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ARTES MASTURBATÓRIAS por Stéphane Malysse

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ARTES E MANIAS DA PRÁTICA MASTURBATÓRIA

 

Nem precisei de revisão técnica ou de manipulação erótica: a masturbação é um assunto interessante e ponto G. Para tocar no assunto não precisa se tocar de novo. Cada um adapta seus gestos ao seu sexo e acaba inventado cenários funcionais que não lhe deixam a desejar.
Neste artesanato íntimo é a repetição da prática que faz o trabalho ficar bom.
Posição da mão, ritmo, pressão, lubrificação, pontos acessíveis com a mão livre, imaginação, pessoas reais ou virtuais convidadas a participar de longe ou de perto, cada micro-gesto é sabidamente elaborado ao fio das manobras e das suas repetições para criar o clima e atingir o clímax: o gozo (não o lacaniano, mais o seu próprio).
Sejamos sinceros e sem falso puritanismo… quando se trata de masturbar-se, cada um de nós sabe muito bem o que faz com seus instrumentos. Ao tocar levemente no assunto, uma masturbação intelectual se ativa rapidamente, oferecendo uma grande variedade de imagens eróticas e  éticas que se interpenetram sem parar. Que prazer… Que bom saber que a masturbação não deixa ninguém nem surdo, nem cego, nem estéril. Hoje não se fala mais de polução noturna ou Carte de France (como se chama na França, referindo-se ao desenho hexagonal das propulsões aos quatros pontos cardinais). Os aparelhos elétricos, mecânicos ou outras Fitas Brancas já não se usam mais (Graças ao fim de Deus!)

Totalmente liberada, democratizada e desmistificada, a masturbação está na moda e pode ser feita on-line.

Nesse momento privilegiado consigo mesmo, o ser humano experimenta uma sensualidade intensificada, alargada e alongada. Ao mesmo tempo relaxante e estimulante, a masturbação aparece hoje como um ato de resistência do indivíduo aos estímulos eróticos que o rodeiam a qualquer hora e em qualquer lugar: uma forma de resistir à pressão social e sexual, uma derivaçao sensual do individualismo generalizado, um hedonismo vapt voupt. Para ajudar nossos artesões sem imaginação, a rede de internet propõe cardápios variados e ajuda para encontrar seu tesão perdido. Do iphone ao ipad, da tela tátil ao cibersexo, muitos se tocam em publico sem perceber que este gesto remete direitamente à outros: nos trens, nos aeroportos e outros lugares públicos, podemos observar muitos gestos masturbatórios.

Nada melhor que uma boa sessão de  auto-erotismo para evitar os acidentes de percurso da libido contemporânea: com a masturbação, evite a promoção sexual. Num mercado sexual saturado de amantes potenciais, reais ou virtuais, a masturbação pode ser apresentada como uma opção para manter o seu eixo social e sexual na boa direção, não gastar dinheiro à toa e não colocar sua saúde mental e física à risco por algumas  sensações alheias. Artistas como Vito Acconci (Seedbed) ou Marcel Duchamp (Paisage fautif) já se tocarão muito bem no assunto e compensarão com material genético suas relações sociais frustradas: Vito Acconci se masturba em baixo do chão da galeria onde ele não está expondo nada, interagindo com seu público de forma discreta e seminal, enquanto Duchamp assina sua obra Étant donné com seu material genético numa tentativa de esvaziar seu desejo pela artista brasileira Maria Martins…

Magia da masturbação que nos permite criar sessões íntimas com quem desejamos e até criar monstros libidinosos, misturando à la carte pessoas reais e imaginárias, vistas ou conhecidas, vivas ou mortas. Ao mesmo tempo que é uma atividade manual e artesanal, a masturbação é uma atividade intelectual colocando em ação o nosso maior órgão sexual, nosso cérebro e a sua imensa reserva de imagens-corpos… Se o cérebro não tem gênero, as técnicas de  masturbação são muito diferentes para os homens e para as mulheres, e variam também muito de um para outro. Na verdade, nada mais complicado (tecnicamente) do que masturbar alguém desconhecido. Sua técnica favorita, afinada ao longo da sua vida,  não deixa muitas possibilidades de inovação… Em termo de masturbação, o homem é sempre clássico; ele (ou ela) repete geralmente a técnica artesanal que mais da certo: a sua própria. Treinando manualmente desde a sua vida uterina, o ser humano trabalha na sua técnica com muita aplicação, ciente que “o corpo é o primeiro e o mais natural instrumento do homem” (Mauss),  que a sua masturbação é a parte mais técnica de todas as técnicas sexuais. Na  maior parte do tempo, o ser humano usa apenas suas mãos (aliás   etimologicamente, masturbação quer dizer sujar  as próprias mãos ) mais numerosos acessórios podem ajudar-lo nessa   tarefa. Entre o Cyclone A10, a SOM  (Super Onanism Machine) e a mão, muitas pessoas não hesitam à por a mão na   massa para não ser tratados como massa no liquidificador.

Mais da fato, qual é a função sexual da  masturbação? Trabalhei no meu Diário acadêmico (2009) a noção de intersexualidade, explicando que “a sexualidade de uma pessoa depende de quem ela deseja (sexualidade fantasiada), de como ela mostra socialmente sua opção  sexual (sexualidade assumida) e do que ela faz realmente com seu sexo e seu  corpo (sexualidade praticada).” Assim  a sexualidade de uma  pessoa não é fixa mais se fixa no Outro, sempre evoluindo entre esses pólos  sexuais instáveis. Penso que a masturbação tem um papel importante na fixação  da sexualidade de uma pessoa, pois ela religa manualmente esses três pólos  volúveis e permite estabelecer uma constante através da repetição dos gestos e  das fantasias . Quando Lacan diz que “a  relação sexual não existe”, seria bom completar explicando que hoje em dia  só existe “ralação sexual”, pois numa  sociedade como a nossa, onde o orgasmo  obrigatório, a tirania do genital  e a ditadura do coito dominam, uma  espécie de produtivismo do gozo transforma  a sexualidade em um trabalho braçal, onde ralar a cenoura, por a mão na massa  ou dar um jeitinho são meros gestos de auto-estimulação que permitem manter a  (de)cadência. Vemos que nossa sexualidade é um trabalho manual, intelectual e  que manter à libido no ponto exige muitas manipulações… Mas quem se manipula  mais ?

Uma pesquisa quantitativa realizada nos Estados-Unidos  em 1990 aponta resultados interessantes sobre os fatores que influenciam a  frequência da masturbação:

  • O gênero: os homens se  masturbam mais que as mulheres. (Parece verdade)
  • A idade: os jovens se  masturbam mais que os idosos. (Faz sentido)
  • A origem étnica: os  afro-americanos se masturbam menos que os outros grupos étnicos.(Na Bahia  tive uma  impressão bem diferente…)
  • A religião: os católicos se  masturbam menos que os outros grupos religiosos. (Ai, a má fé católica   parece ter entrado em pratica…)
  • O estatuto marital: as pessoas   não casadas se masturbam mais do que as casadas. (E se fosse o   contrário?  e se a masturbação   fosse justamente uma forma de manter o casamento sem pular a  cerca?)
  • O nível de educação: mais diplomas, mais elas se masturbam. (ainda bem que não publiquei   meu currículo com esta matéria.)
  • A orientação sexual: os   bissexuais se masturbam mais que os homossexuais que se masturbam mais que   os heterossexuais.

Agora, cada um pode fazer a sua contabilidade   e ver onde se encaixa realmente. Mas, não precisa ser antropólogo para ficar   desconfiado  dos resultados deste estudo. Ao final, todo mundo sabe que,   quando se trata da sexualidade “realmente praticada”, as mentiras, as omissões   e outras artimanhas dominam os nossos discursos. Na auto-sexualidade, a
contabilidade é flexível e a ma fé constante. Com a progressão das relações   temporárias, da instabilidade e do zapping dos corações, a masturb-ação torna-se um paliativo do sexo-proeza e nunca deixa   ninguém na mão…

 

 

Thomas W. LAQUEUR, Solitary  Sex : A Cultural History of Masturbation, New York, Zone Books, 2003
Rachel P. MAINES, The  Technology of Orgasm : “Hysteria”, the Vibrator, and Women’s Sexual  Satisfaction, Baltimore (MD),The Johns Hopkins University Press, 1999
Stéphane MALYSSE, Diário  acadêmico, Estação das Letras e Cores, SP, 2009.Marcel MAUSS, As técnicas  corporais,  Sociologia e Antropologia  (1950), Cosak&Naify, 2007.

 

Stéphane Malysse é antropólogo e artista. Doutor em Antropologia
Social pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS /Paris).
Pesquisador associado do departamento de Antropologia da Goldsmith (Londres),
lançou seu primeiro livro, Diário Acadêmico pela editora Estação das Letras e
Cores (SP, 2008). Professor de Arte e Antropologia na E.A.C.H / USP Leste onde
seu website de antropologia das aparências corporais, Opus Corpus está
hospedado: http://www.each.usp.br/opuscorpus/
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Meu ombro direito tem culpa e outros buracos por Victor Zalma

Monotipias da série : O buraco da Culpa

 

 

É praticamente impossível dissociar a música dos trabalhos do ilustrador e cartunista pernambucano Victor Zalma. Com forte influência do underground comix, Victor já possui em seu currículo uma vasta lista de trabalhos: ilustrações e caricaturas para revistas nacionais e estrangeiras (Coquetel Molotov, Caros Amigos, CréATions); história em quadrinhos sobre o cultuado e “maldito” Itamar Assumpção; projetos gráficos e arte para os álbuns de Leo Cavalcanti, Profiterolis e Apanhador Só; além de cartazes de shows e festivais. Radicado em São Paulo desde março de 2010, Zalma veem desenvolvendo também trabalhos como Vj e animação.

http://issuu.com/victorzalma/docs/portfolio_victorzalma

 

 

 

 

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O corpo da culpa

 

 

Existem aos montes na web, sites em que meninas com problemas de adaptação social, desencaixe em relação ao corpo

e muita culpa, em geral expressas na relação com a comida,

 

trocam gifts e fotos

 

 

Colo  aqui as mais leves, mas acho que este é um fenômeno muito contemporâneo. Mudam os tempos, os sintomas, mas a culpa acha um caminho para se expressar no corpo

 

 

 

 

fonte: http://unperfectineveryway.tumblr.com/archive

 

livros e martelo

Intenção, dolo e culpa

 

No âmbito do direito, o conceito de CULPA  está ligado à responsabilidade pela ocorrência de um resultado, independente de intenção. Quer dizer, se  atropelo e mato alguém sem querer ou se  uma arma dispara numa brincadeira entre dois jovens, isto seria  considerado homícidio culposo.  Não existe má fé, mas  uma consequência com ônus.  Seu filho pode jogar bola em frente a uma casa e um chute mais forte machucar alguém ou quebrar uma vidraça. Houve culpa, mas não dolo.

DOLO está ligado a má fé,  à intenção de  provocar determinado resultado. Se você comete uma assassinato porque tinha o desejo de matar alguém,  isso se chama homicídio doloso.

A  natureza humana é cheia de melindres e repleta de subjetividades, daí a dificuldade em se emitir julgamentos, seja em que esfera for.

Como avaliar com objetividade a ordem da intenção,  se ela mesma é feita de várias camadas, algumas  ocultas aos próprios protagonistas das ações?

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O comunista e o mal estar dos tubarões por Elza Tamas

Depois de velhos deram para rezar. Ele comunista se saia bem dizendo, não esperem coerência, a idade me permite não ter que dar explicações. Ela, Dona Antonia, rezava seguindo a hierarquia do afeto: primeiro para o marido, depois os filhos, netos, noras e os amigos. Aí vinham os cachorros, os vivos e os que já tinham se encantado. Pelos animais, rezava para que eles se vissem livres da ganância humana.  Um dia pensou nos tubarões e rezou por êles. O marido interditou: Pelos tubarões, não!

O drama de consciência estava instalado. Dona Antonia queria rezar pelos tubarões. Ou mentia para o marido, ou traia seu desejo e deixava os tubarões ao seu próprio azar. Rezar virou uma tortura, e ela lentamente ia sendo devorada pela culpa.

Um conselho familiar deliberou que o marido devia dar seu consentimento expresso e liberá-la. Tudo acertado, a autorização foi lida num manifesto pró predadores, numa grande bacalhoada de domingo.

Sem a culpa, seriamos ainda bárbaros, matando e nos devorando em busca apenas da sobrevivência. A culpa é disciplinatória, ela é fruto do encontro entre o nosso desejo e a lei. Indica que alguma ação ou mesmo um pensamento, violou nossa moral e aponta um caminho de reflexão. Torna-se patológica quando se fixa, e como um disco riscado repete sempre a mesma melodia de acusação.

Em contrapartida a ausência total de culpa se chama psicopatia ou sociopatia. O mal que eu faço a alguém me é completamente indiferente, desde que eu me saia bem; os meios não estão em questão. Inclua-se ai matar, roubar, mentir, manipular, explorar, extorquir, etc.. . Não soa familiar? A doença dos nossos tempos.

Mas talvez o aspecto mais inusitado da culpa se encontra no fato de que ela sempre se ancora na arrogância, na nossa prepotência. Se aceitarmos nossa condição humana, quer dizer, somos falíveis, – não vamos conseguir dar jeito em tudo, vamos errar e muitas vezes não temos como atender as nossas próprias expectativas sobre os nossos desempenhos e muito menos as dos outros-, seremos menos vulneráveis a culpa.

A culpa encontra brecha na auto indignação. Afinal como EU pude? Nosso Eu sempre se julga especial, esperto e detesta ficar exposto. Ele também precisa muito se sentir amado e aceito e tem pavor de ser rejeitado, por isso se esforça muito.   O acerto de contas final é de forro intimo, de eu para EU, e será mais facilmente resolvido com uma boa dose de humildade.

Uma forma saudável de elaborar a culpa é através do arrependimento.   A culpa não dignifica; não nos torna pessoas melhores, a menos que ela gere uma revisão. Como ela tem uma natureza acusativa, autoritária, em geral nos causa paralisia e negação. O arrependimento por sua vez é mais generoso: oferece perspectiva, desdobramentos e ações reparadoras.  Se eu posso ser compassivo comigo, mais facilmente serei com os outros também.

Sobre a Dona Antonia: desde que a sua pratica de reza foi liberada, foi registrado um acentuado decréscimo nos casos de ataques de tubarão, no litoral de Recife. Assim ela entende: agora não pode mais sair de casa, porque dela depende a vida de muitos banhistas.

 

 

 

roman dancing

Não somos culpados ! pelo cigano Sani Rifati – versão bilingue

 

Não somos culpados. 

“Vamos espremê-los e deixá-los  vazios e aí vamos enchê-los com o que é nosso”  George Orwell, 1984

 

Os Roma*( Ciganos*)  tem sido mal interpretados pela civilização ocidental há muito tempo. Tempo demais!

Apesar de tanta discriminação, rudeza e segregação constantes, os Roma ainda continuam existindo desde sua partida, há mais de mil anos, da terra-mãe India, na região de Punjab no noroeste do país.

Vim a Salvador, na Bahia, em janeiro de 2012, para ensinar as danças ciganas tradicionais Romanis.

Para minha surpresa, percebi que o termo usado no Brasil para designar o meu povo é sempre “cigano”.

Como sou da antiga Yugoslávia, da região  de Kosovo na Servia,  onde estamos acostumados a ser identificados sempre como Roma – romanis, nós nos recusamos a sermos chamados de Ciganos, Gitanos e congêneres.

Antes de lavar minha alma, vou lhes dizer algo e talvez possam avaliar por si mesmos se nós, os Roma somos culpados.

A civilização ocidental sempre viu nossa cultura como uma cultura pária. Consideram que não temos uma cultura verdadeira, sendo que alguns até nos vêem como sub-humanos. Não é nada fácil ser Romani; por conta de nossa diáspora, as nações e sociedades que nos hospedam, com freqüência negam nossa existência. Somos uns andarilhos, os viajantes existenciais.

Entretanto, somos também acusados de sem educação, sujos, ladrões mentirosos e por aí afora…De maneira que vamos aqui, passo a passo, desmitificando o mito, os estereótipos que ainda assombram nossa identidade romani.

Sempre somos empurrados para os limites das cidades, bem longe da sociedade convencional, enxotados para perto dos lixões ou para a periferia sem estrutura das cidades, onde o serviço público nem chega. Se não temos acesso a serviços públicos como à coleta de lixo, isto nos faz mais sujos ou culpados?

Muitos roma na moderna sociedade de hoje não conseguem nem uma certidão de nascimento no lugar onde seus filhos nasceram. O mundo moderno é obcecado por certificados, porém se as crianças ciganas não têm nem chance de conseguir tal certificado isto implica em que as mesmas não podem freqüentar uma escola, não conseguem um emprego, muito menos têm acesso a um bom plano de saúde e isto as torna culpadas por sua falta de instrução? O que lhes resta se não juntar seus trapos e seguir estrada afora e isto as torna culpadas de serem errantes? Uma vez na estrada, as autoridades policiais exigem que os pais exibam os documentos de seus filhos.   

Na cultura romani há sempre o cabeça do clan ou do grupo que representa todo o resto. Às vezes são chamados de reis ou “capo” e são responsáveis por estabelecer uma relação com a polícia e assim contar com a esperança de não serem enxotados para mais adiante, para um outro destino e isto faz com que os Ciganos tenham que mentir. Mas, isto faz de nós mentirosos e culpados?

Quando só o que estamos tentando é nos estabelecer e nutrir a esperança de ter um pedaço de terra ou uma propriedade. É pedir muito?

Não vejo a cultura romani como simples vítima; somos também sobreviventes.

Imagine não ter um país, nem um governo nem uma máquina política que defenda nossos direitos. Ainda assim os romanis existem espalhados pelo mundo todo. Imagine uma cultura que nunca foi à guerra, que não tem heróis nacionais, que não pode se   vangloriar de quanto de arte e outros ofícios  contribuiu, através da diáspora romani. A ironia maior é que sempre se referem à nossa musica como “A Rainha Cigana” ou o Rei dos Ciganos”( Gipsy King) ; na verdade, os roma nunca tiveram reis ou rainhas; este rótulo nos foi erroneamente dado pelo mundo ocidental civilizado.

Devo mencionar alguns poucos Roma, heróis verdadeiros nas artes: Charles Chaplin que  a muitos inspirou, assim como Yul Brinner,  Rita Hayworth.

O Flamenco foi inventado na Espanha por nós, como também as Czardas na Hungria. Ainda Django Reinhardt e muitos mais.

Agora, voltando ao Brasil, fui visitar com o fotógrafo Rogerio Ferrari, um homem adorável, uma mahala Roma, na Bahia.

rogerio ferrari -ciganos

Descobri que os Roma do Brasil são provavelmente o primeiro grupo que encontrei que não trouxe a música com eles. A maioria veio de Portugal ou Espanha, e  aqui chegaram com Cristovão Colombo em sua terceira viagem às Américas, por volta de 1.500.

Ainda para minha enorme surpresa, Brasil é o único país que tem o feriado dos Romanis, como já devem saber, no dia 24 de maio. Logo na minha primeira visita ao país, parecia que todos já me conheciam desde sempre, assim compartilhamos muitas histórias, música e confraternização. Senti também que há no Brasil um grande respeito e atenção à nossa cultura. Senti-me em uma grande Mahala, sem culpa!

Oven saste. Obrigado!

 

 

*Rom = ser humano, ou pessoa (sing) também significa marido na lingua Romani

Roma = pessoas (plural)

Romani= adjectivo, ex: lingua Romani, historia etc.

Gypsy – Cigano= A palavra vem do latim, “Gypsian” significa a person nascida no Egito. Em inglês refere-se a Roma como Gypsies – cigano ou existe  uma gíria  “I got gypped”  – em tradução livre – fui ciganeado – que significa que alguém o enganou, roubou.

Cigan= etimologia do grego Tsiganoi ou Atsiganoi que quer dizer “intocável”

Cigano também é um pejorativo em todos os países eslavos.

Tradução do texto feito originalmente em inglês: Helena Heloisa Wanderley 

 

 

Sani Rifati é um percussionista romani, cantor, dançarino e instrutor de danças. Tambem é presidente do Voice of Roma e Produtor de festivais e diretor artistico

 


 

 

 

 

 

 

 

 

Texto original em inglês

 

                                                                                                                                      “Not Guilty”

“We should squeeze you empty, and then we shall fill you with ourselves.”

George Orwell, 1984

 

For a long time, the Roma* (Cigan*) Gypsies*, have been misunderstood by western civilization. For a far too long time.  In spite of so much discrimination, harshness and still constant discrimination, Roma still exist since they left their motherland India over 1,000 years ago from the northwest region, Punjab.  I came to teach traditional Romani dances in Bahia, Salvador in January 2012.. To my surprise, the term “Cigan” was the term that is used always in Brazil. Coming from former Yugoslavia in the Serbia region of Kosovo, we strongly identify as Roma. We refuse to be called other names such as Gypsies, Zingari, Zigonier etc…

Before trying to cleanse my soul, let me tell you a few things and then maybe some of you will understand whether we, the Roma, are guilty.  Western civilization always saw our culture as the ‘pariah’ culture. They told us that we don’t have real culture. As a matter of fact some used to think we were subhuman. Being Roma, it’s not an easy thing, in our diaspora our host nations and societies often deny our existence. We are the wanderers, the existential travelers. Yet we are also uneducated, dirty, thieves liars etc…  So let’s go step by step and demystify the myth, the stereotypes that are still haunting our Roma identity.

We’ve been always kicked from the mainstream society to the margins of towns, near the garbage dumps or most undeveloped part of the town. Most of the roads are unpaved and the environment around has a lot of debris and garbage. The public services don’t even bother to come and clean the space. If we don’t have these services provided to us, does that still makes us dirty or guilty?

Many Roma today in modern civilized world can’t obtain their birth certificates in the place where the children are born. Modern world is obsessed with paper, but if Romani children have no chance for this paper, that means these children are not allowed to go to school, look for work or get adequate healthcare, does that makes these children guilty of being uneducated?  So what’s then left, but to pack your belongings and go on the road, does that makes us being guilty of being wanderers? Once when you’re on the road then the police authorities demand from the parents the proper documents.

In Romani culture there is always the head of the clan or group who represent the rest. Sometimes they are called kings or capo’s in order to establish some relation with the police and hope they would not be kicked in to the next destination, that’s why Roma must lie. Does that makes us liars and guilty?  When we’re just trying to settle in the hope of having land or property. Is that too much to ask. I am not seeing the Romani culture as only victims, we are also survivors.

Imagine having no country, no government, no lobbying machine to defend your rights. Yet we the Roma still exist all over the world. Imagine a culture who never went to war, don’t have national heroes, not to mentioned how much Roma diaspora contributed to the world in arts and other trades. Even another irony is they always refer to Roma music as “Gypsy Queens” or “Gypsy Kings” as a mater of fact Roma never had queens or kings, that label that was given to us by the western civilized world.
I would just mention few of real Roma heroes in arts, Charlie Chaplin inspired many people around the world as well as Yul Brenner, Rita Hayworth, Roma invented Flamenco in Spain, Czardasz in Hungary, Django Reinhardt and many more.

Now, back to Brazil, we went to visit with few Roma mahala (neighborhood) with lovely man named Rogerio Ferrari, a photographer.  To my surprise, I found out that more or less the Roma from Brazil are probably one of the first group of Roma that I encountered who didn’t bring the music with them. Most of them came from Spain and Portugal. Also some of them arrived on the third trip of Christopher Columbus around 1500. Also to my huge surprise, Brazil is the only country that has a national holiday for Roma, as you probably know May 24 .. In my first visit to Brazil it felt like people knew me forever, we shared a lot of stories, music, and togetherness. I felt a lot of respect and attention for my culture. It felt like a huge mahala so we have no reason to feel guilty.  Oven saste (obrigado)!

 

 

*Rom = human being, or person (sing) also means husband in Romani language

Roma = people (plural)

Romani= adjective, example Romani language, history etc.

Gypsy= The word is from Latin, “Gypsian” means a person from Egypt. In English that’s why they refer to Roma as the Gypsies or there is slang “I got gypped” that translates to somebody cheated you.

Cigan= etymology if from Greek Tsiganoi or Atsiganoi means “untouchable”

Also Cigan is a derogatory term throughout all Slavic countries, as well.

 

Sani Rifati is a Rom drummer (dumbek and trap drums), singer, dancer anddance instructor. Sani is also Voice of Roma’s President and Festival Producer and Artistic Director

 

 

 

mae woody

A mãe judia por Eva Lazar


Uma mãe judia ajuda o mundo a perceber que seus filhos são os mais bonitos, os mais bem sucedidos e os mais talentosos. O mundo está cheio de gente míope e limitada que não consegue perceber isto.

Este fato não é demérito para os filhos de não judeus e sim apenas uma característica histórica, social e psicológica determinada nas entrelinhas das tábuas que Moisés recebeu, portanto exógenas ao ser humano. Está no DNA dos filhos desse povo escolhido.

Uma mãe judia sempre, mas sempre, sabe melhor do que ninguém o que seu filho sente, precisa, gostaria e que o fará feliz; afinal, ele saiu de dentro dela e não será uma zinha qualquer, que ele conheceu outro dia, que poderá se arvorar a achar isto ou aquilo. E muito menos pensar que sabe cozinhar tão bem quanto ela.

Ela pode tudo: perguntar quanto ganham os amigos, esperar acordada até o filhinho de 28 anos voltar para casa às 4 da manhã, ligar para o chefe dele para reclamar do aumento de salário que ainda não foi dado; enfim, a idéia de invasão, privacidade ou espaço próprio não existe para a mãe judia.

Eu também tive uma mãe judia. Lembro dela examinando as listas de aprovados do vestibular nos jornais a cada ano e constatando a grande  proporção de judeus  entre os aprovados, principalmente nos primeiros lugares e achando mais que natural. A mesma conclusão em relação aos ganhadores do Prêmio Nobel nas mais diversas categorias, com ênfase nos campos da Literatura, Medicina e Ciência.

Meus resultados de conquistas acadêmicas, no trabalho, esportes e aparência, além da brilhante inteligência sempre foram comemorados como se fossem nada mais que o óbvio. Performance foi a palavra chave da minha adolescência e início de juventude.  Foi a que fez minha primeira terapeuta concordar imediatamente em me tratar.

E o fundamental dessas conquistas era comunicar às amigas dela, com um ar nonchalant. Sem isso, não teria a menor graça. Olhares e palavras recebidos em resposta, sempre elogiosos, eram a cereja do bolo kosher e o conceito real de felicidade de uma mãe judia.

Qual a contrapartida disso tudo, sob a perspectiva do filho? Uma obrigação que pesava toneladas para fazer frente a esse imenso poço de expectativas. Mesmo fingindo não ser importante, a vítima tinha que se matar nas provas, no esporte, no social, nas leituras e em todas as suas atividades para se destacar, senão… Não adiantava fazer de conta que o essencial na vida não passava por estas coisas. Já estava fincado em seu âmago que sem sucesso, não passaria de um loser. Uma tatuagem que não desapareceria nunca. A nota média na escola, o oitavo lugar no torneio de tênis do clube, a promoção adiada eram recebidos com um olhar gelado e um silêncio gritante, gerando uma enorme culpa.

Assim quando você vira adulto jura que nunca vai repetir esse modelo opressivo com os seus filhos, mas a armadilha é matadora. De repente, você se flagra olhando os sobrenomes nas listas de aprovados do vestibular, dos ganhadores do Prêmio Nobel, dos bem sucedidos em geral. Seu filho é o primeiro da turma a ganhar um celular e você jamais gosta das namoradas dele.

Temos muitos exemplos vivos de filhos de mães judias. Um dos mais representativos é o cineasta Woody Allen, explorando de forma bem humorada este sentimento de culpa presente nos judeus. E garantindo a saudável sobrevivência dos psicólogos.

A mãe judia judia mesmo.

 

Aqui trechos do  episódio dirigido por Woody Allen,  no filme Contos de Nova York

 

Começo do filme com  legenda em espanhol

Aqui  mãe desaparecida está  no céu e conta detalhes da sua vida para toda Nova York

 

 

Eva Maria Lazar, economista, publicitária e tradutora. Importada da Hungria no primeiro ano de vida. Viajante contumaz,  passeia no mundo interior e exterior. Entre outras coisas coleciona piadas de judeus.