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AH, O AMOR… por Beto Palaio

 

AMOR CERTINHO E BONITINHO – Amor fronteira com quem? Malhas de um tempo de alegrias da melhor qualidade. No coração, 20 anos, no documento autorizado de viver, 20 anos também. No país do amor, lágrimas de alegria, vizinhas sorridentes, vaga de estacionamento livre em frente ao prédio, água morna na banheira, champanhe no gelo, pitubas de beijos pré-orgásticos e prazer exorbitante em decúbito dorsal. A boa sorte festivamente dividida com a jovem concubina. Isto tudo que estou escrevendo é tão quente quanto um ovo quente.
 

AMOR ARDIDO E CALIENTE – Lua de mel em Poços de Caldas. Dentro dos limites esse amor pode realizar o impossível. O véuzinho, insígnia dos países baixos que se dispôs a agüentar, até então, a todos os ataques, agora tem de se render. Tudo corre tão depressa. Namoros no portão, festa de noivado na casa do sogro, convites impressos na grafiquinha do futuro cunhado, casamento em dia de sol causticante, bolo de casamento de um metro e meio de altura. Contudo, naquela mesma noite, o cio emperra. Mas no dia seguinte, bem cedo, o diabo ataca de pijamas. Tenta, tenta e consegue. Ocorre que: Meu demônio é assassino e não teme o castigo.

 

 AMOR DATILOGRAFADO – Um belo dia. Prezados senhores. Mas que surpresa! Você não é aquele loirinho que sentava na primeira carteira nas aulas do segundo colegial? Mas que maravilha! O quê? Ficou casado vinte anos com a Norminha? Aquela que a mãe é dona de uma lojinha de armarinhos? Sim, conheço a mãe, mas a Norminha eu conheço só de vista. Ah, vocês moravam em Los Angeles? E a Norminha? Continua em Los Angeles? Ah, eu sei. Mas isso passa. Olha para o futuro que você é jovem ainda. Nem pense nisso. Logo você conhece alguém aqui na nossa terra mesmo. Mas não é verdade? Nem que seja um anjo caolho, claro. Passou. É o seguinte: a dissonância me é harmoniosa. A melodia por vezes me cansa.

 

AMOR PREVISTO PELOS ASTECAS – Instintos podem nos enganar. Nossa sabedoria, errar. Nossa inteligência, confundir. Estamos no meio de um planalto de alvorada incerta. Barco à deriva. No entanto, um acontecimento fortuito nos aproximaria. O mundo iria acabar em Dezembro de 2012. Fizemos a besteira de assinar um contrato de casamento às pressas. Sua mãe apareceu para morar no nosso apartamento no mês de Janeiro de 2013. Nosso casamento durou até Março do mesmo ano. Perdemos tudo. Nada estava em meu nome, e nada estava no nome dela. Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando.

 

 AMOR EMPLASTO SABIÁ – Gruda que a fome é certa. Faz que vai ao centro do mundo conhecido pelo homo sapiens, mas dá uma guinada e nos deita fora da composição regiamente pilotada por sogro, sogra e cunhados. Salve-se quem puder de um bolo de rolo dessa qualidade. Féretros com missa de mês, visita demorada da Tia Maricota e aniversário de criança com bolo mofado o qual foi encomendado da prima do Pestana, o confiável porteiro do edifício. No entanto ela, a ex-esposa, se salva do naufrágio total: Tenho que seguir a linha pura e manter não contaminado o meu it.

 

AMOR VOU EMBORA – Na festa de churrasco do final de ano. O marido era chefe de seção. Sumiu durante o churrasco com a secretária da diretoria. Em estado de graça ele apareceu pelos lados da piscina como se estivesse vendo tudo avec rose sé la vie. Entretanto. A crise do petróleo não agitou tanto quanto a baixaria que Neuzinha, sua mulher, lhe pregou. Ali ela engasga, fuma e tosse. Mas uma coisa é certa. O dragão do futuro indicativo demonstra que em casa um pára-raios terá de ser instalado no corredor, entre a sala, a cozinha e o banheiro da empregada. Ah, se eu sei que era assim eu não nascia.

 

 AMOR DE LUA NOVA – Está na hora de recomeçar planos adiados. Momento ideal para dar chance apenas a quem lhe promete o prazer. Às vezes um amor descompromissado é tudo o que você precisa. Mergulhar com tudo na recuperação do ego perdido em seu frustrado casamento com o Marquinhos. Então está tudo certo. Não tem engano não. Hoje de tarde nos encontraremos. E não te falarei sequer nisso que escrevo e que contém o que sou e que te dou de presente sem que o leia.

 

AMOR BEIJA-FLORES – Escolha alguém em quem confie. Um alguém que se dedique integralmente a você. Deposite nesta pessoa seus desejos e medos. Não olhe para trás. Águas passadas não movem moinhos. Por falar em água, mergulhe num mar azul, ao qual eles, os pobres mortais, chamam de felicidade. Queira ser o sol e entre pela janela da pessoa que escolheu para amar. Doravante você é ele, e ele é você. Tu és uma forma de ser eu, e eu uma forma de te ser: eis os limites de minhas possibilidades.

 

Frases adicionais em itálico são citações de Água Viva, de Clarice Lispector

 Ilustração inicial da matéria é de Faye West; Ilustração em “Amor previsto pelos Astecas” é de Melisa des Rosiers. Ilustração em “Amor de Lua Nova” é de Adebanji Aladi. As ilustrações não citadas são anônimas.

 


Beto Palaio
é escritor e diretor de arte. Ganhou prêmios com suas aquarelas, inclusive o Premio Pirelli do MASP. e Premio Viagem ao Japão para obras nos anos 80. Foi também editor de várias revistas dirigidas em São Paulo. Edita o blog Litteratour. Mora no Rio de Janeiro.

http://litteratour.blogspot.com.br/

AMORES (im)POSSÍVEIS

Inicialmente existiam três gêneros humanos distintos. Os que se constituíam de um par de homens, eram os andros; duas mulheres, as gynos; um casal homem e mulher, os androgynos. Unidos pelas costas, com 4 braços e 4 pernas eram fortes e levantaram a fúria dos Deuses, que em represália enviaram raios que os dividiram pela coluna vertebral.
Mutilados e apartados, vagamos até hoje procurando a parte que nos pertencia, em escolhas hetero ou homoafetivas determinadas pela natureza do par que  anteriormente  constituíamos. Assim, é descrito no livro O Banquete, de Platão, a gênese da nossa busca pela experiência amorosa, a ânsia pela completude primária onde o outro tem parte indispensável na nossa realização afetiva e psíquica.

Para falar sobre os encontros, buscas, faltas, impossibilidades, realizações e enebrimento, um grupo de colaboradores de diferentes áreas criou um recorte diversificado, sobre a complexidade do amor:

Victor Kanashiro é músico, performer, sociólogo, economista, professor e pesquisador e escreveu sobre novas composições amorosas na contemporaneidade: o amor a 3. De quebra uma trilha feita exclusivamente para ler o post.
Marilene Damaso, psicóloga especializada em dependências, analisa o filme Her e  discute o amor idealizado e asséptico para onde parecemos caminhar.
Monica Rocha, economista e especialista em literatura latino americana discorre sobre o desejo em Capitu e a possível traição de Machado de Assis
Cintya Nunes, publicitária e contadora de histórias apresenta uma crônica sobre as esperanças de Bernadete Camacho, sua personagem aventureira , de encontrar um amor nas redes sociais.
Beto Palaio, escritor  e artista plástico  faz uma atrevida parceria com Clarice  Lispector.
Emir Tomazelli, psicanalista, começa alertando, amor é trampo e  só é amor se for necessidade.

e ainda a arte romântica  de Leonilson , e um conto de Elza Tamas, recém publicado no livro coletivo DESNAMORADOS.

foto banner: The Lovers- Barny Bewick  Casually Dressed