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BLUE, BLUES por Eliete Negreiros

 

 

Azul, cor do infinito, dos infinitos azuis que há e daqueles outros infinitos que não sabemos sequer imaginar, vibração da transcendência, do que é imenso e não pode ser contido numa palavra, num gesto, num traço.

Este azul do imenso faz nascer asas na imaginação, asas que nascem do olhar, convite a que nos desliguemos de tudo que é estreito, mesquinho e que redimensionemos nossos sonhos, convite à libertação, azul da cor do mar, da canção de Tim, doce leão marinho da nossa canção popular.

Link- Azul da cor do mar

Os olhos são as asas do espírito.

E há um azul triste, azul do pesar, trouble in mind, I’m blue, but I won’t be blue always, ‘cause that sun’s gonna shine in my back door some day, canta Janis Joplin

 

 

E o azul- blue do blues que Billie canta, a grande lady da tristeza, lady sings the blues, she’s got them bad, she feels so said,(…)the blues ain’t nothing but a a pain in your heart, good morning heartache.

Leveza e tristeza, transcendência e paixão, o azul carrega em seu âmago estes pares de opostos, sutileza e densidade. No céu da tristeza, as estrelas são lágrimas que escorrem para desaguar toda a mágoa do peito ferido; no céu da alegria, pontinhos de luz, vagalumes que iluminam a noite e fazem contraponto ao escuro do breu. Cintilâncias. Li em Maurice Blanchot, “O livro por vir”, que o moralista francês Joubert criou uma cosmologia em que os astros são buracos no céu e que Paul Valéry, falando do Lance de dados, disse que quando conseguiu penetrar na poesia de Mallarmé uma página elevou-se à “ potência de um céu estrelado’”. E fiquei pensando em como as palavras podem criar tanta luminosidade e se haveria azuis em Joubert e Mallarmé, ou se seria uma luz clara prata a inundar o pensamento.

Caminho do infinito: o pássaro da felicidade é azul, tão longe e perto. Sanhaço, azulão, felicidade brasileira, o azul de Manuel Bandeira, vai, vai azulão…

 

Os azuis dos pintores, o onírico de Chagall, o alegre de Matisse, o diáfano de Monet, o melancólico de Picasso, e aquele indizível azul de Yves Klein.

O azul do carrinho que o pai de Gil comprou, um volks, volkswagen blue, um carrinho todo azul. E é nele que eu vou, bye- bye baby blues, quero passear um pouco na beleza da leveza , flanar entre azuis num volks, volkswagen blue, me desfazer em som e luz, bye-bye baby blues e quem sabe esquecer a tristeza que inundou meus dias sem pedir licença, bye-bye baby blues.

 

 

 

 

foto banner: Landola- classical  Guitar String Blue light Water wave effect

 

 

Eliete Eça Negreiros é paulistana, cantora de música popular, doutora em Filosofia pela USP e ensaísta. Surgiu para o público com o LP Outros Sons(1982) dirigido por Arrigo Barnabé. Integrante do grupo da vanguarda paulista gravou também o LP “Ângulos-Tudo Está Dito”( 1986), e os cds “Canção Brasileira- A Nossa Bela Alma”(1992) e “Dezesseis Canções de tamanha Ingenuidade”(1996). Foi duas vezes premiada pela APCA: Cantora-revelação, com Outros Sons, em 1983 e Cantora de MPB, com Canção Brasileira, em 1993. Escreveu “Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros escritos”, 2011 e agora prepara um outro livro sobre a obra de Paulinho da Viola. Escreve sobre música popular brasileira na Revista Caros Amigos. Assinou a coluna Questões Musicais, do blog da Revista Piauí.

 

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-musicais/geral/chao-de-estrelas-arranha-ceu-orestes-barbosa

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-musicais/geral/a-pergunta-sem-resposta

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-musicais/geral/azulao

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-musicais/geral/outros-sons

 

 

 

 

DA PROIBIÇÃO COMO ÉTICA CULTURAL por Marcelo Ariel

 

Da proibição como ética cultural   –     Um poema disfarçado de ensaio

 

1.  Controle do esquecimento

A segregação de conteúdos em nome de uma visão dicotômica é a configuração sutil de uma proibição promovida pelo esquecimento geral ou ostracismo,  ou pela simples falta de interesse na arte que escapa dos códigos de classificação do entretenimento?

O caso do filme Quattre nuits d’un reveur (Quatro noites de um sonhador) de Bresson é grave, porque envolve um cineasta que pensava o cinema como poética em detrimento do cinema como Mercado.  Envolve  também um  dos grandes músicos e atores brasileiros em atividade Marku Ribas, que atuou no filme.  O silêncio sobre este  filme com trilha composta por ele, ao meu ver  só se explica pelo fracasso dos cadernos culturais e  por uma amnésia  provocada pelo excesso de informação formatada nos padrões do pensamento publicitário, algo que não se converte em conhecimento. Excesso de informação das marcas dentro do espaço a ser ocupado pela autêntica produção artística e amnésia geral estão profundamente interligados inclusive  dentro da  rede mundial de computadores, cada vez mais reduzida a rede de negócios de câmbio entre informações privada redimensionadas  como informações agregadas a marcas publicitárias .
Não existe crise na publicidade, ela é um dos efeitos da crise da transmissão de conhecimento e um dos efeitos dessa crise é a segregação e nichos ocultos, etéreos e abstratos de  grandes trabalhos artisticos nas áreas da música, do cinema e da literatura.
Podemos chamar isso de  proibição de circulação de uma simbologia mitopoética que representa a vida do espírito, pensada não dentro de uma visão dicotômica, mas dentro de um enorme campo de acessibilidade, campo este quase que totalmente proibido.

Marku Ribas

Utilizei  para ilustrar isso, a aura de esquecimento que recobre o  filme de Bresson e a valorização do trabalho do cantor , compositor e ator  Marku Ribas, mas existem ‘n’ exemplos em todas as áreas do chamado campo de produção de bens artisticos e culturais.

 

2. Da  segmentação e do gênero como elementos da censura ou  fronteiras-fantasma são  muito difíceis de serem abolidas.
Segue  abaixo um poema meu inspirado na canção  Strange Fruit :

Billie Holiday, Strange Fruit
Ninguém imaginou
uma
sereia negra

no fundo
do Mississipi,

mergulhando
na dor

como
Sulamita

diante
dos guardas,

nem a
igualdade

começando
no alto,

e depois
como todo esse sangue

evaporada,

é
improvável que um poema

repare
tanto estrago,

nem Eva

imaginou

encontrar

em uma
árvore

feita de
asas

arrancadas,

um fruto
tão amargo…

Neste poema  tento de um modo sutil praticar o não reconhecimento das fronteiras entre  mito, canção popular e poesia. Nunca existiu uma dicotomia entre canção popular  e poesia, todos os sonetos de Shakespeare poderiam ter sido musicados por  Cartola ou Paulinho da Viola.
Reproduzo agora o verbete da Wikipédia  para a canção de Billie Holiday: “Strange Fruit foi composta como um poema,  escrito por Abel Meeropol, um professor judeu de colégio do Bronx, sobre o linchamento de dois homens negros. Meeropol escreveu “Strange Fruit” para expressar seu horror com os linchamentos, possivelmente após ter visto a fotografia de Lawrence Beitler do linchamento de Thomas  Shipp e Abram Smith em Marion, Indiana, ocorrido em 7 de agosto de 1930.

 Ele publicou o poema em 1936, em The New York Teacher, uma publicação  sindical e só após algum tempo ele musicou Strange Fruit. A canção teve algum  sucesso como canção de protesto na região de Nova Iorque. Meeropol, sua esposa  e a vocalista negra Laura Duncan apresentaram-na no Madison Square  Garden[4]. Barney  Josephson, o fundador do Cafe Society em Greenwich Village, a primeira casa noturna integrada da cidade,  ouviu a canção e a apresentou a Billie Holiday. Holiday cantou a  música pela primeira vez no Cafe Society em 1939. Ela disse que cantá-la  fazia-a ter medo de retaliações. Holiday mais tarde disse que as imagens de  “Strange Fruit” lembravam-na de seu pai, isto fez com que ela  continuasse a cantar a música. A canção tornou-se parte regular das  apresentações ao vivo de Holiday[5].
Holiday se aproximou de sua gravadora, a Columbia Records, para gravar a  canção. Mas a Columbia, temendo a repercussão das lojas de discos no sul, assim  como a possível reação negativa de rádios afiliadas à CBS,
recusou-se a gravar a canção
[6]. Mesmo o grande  produtor da Columbia, John Hammond, recusou-se também. Decepcionada, ela  procurou seu amigo Milt Gabler (tio do comediante Billy Crystal), cuja selo, a  Commodore Records, gravava músicas de jazz alternativo. Holiday cantou para ele  “Strange Fruit” a cappella e a canção comoveu Gabler ao ponto de fazê-lo chorar. Em 1939, Gabler fez um arranjo especial com a  Vocalion Records
para gravar e distribuir a canção
[7] e a Columbia permitiu a realização de uma sessão fora do contrato para poder gravar a música.  “Strange Fruit” foi altamente  considerada. Na época, tornou-se o maior sucesso de vendas de Billie Holiday.
Em sua autobiografia, Lady Sings the  Blues, Holiday sugeriu que ela, junto com
Lewis Allan, seu acompanhante Sonny White e o arranjador Danny  Mendelsohn, musicaram o poema. Quando  perguntada, Holiday – cuja autobiografia fora escrita pelo ghost-writer William Dufty – dizia, “Eu  nunca li aquele livro”. Barney  Josephson reconheceu o impacto da canção e insistiu para que Holiday encerrasse  suas apresentações com ela. Quando a canção estava para começar, os garçons  paravam de servir as mesas, todas as luzes se apagavam e um único foco de luz  iluminava Holiday no palco.  Durante a introdução musical,  Holiday ficava com seus olhos fechados, como se evocando uma oração. Numerosos  outros cantores também fizeram versões da canção. Em outubro de 1939, Samuel  Grafton do The New York Post assim descreveu  “Strange Fruit”: “Se a ira dos explorados já foi além do  suportável no Sul, agora há a sua Marseillaise.” Em dezembro de 1999, a revista Time deu a “Strange Fruit”   o título de canção do Século[9]. Em 2002, a Biblioteca do Congresso colocou a canção dentre as 50 que seriam  adicionadas ao National  Recording Registry.

 

Billie Holiday possuía uma poderosa intuição  e essa canção inaugurou  a fantasmagorização das fronteiras entre poesia e  canção no século XX.
Os motivos que levaram Billie Holiday a gravar Strange Fruit não foram  apenas sociais, tampouco literários. Ela percebeu uma conexão profunda  entre o poema e o fim do limite  entre vida interior e vida exterior, simbolizados  de um modo insuspeito pelas fronteiras entre canção popular e poema.

 

3. Da pixação e do Grafite como irmãos siameses ou o não reconhecimento  da caligrafia hieroglífica como parte da arte de reconfiguração dos espaços  urbanos.

Se existe,  e isso é mais do que verificável,  uma relação óbvia entre os  grafites  e o teto da Capela Sistina,  fato capaz de elevar o grafite a condição de arte por que  a existência de  uma relação entre as pixações e os poemas visuais do dadaísmo e de outras  correntes intervencionistas da arte não é suficiente para elevar a pixação à categoria de arte urbana?

 

 

4. Artaud: Um edital  público-privado para a publicação de um livro de poesia é algo absolutamente  antipoético.

Fernando Pessoa: Concursos  de poesia são algo equivalente, seriam úteis se todos os participantes fossem
publicados e se todos os não participantes também fossem publicados ou seja  seriam úteis se fossem absolutamente inúteis.

5. O R.A.P. é controlável e o Spoken word não.

A ligação entre o R.A.P. , o HIP HOP,  o Funk Pancadão e o crime  organizado pode ser medida de que modo?
A ligação entre os partidos politicos e o crime organizado pode ser  medida de que modo?

6. Guy Debord: Mendigos e presidiários colocam a democracia em xeque ?

 

 

 

foto banner: Os Gemeos – grafite

 


Marcelo  Ariel é escritor e poeta, autor de TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS ( Letraselvagem,  2008), SAMBA COLTRANE ( Yi Yi Jambo,2009), CONVERSAS COM EMILY DICKINSON E  OUTROS POEMAS ( Multifoco, 2009) , COSMOGRAMAS ( Rubra Cartoneira, 2012)  entre outros.