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CRISTINA GUERREIRA por Luiz Alfaya

 

Cristina nasceu pobre. Negra e pobre. Até aí nada de novo em uma cidade superlativa como São Paulo. Um gigante com mais de 11 milhões de pessoas e que, apesar de abrigar a sexta maior quantidade de bilionários do planeta (Forbes/ 2011), possui cerca de 500 mil famílias vivendo abaixo da linha da pobreza. Uma desigualdade de envergonhar qualquer pai de família e provocadora de uma violência digna de conflitos militares. Cristina é fruto deste caos, nascida de uma moradora de rua e um pai desconhecido. Assim como os irmãos, ela foi arrancada das mãos da mãe em uma rua do centro da cidade e enviada para um abrigo ainda bebe.

 

Cresceu abrigada, mas não protegida. Vida dura com muitas surras e muito pouco afeto. A todo momento alguém para dizer que ela não seria nada na vida. Aos nove anos, uma esperança. Um casal de italianos disposto a passar pelo complicado processo de adoção brasileiro para dar uma nova vida à pequena. Ao mesmo tempo reencontra os irmãos e, na dúvida entre a famiglia e a família, decide por ficar. Ah, se arrependimento matasse. Enviada para outro abrigo, desta vez um de egressos da Febem, conheceu o pior do ser humano. Se até então a violência era emocional, a partir desse ponto a violência seria também física. Envolveu-se com o tráfico de drogas e com roubos, mas logo percebeu que a vida de ladrão não dura muito e resolveu parar. Agora letrada na vida, cresce a disposição de devolver para a sociedade todo o mal que ela recebeu.

 

Quis o destino colocar uma nova oportunidade na vida de Cristina: um processo seletivo para uma ONG que trabalha com Audiovisual. Sem saber o que esperar e o que fazer, ela acaba passando no processo e escolhe a oficina de iluminação, já que seu sonho era ser engenheira civil e construir a sua própria casa.

 

Um novo mundo se abre para ela. Jovens de todas as periferias da cidade dispostos a passar um ano estudando para, quem sabe, conseguir um emprego no competitivo mercado de trabalho. Machucada pela vida, sua defesa era a agressividade e o distanciamento. Aos poucos foi percebendo que o mundo não é só o que ela conhecia até então, que o afeto, sim, existe. Não foi simples nem rápido, e aquela raiva foi se transformando em interesse pela fotografia, pela poesia e até pelas pessoas. Pessoas que viram nela mais potenciais do que carências, que enxergaram na sua raiva uma vontade de mudar o mundo, e no seu sorriso, uma menina meiga.

 

Apesar do apoio, a guerra era de Cristina, que já com um pé neste novo mundo, teria agora que se livrar de tudo que ela vivera até então. No dia que completou 18 anos foi até o abrigo pegou sua coisas, agradeceu quem ajudou, desprezou quem a machucou e saiu pela porta da frente para construir sua vida.

 

Cristina trabalha como produtora escreve poesias e fotografa paisagens. E, se a vida continuar insistindo em botar ela pra baixo, a guerreira vai continuar lutando para provar para ela mesma e para todos nós, que ela é a prova viva de que cada um pode e deve ser protagonista de sua própria história.

 

 

Fotos e poemas de Cristina

“uma flor que está nascendo e me mostra muito o lance da proteção”

“Essa é uma foto que se chama Light Painting, ou seja, escrita com luz.

 

O Livro

Cada página uma história, cada história uma surpresa, cada surpresa um novo mundo.

As pessoas julgam pela capa mais mal sabem elas que ao abrir aquele livro irão simplesmente se deparar com a verdadeira USP da vida.

Psicografados por seres incomuns, escrito com o sangue de seres revoltados e revistado pelo temor e o monstruoso silencio da sociedade.

Sociedade que se faz de cega, surda e muda;

Seres que se fazem insanos e escrevem seus livros de sangue e lágrimas.

Sociedade que ao abrir o livro critica cada linha, vírgula ou ponto.

Seres que ao escrever na linha detalham cada pingo de sangue e de lágrima que é derramado.

Seres que gritam no Silêncio da noite, e sociedade que grita na noite do Silêncio .

 


Luiz Alfaya
atua há 8 anos como Gestor de Organizações do Terceiro Setor e tem mais de 15 anos de experiência em Branding, Comunicação e Marketing. Atualmente é Superintendente do Instituto Criar de Tv, Cinema e Novas Mídias, participa do Conselho Superior de Responsabilidade Social da FIESP e do Programa Synergos SeniorFellows.

 

www.institutocriar.org

www.facebook.com/InstitutoCriar

 

 

O PÓS-MORTE por Sukie Miller

 

 

O livro Depois da vida -Desvendando a jornada pós- morte é baseado numa  pesquisa extensa  realizada em diversos países e culturas distintas onde entrevistei sacerdotes , xamãs,  homens santos, líderes espirituais, sempre interessada em saber qual era a visão deles sobre o que nos acontece depois que morremos. Identifiquei quatro estágios universais na jornada pós-morte, e aqui incluo alguns trechos do livro que descrevem ou evocam estes estágios.

Estágio I : Da Espera

Descanso, conforto e uma oportunidade de abrandar o medo – são estes os tentadores benefícios que
nos aguardam no lugar de espera, logo após a morte. Só o fato de imaginar essas paragens (sejam elas de natureza física, sejam qualquer outra)  tem o poder de amenizar a  ansiedade tanto da pessoa que se encontra a beira da morte como daqueles que a entendem e presenciam sua passagem. Mas essa não é a única função desse lugar – e do ponto de vista do que viaja rumo ao pós-morte, não é sequer o mais importante.

Em todos os sistemas que apontam  a existência de LUGARES DE ESPERA , a transformação é a principal função que ali se opera. Nesse plano, a pessoa que morreu se desvencilha das roupagens da vida física – dentre as quais , naturalmente , se incluem aquelas relativas a seu corpo físico  – e começa a transformar em espírito .

Estágio II : Do Julgamento

 Não é preciso ser erudito em religião para entender que, a despeito do carater renovador e de boas-vindas de que se reveste o conceito de lugar de Espera, nem tudo no pó morte é doçura e luz. De fato até uma criança de quatro ou cinco anos, um indiano de idade semelhante, ou uma criança tibetana de três pode entender  que, uma vez findo o período de descanso na fronteira, um trabalho terá que ser efetuado.

Ao sair da crisálida do mundo físico, o viajante abandona o seu Lugar de Espera e passa para o estágio seguinte, no qual será estabelecido seu destino. qual rota ele tomará? Qual será o ponto que deverá alcançar? Quais as consequencias da vida que acaba de deixar- sofrimento ou prazer, punição ou recompensa?

O Julgamento dos Mortos, Cena do Papiro de Ani, XIX dinastia, c. 1250 a.C.

Estágio III – Das Possibilidades

A abertura em relação as possibilidades: eis a essência do Estágio III da jornada do pós morte.Essa abertura origina-se no instante do julgamento no Estágio II, e em qualquer método que for, a verdade da vida que o indivíduo levou determinará o destino do seu espírito. Em decorrência da sentença que lhe é lavrada, o espírito avançará pelas infindáveis paragens do pós-morte, seguindo o caminho que deverá perfazer em direção a sua meta.

A roda da vida tibetana e os 6 reinos da existência cíclica

Estágio IV – Do Retorno

O conceito relativo ao retorno é dotado de tanta força que mesmo o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, embora se recusem a aceitar o renascimento em bases individuais, apresentam-no sob a forma coletiva, ou ressureição de seus povos. Para os judeus, à chegada de seu Messias, os mortos renascerão. Entre os cristãos, a ressureíção de Cristo assinalará o começo de uma nova vida do filho de Deus. Para o islamismo ocorre uma “segunda morte”, quando corpo e alma se reúnem por um breve tempo, por ocasião do julgamento – nesse instante, a morte recua. No entanto, no ultimo dia, como entre os judeus, todos os corpos voltarão a vida.

É rara a cultura na qual a morte seja vista como fim derrradeiro e momento no qual o espírito humano se apaga, sem nenhuma promessa de retorno. O conceito de renascimento em grupo reflete uma certeza inabalável quanto à imortalidade da alma, e essa certeza representa uma esperança irreprimível, uma forma de se celebrar o universo que não permite a existência permanente de destruição: ao contrário, dá provas da existência da mudança, da tranformação. Admitir a possibilidade do renascimento e do retorno é dar um passo além do medo.

 

* foto banner – The Ascent into the Empyrean – Hieronymus Bosch

Dra. Sukie Miller, PhD, psicóloga, foi diretora do Instituto Esalen e membro do conselho do Instituto C.G. Jung de São Francisco. É autora de Quando uma criança morre  Depois da Vida (ambos publicados em português pela Summus Editorial). Trabalhou nas áreas de educação, comunicação e medicina. Atualmente reside em São Paulo e atende no seu consultório pacientes individuais, casais e grupos. Também  supervisiona o trabalho de outros profissionais.