicas que prendem o céu à terra. As últimas brasas ainda queimam, mas não por muito tempo. O universo chega assim ao seu termo, que apesar do esgotamento, possui grande beleza. Um belo mundo construiram estes homens e assim, a linhagem do primeiro Adão está pronta para o seu fim.

 

 

 

 

 

Alex Cerveny – São Paulo, 1963.
Foi criado na zona oeste de São Paulo, filho de um arquiteto e de uma professora especializada no ensino de cegos. Seu trabalho é fundamentalmente narrativo, em pintura, desenho, gravura e escultura. Artista de formação livre, começou a expor no ano de 1983. Recebeu em 1986 o “Grande prêmio” na 7 a mostra de gravura Cidade de Curitiba. Em 1991 participou das exposições Viva Brasil Viva, no museu Liljevalchs em Estocolmo e da 21a Bienal internacional de São Paulo. Nos anos recentes, ganhou em 2012 o Prêmio FUNARTE-Marcantônio Vilaça pelas ilustrações do livro Pinóquio (Editora Cosac Naify, 2011) e com elas ainda participou em 2013 da 30a Bienal de artes gráficas de Ljubljana. Em 2014, recebe também o segundo lugar do Prêmio Jabuti de melhor ilustração pelo livro Decameron(Cosac Naify, 2013).

 

A exposição “Glossário dos nomes próprios” estará em cartaz de 1° de abril à 7 de junho de 2015 no Paço Imperial, Praça XV de Novembro, 48 – Centro – Rio de Janeiro. De terça a domingo, das 12 às 18h – ENTRADA FRANCA

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Pinóquio e o mentiroso em nós por Alex Cerveny

No começo, acho que entendia a mentira apenas como uma mera estratégia de sobrevivência(“- Já tomou banho?  -Tomei!”…), mas, com o tempo, percebi que mentir também nos ajuda a obter recompensas preciosas, tais como prazer e vingança.  Penso que todos nós que sobrevivemos aos horrores da infância e às infâmias da adolescência, obtivemos tal êxito porque aprendemos a mentir com convicção. E assim nos tornamos crianças mais adequadas e adultos mais bem preparados para enfrentar o mundo real.

Ler e ilustrar o Pinóquio de Carlo Collodi, na tradução de Ivo Barroso foi uma redescoberta. Não apenas quanto ao texto, sem cortes e original. Mas também pelas frestas que se abriram nele, para que eu reencontrasse na memória as minhas primeiras estripulias e atos inconfessáveis. Este trabalho fez com que eu me projetasse em muitas das cenas apresentadas, algumas vezes próximas dos vestígios de minha própria, (ou de qualquer) infância e das fantasias vividas no processo de metamorfose para a vida adulta.

Este Pinóquio completo, que pode ser subentendido também como um “manual de conduta para meninos”, é bem diferente das histórias educativas de Heinrich Hoffmann reunidas em Der Struwwelpeter anos antes. Collodi junta tudo em uma galopante narrativa e ainda acrescenta importantes ingredientes morais e sentimentais. Contém um oceano de possibilidades para o ilustrador.

Seu mundo é um lugar mágico, e como tal, é cheio de armadilhas perigosas para uma presa perfeita como Pinóquio. Ele fala demais, não escuta, é exibido e não suporta ser contrariado. É ingenuo, impaciente e não pensa antes de agir. Suas mentiras frágeis não convencem enquanto boneco, e talvez o objetivo maior, por trás do “tornar se um menino de verdade”, seja justamente o desejo de aprender a mentir de uma maneira convincente.

Foi em setembro de 2011, depois de quase um ano de tentativas, de busca de um traço e de um formato para o boneco e seu mundo mágico, que eu achei que este Pinóquio poderia se “revelar” através do cliché-verre.

Neste procedimento híbrido, meio gravura e meio fotografia, as imagens foram desenhadas em chapas de vidro coberto de fuligem, e depois reveladas. Resultam de um artesanato onde quase não existe atrito, porque a agulha desliza na superfície do vidro removendo a fuligem sem nenhuma resistência. A luz que atravessa o negativo de vidro grava a imagem no papel. O resultado traz um pouco da atmosfera e da textura dos calotypes do século dezenove.

A partir daí, em poucas semanas Pinóquio foi “revelado” em cerca de sessenta imagens e entregues quase diariamente. Não foram feitos esboços preliminares, e tive que fazer muito poucas correções; assim, penso que estes clichés contém bastante sinceridade.

É preciso admitir que fiz uso de um novo instrumento para a execução desta série, uma lupa, que me permitiu fazer com mais conforto e precisão todas as caligrafias e filigranas, e a enxergar as miudezas do desenho, como na juventude.

 

 

Alex Cerveny nasceu em 1963, em São Paulo, onde até hoje vive e
trabalha. Sua formação aconteceu principalmente nos ateliers de dois
artistas: Valdir Sarubbi e Selma D’affrè, com os quais estudou desenho
e gravura; e para os mesmos, trabalhou como assistente entre 1979 e
1984. Expõe regularmente desde 1982. Seus desenhos, gravuras, bronzes,
azulejos e pinturas estão sempre carregadas de história.
Paralelamente, realizou atividades ligadas ao ensino livre da arte e à
contínua produção de desenhos de ilustração para jornais, livros e
revistas.

http://casatriangulo.com/pt/artista/3/trabalhos/1/