Arquivo da tag: Edição 21: AZUIS

azuis - SAndra Cinto 3

SANDRA CINTO – Mares e Céus

 

Sandra Cinto é artista plástica, nascida em Santo André, São Paulo.

A partir da  sua participação na 24a. Bienal de São Paulo, em 2008,   seu trabalho ganhou enorme reconhecimento internacional. Atualmente é representada por galerias em diversos países, e sua obra já foi exibida em museus ao redor do mundo.

Seus trabalhos tem a predominância da cor azul, e seu suporte preferido é a parede. Nela ela utiliza canetas de diferentes tons de prata e de várias espessuras para alcançar o céu, trazer um mar revolto, mover montanhas.

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Aqui um vídeo incrível com a versão longa da execução da instalação “Encontro das Águas” em Seattle.

Aqui numa entrevista ao programa Metrópole, por ocasião da exposição “Imitação da Água” que realizou no Instituto Tomie Ohtake

blues   integration  gde - Julie Warquier

O TAPA DA LUVA por Elza Tamas

 

Ana abriu presentes o dia todo, tinha sido assim na última semana, mas aquele com o bilhete carinhoso da amiga artista, retirou dela um sorriso cúmplice. Estava farta de bules e torradeiras, o quarto entulhado de augúrios, sejam felizes para todos os lados. Desatou o laço, levantou a tampa da caixa e lá no fundo, repousavam lado a lado, duas luvas brancas de voil, compridas até a altura dos pulsos. Estranhou, não pensava em usar luvas na cerimônia.

Pegou-as com delicadeza, eram leves, transparentes; cheirou: um bosque de laranjeiras. Como são preciosas nossas amigas, sempre encontram formas de nos afagar. Vestiu as luvas, o tamanho exato. Rodopiou quase sem peso pelo quarto, feliz e surpresa com a feminilidade que aquele pequeno adereço podia lhe conferir. E foi só aí que percebeu, no lado interno da luva, na palma, em azul claro, uma costura de pontos miúdos e irregulares formando as linhas do coração, da cabeça e da vida, só na mão direita. Aproximou as mãos do rosto, e sentiu um tapa, desses de filme. As linhas bordadas naquela cor celestial, não tinham nada de angelicais: a do coração era curta e desamparada, a da cabeça já tinha um ponto solto e se unia a linha da vida, que pendia indecisa quase para fora da mão. Aqueles azuis não se encaixavam sobre suas próprias linhas e criavam um emaranhado de seis possibilidades confusas, duas vidas, dois corações, duas cabeças. Um destino tentando se impor sobre outro. Seu corpo emudeceu, um torpor gélido nublou sua visão e ela achou que talvez fosse desmaiar. O quarto ficou úmido, pegajoso, Ana arrancou as luvas, enquanto corria para a poltrona que a amparou. A maça nunca mais voltaria à árvore.

Apoiava os cotovelos desesperados sobre os joelhos e suas palmas cobriam o rosto, quando a mãe entrou no quarto, radiante, Ana! Ana!, carregando um pacote enorme e pesado. Atrás dela vinha – adivinhe? adivinhe Ana, quem está aqui!- ajudando a carregar o presente, Jacira, que meio corpo ainda atrás da porta entoava, mi-nha- mais- que-ri-da- criança- vai- ca-sa-aar, mi-nha prin-cesa vai ca-saaar. Jacira, sua querida baba da infância.

Aquele pequeno momento – quando o sorriso branco de Jacira correu para abraça-la, quando ela olhou para aqueles olhos castigados que se vingaram da vida se mantendo doces-, lhe devolveu um mínimo de ordem, as paredes se afastaram e a poltrona permitiu que ela se levantasse.
Talvez Jacira pudesse entendê-la, elas se conheciam tão bem. No quarto, os passos agora se faziam muito ruidosos, a arquitetura de um futuro havia desmoronado. Montanhas de cacos jaziam pelo chão, mas as duas pareciam não perceber, moviam-se entretidas, conversavam euforias enquanto arrastavam móveis, tentando acomodar o presente gigante. Não notavam o barulho estridente sob os seus sapatos, nem o fantasma no qual Ana havia se tornado. Anos de conhecimento intimo se turvavam frente à fantasia da realização do amor.

Na caixa, uma TV plana, 42 polegadas, ultima geração, 3D, acompanhada de um par de óculos. Blue tooth, presente dos padrinhos, comentou a mãe cheia de orgulho.

 

 

foto banner: Integration – Julie de Waroquier

 

 

Elza Tamas é psicóloga e escritora. Concebeu e desenvolve este site.

 

ilhas

MARINHAS por José Guyer Salles

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                                                     Aquarelas -Marinhas por  Guyer Salles


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José Guyer Salles nasceu em São Paulo em 1942. Entre 1962/64, frequentou os cursos livres da FAAP onde aprendeu pintura com Nelson Nóbrega e gravura com Marcelo Grassman. Estudou pintura com Glenio Bianchetti e gravura com Babinski na UNB. Frequentou a Nugrasp em São Paulo, dirigido por Izar do Amaral Berlinki.
Viajou para Nova York em 1970,  com bolsa de estudos no Pratt Graphics Center. Permaneceu nessa instituição como professor até 1975. Foi professor de gravura no Art Barn em Connecticut e no Westchester Art Center. Residiu em Nova York até 1984. Nesse periodo importou a primeira prensa para gravura em metal com controle micrometrado que depois veio a ser reproduzida no Brasil e é até hoje modelo de qualidade.
Fundou a “Oficina de Gravuras 76 Ltda.” em São Paulo. Reuniu os melhores gravadores de São Paulo e imprimiu gravuras, popularizando essa arte vendendo para hotéis e empresas edições fechadas. Introduziu a arte da gravura para vários artistas que passaram a usar essa técnica como meio de expressão de sua arte.  Trabalhou como curador na Secretaria de Cultura de Itapecerica da Serra – SP
2008 – Exposição Itinerante “Gravuras e Aquarelas de GUYER SALLES” organizada pelo SESI
2010 – Organizou juntamente com os artistas gravadores Angelita Cardoso e Cesar Nogueira o atelier “Aquaforte” dedicado a gravura em metal e aquarela.
2013 – Professor de aquarela na “A Casa do Artista” – Jardins SP

guyersalles.wordpress.com

 

 

 

CAmpo de trigo com corvos vAN gOGH

O MONUMENTAL FRACASSO DO AZUL por Carlos Neves

Eu tinha começado a rir, me desculpem.

Bem, não sei se foi com Van Gogh que comecei a gostar do azul, mas certamente foi com ele que percebi o quanto o azul era decisivo para mim. No início, sem saber dos nomes das coisas, o azul sempre fora a cor do infinito. Isso talvez até uns dez ou onze anos. Sim, o infinito é azul aos dez ou doze anos, qualquer infinito, matemático, químico, cósmico ou aquático. O infinito, veja que estranho, eu não sei dizer do que trata, a não ser o fato irrelevante de que não tem fim. Já o azul, a cor do infinito, é tudo, é o túnel que transporta o pensamento, a escuridão, a tristeza. O infinito é azul quando é pintado disso: de ideias, trevas e melancolia. Até os nove ou dez anos, talvez algo mais, foi assim, sempre azul, pintado de infinito: como nas noites em que minha mãe me abandonava na cama, apagava a luz e eu me perdia no sono. Eis o azul, o infinito, o capuz do tempo.

Quando andava de trem nos anos 70, às onze da noite, a Luz quase vazia dentro dos vagões, os trilhos cintilantes da Santos-Jundiaí escurecendo nos dormentes, meu padrinho e eu éramos esmagados pelo infinito subúrbio do Brás, Mooca, Cambuci, Vila Prudente, Ipiranga. Às onze da noite isso se chamava infinito. Depois tudo é azul em São Caetano, Santo André, Prefeito Saladino, Mauá, Ribeirão Pires, Paranapiacaba, Cubatão, Valongo. Pelo menos aos doze ou treze anos, às onze ou meia-noite é assim.

Um dia, no trem, tirei da mala de meu padrinho um catálogo de arte sobre pintores holandeses. Estava cheio de Vermeers, Rembrandts, e eu queria falar sobre eles, mas vou me conter e ficar só com Van Gogh, que me deixou paralisado naquele dia no trem, eu devia ter uns doze, talvez treze, talvez, naquele trem, tinha o infinito, o azul do tempo. Quando lembro disso eu rio. E tenho que parar de escrever porque não aguento.

Quando vi Van Gogh pela primeira vez não vi de fato Van Gogh, mas um de seus autorretratos, um de 1889, em que a parede espiralada no plano de fundo se contorce para se transformar no paletó de Vincent, no primeiro plano. Não sei se por problemas de impressão gráfica ou de iluminação naquele trem (as luzes brancas, veja só, às onze da noite, eram azuis), o fato é que achei o azul da parede da tela razoavelmente estranho. Mas o que mais me perturbou foram os olhos de Vincent (Vincent, repiso, que não é Van Goh, mas o seu autorretrato). Os olhos enérgicos (o da direita, talvez algo violeta — um violeta azulado, óbvio), como se me procurasse numa daquelas estações. Não sei se fiquei fascinado, perplexo, não sei. Tive medo, isso sim, mas não desgrudei mais, não me deixei abandonar por aquela tinta, sonhei noites inteiras com aquilo.

Estou rindo de novo porque acabei de me lembrar de Campo de Trigo com Corvos. E tenho que parar porque não aguento.

Talvez seja o último quadro dele, esse Campo de Trigo com Corvos. Antes de morrer. Esse quadro, ora, esse era o quadro que ele pintou a vida toda. Depois que foi ao cemitério pela primeira vez, por volta de 1860, e viu o seu próprio nome numa tumba. O corpo era do avô. E ao lado do avô estava o corpo do irmão primogênito, morto antes de Vincent nascer, cujo nome era justamente Vincent van Gogh. Ele olhava para o campo sepulcral (dizem que no fundo de sua casa) e via a lápide em que se inscrevia o seu nome. Depois disso, foi aí: ele começou a pintar Campo de Trigo com Corvos. De modo que Noite Estrelada, Casa Amarela, o Vinhedo Vermelho (e me abstenho de mencionar os nomes originais, me perdoem), e todos os autorretratos eram no fundo esboços para Campo de Trigo com Corvos. Azul, plenamente infinito azul.

E isso eu nunca esqueci, porque me lembro e rio. E tenho de parar.

 

foto banner: Campo de trigo com corvos- Van Gogh  

 


Carlos R. Neves é jornalista, fotógrafo e escritor. Participou da coletânia “As moscas” (Dulcinéia Catadora) e recebeu uma menção honrosa por sua participação no Prêmio “Off FLIP de Literatura”, em 2008. Tem um romance pronto, muitos contos feitos e outros em composição.  [email protected]

 

 

 

 

azuis picasso -mother-and-child-1902-blg

PICASSO E A FASE AZUL

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“Comecei a pintar em azul , quando percebi que Casagemas havia morrido”, escreveu Picasso. Casagemas era amigo de Picasso e cometeu suicidio em 1901, após ter sido rejeitado por uma mulher por quem estava apaixonado.

As pinturas dessa fase ficaram conhecidas como a fase azul.

Picasso retrata  a solildão, a pobreza, mendigos, cegos, a velhice. Sua melancolia se expressa monocromaticamente em azul, com uma pequena permissão ao verde.

É  também um período de vida materialmente precário;  vive entre Barcelona e Paris , onde divide a casa com o escritor Max Jacob. A casa pequena, de apenas uma cama era revesada entre eles: Picasso dormia durante o dia e trabalhava a noite; e Max Jacob dormia a noite e trabalhava durante o dia.

A fase azul se  estende até 1904,  quando Picasso conhece Fernande Olivier, uma modelo por quem  se apaixona. Aí se inaugura a fase rosa, que dura até 1906.  Posteriormente Picasso revela que o seu famoso quadro “As meninas de Avignon” foi inspirado em Fernande. Juntos eles vivem um romance, por 7 anos.

Landola-Classica

BLUE, BLUES por Eliete Negreiros

 

 

Azul, cor do infinito, dos infinitos azuis que há e daqueles outros infinitos que não sabemos sequer imaginar, vibração da transcendência, do que é imenso e não pode ser contido numa palavra, num gesto, num traço.

Este azul do imenso faz nascer asas na imaginação, asas que nascem do olhar, convite a que nos desliguemos de tudo que é estreito, mesquinho e que redimensionemos nossos sonhos, convite à libertação, azul da cor do mar, da canção de Tim, doce leão marinho da nossa canção popular.

Link- Azul da cor do mar

Os olhos são as asas do espírito.

E há um azul triste, azul do pesar, trouble in mind, I’m blue, but I won’t be blue always, ‘cause that sun’s gonna shine in my back door some day, canta Janis Joplin

 

 

E o azul- blue do blues que Billie canta, a grande lady da tristeza, lady sings the blues, she’s got them bad, she feels so said,(…)the blues ain’t nothing but a a pain in your heart, good morning heartache.

Leveza e tristeza, transcendência e paixão, o azul carrega em seu âmago estes pares de opostos, sutileza e densidade. No céu da tristeza, as estrelas são lágrimas que escorrem para desaguar toda a mágoa do peito ferido; no céu da alegria, pontinhos de luz, vagalumes que iluminam a noite e fazem contraponto ao escuro do breu. Cintilâncias. Li em Maurice Blanchot, “O livro por vir”, que o moralista francês Joubert criou uma cosmologia em que os astros são buracos no céu e que Paul Valéry, falando do Lance de dados, disse que quando conseguiu penetrar na poesia de Mallarmé uma página elevou-se à “ potência de um céu estrelado’”. E fiquei pensando em como as palavras podem criar tanta luminosidade e se haveria azuis em Joubert e Mallarmé, ou se seria uma luz clara prata a inundar o pensamento.

Caminho do infinito: o pássaro da felicidade é azul, tão longe e perto. Sanhaço, azulão, felicidade brasileira, o azul de Manuel Bandeira, vai, vai azulão…

 

Os azuis dos pintores, o onírico de Chagall, o alegre de Matisse, o diáfano de Monet, o melancólico de Picasso, e aquele indizível azul de Yves Klein.

O azul do carrinho que o pai de Gil comprou, um volks, volkswagen blue, um carrinho todo azul. E é nele que eu vou, bye- bye baby blues, quero passear um pouco na beleza da leveza , flanar entre azuis num volks, volkswagen blue, me desfazer em som e luz, bye-bye baby blues e quem sabe esquecer a tristeza que inundou meus dias sem pedir licença, bye-bye baby blues.

 

 

 

 

foto banner: Landola- classical  Guitar String Blue light Water wave effect

 

 

Eliete Eça Negreiros é paulistana, cantora de música popular, doutora em Filosofia pela USP e ensaísta. Surgiu para o público com o LP Outros Sons(1982) dirigido por Arrigo Barnabé. Integrante do grupo da vanguarda paulista gravou também o LP “Ângulos-Tudo Está Dito”( 1986), e os cds “Canção Brasileira- A Nossa Bela Alma”(1992) e “Dezesseis Canções de tamanha Ingenuidade”(1996). Foi duas vezes premiada pela APCA: Cantora-revelação, com Outros Sons, em 1983 e Cantora de MPB, com Canção Brasileira, em 1993. Escreveu “Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros escritos”, 2011 e agora prepara um outro livro sobre a obra de Paulinho da Viola. Escreve sobre música popular brasileira na Revista Caros Amigos. Assinou a coluna Questões Musicais, do blog da Revista Piauí.

 

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-musicais/geral/chao-de-estrelas-arranha-ceu-orestes-barbosa

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-musicais/geral/a-pergunta-sem-resposta

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-musicais/geral/azulao

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-musicais/geral/outros-sons

 

 

 

 

andrey narchuk - me afeta

AZUIS – 21a. Edição

As placas com o nome de rua são azuis; as mais antigas, azul da Pérsia, as mais novas, azul real. A antena da avenida paulista é azul neon, a sandália havaiana é azul Klein. Yves Klein era artista, francês e se interessava pela teoria das cores. Queria contrariar Aristóteles, cor não é física é espectro é luz, mas Goethe e Da Vinci já tinham dito tudo isso.

Yves Klein

Meio narcisista, batizou o pigmento com o seu nome, International Klein blue, como hoje batizamos com nossos nomes los astros que tiritam azules a los lejos. Já pensou em dar uma estrela à alguém?
Azul da china, azul egípcio, azul provence, azul maya, azul da prussia. A cor do jeans é indigo; o firmamento,  just blue.  Blue é o azul psíquico, a melancolia,  a tristeza da alma.  Em português, “tudo azul” é estar bem, já em alemão “blau werden” significa “ficar azul”, que é o mesmo que estar bêbado. Blues era o que a Amy cantava. Azul marinho é o mar que nunca se cansa, turquesa é o azul que quase quer  ser verde.

Abrilhantam esse AZUIS convidados especiais : Nick Selway, fotógrafo consagrado que nos enviou direto do Haway ondas incríveis; Guyer Salles e suas belas aquarelas maritimas; Carlos Neves e o que um Van Gogh é capaz de provocar; Eliete Negreiros e deliciosos azuis musicais e o  Triste de Alberto Pereira Lima. Ainda : Jodhpur, Picasso, Sandra Cinto e também O tapa da luva, meu  pequeno conto.

Mergulhem prazeirosamente nessa edição !

 

foto banner: Andrey Narchuk 

 

 

 

 

 

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ALOHA por Nick Selway

 

 

Nick Selway nasceu in Lake  Stevens, em Washington, uma região de farta beleza natural. Isso convivio proximo lhe permitiu desenvolver  uma especial apreciação  pela natureza. Passou sua infância com sua familia, viajando e explorando a região do Pacífico  e a relação com a natureza estreitou-se ainda mais.

Aos 19 anos já  fotografava, realizando a paixão da sua vida: capturar o mundo natural através dos seus olhos. Depois da universidade, mudou para Kailua Kona no Havai, onde ele conheceu CJ Kale, que se tornou o  seu melhor amigo. Juntos desenvolveram  vários projetos fotográficos ousados. Num deles, fazendo  surf,  se arriscaram e  puderam capturar  lavas de um vulcão em erupção, no momento que elas  entravam no oceano. Essa série de fotos se tornou um marco na fotografia do mundo natural.  São proprietarios da Lava Light Gallery, no Havaí.

Aqui uma série ondas que ele pessoalmente escolheu para essa publicação.

 

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Nick Selway, fotógrafo residente no Havaí, teve seus trabalhos publicados nas revista National Geographic, CBS, New York Daily News, ABC News, UK Daily Mail, Photography Monthly, Surfer Magazine e muitos outros artigos no mundo todo. Nick  tambem recebeu muitos premios incluindo  o Grand Prize 2009 Outdoor Photographer Magazine World Wonders Contest, 2011 Power in Nature, Natures Best Magazine, Smithsonian Exhibition, Earth Shots shot of the Day, Cover of Natures Best Magazine 2011.

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TRISTE por Alberto Pereira Lima Filho

 

 

 

O dourado se espalhava pela ladeira. Era final de tarde, outono. Havia um silêncio peculiar, indiscreta e belamente interrompido pelo scherzo dos pássaros. Não fosse a pipa amarela emaranhada nos fios de iluminação, dir-se-ia que ali não vivia ninguém. Eu, por assim dizer, testemunha do sol a se por, via, buscava e era, ali, ninguém.

Ao longe, a Ave Maria de Gounod se fazia ouvir tênue e rouca. Um chapéu de palha se arrastava pelo chão, rua abaixo – em parte, levado pelo vento; em parte, almejando descanso. Ah, a doce antevisão do quase nada! Talvez fosse a lembrança soprada pelo espírito de meu pai, que um dia, por muitos dias, sempre, o vestira. Já não abrigava meu pai o chapéu de palha levado ao descanso rua abaixo, não mais. Não mais. Renovava-se em mim, deste modo, a consciência da inexorável condição de impermanência. Uma bênção. Uma perplexidade. Que distância ainda há a percorrer?

Ouvir o senhor Ernesto, o que teria custado? “Reza, menino! Nada pode ser melhor do que rezar! Reza! Reza, menino, e deixa estar”! Ouvir o senhor Ernesto. Ah, eu teria, se pudesse. Se soubesse. Se soubesse rezar!

Uma badalada. Duas. Uma dor profunda no peito, um temor de não mais conseguir acordar. Um temor de novamente acordar, que sufoco! Acordar.

Três badaladas.

Aperto uma das mãos e, sobre ela, a outra. Sobre ambas, recosto minha testa. Olhos fechados. Procuro esvaziar a mente de todo e qualquer pensar, de imagens e sons e cores. Procuro em vão, pelo amor de Deus, para poder respirar, por instantes, não ser. Quem sabe aí eu possa ser – ainda que fugaz e irreversivelmente – em paz?

Quatro.

Experimento uma saudade infinita de algo que nunca fui, nem nunca vivi. Cinco. É isso o que me sustenta aqui, em que pese o dourado do sol que se põe ladeira abaixo, pássaros a voar e a tingir de canto o azul ininterrupto do céu. Seis. Certamente, não mais. Não as tolero mais, as badaladas. Saudade infinita de algo que ainda serei, se puder e souber rezar.

Abro lentamente os olhos e agora pouso o nariz sobre as mãos cerradas. Miro, ao longe, no rasgo do horizonte, um insuportável porvir. Dói, de chorar. E choro uma única lágrima de dor, que minha dor não revoa pelo azul, nem há vento que a possa soprar. Ah, o horizonte no fundo de mim! O que faço aqui, em mim?

Arrisco um passo, mãos soltas e trêmulas. (Prendo-as, novamente, atrás.) Coração trêmulo. Outro passo. E outro. E um após o outro, devagar. Levo-me rua abaixo na direção do chapéu, guiado pelo sopro de meu pai. Desço o dourado do sol de outono rumo ao horizonte portador de insuportável porvir. Temo por mim, tremo. Tremo por mim.

Sei que dormi, pois acordei.

Tomei um copo de leite frio, que me fez bem. Lavei duas cuecas e as pendurei para secar. Varri as folhas do quintal. Apanhei no pé meia dúzia de limões, sei lá para quê. Olhei a grama e achei que a deveria logo podar. Uma buzina ao longe fez parecer que o mundo era habitado.

Uma dor no peito fez parecer que eu era habitado.

(Pensei!)

Não sei rezar. Apenas deixei estar. Deixei estar.

Apenas, sem rezar, deixei estar. Eu, com forte dor no peito, habitado por mim.

 

foto banner: lifecandy.cn  

 

 

 

Psicoterapeuta. Professor Doutor em Psicologia Clinica. Diretor da Opus Psicologia Ltda