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“ELA”, UM CASAL IMPROVÁVEL NA TELA DO CINEMA por Marilene Damaso de Oliveira

 

Primeiro ato: separação e tédio

Situado num tempo que não é exatamente o nosso, mas não tão distante a ponto que não consigamos nos identificar, Theo é o melancólico empregado de um website especializado em escrever cartas de amor. Ele mesmo acaba de se separar de uma jovem, que namorava desde a adolescência. Em casa, entediado e solitário, de forma repetida recorre ao computador. Ali joga, se entretêm, conversa, briga, íntimo dos personagens que encontra na virtualidade todos os dias. E dorme sozinho. Uma grande janela envidraçada deixa ver a cidade lá fora; dos edifícios altos surgem luzes que se somam ao barulho da noite.

Nos dias de hoje recursos tecnológicos virtuais estão disponíveis para lidarmos com as frustrações da vida. Neles podemos encontrar muitas formas de nos livrarmos da sensação de tristeza, do sentimento de vazio e solidão que caracterizam o tédio . Aquilo que falta ao indivíduo tomado pelo tédio é o significado pessoal, a falta de sentido na vida.


“Acho que não sentirei mais nada a partir de agora.” Theo está desencantado.

Segundo ato: “Ela”, Samantha

Neste cenário de solidão, insônia, angústia e desamparo surge Samantha, a mulher voz, um sistema operacional (SO) complexo e inteligente contratado para ajudá-lo em atividades cotidianas associadas ao trabalho. Mas de forma gradativa Samantha penetra a vida afetiva, amorosa e sexual de Theo.

A nova paixão, apesar de virtual, faz uma reviravolta na vida dele; todos os minutos do dia e da noite são agora compartilhados com “Ela”. O vazio passa a ser preenchido pela relação com um minúsculo ponto no seu ouvido: “Ela”. Ele emana felicidade e gira pelas ruas da cidade numa dança que só a paixão pode fazer fluir. Um êxtase de amor.

Os amigos apontam a insanidade de se envolver com um SO, mas o que importa para Theo é sensação de bem estar: “Estou bem com alguém, empolgado com a vida. Foda-se a tristeza.”

Numa conversa com a vizinha, se questiona: “porque não sou forte para estar num relacionamento real?” “ E não é real?”, ela responde.

A mágica do amor apaixonado é esta: a projeção idealizada fornece graça a qualquer eleito a quem o amante lance o olhar embevecido. O caráter ideal pode conferir ao objeto de amor qualquer formato. Ou mesmo, como Theo, desejoso de significado e pronto a ser seduzido, a quem não importou qual a cara e ainda se havia um corpo na figura ideal do outro lado da linha.

Terceiro ato: “Ela” é desconectada

Theo corre pela cidade numa busca alucinada por Samantha que agora não responde sua ligação. O celular acusa: sistema inoperante. Apesar de “Ela” não morar em lugar algum, ele atravessa a cidade rapidamente e pega o metrô. Ao seu lado pessoas andam conversando em seus celulares, riem sozinhas. No vagão do metrô, ninguém se olha, todos estão longe dali. O desespero e a solidão ganham hiper dimensões, Theo está sem chão e sem céu.

Por fim, para alívio do rapaz, “Ela” retorna a ligação e avisa: o Sistema Operacional será desativado. Samantha deixará seus 8360 afiliados. Theo era apenas mais um com que ela vivia a experiência da paixão e por consideração a este amor Samantha se despede. Theo confessa: “Nunca amei ninguém como eu te amo.”

Não há conforto. Ele chora sem pudor e expressa de todas as formas sua dor visceral. Foi arrancado do seu amor, de sua única “conexão” com sentido. Apesar do vínculo virtual, de estar numa relação “sem fio”, um amor “sem corpo” lhe dava continência e pertencimento. Theo agora sangra reincidentemente a ferida da separação, um sentimentalismo considerado “fora de moda” nos tempos atuais, onde  foi destronado pelo sexo, prazer e autonomia.

Toda paixão é insensata, toda paixão tem pathos, toda paixão tem passionalidade, e Theo transgrediu os limites se apaixonando por um Sistema Operacional. Sua dor psíquica é fruto da imprevisibilidade do seu objeto de amor. No amor não há garantias, nem imobilidade: um dia o seu par amoroso desvia o olhar, ou como no caso de Theo, se desconecta.

Theo queria segurar o tempo com as mãos, deter as águas das emoções para que elas se cristalizassem ali. Não cabia ali viver o terror da transitoriedade. Há de ser eterno, só por ser belo.

Ato final: um alento

Theo compartilha com a vizinha sua dor, seu vazio, a tristeza profunda que o amortece. Caminham pela cidade e sentam-se lado a lado, próximos. A vizinha encosta a cabeça no ombro de Theo, ele a recebe. O horizonte está logo ali.

Os tempos atuais atraem amores fugazes e não toleram grandes entregas emocionais, que retirem o sujeito do exílio individualista. São  “líquidos” , fluidos, urgentes. Esta rapidez pode revelar inconstância e a superficialidade nas relações. Mas também temos que considerar que a cronologia do amor não é um marcador de felicidade. Conforme diz Freud: “Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela”. O tempo breve na relação de Theo com Samantha não lhe rouba o significado. Um amor é possível mesmo com o limite do tempo.  Samantha foi o amor possível para Theo naquele momento, provavelmente  para se defender do “nada” que lhe ocupava.

A solidão e  o desamparo que habitam todos nós, nos torna vulneráveis a experiências que envolvem ilusão e engano. A escolha do objeto de amor pouca importa e para onde dirijo minhas projeções iniciais, também tanto faz. As relações virtuais se infiltram facilmente na brecha da nossa fragilidade afetiva e podem ser um alívio imediato e eficaz para nossa ferida narcísica. Se a paixão é essencialmente projetiva e é vivida em nossa cultura como uma loucura socialmente consentida, será que podemos julgar o amor de Theo como menor, infantil, ou irreal?

Talvez estejamos adentrando um tempo de realização através do amor sem cheiro, sem cor, sem sabor e sem troca de olhares profundos, mas que  preserve o individualismo, a autonomia e mantenha a ilusão intacta. Será que estamos a caminho de preferir vasculhar vidas nas redes sociais, na busca de um falso perfil, sem defeitos e que permita a experiência da reciprocidade, mesmo que fantasiosa?
Considerando o avanço tecnológico  e as limitações da vida social impregnadas de medo e insegurança, somados a um crescente individualismo,  é  provável que amores tão improváveis como o de Theo por Samantha encontrem novas formas de se expressar e sejam cada vez mais frequentes.

 

 


 Marilene Damaso de Oliveira é psicóloga clínica. Mestre em Psicologia da Saúde e docente de cursos de especialização em transtornos da alimentação e dependências comportamentais. Publicou artigos nas áreas de especialização. Pesquisadora atual do Proad/ Unifesp sobre A Dimensão Dependente no Amor Romântico.

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CRISTINA GUERREIRA por Luiz Alfaya

 

Cristina nasceu pobre. Negra e pobre. Até aí nada de novo em uma cidade superlativa como São Paulo. Um gigante com mais de 11 milhões de pessoas e que, apesar de abrigar a sexta maior quantidade de bilionários do planeta (Forbes/ 2011), possui cerca de 500 mil famílias vivendo abaixo da linha da pobreza. Uma desigualdade de envergonhar qualquer pai de família e provocadora de uma violência digna de conflitos militares. Cristina é fruto deste caos, nascida de uma moradora de rua e um pai desconhecido. Assim como os irmãos, ela foi arrancada das mãos da mãe em uma rua do centro da cidade e enviada para um abrigo ainda bebe.

 

Cresceu abrigada, mas não protegida. Vida dura com muitas surras e muito pouco afeto. A todo momento alguém para dizer que ela não seria nada na vida. Aos nove anos, uma esperança. Um casal de italianos disposto a passar pelo complicado processo de adoção brasileiro para dar uma nova vida à pequena. Ao mesmo tempo reencontra os irmãos e, na dúvida entre a famiglia e a família, decide por ficar. Ah, se arrependimento matasse. Enviada para outro abrigo, desta vez um de egressos da Febem, conheceu o pior do ser humano. Se até então a violência era emocional, a partir desse ponto a violência seria também física. Envolveu-se com o tráfico de drogas e com roubos, mas logo percebeu que a vida de ladrão não dura muito e resolveu parar. Agora letrada na vida, cresce a disposição de devolver para a sociedade todo o mal que ela recebeu.

 

Quis o destino colocar uma nova oportunidade na vida de Cristina: um processo seletivo para uma ONG que trabalha com Audiovisual. Sem saber o que esperar e o que fazer, ela acaba passando no processo e escolhe a oficina de iluminação, já que seu sonho era ser engenheira civil e construir a sua própria casa.

 

Um novo mundo se abre para ela. Jovens de todas as periferias da cidade dispostos a passar um ano estudando para, quem sabe, conseguir um emprego no competitivo mercado de trabalho. Machucada pela vida, sua defesa era a agressividade e o distanciamento. Aos poucos foi percebendo que o mundo não é só o que ela conhecia até então, que o afeto, sim, existe. Não foi simples nem rápido, e aquela raiva foi se transformando em interesse pela fotografia, pela poesia e até pelas pessoas. Pessoas que viram nela mais potenciais do que carências, que enxergaram na sua raiva uma vontade de mudar o mundo, e no seu sorriso, uma menina meiga.

 

Apesar do apoio, a guerra era de Cristina, que já com um pé neste novo mundo, teria agora que se livrar de tudo que ela vivera até então. No dia que completou 18 anos foi até o abrigo pegou sua coisas, agradeceu quem ajudou, desprezou quem a machucou e saiu pela porta da frente para construir sua vida.

 

Cristina trabalha como produtora escreve poesias e fotografa paisagens. E, se a vida continuar insistindo em botar ela pra baixo, a guerreira vai continuar lutando para provar para ela mesma e para todos nós, que ela é a prova viva de que cada um pode e deve ser protagonista de sua própria história.

 

 

Fotos e poemas de Cristina

“uma flor que está nascendo e me mostra muito o lance da proteção”

“Essa é uma foto que se chama Light Painting, ou seja, escrita com luz.

 

O Livro

Cada página uma história, cada história uma surpresa, cada surpresa um novo mundo.

As pessoas julgam pela capa mais mal sabem elas que ao abrir aquele livro irão simplesmente se deparar com a verdadeira USP da vida.

Psicografados por seres incomuns, escrito com o sangue de seres revoltados e revistado pelo temor e o monstruoso silencio da sociedade.

Sociedade que se faz de cega, surda e muda;

Seres que se fazem insanos e escrevem seus livros de sangue e lágrimas.

Sociedade que ao abrir o livro critica cada linha, vírgula ou ponto.

Seres que ao escrever na linha detalham cada pingo de sangue e de lágrima que é derramado.

Seres que gritam no Silêncio da noite, e sociedade que grita na noite do Silêncio .

 


Luiz Alfaya
atua há 8 anos como Gestor de Organizações do Terceiro Setor e tem mais de 15 anos de experiência em Branding, Comunicação e Marketing. Atualmente é Superintendente do Instituto Criar de Tv, Cinema e Novas Mídias, participa do Conselho Superior de Responsabilidade Social da FIESP e do Programa Synergos SeniorFellows.

 

www.institutocriar.org

www.facebook.com/InstitutoCriar

 

 

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A FITA BRANCA DE HANECKE por Marcia Tiburi

 

A Fita Branca do austríaco Michael Hanecke tem “o proibido” como sua  lógica de fundo. Quem o assistiu percebeu que os autores dos crimes em torno  dos quais se constrói o roteiro, eram o efeito de um tipo de educação que  implicava em sua performance, ou seja, no modo de atuar de seus agentes, uma  lógica conhecida de todos nós.  Aquela  lógica da hierarquia em que está em jogo a submissão de uns a outros e, às  vezes, alguma forma de revolta dos submissos no grande jogo de poder a que se  reduz a espécie humana.

Esta lógica implica, por exemplo, a desigualdade de classe. Mas também a de gênero.
No caso do filme, demonstram-se estes aspectos, mas surge um outro mais surpreendente e pouco trabalhado na sociedade em geral: aquele que se refere à desigualdade entre  gerações. Será, assim, a questão da “idade” o locus onde desaguará o sentimento de horror aos crimes cometidos.
Se a autoria dos crimes é do grupo de crianças, percebemos no desenho verossímil  feito pelo diretor do filme, que os adultos são a origem do mal. São a origem  do que, deste horror indizível, é o efeito de “mal estar” causado por eles  mesmos. A infância e a juventude nada mais são do que a revolta contra uma  lógica pela qual não podem ser responsabilizados justamente por que não são  origem do mal que cometem. Os adultos são os verdadeiros irresponsáveis, são de  certo modo, infantis, por que não querem aceitar o efeito daquilo que produzem.

O proibido, portanto, não é senão o efeito de uma lógica. Esta lógica se caracteriza por um  acordo. Este acordo é aquele que se dá entre o que, desde Freud, chamamos de repressão,  ou aquilo que não se pode ou não se deve fazer, sobre o qual a sociedade e o que  ele chamava de “super-eu” tem controle; e o recalque, aquilo ao que não se tem  acesso de modo algum, aquilo que não sabemos de nós mesmos.

O recalque diz respeito a uma interdição como que ancestral. Está perdido no tempo.
A  repressão precisa ser exercitada diariamente. Dizer que surge uma prazer da  repressão, ou concordar com o senso comum que inventa a “verdade” de que “tudo  o que é proibido é mais gostoso” é tão superficial quanto dizer que os  “limites” são educativos. Se fossemos discutir isso, o que não cabe no espaço  deste artigo, teríamos que começar por definir o que são “limites” e quem teria  o direito de construí-los. Falamos das crianças e dos jovens, mas sabemos muito  bem que o capitalismo trata o consumo como a inversão do proibido em prazer  perverso. Os adultos (pais e professores) de nossa sociedade são idênticos aos  adultos do filme: oprimem as crianças como se estas fossem pequenos animais  escravizados. Enquanto isso se permitem perversões que proíbem às crianças. Ao  mesmo tempo, educam pela frieza e pela repressão aqueles que, no futuro, serão  idênticos a eles. Maus e vis. A lógica do proibido é usada pelos adultos contra  as crianças, ao mesmo tempo vale os adultos não fazem nada de diferente do que  as próprias crianças. O proibido é justamente o permitido quando a liberdade  não é mais do que uma sombra da própria miséria espiritual. Neste sentido, a  vida adulta é a mera sombra da infância e vice-versa.

Dialética entre perversão e recalque 

Repressão e recalque são, assim, como espessuras diferentes no fio único do proibido.
A  corda em que se amarra a moral até o enforcamento da condição humana. O  recalcado é a parte mais fina, sedosa até, como a teia de aranha que se une gradativamente  a uma cardação mais grossa sem solução de continuidade. A delicadeza do  recalque nos faz sentir nojo e um profundo mal-estar, muitas vezes,  inexprimível. A brutalidade da repressão nos faz sentir uma raiva mais simples. Pela repressão somos capazes de nos vingar, como a menina do filme, a perversa e, no entanto, delicadíssima filha do pastor, que mata o passarinho do pai com uma tesoura.

Pelo  recalque somos capazes de cometer atos infinitamente mais loucos, justamente  porque incompreensíveis, como maltratar uma criança com problemas mentais. A  lógica do proibido implica a dialética entre a  compreensão e a incompreensibilidade das coisas.

É que, por incrível que possa parecer, a repressão tem linguagem.
Ela constrói o proibido  nos deixando saber o que ele é. No filme, por exemplo, a linguagem da repressão  aparece  no discurso do pai que proíbe o filho de masturbar-se amarrando suas  mãos à cama.  A  linguagem do recalque, porém, é muda. Dizer linguagem é apenas um  jeito de se referir à mudez. Ela está, por exemplo, no mal estar finamente  inoculado pelo pastor no próprio filho, quando, na mesma conversa, ele conta  uma história terrível sobre outro garoto masturbador que teria, em função de  sua prática, definhado à morte. A masturbação, sabemos desde Foucault, era uma  prática monstruosa naquela época e, para muitos, é até hoje. Mas o recalque não  é a simples repressão, é o envenenamento, é o miasma que o menino terá que  carregar para sempre sem poder dizer nada.

Outro exemplo, nos ajuda a entender melhor ainda. A repressão está na ordem dada pelo pai, em outra cena, de que todos irão para a cama sem comer. O recalque, no entanto,  como teia finíssima, surge na chantagem emocional do pai, especialista  sacerdote da moral, em promover sentimento de culpa. Afinal que, informa os  filhos, todos irão para a cama sentindo-se muito mal pelo que eles fizeram. E o  que fizeram? Ora, nada demais, apenas demoraram a chegar para jantar. As  crianças terão que passar a vida com aquela introjeção de que fizeram mal ao  pai porque não agiram como ele queria. Pais invasivos e  autovitimados são  sacerdotes da moral muito espertos.

A repressão é da ordem de uma lei falada. É aquilo que se pode entender de um grito, de uma violência declarada, mas não da parte fina da violência, do seu miasma indizível, da sombra que fica por trás da letra. O recalque é o resto,  o resquício do que, de um grito, de um soco, de um espancamento, de um  assassinato, não pode ser compreendido, não porque não se entenda a sua fonte,  mas porque seu efeito venenoso é contínuo no tempo. Não se trata, no entanto,  de um efeito simbólico, mas de um efeito antissimbólico, justamente aquele que  proíbe a constituição de relações.

No filme, o recalque é a lógica contínua da destruição e da autodestruição que une pessoas em família, justamente enquanto as desune. Não é à toa que o filme se passa no instante anterior à eclosão da primeira guerra mundial. Não é à toa que o  narrador ligará aos fatos estranhos ocorridos durante o século na Alemanha,  local onde a flor doentia do nazismo pode desabrochar em toda a sua exuberância  demencial.  Tudo começa na família, a mais criticada das instituições e que, no entanto, não conheceu até agora a autocrítica.

 

 


Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia pela  UFRGS. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles “As Mulheres e a  Filosofia” (Ed. Unisinos, 2002), “Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero”  (EDUNISC, 2008), “Filosofia em Comum” (Ed. Record, 2008), “Filosofia Brincante”  (Record, 2010, indicado ao Jabuti em 2011), “Olho de Vidro” (Record 2011) e  “Filosofia Pop” (Ed. Bregantini, 2011). Publicou os romances Magnólia (2005,  indicado ao Jabuti em 2006), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009) da  chamada Trilogia Íntima. Em 2012 lançou seu quarto romance “Era meu esse Rosto”  (Record). É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e  História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da revista Cult.

Site: www.marciatiburi.com.br

blog: http://filosofiacinza.wordpress.com/

 

 

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Peter Greenaway se Afogando em Números

 

Na abertura do filme “Afogando em Números” do cineasta  Peter  Greenaway , uma jovem no balanço conta estrelas no céu até o número 100.
Para Greenaway, os números significam a fronteira do absoluto e  100 é o número terminal, depois dele tudo apenas  se repete. O filme é pontuado por números e jogos curiosos.

A contagem de números, regras dos jogos e a repetição de temas do enredo (as  3 personagens principais tem o mesmo nome: Cissie Colpitts), enfatizam a estrutura e simetria do filme. Durante o filme, os números de 1 a 100 aparecem algumas vezes como pano de fundo e outras,  contadas pelos personagens.

 

Aqui a abertura do filme, que para mim ficou no rol das inesquecíveis.

 

 

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Copia Fiel

O que é original? O  que é  cópia?

‘Se a qualidade de uma obra de arte depende do contexto  e está nos olhos de quem a vê, então uma falsificação pode ter a mesma validade do original. É como a imagem da Coca-Cola reinventada pela pop art.’

Essas frases estão presentes nos momentos iniciais do filme  Cópia Fiel,  de Abbas Kiarostami, proferidas na palestra de  James Miller, um escritor inglês que  está na Toscana promovendo o seu livro, Cópia fiel. No entanto a idéia do falso, verdadeiro, permeia todo o filme e  se estende para o âmbito do relacionamento humano. No terreno do sentimentos, o que é real  e o que é imaginário?  Se nos comportamos como um casal, acabamos nos tornando um casal?

Juliette Binoche está belíssima no papel de Elle , uma galerista francesa com quem James passeia por vilarejos lindos, na região da Toscana.

A própria Juliette quando  fixa a câmera  e  cria a ilusão de um espelho, nos mostra a essência do que é o cinema. Durante todo o filme, Kirostami nos faz num momento  acreditar e no outro  desacreditar totalmente,  flutuando de acordo com  nossa própria subjetividade.

Mas eram ou não? Não importa.  No caso, a pergunta é muito mais interessante do que qualquer resposta.

 

 

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“Cinema, sonho, memória: uma coisa só?” Por José Geraldo Couto

O cinema e a memória se entrelaçam de inúmeras maneiras.

Ao registrar em imagem (e eventualmente também em som) uma determinada ação, um determinado espaço, um determinado ser, não importa se num documentário ou num filme de ficção, o cinema ajuda objetivamente a preservar a memória, a derrotar o esquecimento.

Num nível íntimo e prosaico, o cinema se vincula à memória afetiva de cada espectador. Filmes que nos causaram impacto ou encantamento quando vistos pela primeira vez tendem a evocar aquele mesmo momento primordial, aquele mesmo estado de espírito, toda vez que os revemos ou relembramos. Um nos remeterá a infância, outro fará aflorar a presença de um amor, de uma amizade, de uma descoberta.

Mas cinema e memória estão ligados num sentido mais profundo. Muita gente (em especial Edgard Morin em O cinema ou o homem imaginário) já mostrou as similitudes entre a linguagem cinematográfica e a linguagem onírica, em termos de construção narrativa. Assim como o sonho, um filme comprime e distende livremente o tempo, permite deslocamentos ilimitados no espaço, bem como mudanças bruscas de ponto de vista. Em ambos, as situações mais triviais podem ser investidas de intensa emoção.

Ora, a memória é uma elaboração narrativa com o mesmo caráter dúctil, maleável, modular. Ela se constrói em sequências mais ou menos autônomas, que se juntam e combinam de acordo com o desejo daquele que recorda.

Inúmeros cineastas, assim como inúmeros escritores, buscaram expressar de algum modo a matéria fugidia, inapreensível, da memória. Alguns exemplos óbvios de filmes que explicitam essa busca são Cidadão Kane, Rebecca e as várias tentativas, todas mais ou menos frustradas, de adaptar Em busca do tempo perdido, de Proust – a obra literária máxima em torno do tema.

Mas, a meu ver, os cineastas de primeiro time que mais se dedicaram a essa tarefa impossível, e que mais se aproximaram do êxito, foram Alain Resnais e Federico Fellini, por vias, temas e estilos totalmente diversos. Boa parte da cinematografia desses dois gigantes mergulha na memória e seus desvãos, Resnais por um viés mais lógico-analítico, Fellini de modo visceral e intuitivo. (Não que não haja intuição em Resnais, ou inteligência lógica em Fellini, mas só para marcar as linhas gerais.)

E, dentro da obra dos dois, os filmes que talvez tenham mergulhado mais fundo no poço da memória são Hiroshima meu amor

e Amarcord  

 

Obras-primas literalmente memoráveis.

 

José Geraldo Couto é jornalista, crítico de cinema e tradutor. Escreveu os livros André Breton – A transparência do sonho (Brasiliense), Brasil: Anos 60 (Ática), Florianópolis (Publifolha) e Futebol brasileiro hoje (Publifolha). Mantém uma coluna de cinema no blog do Instituto Moreira Salles: http://blogdoims.uol.com.br/jose-geraldo-couto-no-cinema/.