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SOBRE A ORIGEM DOS ESPELHOS por Gica Yabu

A primeira aparição dos espelhos na história da humanidade data do começo da grande Era Aquela. De acordo com a mitologia selfina, o espelho é fruto do amor de um deus artesão – Argilo – e de uma alquimista pagã, Polia.

Argilo esculpia juras de amor à Polia em fiordes e montanhas, nas nuvens pretas de tempestade e em pétalas de flor. Ela, que como toda mulher daquela época e de anos atuais, adorava ser cortejada por entidades mitológicas, resolveu dar um filho ao seu parceiro celeste.

Durante a gestação de tão amada criatura, todas as coisas da natureza viraram matéria-prima para Argilo, que expressava seu contentamento e excitação criando e dando novas formas ao mundo. No momento do nascimento do filho lá no céu, a surpresa se fez. O pequeno menino nasceu translúcido e, em contato com o ar, assumiu uma textura reflexiva nunca vista antes. Era lindo. Mas ao segurar o bebê, Argilo se viu inteiro nele e chorou. O choro vinha de algum lugar distante dentro de si e foi se espalhando de modo que as nuvens não conseguiram mais conter e romperam no primeiro grande dilúvio da história.

Todas as esculturas de Argilo se dissolveram. Algumas em agonia, outras em tristeza. As criaturas e coisas vivas perderam a poesia e assumiram formas insossas: débeis ou absolutamente simétricas. Em um ato de desespero, querendo estancar aquele estranho sentimento de vergonha, culpa e a tremenda carga de responsabilidade, Argilo arremessou o filho no chão. Frágil que era, o bebê se estilhaçou em milhares de cacos que se espalharam pelo mundo. De acordo com a lenda, Polia abandonou a alquimia e passou o resto de sua vida tentando colar os pedaços do filho, mas eles eram muitos. Argilo nunca mais foi visto, ou louvado e até hoje, milhares de anos depois, as pessoas ainda choram quando se vêem no espelho.

 

 foto banner: ilustração Natasha Xavier

 


Gica Yabu est? sintonizada em uma dimens?o paralela onda nem tudo foi definido ou descoberto e as coisas s?o mais flex?veis. ? filha, m?e, esposa, publicit?ria e enfrenta o espelho todos os dias. Deposita seus escritos em
www.verdevelma.com.br
 

 

 

 

 

 

 

 

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O QUE EU DESEJO ESPELHAR por Marjorye Marge

Andar pelas ruas, para mim, nunca é sem propósito. Sempre saio de casa com o olhar atento e ávido em busca de novas imagens, movimentos urbanos, palavras, arte, ideias e pessoas interessantes que inspirem e que possam agregar elementos ao meu universo criativo.

Uma pequena imagem colada ou pintada num muro pode trazer não só um sorriso no rosto como também um insight para um novo post sobre arte, um novo assunto na mesa de bar e discussões reflexivas sobre o momento em que vivemos.

A rua é o palco que não cobra entrada, e aqueles que transitam por ela podem receber e partilhar aquilo que ela oferece. A rua é generosa, mas nem todos os olhos estão abertos. Em meio a pressa, estresse e cansaço, elementos que por vezes se encontram em sua composição passam desapercebidos, quando poderiam trazer diversas possibilidades, mesmo que somente num minuto de puro devaneio.

Certa vez, andando por uma rua em Copenhage, percebi que no chão haviam bolinhas brancas, e aquilo me fascinou. Me vi pensando em mil coisas; apenas algumas bolinhas no chão, me despertaram.

Pensei em jogo da velha, em pular de bola em bola, no que a pessoa que criou poderia estar pensando, no cuidado que teve com detalhes, pensei sobre o movimento artístico denominado pontilismo, na Yayoi Kusama e sua obsessão por pontinhos, enfim, esse breve momento, ofereceu muito ao meu universo imaginativo.

yayoi kusama

Nem sei por onde começar a contar sobre a minha mais nova história de amor: a arte de rua. Cada dia que vago por ruas que poderiam ser mais cinzas, a arte vem para dar mais vida, cor e movimento aos muros estáticos que delimitam espaços. Vejo o muro como um canvas em branco, pedindo cor, pedindo ideias que reflitam histórias, críticas sociais, desenhos que, caso estivessem em um caderno, ou em galerias seriam vistos por poucos. Vejo poesia, vejo distrações para quem fica parado no trânsito, vejo democracia artística, vejo despretensão, vejo utilidade combinada com arte.

O que queremos refletir? Pensando nisso, criei um blog para ser o espelho de tudo aquilo que enxergo mundo a fora. Nele posso discutir e dividir o que pesquiso, escuto, o que encontro espontaneamente; coisas que crio, movimentos que me fazem questionar, pessoas incríveis e talentosas, fotos que fizeram meu dia mais feliz.

Também comecei a utilizar a mesma rua que me inspira, para inspirar.
Tirei do meu caderno um dos meus desenhos, comprei spray e passei a expressar de muro em muro, o que mais quero acreditar: o amor.

E enquanto pinto, pessoas passam, conversam, dividem suas histórias, contam o que acham sobre arte de rua, garotos que pixam, garotos que pintam, garotas que estão nesse movimento há anos e são finalmente reconhecidas, escuto críticas também , mas o mais importante, é a troca: inspirar e acabar sendo inspirada por tudo que acontece ao meu redor.
Esse é o verdadeiro valor de vivenciar a rua e suas infinitas possibilidades, que são espontâneas e inesperadas. Não tem como planejar o que pode acontecer ou o que irei ver, e para mim é um valor poder repassar isso. Trago a vontade de ser o espelho para outros espelhos, de coletar e repassar, de me inspirar e tentar despretensiosamente inspirar o outro. Sinto que essa é a minha colaboração, o de promover o que me encanta.

yayoi kusama

E você? O que te encanta, te move por dentro e te preenche?
O que você deseja espelhar?

 

foto banner: Yayoi Kusama

 


Marjorye, mais conhecida por Marge, nasceu em São Paulo em 85, morou em Cambridge, Sydney, Paris e Berlim. Formou-se em publicidade pela FAAP, canta desde pequena, maqueia, e vaga pelas ruas do mundo em busca de inspiração e novos artistas.

 

www.blogdamarge.com

www.youtube.com/marjoryek

Marge not Simpson

 

 

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A FITA BRANCA DE HANECKE por Marcia Tiburi

 

A Fita Branca do austríaco Michael Hanecke tem “o proibido” como sua  lógica de fundo. Quem o assistiu percebeu que os autores dos crimes em torno  dos quais se constrói o roteiro, eram o efeito de um tipo de educação que  implicava em sua performance, ou seja, no modo de atuar de seus agentes, uma  lógica conhecida de todos nós.  Aquela  lógica da hierarquia em que está em jogo a submissão de uns a outros e, às  vezes, alguma forma de revolta dos submissos no grande jogo de poder a que se  reduz a espécie humana.

Esta lógica implica, por exemplo, a desigualdade de classe. Mas também a de gênero.
No caso do filme, demonstram-se estes aspectos, mas surge um outro mais surpreendente e pouco trabalhado na sociedade em geral: aquele que se refere à desigualdade entre  gerações. Será, assim, a questão da “idade” o locus onde desaguará o sentimento de horror aos crimes cometidos.
Se a autoria dos crimes é do grupo de crianças, percebemos no desenho verossímil  feito pelo diretor do filme, que os adultos são a origem do mal. São a origem  do que, deste horror indizível, é o efeito de “mal estar” causado por eles  mesmos. A infância e a juventude nada mais são do que a revolta contra uma  lógica pela qual não podem ser responsabilizados justamente por que não são  origem do mal que cometem. Os adultos são os verdadeiros irresponsáveis, são de  certo modo, infantis, por que não querem aceitar o efeito daquilo que produzem.

O proibido, portanto, não é senão o efeito de uma lógica. Esta lógica se caracteriza por um  acordo. Este acordo é aquele que se dá entre o que, desde Freud, chamamos de repressão,  ou aquilo que não se pode ou não se deve fazer, sobre o qual a sociedade e o que  ele chamava de “super-eu” tem controle; e o recalque, aquilo ao que não se tem  acesso de modo algum, aquilo que não sabemos de nós mesmos.

O recalque diz respeito a uma interdição como que ancestral. Está perdido no tempo.
A  repressão precisa ser exercitada diariamente. Dizer que surge uma prazer da  repressão, ou concordar com o senso comum que inventa a “verdade” de que “tudo  o que é proibido é mais gostoso” é tão superficial quanto dizer que os  “limites” são educativos. Se fossemos discutir isso, o que não cabe no espaço  deste artigo, teríamos que começar por definir o que são “limites” e quem teria  o direito de construí-los. Falamos das crianças e dos jovens, mas sabemos muito  bem que o capitalismo trata o consumo como a inversão do proibido em prazer  perverso. Os adultos (pais e professores) de nossa sociedade são idênticos aos  adultos do filme: oprimem as crianças como se estas fossem pequenos animais  escravizados. Enquanto isso se permitem perversões que proíbem às crianças. Ao  mesmo tempo, educam pela frieza e pela repressão aqueles que, no futuro, serão  idênticos a eles. Maus e vis. A lógica do proibido é usada pelos adultos contra  as crianças, ao mesmo tempo vale os adultos não fazem nada de diferente do que  as próprias crianças. O proibido é justamente o permitido quando a liberdade  não é mais do que uma sombra da própria miséria espiritual. Neste sentido, a  vida adulta é a mera sombra da infância e vice-versa.

Dialética entre perversão e recalque 

Repressão e recalque são, assim, como espessuras diferentes no fio único do proibido.
A  corda em que se amarra a moral até o enforcamento da condição humana. O  recalcado é a parte mais fina, sedosa até, como a teia de aranha que se une gradativamente  a uma cardação mais grossa sem solução de continuidade. A delicadeza do  recalque nos faz sentir nojo e um profundo mal-estar, muitas vezes,  inexprimível. A brutalidade da repressão nos faz sentir uma raiva mais simples. Pela repressão somos capazes de nos vingar, como a menina do filme, a perversa e, no entanto, delicadíssima filha do pastor, que mata o passarinho do pai com uma tesoura.

Pelo  recalque somos capazes de cometer atos infinitamente mais loucos, justamente  porque incompreensíveis, como maltratar uma criança com problemas mentais. A  lógica do proibido implica a dialética entre a  compreensão e a incompreensibilidade das coisas.

É que, por incrível que possa parecer, a repressão tem linguagem.
Ela constrói o proibido  nos deixando saber o que ele é. No filme, por exemplo, a linguagem da repressão  aparece  no discurso do pai que proíbe o filho de masturbar-se amarrando suas  mãos à cama.  A  linguagem do recalque, porém, é muda. Dizer linguagem é apenas um  jeito de se referir à mudez. Ela está, por exemplo, no mal estar finamente  inoculado pelo pastor no próprio filho, quando, na mesma conversa, ele conta  uma história terrível sobre outro garoto masturbador que teria, em função de  sua prática, definhado à morte. A masturbação, sabemos desde Foucault, era uma  prática monstruosa naquela época e, para muitos, é até hoje. Mas o recalque não  é a simples repressão, é o envenenamento, é o miasma que o menino terá que  carregar para sempre sem poder dizer nada.

Outro exemplo, nos ajuda a entender melhor ainda. A repressão está na ordem dada pelo pai, em outra cena, de que todos irão para a cama sem comer. O recalque, no entanto,  como teia finíssima, surge na chantagem emocional do pai, especialista  sacerdote da moral, em promover sentimento de culpa. Afinal que, informa os  filhos, todos irão para a cama sentindo-se muito mal pelo que eles fizeram. E o  que fizeram? Ora, nada demais, apenas demoraram a chegar para jantar. As  crianças terão que passar a vida com aquela introjeção de que fizeram mal ao  pai porque não agiram como ele queria. Pais invasivos e  autovitimados são  sacerdotes da moral muito espertos.

A repressão é da ordem de uma lei falada. É aquilo que se pode entender de um grito, de uma violência declarada, mas não da parte fina da violência, do seu miasma indizível, da sombra que fica por trás da letra. O recalque é o resto,  o resquício do que, de um grito, de um soco, de um espancamento, de um  assassinato, não pode ser compreendido, não porque não se entenda a sua fonte,  mas porque seu efeito venenoso é contínuo no tempo. Não se trata, no entanto,  de um efeito simbólico, mas de um efeito antissimbólico, justamente aquele que  proíbe a constituição de relações.

No filme, o recalque é a lógica contínua da destruição e da autodestruição que une pessoas em família, justamente enquanto as desune. Não é à toa que o filme se passa no instante anterior à eclosão da primeira guerra mundial. Não é à toa que o  narrador ligará aos fatos estranhos ocorridos durante o século na Alemanha,  local onde a flor doentia do nazismo pode desabrochar em toda a sua exuberância  demencial.  Tudo começa na família, a mais criticada das instituições e que, no entanto, não conheceu até agora a autocrítica.

 

 


Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia pela  UFRGS. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles “As Mulheres e a  Filosofia” (Ed. Unisinos, 2002), “Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero”  (EDUNISC, 2008), “Filosofia em Comum” (Ed. Record, 2008), “Filosofia Brincante”  (Record, 2010, indicado ao Jabuti em 2011), “Olho de Vidro” (Record 2011) e  “Filosofia Pop” (Ed. Bregantini, 2011). Publicou os romances Magnólia (2005,  indicado ao Jabuti em 2006), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009) da  chamada Trilogia Íntima. Em 2012 lançou seu quarto romance “Era meu esse Rosto”  (Record). É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e  História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da revista Cult.

Site: www.marciatiburi.com.br

blog: http://filosofiacinza.wordpress.com/

 

 

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OLHAR É PROIBIDO? COPIAR É PROIBIDO? por Eduardo Muylaert

 

Mulheres dos outros. Olhar é proibido? Copiar é proibido?

A série Mulheres dos Outros questiona duas ordens de proibições. O título já contém dupla provocação, ao enfrentar a proibição bíblica de não desejar a mulher do próximo e, pior, numa era de pós-femininismo, dar a impressão de que situa a mulher como objeto.

A questão é mais simples, mas também desafiadora. É um trabalho de apropriação — e reconstrução, diga-se — de velhos slides comprados numa feirinha de antiguidades, sob a singela classificação de nus artísticos.

 

 

Originalmente, são fotos de pin-ups, símbolos sexuais bem americanos dos anos 50, que hoje parecem ingênuos. Pode-se imaginar, naquele tempo, homens respeitáveis reunidos com amigos — longe dos olhares da família — em torno de um projetor de slides, para apreciar as beldades.

Depois de escaneadas, tratadas e recortadas as fotografias, chega-se a nova interpretação, que retoma sob outra luz a questão da imagem do corpo feminino.


Nesse novo recorte, as figuras ganham vida e contemporaneidade, mas podem ser aproximadas também da visão idealizada da estatuária greco-romana.

Coloca, por outro lado, em questão a noção de autoria. Em que medida pode-se retomar trabalhos, mesmo comerciais, e torná-los objeto de apropriação e de reconstrução? A suposta proibição vem caindo e alguns dos mais importantes artistas contemporâneos, como Richard Prince, por exemplo, se consagraram através desse processo.

Todas as divagações são possíveis, pode-se gostar ou não, tanto das imagens como de seu possível sentido. O autor, ou artista, não se intimida com proibições. É esse seu papel, elaborar a seu modo o material que vai colhendo pelo mundo. A obra é aberta, o mundo pode se espelhar nela, mas só se quiser. E puder.

 

 

A série completa pode ser vista em www.mulheresdosoutros.com.br .

Eduardo Muylaert é advogado criminal e fotógrafo. Publicou O Espírito dos Lugares (3º Nome, 2003), e Boa Noite, Paulicéia! (Pinacoteca, 2006).
Principais individuais:
Mulheres dos Outros (Fauna Galeria, SP, e Galeria Zoom, de Paraty, 2011); Boa Noite, Paulicéia! (Pinacoteca, 2006); O Espírito dos Lugares (Nara Roesler, 2003); Tiras compridas do Brasil (Millan, 99); Paris – Fragmentos (Luísa Strina/Bar des Arts, 95) e Transferências (Bar do MIS, 93).

 

 

 

 

 

 

 

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20120802 by Tillmann Lange

Para visualizar a versão em português, clique aqui

I no longer work with calculations, nor am I interested
in data and their meanings.

I saw something in the past or it was something
someone told me. These fragments of past information transformed themselves in
my mind into forms. The numbers still exist within and the structures appear
like a flash.

I’m on paper.

It isn’t important to decode the original information:
absolute knowledge is impossible.

Fragments seen before have no relation to information.

Number is image and the pages of a math book are drawings.

The math book was shifted: I want to create a situation similar to listening to music, without understanding it’s
composition. You look at the drawing and I hope there is something you can feel, without further information.

The final outcome of musics equation is greater then its numbers, its the melody.

I like not to know what the melody means.

I like not to know.

Codes without keys. Maybe there is someone who could see the structure of the pattern.

It is interesting to see a information encoded and then to question: What is it about?

I want to freeze at this point. There is a question but there isn’t an answer.

The mystery is magical alone. Without answers.

 

translated by Jessica Cooke

Tillmann  Lange was born in Cottbus, Germany in 1981, he began his studies in the  Technical University of Dresden, Germany in 2001 in computer science. During this time he performed a parallel painting study in the Academy of Fine Arts  Dresden. In 2005 he moved to Berlin, where he currently lives and works as a  graphic designer and studies painting in the Berlin Weissensee School of Arts.
He had his work published in the ‘Prolog 7’ magazine of Berlin in 2011. His
solo exhibitions were ‘Linienkompott’ in Galerie  im Zwischenraum, Berlin 2012 and ‘Aktstudien und freie Blätter’, in the Galerie Ostart, Berlin.

www.tillmann-lange.de

alberto cidraes com pinhas

A TRANSUBSTANCIAÇÃO E A CERÂMICA por Alberto Cidraes

 

 

O ser humano anseia pela explicação de sua própria  existência, e nessa ânsia, busca caminhos para transformar o transitório em  Eterno.

Materializou à sua imagem e semelhança, o inominável, incognoscível e inatingível, essência e razão de todas as coisas, e lhe deu o  nome de Deus.

Deus, segundo o mito bíblico, modelou o Homem de barro e lhe  insuflou vida, soprando nele a alma. Essa é uma ideia que pode ser  convenientemente colocada como origem conceitual da cerâmica.

Na procura de um Deus que ele próprio criou, como Luz ao fim  do túnel da vida, o ser humano inventou rituais e liturgias, símbolos e  representações, que configuravam e preenchiam um caminho na Sua direção.

Um dos arquétipos que mais tem trazido ao Homem consolação e  esperança é o da transformação. A Ciência consagrou esse conceito na realização  de que na Natureza nada se perde e tudo se transforma.

Sendo o mundo espiritual parte inegável da natureza esse  princípio a ele deve também ser aplicado. No catolicismo, por exemplo, de forma  simbólica ou literal e conforme o grau de fé do praticante, o pão e o vinho se  transubstanciam em corpo e sangue de Cristo.

Na cerâmica, o barro inerme que compõe o chão que pisamos, destituído de estrutura, direção e permanência, é levado pela inspiração  transmitida pela mão, à concretização na forma, posteriormente “eternizada”  pelo fogo.

Este processo é para o ceramista uma réplica do que acontece  na formação vulcânica das rochas e com ele fácil é ver-se como parte integrante  da natureza, oficiante dos rituais e dos fundamentos da geologia. A constatação  desse fato pode levar a um imenso sentimento de vaidade ou ao recolhimento que  proporciona o sacerdócio de qualquer religião. A diferença está no pronome  reflexo, entre “servir-se de” ou simplesmente “servir”.

O objeto de cerâmica tem uma durabilidade física frágil e  uma durabilidade química permanente. Ele pode ser destruído pelo choque mas  ainda assim seus cacos irão testemunhar a época em que a queima perenizou sua forma, cor e textura.

Diz-se que a cerâmica é a mais antiga das artes. Talvez sim  ou talvez não, mas de qualquer forma é aquela que mais preservou sua  antiguidade, transportando-nos a idades e culturas há muito desaparecidas, numa  viagem no tempo.

Nas sociedades tecnológicamente sofisticadas e  espiritualmente subdesenvolvidas em que vivemos a cerâmica pode ser uma boa opção de vida. Ela se coloca em oposição militante ao consumismo desenfreado,  ao imediatismo impaciente, à standardização das mentes e hábitos de vida, à
superficialidade da educação e à total alienação que a megalópole, esse monstro  cancerígeno, provoca no ser humano, separado de suas raízes e perdido de seus  objetivos e sentido da vida.

De forma poética podemos voltar ao tempo em que o mundo  físico era explicado pelos quatro elementos, terra, fogo, ar e água, todos eles  protagonistas da grande dança ritual da cerâmica, comandados pelo quinto  elemento, o Grande Maestro, o Espírito, oficiando a transubstanciação da terra
em pedra e completando assim o Pentagrama, expressão geométrica e também mágica  da Regra do Ouro.

Científicamente se descobriu que tudo é energia, sendo a matéria apenas ilusão dos sentidos. Isso provoca uma confluência entre a razão  e o pensamento esotérico que acredita que tudo é Luz.

Recentemente alguém que conheço me dizia: não somos humanos  tendo uma experiência de Luz, somos sim Luz tendo uma experiência humana.

imagens – esculturas em cerâmica – Alberto Cidraes

 

 

Alberto Cidraes, nasceu em 1945 em Elvas, Portugal. Estudou arquitetura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL), em 1970, e parte para o Japão para fazer pós-graduação em arquitetura tradicional japonesa na Universidade de Kyushu, conhecendo e dedicando-se a cerâmica.
Em 1973 vem para o Brasil  e em 1975, junto com amigos japoneses e brasileiros funda o primeiro ateliê de cerâmica artística de alta temperatura em forno Noborigama de Cunha. Montou e dirigiu o Departamento de Cerâmica do AR.CO, de 1987 a 1990, em Portugal.
Em 1993, monta, com um grupo, o programa da KIDI Kanazawa International Design Institute, filial japonesa da Parsons School of Design de NY, onde leciona até 2002. Organizou com outros ceramistas o I Festival de Cerâmica de Cunha e, em 2006, torna-se membro fundador da Cunhacerâmica e, a partir de 2009, preside o Conselho Superior do ICCC, Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha.