Arquivo da tag: aplicativos

RP-saatchi-online-artist-cecilia-westerberg-watercolor-painting-an-other-love-story-1343861768_b

AS AVENTURAS AMOROSAS DE BERNADETE CAMACHO por Cintya A Nunes

São Paulo, 19 de abril de 2012.

Pedro Antônio, hoje é dia do índio. O que me faz lembrar das flechas. Lembro do cupido que me flechou quanto te conheci. Mas, agora, quero te dizer algumas palavras. No início, via em você um homem admirável. Sua inteligência cutucava a minha. Sua beleza me iluminava. Um homem do jeito que eu acreditava que um homem tem de ser, que me envolvia em seus braços só com o olhar. Você sabe que muita coisa neste mundo me assusta e ter alguém do meu lado é importante. Hoje quando procuro suas qualidades não enxergo nada. Talvez existam, porém diluídas no vazio que você se transformou. Agora, você para mim não passa de um poste de luz. Sem luz.

Bernadete Camacho

Próximo passo: partir para sites de namoro e aplicativos de celular. Afinal, onde é possível o amor acontecer? Bares, festas, noite, amigos de amigos, cursos e viagens já tinham sido explorados e nada. Internet também, mas sempre é mais fácil. Valia a pena tentar de novo.

Bernadete Camacho não era seu verdadeiro nome. Teve de criar um apelido de guerra porque estava manjada no ambiente virtual. Virou Bernadete, Berna. Sites como Amor Perfeito, aplicativo Tinder e por aí vai. Talvez encontrar sua alma gêmea não seja tão difícil. Ops, “match”. Será que ele escreve ou Berna escreve primeiro? Ah, deste aqui ela não gostou. Essa coisa de foto em cima da moto não dá. Foto de cara dirigindo também não dá. Falar que a avó é seu exemplo de vida é outra coisa que lhe dava sono. Pulou.

Aí pinta um cara que diz que ela tinha alguma coisa diferente, difícil explicar. Bernadete acreditou, claro. “Match” no rostinho. Trocaram várias mensagens. Ele, muito divertido, bem do jeito que Bernadete gostava. Já tava dando aquela vontade de marcar um choppinho e aí o sujeito vem com uma boa. Gostei do seu batom, que cor é? Bernadete sempre espirituosa, nem desconfiou. Sim, o cara era. Era o que você está pensando.

O próximo tem foto com filho no perfil. Já se assume pai. Legal, parecia amoroso. O papo foi longe. Engraçado, bonitão. Depois de uma semana, a pérola: há quanto tempo você está solteiro? Sou casado. Como assim você é casado?! Desculpe, mas não tô pra isso. Tô a fim de algo sério. Mas relacionamentos sérios não são chatos? Quero só uma amiga, curti muito você. Pensei que você fosse mais descolada. Bernadete também pensou.

O dedo já dói de tanto teclar. Mas e a alma? Essa ainda não foi tocada. Peraí que o celular de Berna acaba de apitar. Ah, que pena, é o cara da pizza avisando que chegou.


Cintya Aguiar Nunes é formada em Comunicação Social, redatora atuante no mercado publicitário há quase 20 anos e contadora de histórias voluntária na AACD, desde 2010, pela ONG Viva e Deixe Viver. Há algum tempo, se aventura pela Literatura, testando onde esta costura de verbos e sujeitos pode nos levar.
Vai lá no www.escrevinhacoes.wordpress.com e descobre mais

 

foto banner : Cecilia Westerberg – another Love story

03

O QUE NOS AFETA? por Pedro Abramovay

 

.

O que nos afeta? Enfurnados em nossas vidas multiagitadas, algo nos afeta? Aplicativos para resolver quase todos os nossos problemas. A vida cabe em um iphone? Nada nos afeta. O facebook nos fecha as janelas para o mundo, esconde a pluralidade de vozes da internet e nos fecha em nosso próprio círculo de amigos. “Eu tenho um grupo heterogêneo de amigos”. O Facebook nos esconde. Ele só nos mostra os amigos cujos links já clicamos. Só clicamos nos links que já nos interessavam antes de clicarmos neles. A internet transformou a vida em uma janela, o Facebook redefiniu-a em um espelho. Nada nos afeta.
Mas a internet é mais do que o Facebook. As milhares de vozes distintas estão lá. Procurando alguém para afetar. E nos afetam.
O professor Yochai Benkler, especialista na riqueza das redes, usa sempre um exemplo muito ilustrativo. Imagine a famosa cena do jovem chinês enfrentando os tanques na praça da paz. Muitas fotos foram tiradas daquele momento. Mas tenho certeza que posso descrever com precisão a imagem que está em sua cabeça. O olhar se posiciona na diagonal superior. O rapaz está de costas. Os tanques de frente. Por que todos temos a exata mesma imagem na cabeça se eram tantos fotógrafos presentes naquele momento? Por que todos estavam no mesmo prédio destinado aos correspondentes estrangeiros em Pequim. O Estado Chinês conseguiu criar apenas um ângulo para esta imagem. Uma versão. Uma voz. Uma voz dissidente, mas uma voz.

Agora imagine as revoltas na praça Tahir no ano passado. Ou os indignados na Espanha. Não há uma só imagem possível. Há milhares, uma efervescência de imagens. Imagens para quem se apaixonou pelas revoluções, imagens para quem as acha perigosas. Imagens bem feitas, imagens trêmulas. Imagens banais, imagens inspiradoras. Há tantas vozes quanto bocas.
O que mudou? Hoje não se pode isolar os correspondentes estrangeiros em prédios. Todos somos correspondentes estrangeiros. Um celular. E a foto está no mundo.
Como isso nos afeta? Nós que escolhemos. O que nós queremos ver ou saber? Cabe a nós buscarmos.
E quando nos abrimos para o mundo, quando rompemos as barreiras que nos impõem os facebooks ou os Estados (na China, a censura sobre o google faz com que a busca sobre a praça da paz não traga qualquer imagem do rapaz ou dos tanques), tudo isso nos afeta. Nos afeta, em primeiro lugar, porque de alguma maneira furamos o bloqueio.
Mas nos afeta também porque é possível fazer nossa voz ser ouvida.
Uma adolescente no Paquistão escrevia um blog defendendo o direito das mulheres irem à escola. Ela é alvejada pelo Talebã, que não admite esta campanha. Vozes do mundo inteiro se unem em uma petição gigantesca que envolve grandes líderes mundiais. O presidente do Paquistão a assina. Talvez não haja mais como os governadores retrógrados fugirem de programas de inclusão das mulheres no ensino formal.

Uma tribo de guaranis ocupando sua terra tradicional sofre uma ordem de despejo. Escrevem uma carta emocionante, mas não mais do que tantas outras cartas já escritas. Mas essa afetou tanta gente, juntou tantas vozes, mais de 300.000 pessoas gritaram juntas. E a ordem de despejo foi revista. E o governo, que há tanto retardava soluções para os guaranis, promete acelerar a demarcação das terras.
Tudo nos afeta. Cabe a nós manter os olhos e os dedos abertos. Abertos para aquilo que pode nos indignar e abertos contra os movimentos que querem fechar nossos olhos. Que querem criar uma internet mais espelho e menos janela.
Tudo nos afeta também porque podemos afetar o mundo todo ao nos unirmos a outras tantas vozes afetadas, indignadas com o mundo que vêem pela janela.
O que nos afeta é o que escolhemos que nos afete. E escolhemos, também quem queremos afetar. Temos os sentimento do mundo. Dois olhos e duas mãos. E isso basta.

foto banner:  O Livro Vermelho – C. G. Jung 

 


Pedro Vieira Abramovay é formado em direito pela USP, tem mestrado em direito constitucional pela UnB, e é doutorando em ciência política pelo IESP-UERj Foi secretário de assuntos legislativos do ministério da justiça e secretário nacional de justiça. Atualmente é professor da Fgv Direito Rio e diretor de campanhas da Avaaz.