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Edição Origens

Origem é o cálcio da estrela no meu metatarso, a ponta da flecha, o x e o y, o medo da morte. É Nyx, a noite escura, é a bola de couro, é a bola da Terra, é Gaia, é o grito de gol. É o pátrio, é a mãe, minhas costas; é o lácio, é Lucy, é Aurora. Tudo que é original tem a ver com a origem; é a ideia que espoca, é o disco de ouro na nave voyager que toca Chucky Berry. Origem é o agora, é o futuro, é ver nascer a máquina mais inteligente que o homem.

Para falar de origens na história, no espaço, na imaginação, na psique, no futuro, nas artes, convidamos:

LEDA CARTUM escritora, com o conto Atrás de todas as coisas.

JESPER RHODE especialista em  mídias e tecnologias.  Inteligência Artificial chegando logo ali.

MAGDA PUCCI musicóloga, artista,  e o link entre a origem da musica e a linguagem.

ALEX CERVENY  artista plástico, compartilhando em 1a. mão sua próxima exposição : O GLOSSÁRIO DOS NOMES PRÓPRIOS.

ANDREA MIGLIANO  PHD formada em Antropologia biológica pela Universidade de Cambridge e as origens e singularidades dos homens

ROSA DORAN astrofísica brasileira residente em Portugal sobre a origem do Universo e dos questionamentos

AUDE KATER  terapeuta e artista, especialista  em Constelações Sistêmicas sobre os efeitos da anscestralidade no nosso comportamento

e  um conto de ELZA TAMAS  sobre as  suas origens húngaras.

 

 

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A SINGULARIDADE HUMANA por Andrea Migliano

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desenho Darwin -árvore da vida

 

 

Discutir origens é sempre algo complicado. Com exceção da origem do Universo onde numa grande explosão, do nada surgiu o tudo, todas as outras etapas da nossa criação aconteceram baseadas em algo que existia antes, e modelado pelas forças da seleção natural e claro, do acaso.

Para falar da origem da humanidade temos que entender então, que o homem não aconteceu de um dia para o outro, e que características que consideramos ser exclusivamente humanas, evoluíram lentamente, durante um longo período de sucessão de diferentes espécies. Muitas destas características são portando compartilhadas com os nossos diversos ancestrais na linhagem evolutiva da vida.

Como definir o ser humano?

Do ponto de vista biológico, somos animais, da classe mamália, da ordem primata, da família hominídea, do gênero Homo e da espécie sapiens. Nós compartilhamos com nossos primos da ordem primata 90% do nosso código genético, e com a nossa família hominídea (Chimpanzés, Bonobos, Gorilas e Orangutangos) pelo menos 97 %.

Chimpanzés, Bonobos e o homen se separaram há 7 milhões de anos (um período extremamente curto do ponto de vista evolutivo), e compartilham 98.7 % do seus códigos genéticos. De fato, Chimpanzés e Bonobos, são mais parecidos com o homem, do que são com Gorilas!

O que compartilhamos com Chimpanzés além de genes?

Cada vez mais, comportamentos antes atribuídos exclusivamente aos humanos, são observados também em outro integrantes da família hominídea. Grupos de Chimpanzés têm diferentes culturas – ou seja usam instrumentos que diferem de uma população para outra. Além disso, testes de QI mostram que que Chimpanzés são tão bons quanto crianças humanas em entender o mundo físico e as relações de causa e consequência. E, para a surpresa de muitos, Chimpanzés tem uma memoria de curto prazo (um traço importante para o desenvolvimento do aprendizado) muito melhor que a humana. De fato, são tão bons, que desafio os leitores a memorizar uma sequencia numérica na mesma velocidade que chimpanzés o fazem:

https://youtu.be/qyJomdyjyvM

Você pode tentar fazer o mesmo teste aqui:

http://www.crazygames.com/game/ayumu-chimp

O que e único do homem e quando essas características surgiram?

O homem moderno (Homo sapiens), surgiu na África por volta de 200 mil anos atrás. Além de um cérebro três vezes maior do que o dos chimpanzés, o homem tem outras características únicas importantes: devido ao tamanho do nosso cérebro, temos os bebês mais caros e portanto os mais dependentes entre todos os primatas. Isso fez com que a cooperação entre diferentes membros da família, como por exemplo os avós, evoluísse para garantir a sobrevivência das crianças. Essa cooperação entre membros da família e do grupo, foi extremamente importante durante a evolução humana; com ela veio a nossa capacidade inata para a linguagem (para coordenar movimentos cooperativos), além da seleção para maior longevidade. Por exemplo, acredita-se que a menopausa (outra característica unicamente humana) tenha evoluído para que as avós pudessem parar de reproduzir e ajudar na criação dos netos. A combinação de todos essas adaptações, fazem do homem uma espécie única. Essas características únicas evoluíram lentamente durante os 7 milhões de anos que separam o homem dos Chimpanzés. Porém, onde e como, é difícil dizer. Por volta de 2.8 milhões de anos atrás, no leste da África o gênero Homo apareceu. Existem entre 8 e 12 espécies de Homo descritas, dentro e fora da África. Sendo Homo sapiens, a única, sobrevivente hoje em dia. Homo erectus há 1.8 milhões de anos atrás já apresentava uma estatura equivalente a nossa, um período de crescimento e tamanho do cérebro, bem mais próximos aos humanos.

Claro que o fato do ser humano ter evoluído uma capacidade de cooperação extrema, não significa que não tenha também evoluído capacidades extremas para competição e conflitos. Conflitos entre grupos são parte da nossa história evolutiva. Na verdade, alguns cientistas defendem que parte da nossa capacidade cooperativa tenha evoluído como uma forma de se organizar contra grupos inimigos. Por muitos milhares de anos, Homo sapiens dividiu o mundo com todas as outras espécies do gênero Homo. Os Neandertais (Homo neanderthalenses) por exemplo, habitavam a Europa até 40 mil anos atrás, quando os humanos chegaram. Os humanos trouxeram com eles, novas tecnologias, mais vantajosas na competição por recursos, levando assim, a extinção dos Neandertais. Porém, antes da extinção, houve miscigenação entre as duas espécies. Evidencias recentes vindas da comparação do genoma humano com o genoma de Neandertais, mostram que todas as pessoas fora da África têm entre 2 e 4% do seu genoma, vindo de Neandertais

Familia Agta (caçadores coletores das Filipinas) em casa, cozinhando juntos. Divisão de alimentos entre diferentes indivíduos é também uma característica única humana.

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A complexidade da historia evolutiva e das interações entre as espécies do gênero Homo durante o processo de colonização do planeta, mostra como é difícil apontar para a origem de uma singularidade humana. Uma maneira mais produtiva é olhar para a origem das diversas características singulares que compartilhamos com cada um de nossos ancestrais na linhagem evolutiva da vida.

 

 

 

Andrea Bamberg Migliano é  PhD pela Universidade de Cambridge em Antropologia Biológica. Desde 2010 é professora na UCL (University College London). Suas pesquisas são na área de evolução humana e evolução do comportamento humano, especialmente voltadas para o entendimento da evolução de tribos caçadoras-coletoras no Congo e nas Filipinas.
Para saber mais:
http://www.adapting.org.uk
http://www.ucl.ac.uk/anthropology/people/academic_staff/a_migliano

 

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