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CAETANO VELOSO, BASHÔ E O SALTO DA RÃ por Elza Tamas

Bashô, poeta e professor foi considerado uma excelência em Haikais. Praticante da meditação Zen, seus poemas tinham inspiração na experiência cotidiana e na sua observação da natureza.

Um dos seus Haikais mais famosos é o que faz alusão ao salto de uma rã , num velho lago. Em japonês, ele é escrito desta forma:

Furu ike ya
kawazu tobikomu
mizu no oto

Em inglês, na tradução do grande mestre Zen Budista D. T.  Suzuki, ficou assim:
Into the ancient pond
   A frog jumps
    Waters sound!

Em português, na tradução de Paulo Franchetti:

 O velho tanque-
Uma rã mergulha,
barulho de água.

Aquilo que se mantém é subitamente interrompido pelo transitório  e é capturado pelos nossos sentidos. O velho lago e o salto da rã  não se antagonizam, mas se complementam na maravilha do momento.

Vejam algumas das inúmeras versões que recebeu nas traduções brasileiras e  outros versos de inspiração livre, de conceituados escritores e poetas brasileiros :

Velho tanque.
Uma rã mergulha.
Barulho da água.
Cecilia Meirelles

velha lagoa
o sapo salta
o som da água
       Paulo Leminski

Nem grilo, grito, ou galope;
No silêncio imenso
Só uma rã mergulha plóóp!
Millor Fernandes 

                                                    VELHA
                                                    LAGOA

                                                    UMA RÃ
                                MERG                               ULHA
                                                     UMA RÃ

                                                   ÁGUÁGUA
Décio Pignatari

…é uma rã bailarina,
que ao se ver feia, toda ruguenta,
pulou, raivosa, quebrando o espelho,
e foi direta ao fundo,
reenfeitar, com mimo,
suas roupas de limo…
João Guimarães Rosa

Ah, o velho lago
De repente a rã no ar
e o baque na água
Olga Savary

chuá, chuá
coach, coach
tchibum!
Estrela Ruiz Leminski

Caetano Veloso, numa  feliz parceria musical com João Donato, escreveu
 A Rã,  também inspirado no haikai de Bashô.

A rã

Coro de cor sombra de som de cor de mal me quer
De mal me quer de bem de bem me diz
De me dizendo assim serei feliz
Serei feliz de flor de flor em flor
De samba em samba em som de vai e vem
De verde verde ver pé de capim
Bico de pena pio de bem-te-vi
Amanhecendo sim perto de mim
Perto da claridade da manhã
A grama a lama tudo é minha irmã
A rama, o sapo, o salto
De uma rã.

 foto banner: série More Than Human por  Tim Flach.
 desenho Rã: Elton Manganelli

 

 


Elza Tamas é psicóloga e escritora. Concebeu e desenvolve o site  forademim.com.br

 

ALICIS ESPECULARIS por Adriana Peliano

                                                                                                                                                                                                             

Num enerdia de verão, aos 7 anos de idade, olhei através do espelho de Alice. Encontrei uma menina enigmágica que logo me perguntou: Quem é você? Ela não aceitou meu nome como resposta: assim é como você é chamada, retrucou. De súbito nossos espelhos se refletiram entre as curvas do espaço-tempo como um myse en abyme. Naquele instante perdi meu nome no espelho. Hoje busco novas Alices em aventuras labirínticas atravessando múltiplas artes. Me reinvento em Ali-se e seus tantos nomes que se expandem em uma inesgotável criação de eus: Alis, A lys, Alyssos, Alastos, Allistos, Alussas, Alions, entre outras crises e devires: reino das alicinações

                                                                                                                                                                                                    

Com Alices reviajo no país dos espelhos por caminhos espiralados e mergulho numa floresta misteriosa aonde se perde e se encontra essa menina rompiecabezas, plurilíngua, borboletra alicenógena, proliflora desejos em casulos oníricos, fantasmagorias deliram psicodelícias. Amaravilhas. Vislumbro um rio de florosofias errantes, espelhos líquidos, clepsidras lúdicas, Lúcia no céu com diamantes. Sonhos de Escher dançam geometrias impossíveis. Cabelos revoam anéis de Moebius.

                                                                                                                                                                                                           

Aliceoscópios são uma singular criação catóptrica, uma arte de conceber engenhos especulares que criam visões insólitas, perspectivas paradoxais, geografias exdruxulistas, cartografias escalafobéticas. Num golpe de máquina o espelho mutante de Alice viaja através de tempos loucos e sonhos quânticos em uma inesgotável “sede do infinito”. Sua experimentação exige constante movimento, um amor pelo estranho e indomesticável, libertando armadilhas do conhecido. Alikezan! Alices extrapolam saberes cômodos e estagnados e vão viver novas aventuras desafiando fontes de desejos e desfiando teias e constelações em novos feixes de fabulações. CURIOUSER and curiouser! Estou me esticando agora como o maior telescópio jamais visto. Adeus pés!

                                                                                                                                                                                                          

Surrealices nos convidam a atravessar os espelhos de Magritte, janelas para o invisível, sonhos dentro de sonhos, inclassificáveis confabulando atrás dos pensamentos. Nos ‘Livros de Próspero’ de Peter Greenaway, um dos vinte e quatro livros é composto por páginas de diferentes espécies de espelhos. Cada página produz um reflexo metamórfico devolvendo inesgotáveis imagens de Alices quem somos. Sua leitura se faz nascente de fluxos cósmicos de criação de sentidos, mágica pulsante de investigação de si-m. Monstros do espelho, uni-vos!

Alice foi a heroína vitoriana deum estrambólico e feraz  livro de histórias infantis. Viajou para a Disneylândia e foi capturada em ondas de colonização de sonhos. Mergulhou em habit wholes e num fluxo rebelde, irradiou wanderlands. Hoje respira novos artes em jogos de ser o não ser. Eu… eu… nem eu mesmo sei, senhora, nesse momento … eu … enfim, ei quem eu era, quando me levantei hoje de manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então.


Em diferentes encarnações novas Alices não buscam reproduzir em imagens o que está escrito nos livros, mas de viajar em suas veias e teias, entre mergulhos, travessias e cogumelias. Inúmeras alicinações podem ser criadas desvairando em paradoxos, línguas inventadas, desejos nômades, metamorfoses sem cabeças, sonhos dentro de sonhos, caminhos erráticos, risos loucos pairando no ar, desloucamentes. Ao invés da pergunta: quem é Alice, hoje desdobram caminhos para quem Alice pode tornar-se…

 

Na travessia dos mil anos o espelho de Alice explodiu em milhares de pedaços, ploriferando no imaginário coletivo novas meta-alices numa ampulheta magicósmica, aliceoscópio de alicinações. Nesse universo de mundos possíveis, procuram-se artistas movidos pelo desejo de rebelar os modelos alienados da menina e suas viagens cem sentidos. Hoje extrapolam Alices que entorpecem a imaginação e se desdobram em estereótipos que aprisionam e banalidades que insistem em empobrecer a vida e a arte. Em suas desventuras, exércitos de Alices bebem da garrafa escrito “clichês”. Mas Alice acha quite dull and stupid for life to go on in the common way.

 

O país das maravilhas e o país do espelho podem estimular o encontro com o desconhecido, a incerteza e o mistério. Jardins de alicismos buscam o que é inexprimível pela palavra, o invisível, jorrando possibilidades inesgotáveis que habitam nas margens e entrelinhas. Menina caleidoscópio, jogo de reflexos múltiplos e simultâneos, fragmentos que cruzam monstrologias e alimentam nossos rios, riscos e risos. Alice nos convida a mergulharmos no poço profundo e atravessar o espelho em diálogo com as loucuras que nos atravessam. Como escreveu Paulo Mendes Campos em carta para sua filha Maria da Graça: Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

 

 

“As aventuras de Alice dentro da toca do coelho ou através do espelho encoraja a procurarmos outras brechas para penetrarmos no maravilhoso.”  Pierre Mabille

“O artista terá, tal como Alice no país das maravilhas, que atravessar o espelho da retina para alcançar uma dimensão mais profunda.”
Marcel Duchamp

 

“Com a prudência que lhe confere a sua inteligência matemática e o seu sentido de humor Lewis Carroll escolheu a barca do sonho para atravessar mais confortavelmente o espelho dos olhos de Alice.”    Frédéric Delanglade

 

 

“lewis carroll olhou através do espelho e encontrou uma espécie de espaço-tempo que é o modo normal do homem eletrônico. antes de einstein, carroll já havia penetrado o universo ultrassofisticado da relatividade. cada momento, para carroll, tinha o seu próprio espaço e o seu próprio tempo. Alice cria o seu próprio espaço e tempo.”  Marshall Mcluhan

 

 

“Tudo quanto possuímos de poético e também de absurdo se apresenta nos livros de Alice. Ao descer pela toca do coelho, Alice passa a habitar – como quando atravessa o espelho – um pais diferente do conhecido, como quando fechamos os olhos e nos percorremos. As surpresas despontam de todos os lados. Quem somos, afinal?”  Cecília Meirelles

 

Alice por enquanto é um
espelho andante, menina sonho.
Membro honorário da
coleção de eus da
especialice Adriana Peliano.
Adriana por enquanto é uma
Alice de renascimento,
Rainha e fundadora da
Sociedade Lewis Carroll do Brasil,
que não sabe quem é Alice
e por isso
não se cansa de alicinar
em suas buscas
cosmicômicas.

Em 2012, Adriana ganhou mais um jabuti com o projeto gráfico do livro “Aventuras de Alice no Subterrâneo” de Lewis Carroll.
Recriou em português o manuscrito original das aventuras de Alice, que o autor deu de presente para Alice Liddell.

 

Créditos das imagens:

1 – Jan Švankmajer

2 – John Tenniel

3 – Kenneth Rougeau

4 – Trevor Brown

5 – René Magritte

6 – Michele Lapointe

7 – Alice Through the Looking Glass

8 – Adriana Peliano

9 – Elena Kalis

10 – Yayoi Kusama

11 – Frédéric Delanglade

12 – Alain Gauthier

13 – Margarita Prachatika

14 – Hajime Sawatari

15 – Adriana e meu Aliceoscópio