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Fé francis alys

O ARTISTA FRANCIS ALYSS E A FÉ REMOVENDO MONTANHAS

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Francis Alyss, belga de nascimento, usa a arte e faz das suas intervenções uma possibilidade de mobilização e questionamento social.  Em 2002 ele reuniu um grupo de 500 voluntários que armados de uma pá, lado a lado, formaram uma linha numa montanha de areia. Trabalhando conjuntamente, moveram o topo da duna, cerca de 10 centimentos. Este projeto foi realizado no Peru, próximo a Lima. A natureza épica dessa realização será certamente  mantida na tradição oral dos participantes, como um registro do que pode a força humana.Um mito contemporâneo.
(Cuando la fe mueve montañas, 2002)

 

 

 

 

http://www.francisalys.com/public/cuandolafe.html

fé jeff favela colorida

FÉ: GASOLINA PARA O MOTOR CIENTÍFICO E LUTAS SOCIAIS por Jeff Anderson

 

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A conscientização não é a premissa básica para a transformação social, ou emancipação do trabalhador como teorizou Marx.

Era agosto de 2007. A iluminação ainda amarelada da Avenida Paulista fazia do frio a composição ideal para aqueles que ensimesmam a divagar sobre complexas teorias sociais que nos foram enfiadas goela abaixo em algumas cadeiras acadêmicas. Quase todas francesas.

Assim passei aquele inverno.

Estava muito bem instrumentalizado: Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber caminhavam comigo diariamente por toda a Avenida Paulista. A base cientifica da sociologia saia da sala de aula e ia para o meu quarto. Esse trajeto perdurou por três anos e meio. Eu era um menino homem racional. Pagava mensalmente a quantia que a Pontifica Universidade Católica me exigia. A universidade conseguira tangenciar o conhecimento e dividi-lo mensalmente para facilitar a nossa compreensão. Ao final do curso, nos daria um certificado de que todas as mensalidades foram devidamente pagas, o diploma.

Mas aos quarenta e cinco, do último tempo, um grande insight ocorreu-me e fui passear com toda a base cientifica em espaços informais. Fui testar o conhecimento. O grande mal-estar nasce aqui.

A base cientifica era europeia. Meu novo espaço era a favela, zona sul de São Paulo. O trajeto fora substancialmente mudado. A forma e o conteúdo não se encaixavam. Saia da casa de meus pais porque acreditava em uma ideia. Fui morar no Centro Comunitário da Favela Mauro, bairro da Saúde. Por conta desse novo posicionamento minha família pensou que estivesse louco e contratou uma clinica psiquiátrica para realizar minha interdição. Era meu trabalho de conclusão de curso e a PUC não mais me orientaria. Esse era o cenário.

Quando cheguei a favela comecei a me deparar com questões insolúveis cientificamente e a medida que o tempo passava percebia, mais e mais, que todo o aprendizado acadêmico não passava de bijuteria. A realidade social brasileira é por demais complexa para ser explanada por um ou dois volumes sociológicos.

Eu caira em um mar de fé. Um cientista social, cético e ateu que vivia agora em um centro comunitário no meio de uma favela com mais de 3 mil famílias, meus vizinhos. Não conhecia ninguém. Ninguém me conhecia. Todos os dias, em meu diário de campo registrava situações inexplicáveis, incompreensíveis aos olhos da razão. Estava ali por um motivo bastante racional: levantara uma hipótese sobre arquitetura e urbanismo e fui comprova-la. Os embates eram diários, fé e razão se misturavam e se contrapunham em velocidades nunca antes experimentadas. Por mais que focasse a compreensão por meio de em um grande Bricoleur, de Levi Strass, ou na Deriva, de Guy Debord, grande parte das situações fugiam da base teórica e somente depois de muito observar foi que pude compreender que algumas situações, as mais importantes, se tratavam de fé.

Foi então que, em um hiato de extrema lucidez, a luz me veio à cara e mostrou-me que a fé era a gasolina para o motor cientifico. O meu e o deles.

Eu deveria persistir por um ano, sob os riscos de ser internado, abandonar a família e amigos. Eles deveriam persistir por uma vida inteira, sob os riscos de serem desapropriados, na violência diária da Policia Militar e do traficante de drogas. Não existe contexto cientifico que possa justificar a minha persistência, nem muito menos a deles. Ambos se mantinham na fé de que o terreno seria conquistado e as escrituras das casas seriam, enfim, destinadas aos moradores, que o trafico deixaria de existir e a policia não mais trocaria tiros ao meio dia. Ou que a arquitetura e urbanismo da favela são genuinamente brasileiros. Arquitetura popular brasileira. Essas eram nossas crenças. Eram esses os motivos que nos fazia levantar da cama, sem nenhuma aparente consistência.

Com o arrastar do tempo e muitas lutas, nossas amizades foram se estreitando. Eu já não mais me importava com a hipótese. Estava vivenciando. Já era a tese. Algumas questões da favela foram resolvidas.

Os tiroteios findaram-se e hoje são proprietários legais de onde moram. Provamos para a minha família que eu não sou louco e só conseguimos isso porque persistimos na luta, tivemos fé. Todo domingo tem churrasco religiosamente.

 

 


Jeff Anderson
é idealizador do projeto BioUrban e ganhador do Prêmio The Deutsche Bank Urban Age Award

Aqui o link para vários vídeos que ajudam a conhecer o projeto Bio Urban

https://www.youtube.com/jeffcausador

 

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Hélène por Gal Oppido

 

 

Procuro
a nudez que revela a humanidade, os encargos do corpo, seus prazeres, seus
holocaustos, sua plenitude…

preciso receber a morte, ser parteiro da minha
futura não existência, dizer não ao eterno, voltar ao jato inicial, ao feto, ao
afeto escuro do útero.

 

 

 

 

 

 

Gal Oppido Fotógrafo-ensaísta,
com participações em exposições nacionais e internacionais. Dentre outras
exposições realizou, em 2011, Antífona,
no Museu Afro Brasil, e São Paulo Mon  Amour, na Maison de Mettalos, em Paris. Recebeu o premio APCA, como melhor fotógrafo
pelo conjunto da obra, em 1991. Ministra curso de fotografia autoral no
MAM-SP, desde 2001.

www.galoppido.com.br

[email protected] / [email protected]

 

 

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O joelho e o milho e as provocações e penitências de Maurizio Cattlelan

“Aclamado como provocador, brincalhão, e um poeta trágico dos nossos tempos,o italiano Maurizio Cattelan criou algumas das imagens mais marcantes da arte contemporânea recente.  Seu material de trabalho  varia amplamente: da cultura popular, história e religião à uma meditação sobre o ser que é ao mesmo tempo bem-humorada e profunda.  Trabalhando em uma veia que pode ser descrito como hiper-realista, Cattelan cria esculturas  que revelam as contradições no cerne da sociedade de hoje.  Embora ousado e irreverente, o trabalho também é muito sério em sua crítica mordaz de autoridade e abuso de poder.

 

Os gestos audaciosos e desrespeitosos  de Cattelan , por vezes, assumiram o  roubo como   atividade criativa,  mesmo a abertamente criminosa. Para uma exposição na Appel s em Amsterdã, ele roubou todo o conteúdo de outro  artista de uma galeria próxima, com a idéia de passá-lo como seu próprio trabalho. A polícia insistiu  para que ele retornasse o saque, ameaçando-o   de prisão.”

another fucking readymade

 

Outros trabalhos polêmicos de Cattlelan passam pela crucificação de um galerista com fita metálica,

Um Hitler penitente

o papa atingido por um meteóro

la nona ora

 

e a morte.

Suas obras se encontram nas mais famosas  galerias de arte ao redor do mundo  e ele  teve um destaque no pavilhão da Itália na Bienal de Veneza de 2011.

 

fonte: www.guggenheim.org/all

copia fiel juliette

Copia Fiel

O que é original? O  que é  cópia?

‘Se a qualidade de uma obra de arte depende do contexto  e está nos olhos de quem a vê, então uma falsificação pode ter a mesma validade do original. É como a imagem da Coca-Cola reinventada pela pop art.’

Essas frases estão presentes nos momentos iniciais do filme  Cópia Fiel,  de Abbas Kiarostami, proferidas na palestra de  James Miller, um escritor inglês que  está na Toscana promovendo o seu livro, Cópia fiel. No entanto a idéia do falso, verdadeiro, permeia todo o filme e  se estende para o âmbito do relacionamento humano. No terreno do sentimentos, o que é real  e o que é imaginário?  Se nos comportamos como um casal, acabamos nos tornando um casal?

Juliette Binoche está belíssima no papel de Elle , uma galerista francesa com quem James passeia por vilarejos lindos, na região da Toscana.

A própria Juliette quando  fixa a câmera  e  cria a ilusão de um espelho, nos mostra a essência do que é o cinema. Durante todo o filme, Kirostami nos faz num momento  acreditar e no outro  desacreditar totalmente,  flutuando de acordo com  nossa própria subjetividade.

Mas eram ou não? Não importa.  No caso, a pergunta é muito mais interessante do que qualquer resposta.

 

 

bienal de veneza arsenale 124

Metrô e os animais que nos habitam

Metrô – Trabalho de Alessandro Gallo no pavilhão italiano da Bienal de Veneza.

 

Três metros lineares  e vinte e um personagens enfileirados, capturados no dia a dia na northern line do metro de Londres.

Gestos, roupagens  e uma psicologia  sutil em cada um  deles.Como se o mais interno, o segredo pessoal que deveria ficar oculto, se revelasse  numa face animal que só é vista pelo outro.

Impossível não reconhecer o  vizinho, a amiga,  o marido, o chato  ou  a si próprio.

Divertido e tecnicamente muito bem resolvido.

 

 

opus

INTER-SEXUALIDADES: na cruzada dos novos gêneros, por Stéphane Malysse

 “Tenho uma pele de anjo, mas sou um lobo; tenho uma pele de mulher, mas sou um homem; tenho a pele escura, mas sou branca… Nunca tenho a pele do que eu sou, pois não há exceção à regra, nunca sou o que tenho.” Eugénie Lemoine-Luccioni

Ao entrar no século XXI, os humanos descobrem que tiveram filhos com homens e mulheres de Neandertal (este hominídeo das cavernas extinto) e que o cruzamento ou relacionamento amoroso teria ocorrido 50 mil anos atrás, quando grupos de Homo Sapiens saídos da África chegaram ao Oriente Médio pela primeira vez. A decifração do genoma do Neandertal surpreendeu a comunidade cientifica demonstrando geneticamente as mestiçagens originárias: o cruzamento entre Neandertais e seres humanos. Ao entender que, entre quase 7 bilhões de pessoas vivas em 2010, houvesse 50 milhões de descendente dos Neandertais, os humanos reconsideram a mestiçagem e reconhecem que alguns preconceitos não resistem mais à Ciência.

Ao contrario do esperado pela opinião pública, são os Europeus e os Asiáticos (e não os Africanos) que compartilham hoje, mais genes com os homens de Neandertal; o que coloca definitivamente em xeque as teses racistas do século XX. De fato, nos séculos XX e XXI, a mistura sem precedente das culturas (e dos genes), as diversas mestiçagens e migrações internacionais, as novas visões e ideologias do corpo, do espaço e do tempo, transformam o imaginário da Beleza, seus códigos e suas praticas, de forma inédita na historia da Humanidade.

Para os antropólogos, o corpo do recém-nascido é como um livro em branco, uma ficção cultural (David Le Breton) que cada indivíduo vai atualizar ao relacionar-se com a sua cultura e com os outros, através do que Marcel Mauss chama de imitação prestigiosa.

Através dessa incorporação individual da cultura, cada pessoa constrói à la carte a sua identidade a partir das múltiplas escolhas que deve fazer para integrar-se no seu grupo cultural. Multiplicando as suas escolhas conscientes e imitações inconscientes, o individuo se posiciona em relação à cultura na qual  vai crescer e transforma o seu patrimônio genético em uma constelação de especificidades multifacetadas que o tornam ao mesmo tempo único e múltiplo, já que sua personalidade é fruto de uma interação com os demais. Gestos, conceitos, pensamentos, normas… não estamos sozinhos no nosso corpo.

Hoje, numa sociedade que mostra cada vez mais suas ambições igualitárias, a necessidade de codificação, de afirmação e de apresentação das identidades sexuais se intensifica e se diversifica, tornando obsoleta a simples menção de sexo nas carteiras de identidade. Com a globalização e o fim das diferenças étnicas e nacionais, o gênero se torna o único viés de criação de identidade multiplicando as possibilidades de interações entre o Masculino e o Feminino. A construção da identidade sexual é doravante muito mais complexa e modulável: ser um homem ou uma mulher não significa mais nada em si, pois é a construção de uma androginia personalizada que vai definir a relação de cada individuo com a nova gramática do gênero. Todo corpo contém inúmeros outros corpos virtuais que o indivíduo pode atualizar por meio da manipulação de sua aparência e de seus estados afetivos.

Foto: Nan Goldin

Stéphane Malysse é antropólogo e artista. Doutor em Antropologia Social pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS /Paris). Pesquisador associado do departamento de Antropologia da Goldsmith (Londres). Acabou de lançar seu primeiro livro, Diário Acadêmico pela editora Estação das Letras e Cores (SP, 2008)

http://www.each.usp.br/opuscorpus/

Regina Muller - Somos múltiplos

Meu tico-tico no fubá, por Regina Muller

A antropóloga Regina Muller descreve a diversidade de papéis que ocupa num único dia e conta como integrou antropologia e arte.

Meu tico-tico no fubá

Antropóloga Regina Muller

De manhã,  o “suco verde”, ensinado pela filha adepta da “alimentação viva”, uma ação saudável para iniciar o dia de trabalho intenso.

O primeiro turno é dedicado a uma reunião no Napedra- Núcleo de Antropologia, Performance e Drama, da USP, do qual  é coordenadora.Tenta, de maneira mais
intensa do que foi em toda sua carreira na universidade, aliar pesquisa e ensino em Antropologia ao desejo de fazer arte, em performance. No mestrado, até tentou. Deixou a formação acadêmica entrou para os  Dzi Croquettes ( como uma Dzi Croquetta), mas voltou e defendeu mestrado sobre a pintura corporal dos índios Xavante. Sempre arte e antropologia .Com os Asuriní, também foi isso -arte, xamanismo e cosmologia. No Napedra, está organizando um encontro internacional de antropologia da performance e à noite desse dia, com um bom vinho e amigos, estará cuidando da sua própria participação.  À tarde, outro assunto:  reunião sobre  Belo Monte, a usina  no rio Xingu que afeta povos indigenas, dentre

eles, os Asuriní do Xingu, a quem vem dedicando grande parte de sua vida como antropóloga. Terminada a
reunião, segue  ao encontro  do seu “agente promotor”, como denominou o amigo Alberto Camarero, companheiro desde sempre das investidas na performance artística, e João Cláudio, o cineasta que compõe a equipe de seu atual trabalho:  filme e performance ao vivo, inspirada em Carmen Miranda, seu modelo, ícone e inspiração.

Hoje prepara sob a direção de Alberto, a performance que apresentará no Encontro Internacional. Ao lado de mesas com convidados nacionais e internacionais na área da Antropologia, há uma programação de performances e é nesta que se inseriu, culminando sua trajetória de ter saído da USP graduada em Ciências Sociais e chegado à mesma USP, como atriz pesquisadora performática.

Desistiu de se cobrar escolher um ou outro universo e segue se dividindo, multiplicando, somando, rizomando…

 

Regina Müller, doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo, com pós-doutoramento no departamento de Performance Studies/New York University e livre-docente em Antropologia da Dança pela Universidade Estadual de Campinas, onde é professora no Departamento de Artes
Corporais do Instituto de Artes. Coordenadora associada do Napedra-Núcleo de Antropologia, Performance e Drama/Universidade de São Paulo/Unicamp. Desde os anos 70, realiza performances inspiradas em mulheres artistas performáticas como Frida Kahlo, Gilda de Campinas e Carmen Miranda.

Autora do livro“Os Asuriní do Xingu: história e arte” , co-organizadora do livro
“Performance, arte e antropologia” e de vários capítulos de livro e
artigos sobre xamanismo, ritual indígena e performance artística.