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PEMA CHODRON E OS ENSINAMENTOS SOBRE ESPERANÇA E O MEDO

O livro de Pema Chodron “Quando tudo se desfaz” é meu livro de cabeceira há muitos anos. Me ajudou nas crises, me ensinou que a instabilidade é o chão que nos apoia e que cada textura que a vida nos apresenta deve ser desfrutada sem evitações. Aqui a transcrição de uma palestra dela; entre outras coisas ela explica como o medo e esperança são faces da mesma moeda e que ambas podem nos aprisionar. Lá embaixo o video.

Pema Chodron

 

 

“A diferença entre teísmo e não-teísmo, não é sobre acreditar ou não acreditar em deus. É uma questão que se aplica a todo mundo, incluindo budistas e não-budistas. Teísmo é uma convicção, profundamente enraizada, de que existe uma mão pra segurarmos. Se nós fizermos as coisas certas, alguém vai nos apreciar e cuidar. Isso significa pensar que sempre vai haver uma babá disponível quando precisarmos. Todos nós somos inclinados a abdicar de nossas responsabilidades e dedicar nossa autoridade a algo fora de nós mesmos.

Não-teísmo é relaxar dentro da ambigüidade e incerteza do momento presente, sem tentar alcançar nada que possa nos proteger. Às vezes pensamos que Dharma é algo fora de nós. Algo para se acreditar, algo para se medir. No entanto, Dharma não é uma crença, não é um dogma. É uma total apreciação da impermanência e da mudança. Os ensinamentos se desintegram quando tentamos agarrá-los. Temos que experimentá-los sem esperança. Muitas pessoas corajosas e compassivas os experimentaram e os ensinaram. A mensagem é: “Sem medo”. Dharma nunca significou uma crença que nós seguimos cegamente. O Dharma não nos dá nada, mesmo, para segurarmos.

Não-teísmo é finalmente perceber que não há uma babá com que você possa contar. Você acaba de conseguir uma boa e logo ela (ou ele) se foi. Não-teísmo é perceber que não apenas babás vêm e vão, mas toda a vida é assim. Essa é a verdade, e a verdade é inconveniente. Para aqueles que querem algo pra segurar, a vida é ainda mais inconveniente. Desse ponto de vista, teísmo é um vício. Somos todos viciados em esperança. Esperança de que a dúvida e o mistério irão desaparecer. Esse vício tem um efeito doloroso na sociedade. Uma sociedade baseada em montes de pessoas viciadas em conseguir terra firme para pisar não é um lugar muito compassivo.

A primeira Nobre Verdade do Buda é que, quando sentimos sofrimento, não significa que alguma coisa está errada. Que alívio! Finalmente alguém disse a verdade! Sofrimento é parte da vida e nós não precisamos achar que ele está acontecendo porque nós, pessoalmente, fizemos a escolha errada. No entanto, na verdade quando sentimos o sofrimento, acabamos achando que algo está errado. Como estamos viciados em esperança, sentimos que podemos abafar nossas experiências, ou avivá-las, ou modificá-las de alguma forma. E continuamos sofrendo muito.

No mundo da esperança e do medo, nós sempre temos que trocar de canal, trocar a temperatura, trocar de música. Porque algo está ficando desconfortável, algo está ficando impaciente, algo está começando a doer. E nós continuamos buscando alternativas. Em um estado mental não-teísta, abandonar a esperança é uma afirmação. O começo do começo.

Esperança e medo vêm da sensação de que nos falta algo. Eles vêm de uma sensação de pobreza. Nós não conseguimos simplesmente relaxar em nós mesmos. Nós nos agarramos à esperança. E a esperança nos rouba o momento presente. Sentimos que alguém sabe o que está acontecendo, mas que há algo faltando em nós, algo está em falta no nosso mundo.

Em vez de deixar a negatividade tirar o melhor de nós, podemos reconhecer que agora mesmo nos sentimos mal. Essa é uma coisa compassiva a se fazer. Essa é a atitude corajosa a tomar. Podemos cheirar o mal que nos sentimos, podemos sentir! Qual é a textura, a cor e a forma? Podemos explorar a natureza do sentimento. Podemos conhecer a natureza do desgosto, vergonha, e não acreditar que há algo errado nisso. Podemos abandonar a esperança fundamental de que existe um eu melhor, que um dia vai emergir. Nós não podemos simplesmente pular por cima de nós mesmos, como se não estivéssemos lá. É melhor dar uma olhada direta em nossas esperanças e medos. Então, uma espécie de confiança, nossa sanidade básica, surge.

É aí que entra a renúncia. Renúncia da esperança de que nossas experiências podem ser diferentes. Renúncia da esperança de que nós podemos ser melhores. As regras monásticas budistas que recomendam renunciar ao álcool, renunciar ao sexo e assim por diante, não estão indicando que essas coisas são inerentemente más ou imorais. Mas que nós as usamos como baby-sitters. Nós as usamos como um caminho para escapar. Nós as usamos para tentar obter conforto e para nos distrair.

Na verdade, o que renunciamos é à esperança tenaz de que podemos ser salvos de quem somos. Renúncia é um ensinamento que nos inspira a investigar o que está acontecendo cada vez que nos agarramos a alguma coisa porque nós não conseguimos aguentar e encarar o que está por vir.

Se a esperança e o medo são dois lados da mesma moeda, então a desesperança e a coragem também são. Se desejarmos abandonar a esperança para que a insegurança e a dor sejam exterminadas, então podemos conseguir a coragem para relaxar na falta de chão firme de nossa situação. Esse é o primeiro passo no Caminho.

(…)

Sem-esperança é o terreno básico. De outra forma estaremos fazendo essa jornada na esperança de obter segurança. Se fizermos a jornada para obter segurança, estaremos nos perdendo completamente da meta.

Nós podemos fazer nossas práticas de meditação com o objetivo de obter segurança; nós podemos estudar os ensinamentos com o objetivo de obter segurança; nós podemos seguir todas as diretrizes e instruções com o objetivo de obter segurança; mas isso só vai nos conduzir à decepção e à dor. Podemos poupar muito tempo a nós mesmos levando esta mensagem muito a sério agora mesmo: comece a jornada sem esperança de obter um chão firme onde pisar. Comece sem-esperança.

Toda ansiedade, toda insatisfação, todas as razões para esperar que nossas experiências possam ser diferentes, estão enraizadas no nosso medo da morte. O medo da morte está sempre no cenário de fundo. É como disse o mestre Zen Suzuki: “A vida é como entrar num barco prestes a zarpar e afundar”. Mas é muito difícil, não importa o quanto escutemos, acreditar na nossa própria morte. Muitas práticas espirituais tentam nos encorajar a levar nossa morte a sério, mas é impressionante como é difícil permitir que isso aconteça. A única coisa na vida que nós realmente podemos contar, é incrivelmente distante para todos nós. Nós não chegamos ao ponto de dizer: de jeito nenhum, eu não vou morrer! Porque é claro que nós sabemos que vamos. Mas definitivamente é mais tarde, essa é a maior esperança.

Somos criados em uma cultura que teme a morte e a esconde de nós. No entanto, nós a experimentamos o tempo todo! Nós a experimentamos na forma de decepção, na forma de coisas que não funcionam. Nós a experimentamos na forma de coisas constantemente em um processo de mudança. Quando o dia acaba, quando o segundo acaba, quando respiramos, essa é a morte na vida diária. A morte na vida diária também pode ser definida como a experiência de todas as coisas que não queremos: nosso casamento não está funcionando, nosso trabalho não está satisfatório.

Ter uma relação com a morte na vida diária significa que nós começamos a ser capazes de esperar, a relaxar na insegurança, no pânico, na vergonha, nas coisas que não estão funcionando. Conforme os anos passam, nós não chamamos as babás tão rapidamente. A morte e a não-esperança dão a motivação adequada. Motivação adequada para viver uma vida contemplativa e compassiva. Mas a maior parte do tempo, evitar a morte é nossa maior motivação. Nós tendemos a evitar qualquer sensação de problema. Nós sempre tentamos negar que é uma ocorrência natural que as coisas mudam. Que a areia está escorrendo entre nossos dedos. O tempo está passando. Isso é tão natural quanto a mudança das estações, e o dia se transformando em noite. Mas ficarmos velhos, ficarmos doentes, perdermos o que amamos, nós não vemos esses eventos como ocorrências naturais. Nós queremos evitar essa sensação de morte, não importa como.

Relaxar no momento atual, relaxar na falta de esperança, relaxar na morte, não resistindo ao fato de que as coisas acabam, as coisas passam, de que as coisas não têm uma substância duradoura e que tudo está mudando o tempo todo. Essa é a mensagem básica.

 

Palestra Não teismo destemido –  Tradução Sebastian Valle

veja o video:

Fearless Nontheism  – Pema Chodron

http://youtu.be/5_BoPc3Ca9o

 

http://www.youtube.com/watch?v=5_BoPc3Ca9o

 

A FÉ SALVA, O CONHECIMENTO LIBERTA por Mateus Soares de Azevedo

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Antes de falar de fé, devemos falar de inteligência. Pois não há fé sem discernimento. Sem dúvida, as grandes religiões mundiais, em suas formulações convencionais, privilegiam uma fé sentimental – que é o que pode ser mais imediatamente captado e realizado pela generalidade dos homens –, mas aquela fé que podemos chamar de integral ou plena exige o discernimento. Sem este último, poder-se-ia ter fé em qualquer coisa que seja. A Verdade – objeto e meta da inteligência – fixa os contornos da fé.

Para o homem materialista moderno, a fé, seja em que coisa for, é sempre meramente um sentimento, algo pessoal e subjetivo. Ao passo que a fé tradicional nunca é “cega”, nem subjetiva ou individualista; ela é, ao contrário, a aceitação intelectual de um conjunto de doutrinas. Fé é concordância, por parte da inteligência e da vontade do homem, a um corpo de verdades de origem revelada, transmitidas pela tradição e preservadas pela ortodoxia (do grego orto: correta; doxia, opinião).

O “Nobre Caminho Óctuplo” do Buda principia justamente com o quê? Com “pensamento correto”, ou seja, ortodoxia. Este é o primeiro passo, todos as outras sete etapas começam com as ideias corretas. E estas verdades são ademais universais, isto é, podem ser aplicadas a todo o momento e em todo lugar, não sendo limitadas, portanto, nem temporalmente, nem espacialmente. Elas não estão submetidas à vontade da maioria, nem ao politicamente correto. Tais verdades nunca dependem de como nos sentimos, nem são sustentadas “cegamente”. Elas existem antes de nós, acima de nós. Forademim.

Diferentemente da percepção convencional, e superficial, que facilmente associa fé às emoções e aos sentimentos, e mesmo à irracionalidade, a fé é fundamentalmente compreensão e vinculação a um conjunto de realidades transcendentes que são captadas e entendidas pela inteligência. O racionalista e o ateu moderno se consideram muito astutos, e no fundo desprezam o religioso porque o ateu apenas crê, supostamente, na ciência e na razão, enquanto o fiel acredita de forma supersticiosa em coisas sem comprovação material. Mas o ateísta também tem a sua “fé”, que é crer apenas naquilo que pode ser medido e pesado; ele só crê no visível, mas, como o “invisível” é mais real do que o visível — como é o caso da sabedoria, do amor, da beleza, ou da bondade – o materialista no final das contas abarca apenas uma pequena parcela da realidade. A poderosa e presunçosa ciência materialista não leva em conta nem o amor, nem a sabedoria, pois eles não se deixam medir pela sua limitada régua.

Na confrontação entre ciência e fé, temos de caracterizar(1) as atividades básicas do homem moderno típico como destituídas de senso do sagrado e ignorantes dos princípios metafísicos. O ponto de vista tradicional, ao contrário, baseia-se na doutrina de uma “Queda” do homem a partir de um estado de graça e na necessidade da Revelação e da Graça para que o homem possa retornar à sua condição primordial e sagrada, a seu Centro mesmo, provendo-o também de uma metafísica, que explica a essência e razão de ser da natureza humana.

A fé, ou a religião, não pode em si mesma ser contrária à ciência, que trata apenas das propriedades mensuráveis da matéria. O problema é que o homem moderno encara a ciência como a sua “fé”, o cientista é o seu “sacerdote”. Na base desta pseudo fé estão a teoria da evolução e o mito do progresso indefinido, postulados pseudocientíficos forjados pelo homem ocidental num momento de profunda instabilidade histórica.

Não obstante tudo isto, é necessário insistir que , ao lidar com as realidades do espírito, não devemos descartar a dimensão do conhecimento. Na verdade, é preciso enfatizá-la, pois, além de sua importância intrínseca, é esta dimensão que mais tem sido obscurecida nas religiões hoje em dia. Não nos referimos aqui à mera informação quantitativa ou à erudição livresca, mas à inteligência que discerne aquelas verdades fundamentais que são comuns às tradições autênticas, como o Hesicasmo, o Sufismo, a mística cristã, o Zen, o Vedanta…

Mais frequentemente do que o aceitável, a inteligência transcendente é percebida apenas como uma manifestação de “orgulho intelectual”, sem nos darmos conta que isto é uma contradição de termos. Pois a verdadeira inteligência caracteriza-se pela capacidade de ver as coisas como elas realmente são. Portanto, pela objetividade. Ora, a objetividade exclui o orgulho.

Os arianos, em especial os hindus e os antigos gregos, se destacaram como grandes sábios e metafísicos: Pitágoras, Platão, Plotino, Shânkara… Já os semitas foram grandes profetas e fundadores de religião: Jesus Cristo, Abraão, Moisés, Maomé… O que não significa que estes não tenham sido também sábios à sua maneira, pois sua mensagem é total, engloba tanto a vontade, como o sentimento e o conhecimento. Mas, como eles falam a todos os homens sem distinção, sua dimensão sapiencial vem oculta em “parábolas”. “Quem tem olhos que veja.” Quem tem ouvidos, que ouça.

Nos dias de hoje, com a convivência cada vez mais intensa de civilizações distintas, a compreensão do fenômeno da fé se defronta com inúmeros desafios. O mais urgente deles, a meu ver, é justamente o da incorporação da dimensão do conhecimento, no sentido de oferecer resistência ao crescente divórcio entre inteligência e espiritualidade. E, mais ainda, no sentido de forjar uma “aliança” entre o conhecimento e o sagrado; entre inteligência e fé.

Fé encarada em sua plenitude e totalidade, composta que é de exoterismo e esoterismo, de doutrina e ritual, de arte e cultura — e não este corpo amputado de suas dimensões mais elevadas a que seus críticos muitas vezes se referem. Fenômeno simultaneamente singular e plural, a fé deixa-se ver e permite a participação segundo múltiplos e diferentes aspectos. Aspectos intelectuais e espirituais principalmente, mas também éticos, culturais, sociais e artísticos. Fenômeno plural porque há que se considerar as grandes religiões, como o Hinduísmo, o Budismo, o Cristianismo, o Islã. Cada qual com suas duas dimensões fundamentais: o exoterismo (a religião “comum”, as regras e convenções exteriores) e o esoterismo (a interioridade, a mística, a contemplação).

Há que se reconhecer, ainda, que não é por acaso que as grandes tradições da humanidade estão vivas há séculos, ou melhor, milênios, ainda moldando, em vários graus de comprometimento, os corações e as mentes das pessoas, nos quatro cantos do mundo. Para aqueles que se dão conta concretamente do caráter frágil, instável, transitório e evanescente dos empreendimentos puramente terrenos, a “durabilidade” e universalidade do fenômeno da fé é algo digno de reflexão séria.

Isto resulta claramente do fato de a fé tradicional não derivar em sua essência de ideologias ou interesses puramente humanos, mas de possuir uma base revelada. Só esta matriz transcendente, conjugada à força da tradição, consegue explicar a sobrevivência da religião no mundo contemporâneo. Algo que uma iniciativa exclusivamente humana e “horizontal” não poderia jamais realizar, dada justamente a sua instabilidade intrínseca.

Revelação e tradição são, assim, as duas condições sine qua non da fé. Associando, numa imagem simples, a religião a um curso d’água, diríamos que a Revelação é a fonte de onde brota a mais pura das águas; a tradição é o leito sobre o qual as águas correm, fazendo o rio chegar a sítios distantes sem se perder. Poderíamos também imaginar uma pedra que cai sobre um espelho d´água; sua queda e impacto sobre a superfície figuram a Revelação. As “ondas” que se formam concentricamente em torno deste ponto figuram a tradição; esta última, assim, constitui o principal vetor de continuidade e transmissão, espacialmente e temporalmente, da mensagem original engendrada por este inaudito e prodigioso contato entre o Absoluto e o relativo, o Perene e o temporal.

Finalmente, convém não esquecer que religião deriva, etimologicamente falando, de “re-ligar”; reatar algo que já esteve unido e que foi rompido. A física e a metafísica, a terra e o Céu, Deus e o homem.
Já fizemos referência acima à dimensão sapiencial ou “gnóstica” das diversas espiritualidades tradicionais, ou ao elemento conhecimento, que é o objeto último da inteligência humana. Pois nos parece que, mais do que qualquer outro, é ele que deve caracterizar de especial maneira esta abordagem. É ele que tem sido cada vez mais esquecido nas religiões, a ponto de hoje ser difícil encontrar exposições ou apresentações penetrantes deste legado de sabedoria. O que predomina amplamente são argumentos de apelo puramente sentimental ou moral, que não surtem mais o efeito desejado.

É preciso, igualmente, não ter receio de enfrentar as questões colocadas pela mentalidade materialista e relativista da modernidade — as quais não têm recebido respostas intelectualmente satisfatórias –, procurando apresentar os tesouros do mundo do espírito de uma forma intelectualmente desafiadora.

Cabe finalmente analisar a fé em toda a sua riqueza, com seus aspectos inextirpáveis de sabedoria e beleza, e não apenas como um fenômeno ideológico ou político, que é o mesmo que privá-la de sua substância. Afinal, a espiritualidade verdadeira envolve o homem por inteiro. Pela inteligência, a qual busca por natureza a verdade; pela vontade, a qual quer fazer o bem; pelo sentimento, o qual ama congenitamente a beleza. É por isso que toda religião genuína se dirige a todo tipo de homem. Seja ele de tendência intelectual, para quem o que importa é sobretudo a verdade e o conhecimento. Seja o homem de tipo sentimental, centrado na devoção. Seja, ainda, o homem de tipo “ativo”, seguidor fiel das regras e dos procedimentos tradicionais. Ou, para usar a linguagem da sabedoria da Índia, o homem trilha aquele caminho espiritual que, por vocação, é o seu, seja o do conhecimento (jnâna), o da devoção (bhakti) ou o da ação (karma) – caminhos estes que, diga-se, não são mutuamente excludentes. Ou ainda, desta vez de acordo com a tradição cristã, o homem pode seguir a “via de Marta” (da ação, ou do exoterismo) ou a “via de Maria” (contemplação, ou esoterismo).

Frithjof Schuon

Concluo com uma citação de meu metafísico preferido, o alemão Frithjof Schuon, principal porta-voz da Filosofia Perene no século XX e autor de diversos livros seminais.Ele refletiu com muita originalidade e propriedade sobre a relação entre fé e conhecimento (cito de memória):

O Conhecimento (jnâna ou gnose) é sagrado, mas ele só nos salva com a condição de engajar tudo o que nós somos, isto é, corpo, alma e intelecto, só nos salva quando ele constitui uma via que opera e transforma, e que fere nossa natureza como o arado fere o solo.

 

 
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[1] Como o fez Rama Coomaraswamy em seu estimulante livro recém lançado, “Ensaios sobre a Destruição da Tradição Cristã” (Irget, S. Paulo, 2013) .

 

 

fotos: Red Book- C. G. Jung 

 

Mateus Soares de Azevedo é autor de “Homens de Um Livro Só: o Fundamentalismo no Islã, no Cristianismo e no Pensamento Moderno” (Best Seller, 2008). Traduzido para o inglês e publicado nos EUA por World Wisdom como Men of a Single Book, lá ganhou o prestigiado prêmio literário de Book of the Year de 2011, na categoria Religião Comparada.

Mestre em História das Religiões pela Universidade de São Paulo – USP e pós-graduado em Relações Internacionais pela George Washington University (Washington, EUA), é autor de outros sete livros no campo da religião comparada e da filosofia das religiões. Quatro deles foram traduzidos ao inglês, ao espanhol e ao servo-croata, e publicados nos Estados Unidos, na Espanha, na Argentina e na Croácia. Entre seus outros livros, incluem-se “Religião & Ocultismo em Freud, Jung e Eliade” (Ibrasa, 2011), “A Inteligência da Fé: Cristianismo, Islã e Judaísmo” (Record, 2005) e “Mística Islâmica” (Vozes, 2001).

 

 

 

 

 

 

O MONGE E A BORBOLETA por Denise Vieira Ieno

 

 





Era uma vez um monge chinês que sonhou que era uma borboleta. E no seu estranho sonho ele conheceu uma realidade insólita: havia uma leveza incrível! A brisa, os perfumes das flores e o movimento de suas asas compunham uma única experiência. E apesar de sua mente ainda pensar como a mente de um homem, seus movimentos eram precisos e de uma delicadeza impossível de se imaginar para um homem de vida monástica. Por um momento ele pensou que aquilo poderia ser um sonho e imediatamente sentiu medo de perder aquela leveza… Mas um perfume doce novamente invadiu seus sentidos e ele voltou a ser parte daquela paisagem, surfando na brisa fresca daquela manhã. Então, pode perceber que tudo aquilo estava vivendo, tudo mesmo; o ar, a terra, o vento, as flores, tudo pulsava em um único ritmo.  E a borboleta, assim como todo o resto, era parte disso.

Mas o habito de ser um homem era muito forte e sua mente começou a questionar a validade daquela experiência totalmente desprovida de lógica. Então, sentiu seu corpo ganhar peso e o medo começou a ecoar forte no seu peito como o badalar de um grande sino de bronze. Acordou. Aquele estranho sonho estava se tornado um pesadelo para mente tão disciplinada daquele monge! Mas para sua surpresa, ao acordar o peso daquele corpo humano não era familiar… A falta de leveza, igualmente estranha como fora a experiência anterior. Finalmente concluiu a borboleta, que poderia estar sonhando que era um monge chinês.

A canção de Raul Seixas que me inspirou nessa pequena estória é na verdade uma referência a uma parábola taoista de um importante discípulo do grande mestre Lao Tsé, chamado Chung Tzu (China, séc. IV ac ).


A filosofia taoista, por sua vez, foi muito influente no desenvolvimento do Zen Budismo no Japão. Os mestres Zen usam esse tipo de parábola para treinar seus alunos no sentido da quebra do sistema lógico de pensamento, como se quebra a casca de uma noz. Quebrada a casca do ego, eles acreditam que outra experiência mental pode ser alcançada. Mas ao lado desse treinamento “intelectual”, por assim dizer, há uma experiência mais sutil e também mais profunda, implícita nessa parábola.

O budismo nos propõe uma questão existencial realmente insólita: como no sonho da borboleta existe uma experiência de totalidade, de não separação entre o que somos e o que estamos vivendo; mas ao mesmo tempo, enquanto não somos capazes de perceber essa realidade mais ampla – que esta sempre presente na base da nossa experiência, seguimos vivendo como em um sonho. Isso significa que estamos atados a um forte habito de criar realidades a partir de projeções mentais.  Nossa mente comum, nosso ego, é como um carro desgovernado descendo uma ladeira; simplesmente não sabemos como refrear esse habito mental que se movimenta sem descanso. Seja na mente do homem ou na mente da borboleta, enquanto não for possível se desprender da experiência de dualidade – entre sonho e sonhador, entre sujeito e objeto; um pensamento segue a outro, um sonho segue a outro, uma vida segue à outra. A esse ciclo de experiências infindáveis é o que no budismo se chama de “Roda da Vida” ou simplesmente, “Sansara”.

Mas para que esta conversa não se encerre no âmbito da metafísica, o budismo sempre nos lembra da importância da experiência “pratica”. É preciso colocar essas ideias em pratica para que elas ganhem um verdadeiro sentido!

E podemos fazer isso todos os dias. Por exemplo, ao acordar pela manhã, podemo s nos perguntar:“Que sonho é esse que eu estou vivendo?” “O que realmente é importante para mim? “Estou sendo fiel aos meus propósitos?” “Estou sendo fiel a mim mesmo?” Depois podemos criamos um espaço livre dentro de nós, um momento de silêncio para que essas respostas surjam naturalmente. Essa simples experiência pode ser surpreendente se conseguirmos domar, por alguns instantes que seja , nossa mente tão inquieta.

Assim, todos os dias podem ser um recomeço. Todos os minutos podem ser um recomeço. A cada respiração posso me dar um espaço interno para me perguntar se estou realmente no caminho daquilo que é a minha verdade mais intima.  Simples assim:

Inspirar profundo,

expirar lentamente

e relaxar;

entre uma coisa e outra faço uma pausa ,

descanso ali por alguns segundos,

antes de recomeçar.

 

foto banner : reuters/ galleryV9- Magu

 


Denise Vieira Ieno
é psicoterapeuta. Formada em psicologia pela PUC/SP, fez especialização em psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae; mestrado no Instituto de psicologia da USP; publicou o livro “Psicanálise e Budismo: a Construção de um Metarrealismo Psíquico”. É praticante do budismo tibetano Vajarayana desde 1995 e praticante da arte japonesa de harmonização de energia e cura Jin Shin Jyutsu desde 2008.

 

A compaixão sob a ótica budista

Avalokiteshvara ou Cherenzig  é a deidade  que representa a compaixão. Ela tem centenas de faces e milhares de braços e em cada uma das  mãos um olho,  o que permite que ela possa ver em todas as  direções e de muitos ângulos.
Quando somos capazes de ver uma situação a partir de todos  os lados nela envolvidos,  tendemos a compreendê-la.
Esta é a essencia da compaixão: a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, de  sentir como o outro,  e de ajudá-lo  sem  emitir julgalmentos.

O dicionário on line dá como antônimo da compaixão, a indiferença. Para mim faz todo  sentido.  A impotência faz com que às vezes tenhamos que desligar uma chavinha interna, como mecanismo de defesa para suportar a dor.

 

Daniel Goldman conhecido pelo seu livro Inteligencia Emocional, nesta palestra no TED, discute a compaixão e com humor questiona o fato de não sermos compassivos com mais frequência. Segundo ele, se desconectar do celular, laptop e dos proprios devaneios ajuda muito a ver o outro.