Arquivo da tag: Elza Tamas. forademim

mal-estar-debret-3-c

SEGURO INSEGURO por Maria Antonia De Carli – english version

 

Momentos de desconforto geram diferentes reações nas pessoas, algumas podem se retrair, outras serão agressivas e expressarão raiva, e outras ainda se mostrarão indiferentes, fechando os olhos para o tal fato.

No mundo de hoje, no âmbito social, o terceiro tipo de comportamento tem sido frequente. Momentaneamente parece mais confortável ignorar o que nos incomoda e fingir que o conflito não existe, mas invariavelmente vamos acabar sendo confrontados com esse conteúdo de um jeito ou de outro.

mal-estar-refugiados-em-yarmouk-em-damasco

Esse terceiro tipo de comportamento tem sido usual na questão dos refugiados da atual guerra Síria. A mídia nos inunda todos os dias com imagens tão duras e chocantes de adultos e crianças lutando para salvarem suas vidas, tendo de passar por provações desumanas em busca de um futuro, que nossa resposta como cidadãos é nos anestesiarmos, enquanto assistimos praticas políticas de negação e intolerância.

mal-estar-barco-refugiados

Os imigrantes, por sua vez, passam por experiências negativas geradas por conta de preconceito e resistência a assimilação das diferenças (muitas vezes em ambas as partes). Tendemos a ser reativos ao que nos é diferente.

Um exemplo pertinente dessa reatividade é a saída da Inglaterra da União Europeia, dada por voto popular num Referendo sem nenhuma justificativa plausível para ser convocado. Não se deveria escolher virar as costas para um projeto de união politica e econômica, com princípios baseados na tolerância e cooperação, e preferir o isolamento. A principal justificativa dada por aqueles que votaram pela saída foi justamente o medo e rejeição à imigração.

mal-estar-refugiados

A reativa inglesa é apenas uma fatia do que ocorre no mundo hoje:  uma difusão de politicas de ódio e medo gerada por crises econômicas e de identidade, onde políticos mal-intencionados dentro de suas retoricas populistas apontam como culpado o extrato indefeso de suas sociedades, os imigrantes, – também chamados de “terroristas”-, ou “os que tomam nossos empregos e nosso sistema de saúde”. Na verdade o buraco é bem mais profundo. As pessoas então se tornam cada vez mais intolerantes com o diferente, endurecendo posições e promovendo revolta. Um exemplo da segunda forma de reação para o mal-estar, o da agressividade.

Vinda de um país altamente desigual como o Brasil e vivendo hoje em Londres, pude perceber que as pessoas se acostumam e se dessensibilizam com o que presenciam de forma diária. Cresci assistindo meninos de rua parando carros em sinaleiras pedindo qualquer trocado para um biscoito ou um pão. Também viramos as costas para esse tipo de realidade, fechamos os vidros, criamos condomínios com guaritas, blindamos o carro. Empurramos para a periferia o que nos causa desconforto.

O ciclo vicioso da ignorância coletiva só poderá ser encerrado através do exercício da empatia e da compaixão, quer dizer, quando tivermos a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. Talvez mudanças expressivas no social só ocorram quando a pratica desta visão pessoal mais humanista, nos leve a eleger lideres políticos que traduzam também essa perspectiva nos seus governos. Só assim estaremos todos seguros.

** imagem banner – Debret

mal-estar-maria-antonia-foto-perfilMaria Antonia De Carli é baiana, bacharel em Relações Internacionais pela FAAP-SP. Trabalhou em Sao Paulo com projetos de desenvolvimento local e urbano sustentáveis para a Fundação Clinton. Em Paris, estagiou na UNESCO no setor de cultura, e ajudou a organizar o Congresso de Hangzhou na China em 2013. É mestranda em Politica Comparativa e Internacional com especialização em politica econômica e social na Escola de Economia de Londres (LSE). Trabalha como analista de Risco Politico na AON,  em Londres.  Também se engaja em projetos para a inserção do Brasil e da América Latina no cenário politico internacional, juntamente com outros estudantes brasileiros no Reino Unido, o Brazil Forum.

 

 

 

Englisn Version  – Safe and Unsafe by Maria Antonia De Carli

 

Uncomfortable moments bring out different reactions in people; some may withdraw, others become more aggressive and express anger, meanwhile others will show indifference and will close their eyes to the specific facts.

The social sphere present in today’s world has been typified with the third type of behaviour expressing itself very frequently. Momentarily, it seems more comfortable to ignore what bothers us and pretend that the conflict does not exist, but we inevitably end up being confronted with this content in one way or another.

Indifference has been the usual behaviour with regards to the refugees fleeing the current Syrian war. The media flood us every day with plenty of shocking images of adults and children struggling for their lives, having to go through inhumane trials in search of a better future. Our answer to these scenes is simply a state of anaesthesia, while we watch political practices of denial and intolerance.

The immigrants, in turn, go through negative experiences guided by bias accounts based on prejudice and resistance to absorption of the different (often on both sides). We tend to be reactive to what is different to us.

A pertinent example of this reactivity is Brexit, where English people voted in a popular Referendum to leave the European Union. A Referendum which had no plausible justification for being called. One should not choose to turn ones back on projects that emphasis political and economic union, based on principles such as cooperation and tolerance, to rather stand with isolation. The main reason given by those who voted out was the fear and rejection of immigration.

The English reaction is only a slice of what happens in today’s world. A diffusion of policies based on hate and fear, caused by a huge economic and identity crisis, in which malicious politicians with their populist rhetorical point as guilty the helpless and fragile extracts of their society; the immigrants, – also labelled as “terrorists”. Additionally,  those “who will take our jobs or our health care systems”.

The fact is that the hole is much deeper than it seems. People are becoming more and more intolerant; with different, hardening positions and promoting revolts. This is an illustration of the second type of reaction to discomfort, the aggression.

Coming from a country with high inequality like Brazil and now living in London, I could see that people tend to get used with what they witness in their daily lives, therefore they tend to desensitize to cases of extreme impact. I grew up watching children in the streets, stopping cars at traffic lights asking for any change to buy a biscuit or a piece of bread. We also turned our backs to this kind of reality, we close our windows, we build condominiums with watchtowers, we armour our cars for protection. We pushed to the periphery what causes us discomfort.

This vicious cycle of collective ignorance can only be ended through the exercise of empathy and compassion, that is, when we will be able to put ourselves in “someone else’s shoes”. Perhaps significant changes in society will only occur when the practice of the humanistic vision will be put in place through new world leaders that will also translate this perspective in their governments. Only then we all will be safe.

 

Maria Antonia De Carli has a bachelor in International Relations from the University Armando Alvares Penteado in São Paulo. She worked with projects of local and urban sustainable development for the Clinton Foundation in partnership with the C40 in the city of São Paulo. Maria has interned for the Cultural Sector of UNESCO in Paris, and helped to organize the Congress of Hangzhou in China in 2013.  Currently she is finishing her Master in Comparative and International Politics at the London School of Economics (LSE). Together with the Master she also works as Political Risk analysts. She is engaged in projects to promote the Brazil and Latin America in the international political scenario, developed with other Brazilian students in the UK, the Brazil Forum

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

morros-e-nascentes

MORROS E NASCENTES por Elidia Novaes

 

                                                                     Para Noemi

 

Calíope foi a musa da poesia épica, da ciência em geral e da eloquência. É a mais velha e sábia das musas, por vezes considerada sua rainha. 

 

Primeiro, pensei num homem que deixava as terras planas da Holanda e se mudava para Paraty, entre morros e nascentes. Até porque, na Holanda, as únicas montanhas são as russas. Morro? Só de tédio. E o homem resistia à revolta baixa de um país idem, e atendia quando alguém o chamava de Alemão.

Depois, me veio um mendigo que preferia caminhar pela faixa amarela das ruas, buscando evitar calçadas, semáforos e sarjetas. E para ter a sensação do sem-fim.

Surgiu a imagem de um supermercado lotado no horário de fechar. E uma mulher desesperada correndo por entre as gôndolas, que a iam cercando num labirinto, impedindo a passagem de seu carrinho. E ela desabalada em direção à fileira de caixas, com as compras nas mãos, debaixo dos braços e nos dentes. À sua volta, um coro cipriota, que não teve competência para ser grego.

Aí, apareceram dois cavalos: Relevante e Pertinente, cada qual mais garboso que o outro.

Ué, foi para isso que eu chamei a musa?

Toreador, en garde!

Ela disse que nunca mais. Deu-lhe as costas e saiu andando. Ele ficou parado por uns segundos e seguiu na direção oposta com ar incrédulo. Ela se virou a tempo de ver enquanto ele se afastava. Jogou fora o número de telefone e entrou cabisbaixa na estação de metrô. Nessa hora, ele olhou para trás novamente e já não a viu mais. Nunca mais.

Palavras começadas com J: juventude, janeiro, joia, janela, Juventus, já, jusqu-à.

Uma mulher é atropelada. Ouve o som de ossos quebrando. Atravessava a 23 de Maio e caiu entre a faixa 2 e a 3, quase chegando à Tutóia. O trânsito se congestionou e todos queriam ver sua cara, reduziam, paravam, tiravam foto, filmavam. Ali da faixa 4.

Um casal onde a esposa fosse a Rose e o marido tivesse o apelido de Feijão? A Rose e o Feijão?

Nessa hora, chamei Calíope de lado e lhe disse: “Pega leve, caramba! Ideias até vêm fácil; difícil é fazê-las ficarem paradinhas com tempo para a gente jogar o laço e se apossar!! Calma, meu”.

Não adiantou. Dois homens papeavam na padaria. Um deles disse que Fulana não está com ele pelo que ele é, mas pelo que pode oferecer a ela. Aí, contou que tinha pagado a moto em 36 meses.

Em minha mente, um lanço de tainhas. Primeiro, um espia fica no alto da pedra até ver um cardume. Centenas de tainhas prateadas, rebrilhando entre o sal e a maresia. Ele acena e indica o local. Duas canoas, cada qual com uma ponta da rede. Em cada uma, um camarada rema e o outro vai soltando a rede até as duas pontas chegarem à praia. Muita gente na areia. Todos puxando a rede, arrastando o cardume para o raso. Mas as tainhas são peixes tinhosos e pulam por cima da rede para o mar. Até que é uma briga justa.

A essa altura, já eram 6h30 e os ponteiros moviam-se acelerados, Junto com a minha respiração. Quase um quarto para as sete e nada de uma história consistente.

Um sujeito recebe um tiro no olho. A bala se aloja no cérebro e ele fica cego. A última imagem que guarda é a do atirador e o oco no cano da arma.

Do nada, um personagem chamado Elisabeth.

Calíope, você está de sacanagem comigo. Hablas francês? Slow down, cacete!

Um homem toma um bimotor com o caixão da mulher. O avião cai, ele morre e só restos do caixão são encontrados.

Mais dois personagens?! Robocóptero e Breikiven??

Palavras em pares talvez sejam mais fáceis de adestrar: erotismo sintético, travessa gulosa, locomotiva triangular. Não… suponho que não.

Italianos apaixonados por pudim de leite condensado.

A essa altura, minha mão escorregava de suor.  Espera um pouco! Eu anotava tudo em folhas de papel, no rótulo de uma caixa de fósforos, na palma da mão, guardanapos, na parede. Oh, caneta, isso é hora de falhar?!

Doeram. E lá ia ele de novo. Tinha abandonado as bolas de gude e o estilingue, e agora trazia uma torta que fazia sua mão parecer redonda e cremosa. Vinha erguida e apontando para ela, que achou melhor dar no pé, embora isso não estivesse coreografado. E ele atrás dela pelo picadeiro. Ela sentia um líquido quente escorrendo do supercílio. Até então, pensava que só boxeadores tinham supercílio, mas ainda podia ser suor… ou sangue. Melhor não ficar ali para descobrir, muito menos para conhecer o recheio da tal torta. Ela abanava os braços, pedindo socorro, enquanto subia a arquibancada. As crianças gritavam, mas não dava tempo de descobrir se de pavor ou riso. Seu figurino já se enganchava nas pernas e a maquiagem tinha se tornado um borrão, a peruca caía por cima de uma orelha e ela só tinha por defesa um girassol de lapela que espirrava água.

E pensei num homem que deixava as terras planas da Holanda.

                                   

 foto banner: David Hockney – Dwintertunnel

 

ELIDIA NOVAES

Escrevo, reviso, traduzo, às vezes ensino. Já geografei, já comuniquei, já pesquisei, já bailei, já florete-ei. Sou filha, tia, irmã e cunhada. E amiga, bem amiga. Adoro escrever, mas ainda não sou escritora. Talvez seja dramaturga, isso também está sub judice. Viajo menos do que mereço ou gostaria. Trabalho mais do que mereço, embora goste. E rio, sempre que possível; às vezes mesmo sem essa condição.
http://nocaminhoparaca.blogspot.com/
http://viagensdaelidia.blogspot.com/